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A mostrar mensagens de 2014

Coração apaziguado ou... a arte de fazer as pazes com o coração

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Ao fim de muitos anos o meu coração apaziguou-se, talvez tenha feito as pazes com a Terra... Em boa verdade, não foi com a Terra porque nunca esteve zangado com ela. Nem com a Terra nem com as gentes e por isso senti sempre vontade de regressar. Apaziguou-se com ele próprio, e depois comigo, tranquilizou os ímpetos, amainou as vontades mais escondidas por trás de uma aparente felicidade. Durante anos não fora um coração feliz; foi ansioso por qualquer coisa que procurou infinitamente sem encontrar e que julgava que ali poderia estar. Foram buscas sem fim, encontros de equívocos que resultaram em (des)enganos incompletos, tristes, sem sentido. Por fim, depois de tanto tempo, olhar para o presente sem regressar inevitavelmente ao passado era uma vitória pessoal. A certeza da vontade era que nada mais do que foi deveria regressar. Cada experiência era isso mesmo: uma vivência única e irrepetível, e o que lá vai já foi. Não queria que o passado fosse apagado. Cada minuto antes vivido faz p…

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 2

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Passava das 5h da manhã quando embarcámos; descolámos depois das 5h30. Ao entrar o avião pareceu-me ter acabado de entrar num engarrafamento em hora de ponta. O voo devia estar praticamente cheio e a desorganização dos passageiros era enorme: pessoas em pé, com resistência em se sentar, malas, sacos, pacotes que saíam para fora do porta-bagagem. A hora era tardia, o cansaço começava a fazer-se sentir e eu não me sinto confortável com ajuntamentos. Por milésimos de segundo a vontade que tive foi desatar a correr dali para fora. Contrariando os meus ímpetos furiosos limitei-me a respirar fundo na expectativa de encontrar um espacinho livre de gente onde me pudesse esticar por umas horas de olhos fechados. Alegrei-me ao vislumbrar três filas centrais abandonadas por todos os que tinham entrado antes de mim. Ninguém parecia querer aqueles lugares e num rasgo de sorte a hospedeira que por ali circulava sorriu perante o meu ar ansioso ao perguntar se podia ocupar uma das filas. Passei a via…

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 1

Uma vez mais, a aventura começou. A caminho de São Tomé mas sem ter sequer saído do aeroporto. A chegada foi antes das 22h e a fila para o check in era de tal forma grande que dava várias voltas apertadas; o balcão nem se via. Tantas e tantas vezes fiz esta viagem e ainda não tinha tido esta dupla experiência: a de viajar pela STP Airways; e a de ter uma longuíssima noite de espera. Há atrasos e atrasos e este bateu o record de todas as possibilidades. Na fila a espera para chegar à frente e despachar as malas durou mais de 2 horas e a noite parecia ser ainda uma criança porque o que estava para vir nem se tinha anunciado. O aeroporto estava quente, abafado, cheio de gente que circulava para a frente e para trás sem destino ou objectivo, falando ora com um ora com outro, na maioria eram conversas de ocasião com um sorriso aberto espelhado na face. As nossas caras espelhavam apenas surpresa e perplexidade. Procurámos estar a horas para nos reunirmos e tratarmos de despachar a bagagem p…

em paz...

"Não são apenas os loucos que procuram as cavernas e os lugares tranquilos, mas também aqueles que por terem a alma em paz acabam por desprezar os assuntos dos homens.
Quando o espírito, oprimido pelas inquietações exteriores, aspira ao repouso do corpo, evade-se para os lugares tranquilos; e aí, desperto logo cedo, faz em si mesmo o percurso do país da verdade (...)"

Hipócrates in "Do Riso e da Loucura"

Noite de Consoada

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Consoada familiar e tranquila. Regresso a casa com a habitual passagem pelas ruas da Baixa para ver as iluminações e escolher a mais bonita rua de Lisboa. Um ritual que me acompanha desde que me lembro de ser gente. As ruas estão aparentemente desertas e as iluminações tentam dar cor e vida à cidade que parece deserta. Só parece porque os "sem abrigo" continuam por ali. Ao sair da casa que foi da avó e hoje é da tia onde sempre se passou a noite de 24, o coração aperta ao ver que as carrinhas da Comunidade Vida e Paz também circulam por ali, estando uma parada na Praça da Figueira e outra no Rossio. E isto tem dois significados: um desolador e outro espantoso. O primeiro diz-me que, de facto, a cidade continua a ter pessoas que vivem na rua - cada vez mais - e que não são apenas adictos ou desestruturados. São pessoas que perderam muito, quase tudo. Quase porque continuam com vontade de viver mesmo sem ter a possibilidade de apreciar o brilho das luzes, as cores ou o movimen…

Isto é tudo uma grande aldrabice!!!

