sábado, 26 de abril de 2014

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe", Entrevista a Abílio Bragança Neto, STPtv

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe". Entrevista a Abílio Bragança Neto no canal STPtv, disponível em http://www.youtube.com/user/Canalstptv. Uma conversa cordial numa tarde bem passada sobre temas que me são muito queridos: o turismo; o ambiente; a educação ambiental; as pessoas; o desenvolvimento  E ainda o Manual de Educação Ambiental em preparação MARAPA e ASPEA, um projecto financiado pelo GEF sob coordenação do PAPAFPA
Visualizar em Entrevista à STPtv

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O sorriso que revela a vontade de eclipsar

Quanto mais o tempo passa maior força ganham as memórias. O sol, sobretudo na hora do nascer e do ocaso; as cores, a densidade do verde, a imensidão do azul, o contraste das tonalidades que reforçam a dimensão das paisagens; os cheiros, a intensidade do odor da terra húmida mesclada com o da fruta madura e o das flores a desabrochar. E as pessoas, sempre próximas, sorridentes, simples, receptivas, disponíveis, sem exigências ou cobranças, tão perto da imagem da felicidade livre e desapegada. Sempre sonhei com este cenário composto por diferentes elementos que se conjugam numa harmonia equilibrada a tocar a perfeição.

Nas alturas mais desgastantes e sempre que sinto necessidade de me eclipsar e me tornar invisível - o que, reconheço, acontece de vez em quando, nem que seja por um milésimo de segundo - revisito os momentos que ficaram registados no back up da minha memória virtual e recupero a sucessão dos episódios mais felizes, ou dos que não sendo completamente felizes se revelaram divertidos e me fazem sorrir. E, sem ter consciência da figura que faço nestas ocasiões, com alguma frequência sou despertada por uma interpelação surpreendida, habitualmente em tom de desagrado, que me obriga a perceber que afinal não me tornei invisível... Alguém que naquela altura está perto de mim, observa a minha estratégia de fuga e simplesmente não compreende o meu comportamento e demonstra-o como se isso alterasse o que sinto e o que mais me apetece fazer. Percebo que durante a fracção de segundos em que me refugiei nas lembranças recuperadas pelas fotografias virtuais da minha memória, mantive no rosto uma expressão difícil de explicar, muito mais difícil quando o sorriso espelhado passa a breves e esporádicos risos, mesmo não chegando à gargalhada. Além deste sorriso projectado para o vazio da realidade presente e que quase todos qualificam como "estranho" e "vago"... o olhar distancia-se como se o meu inconsciente quisesse viajar e a velocidade da luz fosse o melhor meio de transporte. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

O bem-estar é essencial nas viagens e na vida...

Apesar de que, em cada viagem às ilhas, conseguia reconhecer as sensações que sentia e a paz que a envolvia após o regresso, depois de respirar bem fundo de olhos fechados para melhor reter aquele ar denso, pesado, aromatizado pelos mais diversos odores, cada estadia resumia-se numa experiência diferente de todas as anteriores. Em cada viagem criavam-se situações únicas e irrepetíveis vividas com intensidade. Talvez por isso fosse sempre tão bom regressar. Cada um dos minutos ali passados representava a esperança de viver momentos felizes sem que contudo houvesse a expectativa de recuperar ou reviver os anteriores. Os contextos eram diferentes e, em grande medida, as pessoas que marcavam cada estadia também, pelo que nada era susceptível de repetição. Apesar de tudo, a consciência da impossibilidade de reviver in loco o passado era reconfortante e muito tranquilizadora. E assim ia acontecendo, os momentos felizes sucediam-se, revestindo formas diferenciadas, sem se repetirem. Aquele era definitivamente o seu lugar, onde se sentia confortável e acreditava pertencer ou imaginava que poderia ali teria pertencido um dia. E, efectivamente, pertencera. Tudo lhe era familiar, tudo a fazia sentir bem, e o bem-estar é essencial tanto nas viagens como na vida...

Na viagem de regresso a Lisboa, 04/04/2014

domingo, 20 de abril de 2014

Ilhas que inebriam

São Tomé e o Príncipe são ilhas perigosas por terem mistério. São terras encantadas que cegam e inebriam, desenhadas pelo contraste das cores, adocicadas pela intensidade dos cheiros e moldadas pelos afectos, pelas emoções e sensações que as vivências nos permitem experienciar, recriar e reinventar. Tudo se vive intensamente por aqui e, apesar do leve-leve que paira no ar e que todos parecem respirar e transpirar, o que vai dentro de cada um só o próprio pode dizer. Toda a situação vivida se transforma rápida e abruptamente num turbilhão acelerado e descompassado desembocando em caminhos tão diversos que podem traduzir estradas direitas, trilhos em espiral ou picadas repletas de obstáculos. É a vida de quem visita as ilhas... Chegando aqui, os mais contidos transformam-se, os introvertidos e tímidos extravasam emoções e os mais extrovertidos ganham mais e mais vida. Todos - ou quase todos - passam a viver com outro ritmo mais enquadrado, mais sentido, mais simples. Mais dia menos dia, o leve-leve acaba por se  instalar e invade-nos mobilizando-nos e dando lugar à descontração e à alegria. Tudo o que não é essencial passa a ser automaticamente relativizado e desvalorizado. O essencial ganha terreno e o centro do nosso olhar são as pessoas, os espaços, a natureza. Invariavelmente sentimos-nos mais introspectivos e contemplativos. Os dias assumem o ritmo dos encontros e os horários são orientados pelo tempo de vida que ganhámos a conversar, a rir, a conviver, a experienciar, a ser...

São Tomé, 2 de Abril de 2014

Conversas cruzadas... ligadas???

Caminhar na rua e ouvir conversas alheias é uma actividade que distrai. Bem sei que pouco, ou mesmo nada, tenho a ver com a vida dos outros mas, em boa verdade, se os visados quisessem manter segredo não falavam de forma a que as outras pessoas, como é o meu caso, ouvissem. Enquanto caminhava apressada pela rua por estar atrasada para uma reunião acabei por pensar no quanto é estranho o mundo social dos afectos. Por mais que se confie em alguém para um desabafo há sempre forma de outros saberem os meandros da vida. Todos acabam por comentar os desassossegos de uns e de outros com um tom crítico como se estivessem imunes a situações semelhantes. Nunca se está verdadeiramente resguardado - pensei - a não ser que nos fechemos numa concha e não partilhemos com ninguém o que sentimos em determinado momento. Mas o mais engraçado é que, por vezes, é possível ligar conversas e cruzá-las. No meu caminho encontrei um primeiro grupo sentado numa esplanada que conversava sobre a vida de um qualquer rapaz ausente da mesa:
- Ele era mesmo muito inseguro na relação, desconfiava de tudo e muitas vezes sem motivo - dizia um dos três com ar entendido.
Continuei a descer a rua e chegando ao Marquês de Pombal passei por uma paragem de autocarro onde estavam duas raparigas também em íntima conversa:
- Não estás bem a ver as cenas que ele me fazia. Ciumento até mais não. Despachei-o.
Dei comigo a pensar: mas será coincidência temática ou o grupo sentado na esplanada e estas duas raparigas da paragem de autocarro falam da mesma pessoa? Jamais conseguirei descortinar o fundo das duas histórias e muito menos se têm ligação mas depois de ter escutado não pude deixar de as relacionar. As inseguranças fazem parte da vida afectiva e só não as sentem quem não se sente verdadeiramente ligado.


sábado, 19 de abril de 2014

Protegida...