Dia 9 de Junho, data inesquecível. Há dias em que me apetece dizer: isto é tudo um GRANDE aldrabice! E hoje é o dia...!!!! E mais inesquecível quando a aldrabice se faz mesmo na nossa cara, às claras e sem que possamos fazer alguma coisa para a transformar em algo sério. Pois não pude... foi mesmo ali à minha frente e estando eu plenamente consciente de que estava a ser enganada e que a aldrabice estava legitimada por quem a fez... that's the way it is... that's life in Portugal... Oh cegada....

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe", Entrevista a Abílio Bragança Neto, STPtv

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe". Entrevista a Abílio Bragança Neto no canal STPtv, disponível em http://www.youtube.com/user/Canalstptv. Uma conversa cordial numa tarde bem passada sobre temas que me são muito queridos: o turismo; o ambiente; a educação ambiental; as pessoas; o desenvolvimento  E ainda o Manual de Educação Ambiental em preparação MARAPA e ASPEA, um projecto financiado pelo GEF sob coordenação do PAPAFPA
Visualizar em Entrevista à STPtv

O sorriso que revela a vontade de eclipsar

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Quanto mais o tempo passa maior força ganham as memórias. O sol, sobretudo na hora do nascer e do ocaso; as cores, a densidade do verde, a imensidão do azul, o contraste das tonalidades que reforçam a dimensão das paisagens; os cheiros, a intensidade do odor da terra húmida mesclada com o da fruta madura e o das flores a desabrochar. E as pessoas, sempre próximas, sorridentes, simples, receptivas, disponíveis, sem exigências ou cobranças, tão perto da imagem da felicidade livre e desapegada. Sempre sonhei com este cenário composto por diferentes elementos que se conjugam numa harmonia equilibrada a tocar a perfeição.
Nas alturas mais desgastantes e sempre que sinto necessidade de me eclipsar e me tornar invisível - o que, reconheço, acontece de vez em quando, nem que seja por um milésimo de segundo - revisito os momentos que ficaram registados no back up da minha memória virtual e recupero a sucessão dos episódios mais felizes, ou dos que não sendo completamente felizes se revelaram …

O bem-estar é essencial nas viagens e na vida...

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Apesar de que, em cada viagem às ilhas, conseguia reconhecer as sensações que sentia e a paz que a envolvia após o regresso, depois de respirar bem fundo de olhos fechados para melhor reter aquele ar denso, pesado, aromatizado pelos mais diversos odores, cada estadia resumia-se numa experiência diferente de todas as anteriores. Em cada viagem criavam-se situações únicas e irrepetíveis vividas com intensidade. Talvez por isso fosse sempre tão bom regressar. Cada um dos minutos ali passados representava a esperança de viver momentos felizes sem que contudo houvesse a expectativa de recuperar ou reviver os anteriores. Os contextos eram diferentes e, em grande medida, as pessoas que marcavam cada estadia também, pelo que nada era susceptível de repetição. Apesar de tudo, a consciência da impossibilidade de reviver in loco o passado era reconfortante e muito tranquilizadora. E assim ia acontecendo, os momentos felizes sucediam-se, revestindo formas diferenciadas, sem se repetirem. Aquele e…

Ilhas que inebriam

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São Tomé e o Príncipe são ilhas perigosas por terem mistério. São terras encantadas que cegam e inebriam, desenhadas pelo contraste das cores, adocicadas pela intensidade dos cheiros e moldadas pelos afectos, pelas emoções e sensações que as vivências nos permitem experienciar, recriar e reinventar. Tudo se vive intensamente por aqui e, apesar do leve-leve que paira no ar e que todos parecem respirar e transpirar, o que vai dentro de cada um só o próprio pode dizer. Toda a situação vivida se transforma rápida e abruptamente num turbilhão acelerado e descompassado desembocando em caminhos tão diversos que podem traduzir estradas direitas, trilhos em espiral ou picadas repletas de obstáculos. É a vida de quem visita as ilhas... Chegando aqui, os mais contidos transformam-se, os introvertidos e tímidos extravasam emoções e os mais extrovertidos ganham mais e mais vida. Todos - ou quase todos - passam a viver com outro ritmo mais enquadrado, mais sentido, mais simples. Mais dia menos dia,…

Conversas cruzadas... ligadas???

Caminhar na rua e ouvir conversas alheias é uma actividade que distrai. Bem sei que pouco, ou mesmo nada, tenho a ver com a vida dos outros mas, em boa verdade, se os visados quisessem manter segredo não falavam de forma a que as outras pessoas, como é o meu caso, ouvissem. Enquanto caminhava apressada pela rua por estar atrasada para uma reunião acabei por pensar no quanto é estranho o mundo social dos afectos. Por mais que se confie em alguém para um desabafo há sempre forma de outros saberem os meandros da vida. Todos acabam por comentar os desassossegos de uns e de outros com um tom crítico como se estivessem imunes a situações semelhantes. Nunca se está verdadeiramente resguardado - pensei - a não ser que nos fechemos numa concha e não partilhemos com ninguém o que sentimos em determinado momento. Mas o mais engraçado é que, por vezes, é possível ligar conversas e cruzá-las. No meu caminho encontrei um primeiro grupo sentado numa esplanada que conversava sobre a vida de um qualq…

Protegida...

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Há muito que não sentia a segurança de dormir debaixo de uma rede mosquiteira como se estivesse protegida de tudo e de mais alguma coisa. Ali, rodeada pela rede branca bem esticada, reina o bem-estar, uma tranquilidade infinita, a paz procurada há muito. Sem esforço o sono chega para acalmar o cansaço e as emoções do dia.

São Tomé, 29/03/2014

A alegria do regresso

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Uma e outra vez, a chegada às ilhas é marcada por infinitas expectativas e descompasso no coração. Aqui há calor. Não apenas térmico, afinal estamos na latitude zero e o Equador faz-se notar, mas sobretudo o calor humano das pessoas simples, quentes, de sorrisos afáveis e disponíveis, de olhares directos e francos. Pessoas que me fazem sentir bem, como se estivesse em casa, pelo envolvimento de proximidade com o que me parece ser a essência da vida. Foi sempre esta a sensação e hoje percebo que, apesar de a sentir no mais íntimo de mim mesma, nem sempre a consegui traduzir por palavras de forma clara. A viagem foi dura, difícil, com prolongadas e cansativas esperas. Pensando bem as últimas viagens têm mesmo sido assim como se houvesse alguma coisa que me estivesse a pôr à prova e uma voz sussurrasse baixinho ao meu ouvido - "vamos a ver até onde resistes". Eu, que sou torcida, vou resistindo porque sei que vale a pena. Passadas as turbulências, as filas e os momentos em que…

O que dizem os teus olhos...

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Há pouca coisa tão fascinante quanto olhar nos olhos de alguém. Para lá da cor, que pode ser mais ou menos bonita, do formato e do brilho, todos os olhos têm expressão: falam; riem; choram. Os olhos transmitem sensações, emoções, sentimentos e dizem-nos o que vai na alma de alguém, são pouco enganadores, basta querermos compreender o que significa a expressão de cada olhar. Há olhares tristes, perdidos, sentidos, ressentidos. Olhares magoados, afogados, desesperados. Olhares cansados, conformados. Olhares zangados, amuados, destroçados. Olhares ternos, delicados, quentes, envolventes, insistentes. Olhares confiáveis, calorosos, acolhedores. Olhares tranquilos, felizes, apaziguados, esperançados. Olhos que riem e que choram, que gritam e lamuriam. Olhos que pedem e suplicam. Olhos profundos, atentos, confiantes e que inspiram. Olhos ausentes, distraídos, desconfiados, duvidosos. Todos os olhos transmitem vida porque estão carregados de emoção. Todos os olhos reflectem o que se sente at…

Nada se repete. Tudo se revive...

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Desde a primeira viagem até hoje posso até enumerar o que mudou nas ilhas. E não foi pouco... Lembro-me, como se fosse hoje, de estar sentada no Passante a escrever, tal como em tantos outros momentos. Dessa vez, e na falta de um caderno ou de um bloco - ainda não tinha assumido conscientemente a necessidade de escrevinhar sobre quase tudo - registava num guardanapo de papel as minhas primeiras impressões. Rapidamente adquiri o gosto de observar e anotar como se precisasse de registar para jamais esquecer. No rádio atrás de mim soava uma música ritmada e de batida intensa, de letra envolvente, quente, até explícita no significado. Já não a consigo identificar mas recordo a sensualidade dos sons e das palavras que apelavam aos sentidos. Num primeiro final de tarde a sonoridade enquadrada pela tranquilidade do mar à minha frente fez-me pensar que aquela ilha poderia vir a ser um local especial para mim. Não me enganei... passou a ser o meu lugar, o meu refúgio, o meu espaço onde me sint…

No Príncipe...