Há muito que não sentia a segurança de dormir debaixo de uma rede mosquiteira como se estivesse protegida de tudo e de mais alguma coisa. Ali, rodeada pela rede branca bem esticada, reina o bem-estar, uma tranquilidade infinita, a paz procurada há muito. Sem esforço o sono chega para acalmar o cansaço e as emoções do dia.

São Tomé, 29/03/2014

A alegria do regresso

Uma e outra vez, a chegada às ilhas é marcada por infinitas expectativas e descompasso no coração. Aqui há calor. Não apenas térmico, afinal estamos na latitude zero e o Equador faz-se notar, mas sobretudo o calor humano das pessoas simples, quentes, de sorrisos afáveis e disponíveis, de olhares directos e francos. Pessoas que me fazem sentir bem, como se estivesse em casa, pelo envolvimento de proximidade com o que me parece ser a essência da vida. Foi sempre esta a sensação e hoje percebo que, apesar de a sentir no mais íntimo de mim mesma, nem sempre a consegui traduzir por palavras de forma clara.
A viagem foi dura, difícil, com prolongadas e cansativas esperas. Pensando bem as últimas viagens têm mesmo sido assim como se houvesse alguma coisa que me estivesse a pôr à prova e uma voz sussurrasse baixinho ao meu ouvido - "vamos a ver até onde resistes". Eu, que sou torcida, vou resistindo porque sei que vale a pena. Passadas as turbulências, as filas e os momentos em que fomos deixados em modo de pausa sem descanso, a chegada à cidade foi semelhante a tantas outras: a tranquilidade interior regressou e desceu sobre mim transmitindo-me paz. Nâo sei exactamente o que é que os meus companheiros de viagem sentiram ao chegar, não aprofundámos o tema. Mas para mim, a sensação repete-se. Uma enorme vontade de fechar os olhos e calmamente respirar fundo para me ir apercebendo de todas as sensações: a humidade e o calor; os cheiros; o movimento da cidade que, depois de despertar, ganha forma; as cores; os sons... E, de repente, é como se tivesse feito um "shut down" do modo anterior, passando a uma fase muito mais sensorial que vai permanecer junto de mim por mais uns dias, tantos quantos os da estadia com desconto de mais ou menos um mês após o regresso. Nas ilhas tudo parece mais fácil, tudo, ou quase, se articula com ligeireza.
O primeiro dia vai passando e é bom rever caras conhecidas, olhares surpresos com sorrisos abertos acompanhados de abraços sentidos. A alegria do reencontro manifesta-se na expressão facial, no olhar e nos movimentos corporais. Aqui as pessoas riem na totalidade. É bom perceber que se lembram de nós e que se sentem felizes por nos rever, passe o tempo que passar...

Após a chegada a São Tomé, final do 1º dia. 28 Março 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O que dizem os teus olhos...

Há pouca coisa tão fascinante quanto olhar nos olhos de alguém. Para lá da cor, que pode ser mais ou menos bonita, do formato e do brilho, todos os olhos têm expressão: falam; riem; choram. Os olhos transmitem sensações, emoções, sentimentos e dizem-nos o que vai na alma de alguém, são pouco enganadores, basta querermos compreender o que significa a expressão de cada olhar. Há olhares tristes, perdidos, sentidos, ressentidos. Olhares magoados, afogados, desesperados. Olhares cansados, conformados. Olhares zangados, amuados, destroçados. Olhares ternos, delicados, quentes, envolventes, insistentes. Olhares confiáveis, calorosos, acolhedores. Olhares tranquilos, felizes, apaziguados, esperançados. Olhos que riem e que choram, que gritam e lamuriam. Olhos que pedem e suplicam. Olhos profundos, atentos, confiantes e que inspiram. Olhos ausentes, distraídos, desconfiados, duvidosos. Todos os olhos transmitem vida porque estão carregados de emoção. Todos os olhos reflectem o que se sente através da expressão do olhar. 

São Tomé e Príncipe, antes do regresso. Abril 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nada se repete. Tudo se revive...

Desde a primeira viagem até hoje posso até enumerar o que mudou nas ilhas. E não foi pouco... Lembro-me, como se fosse hoje, de estar sentada no Passante a escrever, tal como em tantos outros momentos. Dessa vez, e na falta de um caderno ou de um bloco - ainda não tinha assumido conscientemente a necessidade de escrevinhar sobre quase tudo - registava num guardanapo de papel as minhas primeiras impressões. Rapidamente adquiri o gosto de observar e anotar como se precisasse de registar para jamais esquecer. No rádio atrás de mim soava uma música ritmada e de batida intensa, de letra envolvente, quente, até explícita no significado. Já não a consigo identificar mas recordo a sensualidade dos sons e das palavras que apelavam aos sentidos. Num primeiro final de tarde a sonoridade enquadrada pela tranquilidade do mar à minha frente fez-me pensar que aquela ilha poderia vir a ser um local especial para mim. Não me enganei... passou a ser o meu lugar, o meu refúgio, o meu espaço onde me sinto verdadeiramente eu. Como sempre faço comecei a observar as pessoas que iam aparecendo e que, em média, ficavam por períodos de meias horas. Nos dias seguintes fui vendo as mesmas caras regressar uma e outra vez em diferentes alturas do dia e sempre que também por lá permanecia. Coincidência - pensei eu - de novo os mesmos. Mas na vida não há coincidências. Aquelas caras que fui reconhecendo transformaram-se em pessoas que marcaram as minhas primeiras viagens ao arquipélago mas que, de uma forma geral, o destino acabou por afastar. Foram pessoas importantes, que hoje recordo com um sorriso, porque cada uma à sua maneira me ajudou a viver momentos felizes. Cada uma contribuiu para a pessoa que hoje sou. A algumas perdi o rasto, de outras vou sabendo de quando em vez e de outras fiquei amiga para a vida. Hoje, ao regressar, depois de tantas voltas, e passando pelos mesmos locais, relembro os melhores momentos que por ali vivi, faço por embaciar os menos felizes porque entendo que na vida devemos guardar o melhor e, de novo, acomodo-me confortavelmente para escrever mais páginas sobre experiências e vivências em São Tomé e Príncipe onde nada se repete mas tudo se revive.


Depois de um almoço ligeiro no Passante, ao chegar ao Ilhéu. Abril 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

No Príncipe...

No Príncipe a vida muda e transforma-nos. A primeira imagem é a do deslumbramento. Tudo é denso e intenso: a paisagem florestal; as praias de baías recortadas; a pequenez da cidade acolhendo-nos com um sorriso de boas vindas; os olhares curiosos das pessoas; e o reconforto  da disponibilidade. Mas também, e sobretudo, as experiência e as vivências que são apenas possíveis num lugar que está longe de tudo e de todos, rodeado por mar. Ali sentimos a noção do isolamento que nos protege do ritmo desenfreado e alucinante de todos os dias mas que nos coloca frente a frente com uma aventura de risco controlado. No Príncipe tudo é possível. Uma ilha tão magnificente quanto distante, tão pequena quanto inacessível, tão contrastante... obrigando-nos a olhar em volta, uma e outra vez, e ver o que está para lá das evidências mesmo antes de pensar. Ali é difícil avaliar porque os sentidos estão despertos para a vida e emocionam-se com tudo, por tudo. Viver em tempo útil não é compatível com estar "fechado para balanço". O Príncipe é um pequeno doce que será gourmet. É a fantasia dos sonhadores, a realização dos apaixonados, o deslumbramento dos sentidos, o encantamento da alma. Se São Tomé é a "ilha enfeitiçada" porque nos prende e não nos deixa partir completamente, o Príncipe é a "ilha encantada" que nos deslumbra, enternece e convida a regressar. Para mim, a combinação das duas resulta na união perfeita...

Na partida do Príncipe, Abril 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Há pessoas...

Há pessoas que transmitem bondade através do olhar, da expressão do rosto, do sorriso e de um gesto que, por mais insignificante que possa parecer, ganha valor pela simplicidade da demonstração tocando-nos o coração. Há pessoas apaixonadas pela vida, que a absorvem como se houvesse o risco de se esgotar a curto prazo. Há pessoas que transmitem consistência e segurança quando circulam pela nossa proximidade porque tudo o que fazem, seja o que for, transborda de solidez, certeza e determinação. Há pessoas que aparentam passar pela vida de forma ligeira por não se fixarem no que têm pela frente e que apenas transmitem fluidez. Há pessoas que olham para os outros de forma displicente e desvalorizada por os considerarem seres menores e insignificantes. Há pessoas que não sentem, não se emocionam e não vibram porque a vida pouco lhes diz. Há pessoas formatadas a um modelo e, por mais que se esforcem, o resultado não ultrapassa a mediocridade... Pessoas que servem de exemplo e que inspiram diferentes sentimentos. Pessoas que me inspiram... Pessoas...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

domingo, 13 de abril de 2014

Conversas tardias misturadas com sorrisos e muito riso


Conversas tardias em noite apaziguada. E ali estávamos, cinco dos muitos mais que já fomos. Os contextos da vida não permitiram reunir os restantes e as razões foram diversas. O tema que centrou mais a nossa atenção foi o de sempre, o preferido de todos os presentes: as viagens e pelo meio as aventuras, as experiências, as vivências e as lembranças. O riso dominou a noite, o que foi reconfortante quando o desassossego do regresso é tantas vezes marcado pelas reticências de um texto não escrito. E ali ficámos durante muitos e muitos minutos que se completaram em horas adocicadas por fotografias divertidas que relatavam momentos de ansiedade e, em alguns casos, de angústia mas que à distância se revelaram infinitamente divertidos. Bons momentos estes!

Viver é bom... eu gosto - parte 2

Viver é um desafio permanente e usufruir plenamente da vida implica sabedoria, coragem, determinação e alegria. Sabedoria para fazer as escolhas certas nos momentos em que decidir é crucial. Coragem para assumir riscos. Determinação para não vacilar perante os obstáculos. Alegria para relativizar as injustiças e as dificuldades com a capacidade de sorrir sempre. Viver é uma tarefa difícil e desafiante mas muito saborosa.

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sábado, 12 de abril de 2014

Escrevinhar...

Desde que, com alguma consciência, me lembro de mim mesma há um caderno e uma caneta que me acompanham para todo o lado. Um caderno que pode ter a forma de bloco, agenda ou folhas soltas e desordenadas - um espaço vazio que aguarda pelo traço por vezes irregular da minha mão, onde posso registar com total liberdade o que vejo, o que penso, o que sinto ou o que simplesmente me apetece dizer ao Mundo em determinado momento. Um espaço em branco que me serve de companhia e me permite voar para outros contextos, outros mundos e assumir outras personagens que tranquilamente misturam ficção com realidade. A caneta não é importante - desde que escreva pouco me importa a cor.
Escrevo muito. Há muito. E desenho rabiscos nos intervalos para me apaziguar. Muito do que escrevo não divulgo porque há uma esfera de intimidade privada que jamais é relatada por não ter qualquer interesse para quem lê e não viveu as situações, não partilhou os momentos, simplesmente não esteve lá. Muito do que escrevo em determinado momento, ao ser lido e relido soa a mensagem desconexa, logo não pode sair da folha rabiscada e tantas vezes reescrita.
São muitos os cadernos e bloquinhos que guardo religiosamente como se fossem um apêndice de mim mesma. E se calhar são porque, em parte, evidenciam o que me vai na alma, as ideias que surgem, as que fogem a correr e as que vão permanecendo. Por cá andam protegidos e resguardados dos olhares alheios que certamente não compreenderiam muito do que ficou registado. Só eu sei o significado de cada texto identificado com uma data e um local e de cada caderno que acumula palavras e desenhos. Mas nesta altura até eu fico perplexa: escrevo num bloco e num caderno em simultâneo, o que, tenho de admitir, traduz algum caos na organização da minha escrita...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

A retoma


E, pouco a pouco, a vida retoma a normalidade, ou o que é suposto ser. Não sei bem o que deve ser o padrão da normalidade e também não estou com pressa de o reencontrar. Há tempo, parece-me. E devagar, devagarinho, vou seguindo o meu caminho contra muitos olhares que não compreendem estes meus estados de alma, nem os meus gostos, nem as minhas vontades. Sempre que de lá regresso o desencontro de ideias e de vontades é o mesmo. Na verdade há quem nunca tenha entendido o porquê. E provavelmente há quem jamais aceitará. Eu sei...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cenários

Cenários, cenários e mais cenários... criam-se cenários por tudo e por nada. Tudo seria mais fácil, mais simples até, se cada um não criasse um cenário diferente. Um cenário não passa disso mesmo, uma representação que, em boa verdade, não retrata a realidade, apenas a recria. Por isso é um cenário!

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Deixa-me contar-te um segredo

E no meio da conversa acabou por me confidenciar:
- Deixa-me contar-te um segredo: aqui a vida passa por nós sem pedir licença. Resta-nos cumprimentá-la e, por vezes, agarrá-la com um abraço.
- O que sinto quando aqui chego é uma transformação interior que apenas se percebe pelo sorriso permanente - respondi - aqui sinto-me feliz, compensada e descansada. Tem sido sempre assim, dia após dia, semana após semana, mês após mês... ano após ano... apesar de, por vezes, continuar a ter sensação de que continuo ligada a experiências passadas - reforcei - é até estranho...
- Fixares-te em vivências que um dia tiveste é um erro, tanto aqui como noutro lugar. Tens de viver em função do que serás e não deteres-te no que foste - respondeu num tom sábio e um pouco paternalista.
- Mas não acreditas que o que somos é o reflexo do passado, das experiências, dos momentos felizes e também de tudo que nos derrotou. Eu acredito nisso... E daí talvez nem sempre seja fácil regressar onde se foi feliz. O espaço fica marcado por lembranças... como se quem connosco partilhou momentos nunca tivesse partido completamente - repliquei.
Ele calou-se e, fixando o olhar num ponto que eu não consegui identificar, respondeu-me de forma directa e simples:
- Já pensaste que a melhor forma de regressares a um qualquer local que te marcou sem te prenderes excessivamente nas imagens que criaste ou nos momentos que viveste, tenham sido felizes ou não, é seguires o olhar dos outros e tentares perceber o que pensam e o que sentem. A vida continua para além de nós mesmos e do que registámos em determinado momento. Tenta ver através dos olhos dos outros. Os teus vão certamente enganar-te porque te levarão de novo ao passado.