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No Príncipe a vida muda e transforma-nos. A primeira imagem é a do deslumbramento. Tudo é denso e intenso: a paisagem florestal; as praias de baías recortadas; a pequenez da cidade acolhendo-nos com um sorriso de boas vindas; os olhares curiosos das pessoas; e o reconforto  da disponibilidade. Mas também, e sobretudo, as experiência e as vivências que são apenas possíveis num lugar que está longe de tudo e de todos, rodeado por mar. Ali sentimos a noção do isolamento que nos protege do ritmo desenfreado e alucinante de todos os dias mas que nos coloca frente a frente com uma aventura de risco controlado. No Príncipe tudo é possível. Uma ilha tão magnificente quanto distante, tão pequena quanto inacessível, tão contrastante... obrigando-nos a olhar em volta, uma e outra vez, e ver o que está para lá das evidências mesmo antes de pensar. Ali é difícil avaliar porque os sentidos estão despertos para a vida e emocionam-se com tudo, por tudo. Viver em tempo útil não é compatível com estar …

Há pessoas...

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Há pessoas que transmitem bondade através do olhar, da expressão do rosto, do sorriso e de um gesto que, por mais insignificante que possa parecer, ganha valor pela simplicidade da demonstração tocando-nos o coração. Há pessoas apaixonadas pela vida, que a absorvem como se houvesse o risco de se esgotar a curto prazo. Há pessoas que transmitem consistência e segurança quando circulam pela nossa proximidade porque tudo o que fazem, seja o que for, transborda de solidez, certeza e determinação. Há pessoas que aparentam passar pela vida de forma ligeira por não se fixarem no que têm pela frente e que apenas transmitem fluidez. Há pessoas que olham para os outros de forma displicente e desvalorizada por os considerarem seres menores e insignificantes. Há pessoas que não sentem, não se emocionam e não vibram porque a vida pouco lhes diz. Há pessoas formatadas a um modelo e, por mais que se esforcem, o resultado não ultrapassa a mediocridade... Pessoas que servem de exemplo e que inspiram d…

Conversas tardias misturadas com sorrisos e muito riso

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Conversas tardias em noite apaziguada. E ali estávamos, cinco dos muitos mais que já fomos. Os contextos da vida não permitiram reunir os restantes e as razões foram diversas. O tema que centrou mais a nossa atenção foi o de sempre, o preferido de todos os presentes: as viagens e pelo meio as aventuras, as experiências, as vivências e as lembranças. O riso dominou a noite, o que foi reconfortante quando o desassossego do regresso é tantas vezes marcado pelas reticências de um texto não escrito. E ali ficámos durante muitos e muitos minutos que se completaram em horas adocicadas por fotografias divertidas que relatavam momentos de ansiedade e, em alguns casos, de angústia mas que à distância se revelaram infinitamente divertidos. Bons momentos estes!

Viver é bom... eu gosto - parte 2

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Viver é um desafio permanente e usufruir plenamente da vida implica sabedoria, coragem, determinação e alegria. Sabedoria para fazer as escolhas certas nos momentos em que decidir é crucial. Coragem para assumir riscos. Determinação para não vacilar perante os obstáculos. Alegria para relativizar as injustiças e as dificuldades com a capacidade de sorrir sempre. Viver é uma tarefa difícil e desafiante mas muito saborosa.

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Escrevinhar...

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Desde que, com alguma consciência, me lembro de mim mesma há um caderno e uma caneta que me acompanham para todo o lado. Um caderno que pode ter a forma de bloco, agenda ou folhas soltas e desordenadas - um espaço vazio que aguarda pelo traço por vezes irregular da minha mão, onde posso registar com total liberdade o que vejo, o que penso, o que sinto ou o que simplesmente me apetece dizer ao Mundo em determinado momento. Um espaço em branco que me serve de companhia e me permite voar para outros contextos, outros mundos e assumir outras personagens que tranquilamente misturam ficção com realidade. A caneta não é importante - desde que escreva pouco me importa a cor.
Escrevo muito. Há muito. E desenho rabiscos nos intervalos para me apaziguar. Muito do que escrevo não divulgo porque há uma esfera de intimidade privada que jamais é relatada por não ter qualquer interesse para quem lê e não viveu as situações, não partilhou os momentos, simplesmente não esteve lá. Muito do que escrevo e…