São Tomé e Príncipe, Março 2014

O Mistério das Ilhas


Para mim, as ilhas combinam mistério com encanto. Gosto de ilhas - já o disse vezes sem conta. Sinto-me confortável quando as visito e enquanto por lá permaneço, fazem-me bem porque me transmitem tranquilidade o que faz com que me sinta em paz comigo mesma e com os outros. Depois do regresso, e por uns tempos, continuo a sentir a leve sensação de estar a flutuar, o que é indescritível porque magnífico. Mas há ilhas e ilhas e estas, que permanecem no meu coração, têm feitiço. São ilhas encantadas que, pelo deslumbramento, mudaram a minha vida para sempre obrigando-me a regressar uma e outra vez. São tantas as vezes que regresso que sinto que nem sequer cheguei a partir. A partida nunca é definitiva nem se faz completamente. Há algo que fica, que permanece e não me deixa seguir viagem para tudo o que se segue. Há sempre uma parte de mim que resiste e ao partir fica uma inevitável incompletude. São ilhas que tocam, prendem, agarram, abraçam... São ilhas quentes e envolventes. São ilhas ternas, humanas... São terras de sonhos onde acreditamos que tudo - ou quase - é possível. São ilhas que me fazem feliz...

São Tomé e Príncipe, Março 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Descompasso


Uma e outra vez, o regresso é estranhamente marcado pelo descompasso, pelo desritmo e requer uma rápida descomplicação. Parece um paradoxo que a vida retome à velocidade da luz sem dar tempo para incorporar as mudanças. Acordo aos pulos e aos trambolhões como se tivesse um comboio atrás de mim a empurrar-me para a frente, obrigando-me a saltar para o lado, fugindo e evitando o atropelo. E o que aligeira a sensação é ainda usufruir do leve leve que teimo em tornar permanente com o retorno no pensamento...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

Abre os olhos porque alguém te pode estar a observar... ;-)

Observar os outros é uma actividade absolutamente inspiradora sobretudo quando o alvo do nosso olhar atento não se apercebe que, pelos motivos mais diversos, passou a ser do nosso interesse estimulando-nos a criatividade. Aos meus olhos quase não há limites para a observação e para a criatividade - e a excepção é a privacidade alheia.

Há tempos fui buscar alguém ao representante oficial de uma marca de automóveis e enquanto aguardava pela sua chegada deparei-me com um cenário magnífico para observação. Magnífico não por ser bonito mas, em boa verdade, por ser hilariante. O representante automóvel era alemão, supostamente marcado pelo rigor, exigência e trabalho árduo. Estacionei o carro pensando caminhar à beira-rio e tirar fotografias a gaivotas e patos marinhos que por ali abundam mas a maré estava vaza e o enquadramento ribeirinho não era famoso. Antes pelo contrário, até era desolador e mal cheirento porque o lodo emergiu com a falta de água e o único motivo interessante eram as gaivotas e andorinhas marinhas a bicar o lodo em busca de moluscos. Então centrei-me no cenário à minha frente: a zona da lavagem automóvel. Aparentemente não seria nada de mais mas avisto dois homens, um português e outro de leste, que limpam à vez o tablier de uma van. Ambos de luvas, conversam e riem muito mais do que limpam e, talvez por isso, tenham de entrar e sair da carrinha à vez. Há comportamentos absolutamente misteriosos e daí serem tão interessantes. Mas muito mais aliciante é um africano, certamente proveniente da Guiné-Bissau, não apenas pela fisionomia mas também por se chamar Baldé. O Baldé passou a ser meu por alguns momentos porque captou toda a minha atenção e é absolutamente fascinante. O homem só limpa filtros de ar condicionado e a forma como o faz é surpreendente. Passo a explicar: não há jacto de ar nem pano, apenas o filtro e um sapato, pelo que ele bate com as placas no longuíssimo pé calçado com uns ténis pretos. À medida que bate com a placa no pé olha à sua volta pelo canto do olho como se houvesse muito mais para observar mas não se apercebe sequer de que eu estou ali e a observá-lo. Depois estica-se e dá uns dez passos com uma das placas que havia encostado à parede. O ar que aparenta é um misto de cansaço com dedicação. Ele sabe o que faz e demonstra preocupação com a eficácia do resultado. Como é zeloso nem vale a pena atribuirem-lhe outras incumbências de forma a que a sua prestimosa atenção não seja desviada. De repente percebo que, enquanto escrevo, o meu Baldé desapareceu do meu campo de visão mas uma certeza eu tenho: ele volta já que deixou aguns filtros encostados à parede sem os ter limpo com as acertivas batidelas no pé. E eu... bem eu fiz um intervalo para fotografar gaivotas a bicar o lodo porque acredito que quando o encantamento da paisagem abrandar ele estará de volta para concluir a tarefa que assumiu na perfeição...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Just live....

A dada altura, a minha consciência crítica disse-me: 
- "Viver a vida" é fazer coisas que nos tornam felizes e a felicidade transforma-nos em pessoas melhores. Por isso não desistas de um sonho se acreditas que ao realizá-lo vais ser feliz.
E ao regressar dei comigo a pensar que, por vezes e em boa verdade, as consciências críticas são de uma sabedoria extrema...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Viver é bom, eu gosto... parte 1

Viver é bom, eu gosto. Mas apesar de gostar tenho de reconhecer que, de tempos a tempos - com muito maior frequência do que gostaria ou desejaria - a minha estrela da vida tem-me posto à prova. Ainda não percebi porquê, ou para quê. Acredito, ou tenho acreditado, que seja uma forma de crescer e me tornar numa pessoa melhor. Mas ainda não percebi bem se esta é a verdade, ou a principal razão, porque há tanta gente que passa por tanto e nem por isso aprende ou se torna melhor. Seja como for, ou tiver de ser, ainda acredito que cada tropeção me faz aprender qualquer coisa. Já dei os meus, é verdade. Diria até que alguns foram excessivos ou evitáveis e talvez por isso hoje seja como sou. Os anos têm passado de forma rápida, parece-me que nem sei por alguns passarem mas na verdade, ao olhar para trás, percebo que me fui modificando e cada ano tem resultado num processo de aprendizagem. Ou melhor, de tropeções com algumas queda. Mas tenho a consciência que me tenho conseguido levantar mesmo que, por vezes, esse exercício tenha requerido algum esforço.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz 2014... :-)

Quem diria, hein? Estamos a finalizar mais um ano. Difícil, este... E ao tentar um balanço do que fiz, do que fui ao longo dos últimos 365 dias, percebo que não estou com vontade. Nem de fazer balanços nem tão pouco de elaborar listas de intenções. Para quê?, pergunto-me. Mas depois de muito olhar para o teclado do computador com algum desalento e para a caneta que tranquilamente está pousada mesmo ao meu lado, percebo que quase tudo nesta vida (porque sobre as outras nada sei) representa um desafio, ou mais do que um. E este é também um momento desafiante que me obriga a novas leituras sobre os outros, a repensar a forma como com eles me relaciono, a valorização que faço de algumas coisas, o meu introsamento com os espaços... E dou comigo a fazer resistência à minha própria inércia. Vamos a isto, portanto! Não ao balanço que seria muito moroso e é uma tarefa introspectiva. Mas pensaria em alguns propósitos inevitáveis, se bem que não estejam ainda pensados com uma ordem particular:
a) gerir o tempo de tal forma que me permita encontrar e reencontrar todos aqueles que comigo querem estar;
b) redefinir prioridades procurando a essência;
c) procurar modelos de flexibilização nas relações interpessoais;
d) ter maior receptividade para as opções alheias, mesmo que não me pareçam as mais certas;
e) olhar para o futuro com expectativa e sem receios;
f) ter maior vontade para arriscar;
g) deixar o passado onde ficou;
h) esquecer o orgulho excessivo;
i) aceitar o que a vida tem para me oferecer...
Feliz 2014!!!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Um Homem exemplar "just passed away"


Um Homem exemplar "just passed away". Exemplar por ter ultrapassado mágoas e negado rancores depois de ter vivido em condições subhumanas marcadas por injustiças. Tornou-se o símbolo de tantos outros que viveram sofrimentos incalculáveis sem a sua capacidade de acreditar e resistir. Teve a força de ver mais longe, de ir mais além, de ter deixado uma marca pela sua forma de vida. Foi um unificador e reconciliador mas sobretudo, para mim, ele foi um exemplo de persistência fazendo-nos acreditar que vale sempre a pena lutar por um sonho. Definitivamente, desistir não fez parte do vocabulário deste Homem e também por isso foi um Homem Grande e será sempre uma referência. Assim sim, vale a pena viver!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Queria só dizer-te...

Ah pois hoje é o teu dia. Farias 79 anos se andasses por aqui. Na verdade, para mim - para nós - continuas a andar porque estás sempre presente. Só que de outra forma. Queria dizer-te, apesar de o saberes bem, que me fazes falta e que tenho saudades tuas. Terei sempre...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Isto há coisas...

O que fazer quando percebemos que as pessoas em quem acreditámos durante o tempo de uma vida não são o que pensámos? Quando realizamos que os valores e os princípios que sempre nos fizeram acreditar que orientavam o seu viver afinal estão a anos-luz do nosso quotidiano...? E depois ainda tentam passar por pessoas grandes, sérias, justas e iluminadas e nos tentam fazer crer que a distância anos-luz é apenas uma questão de pormenor. Torna-se impossível re-olhar para aquelas pessoas da mesma forma porque entre nós passou a existir um fosso marcado pelo desencantamento e pela desilusão que esvazia de conteúdo tudo o que continuamente nos forçámos a acreditar. E de repente, parece que 2+2 deixou de ser igual a 4... No final da história dá-me a sensação que o autocolante de otária que mantive na testa durante décadas vai permanecer para sempre. Apesar de pensar cá para comigo que a estranheza aterrou ao pé de mim, tento fazer o meu melhor sorriso e fingir que nada sei...

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Reflexão tardia

E se a tua intuição te diz que te estão a "meter o pé"... respira fundo, pensa antes de agires e com o melhor sorriso que conseguires fazer capacita-te que és muito melhor do que esses trapaceiros que te rodeiam... e sobretudo que melhores dias virão porque há mais marés do que marinheiros!!!!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O tempo...

Há semanas que voam... os minutos eclipsam-se, as horas fluem e os dias desaparecem sem nos darmos sequer conta do que é que fizemos, ou não conseguimos fazer... E depois... ah pois é... depois há semanas como esta em que o tempo parece não querer passar... os dias estendem-se, as horas rendem, os minutos alongam-se e os segundos demoram uma eternidade a passar... e a próxima semana parece que nunca mais chega... bfffff... 
O tempo é mesmo marcado com compassos emotivos, emocionais...

terça-feira, 12 de março de 2013

TURISMO RESPONSÁVEL EM RESERVAS DA BIOSFERA

Estou a realizar um estudo sobre TURISMO RESPONSÁVEL EM RESERVAS DA BIOSFERA e gostaria de contar com a sua colaboração com a resposta a um breve questionário, de resposta simples e que não requer mais do que 5 minutos do seu tempo. 

A participação é totalmente anónima não sendo possível identificar o respondente. As respostas serão apenas utilizadas para fins científicos, requerendo um tratamento e análise de conjunto. Os resultados do Estudo serão tornados públicos no final de 2013.

Agradeço desde já a disponibilidade e colaboração,

Brígida Rocha Brito
Ph.D
Professora Universitária
Investigadora
Start Survey Start Survey Start Survey

http://surveys.questionpro.com/a/TakeSurvey?id=3442000

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Adeus 2012... Olá 2013!!!

Adeus 2012. Foste um ano que não deixou grandes saudades. Não por culpa tua porque, em boa verdade, quando chegaste vinhas com as melhores intenções e todos nós pensámos que tu irias ser "O Ano". E foste, mas pelas piores razões. Graças a algumas pessoas de excelsa inteligência que passaram os dias a imaginar a melhor forma de dar cabo de um pequeno país à beira-mar plantado. Desculpa a sinceridade, 2012, mas contra tudo e contra todos espero mais do teu irmão mais novo, o 2013. Deixa-me dizer-te com alegria "Bye bye 2012" e com expectativa apreensiva... "Hellooo 2013!!!"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

D. Berta: até uma dia...

A D. Berta foi uma das primeiras pessoas que conheci na Guiné-Bissau e que fui revisitando sempre que regressei àquele país. Estávamos algures em Março de 1996, ou Abril, e eu andava por lá a fazer a pesquisa  para a dissertação de Mestrado. Nessa altura passei horas a falar com ela, aliás como toda a gente que passava por Bissau, ou que lá vivia, e a comer a gelados que ela me oferecia no meio dos meus receios de principiante em terras de África. As recomendações tinham sido mais do que muitas - cuidados a ter com o que comia e bebia, sendo impensável socorrer-me de gelo, gelados, sumos de fruta e tanto mais por causa das águas e de tudo o que se poderia seguir. Mas comi gelados deliciosos, magníficos, caseiros e muito confiáveis, já que não me aconteceu nada a não ser usufruir de bons momentos e regressar a Lisboa muito mais rica pelas experiências que por lá tive :-) No calor do final dos quentes anos 90 em Bissau, aqueles gelados tiveram o sabor da vida...
A D. Berta - avó Berta, como muitos lhe chamavam - era uma senhora encantadora, deliciosa, uma cabo-verdiana como tantas outras a viver em Bissau há muitos anos. A Pensão Central era o ponto de passagem e de encontro. Por lá almocei e jantei vezes sem conta, ouvi histórias que jamais se repetem ou relatam, vi pessoas que nunca imaginei sequer poder avistar, usufrui da companhia de amigos e conhecidos que por lá viviam, sentei-me na varanda a receber a brisa possível e a observar a vida que corria sem parar lá em baixo com sons, cores e movimento únicos. Ali bebi coca-cola debaixo de chapéus de sol encarnados e marcados com a marca da bebida, e senti-me reconfortada antes das viagens loucas para o sul e para o norte, ou depois delas.
A D. Berta deixou este Mundo e partiu para outras paragens com a certeza de que viveu intensamente e de forma sábia, alimentando amizades e tendo uma infinita receptividade para com todos os que com ela se cruzassem. Foi um bonito exemplo de vida e certamente que, onde quer que esteja nesta altura, está feliz por ter cumprido a sua missão. Ela ficou no coração de todos pela bondade, compreensão, amizade, tolerância. E tanto mais... E um dia, certamente, voltaremos a reencontrar-nos...


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Pensamentos analógicos ou da sauna ao sacador de mãos


Há tempo que não fazia sauna e talvez por isso me surpreenda com as atitudes de algumas pessoas. Pois bem, o que se passa é o que a seguir explico. Estando dentro da cabine percebo que uma grande parte das frequentadoras do equipamento o utiliza como se de um secador se tratasse. Algumas pessoas - a maioria com a qual me tenho cruzado - entra na sauna, pensava eu, para uns minutos de desintoxicação. Engano meu. A maioria, considerando que apenas eu por lá permaneci por 10 minutos, entra e após o duche, que não faço a menor ideia se foi ou não eficaz, limpa-se cuidadosamente coma toalha, inclusivamente entre os dedos dos pés de forma a retirar qualquer resquício de humidade. Depois há algumas variantes, umas acabam por sair após a secagem, outras abrem os braços baloiçando-os, enrolam-se de novo na toalha e saem. Uma simples observação do comportamento destas pessoas num equipamento de uso comum em contexto de lazer é absolutamente hilariante. Sobretudo para quem, como eu, também lecciona Animação do Lazer e do Recreio. Num dia de aulas pus-me a pensar nesta experiências e, nem que ligeiramente, a sensação foi de "déjà vu". Nesse milésimo de instante realizei a cena.
Quando vamos à casa de banho de um centro comercial ou de um cinema, cada vez mais constatamos que, em substituição dos toalhetes de papel, surgem os secadores de mãos. Barulhentos e muito desagradáveis, apesar de supostamente mais ecológicos por não utilizarem papel, mas sem dúvida profundamente prejudiciais para quem tem problemas no ouvido interno. Fujo deles, portanto. Mas já vi, por pura curiosidade, o seu funcionamento: um jacto forte de ar, quente ou frio, que ajuda a eliminar a água secando as mãos. Para acelerar o processo de secagem, parece habitual sacudir as mãos ou esfregá-las em movimentos sem sentido pré-definido, ora em círculos, ora na vertical, fazendo com que o ar circule ainda mais depressa e assim as mãos ficam sem humidade aparente. Pois na sauna, a lógica parece ser semelhante para quem sai do duche. Não percebo como funciona, já que, por característica, a sauna acelera o processo de transpiração através dos poros e, por uma questão de higiene e de bem-estar, o duche só é suposto acontecer no final da sessão.
A parte mais engraçada de toda a cena foi quando, perante a minha perplexidade uma das dançarinas da sauna me olha com ar incomodado e diz: - "não gosto nada deste calor, faz-me sentir mal...". Eu fiquei ainda mais estupefacta, não sabia se haveria de rir ou chorar. Depois de assistir ao pormenor da arrumação dos frascos numa bolsa impermeável e da coreografia da secagem corporal, oiço-a dizer que se sente incomodada com o calor. Então porque entrou??? A única reacção que consegui ter foi um sorriso, que certamente resultou num tom amarelo esverdeado porque preenchido por uma incompreensão desconsolada, mas ainda consegui dizer: -"pois... na sauna faz calor, muito calor". Ela saiu abanando-se, servindo da mão como leque, e eu fiquei a pensar que as pessoas andam a ter reacções verdadeiramente estranhas... 

em 26 de Outubro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Conferência de Luanda sobre a Paz e Segurança na região do Golfo da Guiné

CONFERÊNCIA DE LUANDA SOBRE A PAZ E SEGURANÇA NA REGIÃO DO GOLFO DA GUINÉ
LUANDA, 27-29 de Novembro
Temas em debate (lá estarei no painel 8)Painel #1: O Golfo da Guiné, zona de paz e segurança.Painel #2: A influência da paz e segurança na região do Golfo da Guiné para a estabilidade e desenvolvimento do Continente Africano.Painel #3: A extensão da Plataforma Continental, necessidade e desafio
 para a região do Golfo da Guiné.
Painel #4: O estado e as consequências da imigração ilegal para a paz e segurança na região do Golfo da Guiné.
Painel #5: A experiência da CEDEAO na manutenção da paz e segurança. Lições para a região do Golfo da Guiné.
Painel #6: A importância da segurança da região do Golfo da Guiné como rota de transporte marítimo.
Painel #7: A contribuição do mecanismo de manutenção da paz e segurança na África Central, à segurança da região do Golfo da Guiné.
Painel #8: O ecossistema da região do Golfo da Guiné como parte do seu ambiente de segurança.
Painel #9: A região do Golfo da Guiné na rede de produção e comércio internacional de droga.


domingo, 18 de novembro de 2012

Da Guiné, com a Guiné, para a Guiné

Somos muitos os que, num qualquer momento, nos apaixonámos por África e que, após uma primeira incursão à Guiné-Bissau, sentimos que a nossa vida mudou para sempre. Por lá conhecemos pessoas excepcionais, percorremos paisagens de encantos múltiplos, observámos espécies de cores e formas únicas que evidenciaram também alguma curiosidade por nós. 
E é muito gratificante sempre que encontramos outras pessoas que, como nós, não sendo guineenses, têm o mesmo sentimento em relação àquele povo que só merece o que de melhor existe ou que pode ser concebido.
Hoje foi um dia em que um blogger me contactou com o objectivo de partilharmos ideias sobre a Guiné-Bissau. Excelente, foi para mim uma enorme honra. Ora, aqui está: é no CART 3494 & Camaradas da Guiné. Tem muita informação que vale a pena explorar. Obrigada, grande dinamizador.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Como o macaco do conto: cego, surdo e mudo...

Os relatos de torturas na Guiné-Bissau continuam e os pormenores são absolutamente atrozes e de uma desumanidade impensável. Basta consultar algumas páginas da net (blogs, jornais digitais, grupos, facebook...). Não há quem pare esta gente? O que é feito da comunidade internacional? Ainda têm dúvidas e não querem ser acusados de ingerência??? E entretanto... como ficam as consciências de uns e de outros, deixando que alguns lunáticos que se sentem guerreiros do Apocalipse, agindo de forma mais cruel do que o mais feroz dos animais, continuem a agredir, a mutilar e a matar...? Para que servem afinal as organizações internacionais de carácter humanitário, tão defensoras dos direitos humanos, mas se calhar só no conforto da poltrona, e que se apelidam de cooperantes??? Seguramente que estou a passar por uma fase mais do que crítica e céptica... mas sou incapaz de compreender a ausência total de acção, incluindo por parte das representações estrangeiras no país. Fazem-me lembrar o macaco que, para não se comprometer, declara-se cego, surdo e mudo...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Once again... o medo reina em Bissau

Não, não parece ser justo e, em boa verdade, não é. A Guiné-Bissau está de novo a viver sob o clima do medo... Ataques verdadeiros ou supostos, mortes, perseguições, detenções e desaparecimentos com ou sem mais mortos. Está prestes a instalar-se o clima do terror. Ninguém merece viver assim, a pensar que um qualquer dia pode ser o seu e que esse dia está tão próximo que pode ser o já e o agora. Ninguém - ou quase - gosta de pensar no dia em que tudo muda.
Tenho para mim que viver com insegurança e na incerteza não é viver. É como se soubéssemos antecipadamente em que dia iríamos morrer e ainda com a certeza de termos o bónus da tortura mais ou menos violenta. Pior do que sentirmos que esse era o nosso fado seria olharmos para os que queremos muito e de quem gostamos porque são a nossa essência e sabermos que esse era o seu destino. Não queremos sofrer, e muito menos sem percebermos porquê, mas imaginarmos que os que mais amamos nesta vida estão a sofrer... faz-nos sofrer duplamente. É de enlouquecer a mente mais sã...
Viver em clima de medo permanente, a pensar que o que quer que seja pode acontecer, ver os dias a fugirem como se um qualquer monstro corresse desenfreadamente atrás de nós não é viver. É sobreviver aos impulsos, aproveitando os minutos que nos deixam como se fosse uma benesse. É olhar os dias a prazo e sabendo que a validade está a expirar...
E a pergunta que repito vezes sem conta, com o aperto no coração que sentimos quando ao olharmos para o que gostamos vemos possibilidades reais de destruição, é: quando é que o povo guineense terá paz, uma paz desejada e merecida..?! Porque tudo o resto não passam de pormenores que alguns procuram perpetuar sem sentido... 
E ainda me dá vontade de dizer bem alto para que todos oiçam: OLHEM AS CRIANÇAS NOS OLHOS E DIGAM-LHES, POR FAVOR, QUE ELAS SÃO O FUTURO DE UM PAIS FANTÁSTICO. NÃO AS DESILUDAM... POR NADA...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

É bom o frio...

O frio não chegou ainda mas, de vez em quando, faz uns ligeiros ameaços reconfortando-me. Sim, espero-o há tempo como se de um amigo distante se tratasse. A presença dele leva-me a enroscar mais vezes em ti e a sentir o teu calor. É bom o frio. De vez em quando, nem que seja...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Faz hoje 10 anos... :-)

Da varanda da Roça de S. João, a baía de Angolares
Hoje é mais um dia especial. Faz 10 anos que estava a ultimar os preparativos para uma experiência inesquecível. E como tudo o que é inesquecível provavelmente irrepetível mas muitas e muitas vezes relembrado. Faz hoje 10 anos que fui para São Tomé e Príncipe, com a cabeça repleta de expectativas de um futuro que se abrisse a novas oportunidades após a conclusão do doutoramento. E depois... depois a coisa fez-se, já lá vão 7 anos e meio. E depois desse momento também inesquecível, veio um pós doutoramento de 6 anos com mais coisas pelo meio. As expectativas de que o mundo se abrisse em oportunidades permaneceram mas, para dar razão ao Murphy que engendrou a lei, o mundo não só não se abriu como até parece que se fechou. Uma coisa é certa: mesmo que essas expectativas jamais se venham a cumprir, as experiências e as vivências inesquecíveis ficam comigo para sempre. E também o carinho por esse magnífico país que me acolheu como só STP e os santomenses sabem fazer, jamais se esquecem!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Na corda bamba

Tantas e tantas vezes sentiu-se baloiçar na corda bamba, como se não houvesse chão por baixo e a sabedoria estivesse no equilíbrio dos movimentos. Até aqui, teve sempre coragem e força para chegar ao fim da corda, a um qualquer porto seguro. Hoje já não sentia a mesma energia e vontade de vencer. Na verdade, tudo parecia tão pouco compensador que já não sabia se valeria a pena ir um pouco mais além, esforçar-se um pouco mais, só um bocadinho assim. Sentia-se esgotado, trôpego, sem forças, cambaleante, para além do desassossego lhe apoquentar os dias. Haveria certamente outros lugares melhores, mais tranquilos, mais estáveis, mais seguros, mais...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Visões entre Lisboa e Cascais...

Depois do carro ter avariado, sei lá eu o que é que tem, dei-lhe tréguas até ir para a oficina. Não me apetece gastar mais dinheiro com ele, nunca um carro com tão pouco tempo me deu tantos problemas. Azar, dirão alguns. Pois não sei. Em maré de azar é no que mais tenho andado. Ou isto dá uma volta ou não sei. Já não sei nem quero saber. E essa é a pior parte, não querer saber. Não me interessa, já nem me interessa.
São quase 20h30 e à minha frente, no comboio para Cascais, vai uma figura que tem a imagem de Jesus Cristo. Se andasse por estes lados, até poderia ser Ele. Tenho vindo focalizada nele, siderada ao ponto dele se ter também fixado em mim, o que não é uma situação confortável. Mas o pior é que não consigo desviar os olhos. É mesmo parecido com a imagem que tenho Dele. A questão é que ele me faz lembrar Jesus Cristo mas já eu não me pareço em nada com a Maria Madalena.
A esta hora, os meus companheiros de carruagem têm um ar triste, circunspecto, metido com eles próprios. Mais do que introvertidos parecem desiludidos. Porque será...?! Não olham para ninguém: uns seguem de olhos fechados como se o Mundo fosse de tal forma feio e desconfortável que mais vale não o ver; outros viajam com os olhos abertos mas sem nada ver, com o olhar fixado no vazio. Da minha parte, partilho o sentimento de desconforto mas sou incapaz de não os observar e escrevo no meu caderninho. Entretenho-me por tudo e por nada a observar um e a ouvir outro. Tudo serve para o meu espírito vaguear por outras vidas e a caneta corre pela folha desenfreadamente sem parar. Um dia escrevo um livro de histórias ou contos, ou quem sabe um romance... Com o que já vi e vivi bem que podia escrever uma colecção inteira...
O Jesus Cristo da minha carruagem parece o único a quem a vida corre sem sentir o prejuízo ou o desconforto de viajar a esta hora num comboio desconfortável cheio de grafittis como se fosse a parede de um barracão velho e devoluto. Chegou um amigo gordo, enorme, daqueles que só temos ideia de existirem nos filmes, com ar tão Heavy Metal quanto tranquilo. A festa foi imediata depois da pergunta - "Como estás?" - e da resposta - "Tá-se bem...". Conversaram toda a viagem, riram animados mas sem inquietarem os outros que permaneceram sem sequer darem conta de que, para eles, a vida parece correr sobre carris.
E agora é a minha vez de me surpreender: o meu companheiro de viagem levantou-se e vai sair na mesma estação que eu. É meu conterrâneo, portanto, e eu nunca antes tinha dado conta de que ele existia por estes lados. É a minha vez de ir jantar...

E se a vida fosse só lazer...

A vida quotidiana devia ter mais momentos de lazer ou até quem sabe ser apenas lazer. Tudo seria mais fácil, simpático, escorreito, animado, recreativo... O problema seria um só: deixaríamos de valorizar os tempos e os espaços dedicados ao lazer para passarmos a entendê-los como a quotidianeidade. E aí...? Ah pois é, aí passaríamos a entender esses momentos como rotineiros, obrigatórios e comuns, em vez de serem definidos como excepcionais porque marcados pela diferenciação Passariam a ser tempos e espaços de diversão obrigatória, de aprendizagem lúdica e de festa contínua. E nada na vida é permanente, tudo é efémero, transitório, passageiro... até, e sobretudo, a parte animada da vida recriada e reconstruída. Tudo o mais se faz, se passa sem nos darmos conta. Uma enorme frustração...

domingo, 16 de setembro de 2012

Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento...

E depois de um sonho rápido mas intenso acordei. Não, não estava lá de novo e lamentei-me por isso. Mas enquanto dormitei passei pelas ilhas só para dizer - "Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento"... 
No sonho estávamos todos por lá. E quando digo todos, são todos mesmo. Todos os que fui conhecendo ao longo de mais de 15 anos de permanências e visitas às ilhas. A passagem foi um pouco confusa, tenho de admitir, porque estranhamente todas as pessoas se conheciam e interagiam sem problemas, até as que não é suposto virem a conhecer-se ou conseguir trocar duas palavras que seja. 
Não sei se sonhei com o paraíso mas fiquei muito mais bem disposta quando acordei... e, na verdade, gostei de rever tanta gente no curto espaço de tempo de 20 minutos...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Powerpoints do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", São Tomé, Agosto de 2012


Estão disponíveis para consulta e download os slides das apresentações em formato PDF referentes às comunicações do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", realizado em São Tomé no passado mês de Agosto.
Recomendamos a todos que, em caso de pretenderem utilizar alguma informação que agora disponibilizamos, deverão contactar os respectivos autores cujos emails estão identificados nas apresentações, procedendo à respectiva referenciação.

Poderão assim consultar as apresentações (formato PDF) do Seminário em:

Em breve disponibilizaremos os textos das Sessões de Abertura e de Encerramento e apenas mais tarde os textos das comunicações.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Conversa encantada

Há tempos, alguém me perguntava dando a entender profundo conhecimento sobre a causa dos afectos, apesar de se calhar perceber muito menos deles do que eu:
- Apaixonaste-te?
- Não, claro que não - respondi - não, acho que não, por quem? Nem tempo houve para isso...
- Mas encantaste-te...
- Sim, sabes que gosto de me deixar encantar. E sabes que facilmente me encanto com tudo, por tudo... não com todos nem por todos...
- E não tens medo de confundir o que sentes?
- Não, porque teria? São sentimentos claramente diferentes, apesar de igualmente inspiradores...
- E igualmente perigosos...?
- Não diria tal, desta vez não me parece que tenha corrido o risco de me confundir. E depois, tudo é tão claro, tão honesto, tão sincero. As pessoas que são encantadoras têm um não sei o quê de diferente e por isso é um encanto podermos partilhar tempos e espaços sem o medo, ou a ansiedade, de vermos o nosso eu mais profundo remexido... Até porque as pessoas verdadeiramente encantadoras procuram não nos desencantar.
- Será...?
- Sim, é um prazer estar com pessoas encantadoras porque elas nos transmitem a mesma sensação, que somos, para elas, pessoas igualmente encantadoras. Na sua companhia, o tempo voa, não se retém... 

A angústia do (re)início

É nas épocas de (re)início que compreendo os actores de teatro. Segundo eles, o início de uma peça é sempre angustiante, um pouco stressante até, como se fosse a primeira vez. Eu sinto precisamente isso... :-) Depois tudo flui e a normalidade parece regressar com o apaziguamento dos sentidos. Mas até lá, as horas que antecedem o retorno são pouco confortáveis...

sábado, 8 de setembro de 2012

A visão das emoções

Sim, era possível alguém encantar-se por outro alguém com rapidez ultra-sónica. Não sei se esses sentimentos seriam paixão, diria que não, que não passariam de um deslumbramento estimulado por uma solidão anterior acoplada por uns rasgos de atenção, nem sempre regulares e contínuos, e sobretudo alimentados pelo aliciamento do "descompromisso" que apenas os locais de passagem permitem a quem, mesmo que involuntária ou inconscientemente se deixa levar por eles. São Tomé e Príncipe tinha e continua a ter essa factor quase místico que permite às pessoas sentirem de forma diferente tudo o que é normal em vivências efémeras e tão fugazes que se ocorressem noutro contexto jamais seriam marcadas pela diferenciação. 
Hoje tenho esta visão mais do que clara como se fosse a evidência das evidências e é bom viajar para as ilhas com a plena consciência do efeito que provocam. É como se, ao olhar para os outros, conseguisse rever situações que eu própria vivi e  que não me dão a capacidades visionárias mas que talvez me permitam ser um pouco mais cautelosa. Nem todos realizam esta ideia apenas porque não se deram ao trabalho de observar e analisar o que se passa. E regressam sempre - uns mais cedo, outros mais tarde porque ainda por lá permanecem uma temporada - com a sensação de que aquela foi a experiência das suas vidas, que os sentimentos que julgam ter sentido são os mais sinceros e profundos e que conseguirão perpetuar o que não passou de um simples contacto. E não podem nascer sentimentos verdadeiros? Podem mas o que tenho visto, ao longo do tempo, não é a sinceridade emocional...  
É talvez esse o maior deslumbramento das ilhas: estimulam a capacidade de sonhar, acreditar e tentar realizar. E enquanto se sonha... vive-se...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A inversão do "déjà vu"

A sensação de "déjà vu" nem sempre é boa, muitas vezes dá a ideia de haver uma certa inversão na vida. Em São Tomé, a percepção de ter presenciado anteriormente algumas situações é muito reconfortante fazendo-me sentir segura e confortável, como se tivesse uma extra-capacidade para antever os resultados, quase com um sentido previsionista. Mas ao regressar percebo que a vida por cá permanece quase igual, o que não é assim lá muito reconfortante. Para além da crise, sobre a qual já não se aguenta mais ouvir falar porque a vida do comum dos mortais foi profundamente afectada sem evidentes benefícios efectivos ou materializáveis. As análises económicas continuam a ser devastadoras, terrificantes e apenas aceitáveis para quem vive em permanente delírio não tomando conta da realidade, nem querendo tomar... E ao regressar percebo que a sensação de "déjà vu" me acompanha ou persegue... mas no pior sentido do termo. Como se a nossa vida fosse realmente cíclica e eu estivesse a viver de novo situações anteriormente conhecidas pouco confortáveis e marcadas pela incerteza. Bem sei que devemos aceitar o que não depende de nós mas... a bem dizer da verdade... esta vida não é fácil e há que encontrar alternativas, reinventá-las, recriá-las... E isso também não é fácil... pelo menos por aqui...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Percepções

Praia Piscina
Aqueles são lugares de encontro, de reunião e de partilha. Tudo faz sentido quando se está por lá, ou parece fazer, apesar de sabermos que até os melhores momentos se esvaem por serem fugazes, fluídos, voláteis... Mas, enquanto se vivem é como se fossem eternos porque a intensidade que lhes atribuímos é muito compensadora.

domingo, 2 de setembro de 2012

Prolongamentos da existência

Praia das Conchas, São Tomé
Pensando bem, a tendência foi sempre de adocicar os momentos vividos, mesmo os menos doces. Até os que não foram vividos ficando suspensos em possibilidades inviáveis foram aligeirados pelos recantos da memória para que não fossem ensombrados por vontades incumpridas. As vivências passaram assim a ser prolongadas por lembranças e olhares revisitados vezes sem conta, como se a cada regresso tudo se pudesse viver de novo. Não que quisesse recuperar na íntegra o passado - alguns momentos poderiam mesmo ter sido evitados - mas a minha memória tem essa insondável capacidade de seleccionar apenas o melhor. Hoje, mais do que nunca, os sorrisos aparecem ao recuperar momentos perdidos no tempo e nas vidas que entretanto se fizeram presentes. Tudo muda porque a vida é transitória mas nós temos a capacidade de prolongar o que de melhor tivemos e assim vamos recuperando um pouco de outros eus que fazem parte do que somos hoje...

sábado, 1 de setembro de 2012

Gosto de ilhas

O que sempre me encantou nas ilhas, e em particular naquelas, foi a sensação de que ali a evasão não só é possível como se transforma em realidade. É possível ser diferente, criar situações, encarnar personagens, viver sonhos. Basta querer. As ilhas influenciam de tal forma a nossa interioridade que é fácil acreditar que a transitoriedade é a constância, que o efémero é perene, que a ilusão é a verdade. Se conseguirmos aceitar esta mistura que muitas vezes se molda numa indefinição difusa, então as ilhas são o melhor lugar para se visitar e até viver. Eu gosto de ilhas. Transmitem-me tudo isto e, ainda mais importante, paz!

No regresso

Sempre que regressava do que gostava de chamar o "paraíso na terra" ou o "local onde todos os sonhos são possíveis" sentia uma angústia, um vazio, uma ausência vá-se lá saber de quê, mas que parecia marcar os minutos, os dias, as semanas... No regresso tudo parecia inexoravelmente desconfortável, desconcertante, desinteressante...

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...