A retoma

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E, pouco a pouco, a vida retoma a normalidade, ou o que é suposto ser. Não sei bem o que deve ser o padrão da normalidade e também não estou com pressa de o reencontrar. Há tempo, parece-me. E devagar, devagarinho, vou seguindo o meu caminho contra muitos olhares que não compreendem estes meus estados de alma, nem os meus gostos, nem as minhas vontades. Sempre que de lá regresso o desencontro de ideias e de vontades é o mesmo. Na verdade há quem nunca tenha entendido o porquê. E provavelmente há quem jamais aceitará. Eu sei...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Cenários

Cenários, cenários e mais cenários... criam-se cenários por tudo e por nada. Tudo seria mais fácil, mais simples até, se cada um não criasse um cenário diferente. Um cenário não passa disso mesmo, uma representação que, em boa verdade, não retrata a realidade, apenas a recria. Por isso é um cenário!

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Deixa-me contar-te um segredo

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E no meio da conversa acabou por me confidenciar:
- Deixa-me contar-te um segredo: aqui a vida passa por nós sem pedir licença. Resta-nos cumprimentá-la e, por vezes, agarrá-la com um abraço.
- O que sinto quando aqui chego é uma transformação interior que apenas se percebe pelo sorriso permanente - respondi - aqui sinto-me feliz, compensada e descansada. Tem sido sempre assim, dia após dia, semana após semana, mês após mês... ano após ano... apesar de, por vezes, continuar a ter sensação de que continuo ligada a experiências passadas - reforcei - é até estranho...
- Fixares-te em vivências que um dia tiveste é um erro, tanto aqui como noutro lugar. Tens de viver em função do que serás e não deteres-te no que foste - respondeu num tom sábio e um pouco paternalista.
- Mas não acreditas que o que somos é o reflexo do passado, das experiências, dos momentos felizes e também de tudo que nos derrotou. Eu acredito nisso... E daí talvez nem sempre seja fácil regressar onde se foi feliz. O es…

O Mistério das Ilhas

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Para mim, as ilhas combinam mistério com encanto. Gosto de ilhas - já o disse vezes sem conta. Sinto-me confortável quando as visito e enquanto por lá permaneço, fazem-me bem porque me transmitem tranquilidade o que faz com que me sinta em paz comigo mesma e com os outros. Depois do regresso, e por uns tempos, continuo a sentir a leve sensação de estar a flutuar, o que é indescritível porque magnífico. Mas há ilhas e ilhas e estas, que permanecem no meu coração, têm feitiço. São ilhas encantadas que, pelo deslumbramento, mudaram a minha vida para sempre obrigando-me a regressar uma e outra vez. São tantas as vezes que regresso que sinto que nem sequer cheguei a partir. A partida nunca é definitiva nem se faz completamente. Há algo que fica, que permanece e não me deixa seguir viagem para tudo o que se segue. Há sempre uma parte de mim que resiste e ao partir fica uma inevitável incompletude. São ilhas que tocam, prendem, agarram, abraçam... São ilhas quentes e envolventes. São ilhas …

Descompasso

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Uma e outra vez, o regresso é estranhamente marcado pelo descompasso, pelo desritmo e requer uma rápida descomplicação. Parece um paradoxo que a vida retome à velocidade da luz sem dar tempo para incorporar as mudanças. Acordo aos pulos e aos trambolhões como se tivesse um comboio atrás de mim a empurrar-me para a frente, obrigando-me a saltar para o lado, fugindo e evitando o atropelo. E o que aligeira a sensação é ainda usufruir do leve leve que teimo em tornar permanente com o retorno no pensamento...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Abre os olhos porque alguém te pode estar a observar... ;-)

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Observar os outros é uma actividade absolutamente inspiradora sobretudo quando o alvo do nosso olhar atento não se apercebe que, pelos motivos mais diversos, passou a ser do nosso interesse estimulando-nos a criatividade. Aos meus olhos quase não há limites para a observação e para a criatividade - e a excepção é a privacidade alheia.
Há tempos fui buscar alguém ao representante oficial de uma marca de automóveis e enquanto aguardava pela sua chegada deparei-me com um cenário magnífico para observação. Magnífico não por ser bonito mas, em boa verdade, por ser hilariante. O representante automóvel era alemão, supostamente marcado pelo rigor, exigência e trabalho árduo. Estacionei o carro pensando caminhar à beira-rio e tirar fotografias a gaivotas e patos marinhos que por ali abundam mas a maré estava vaza e o enquadramento ribeirinho não era famoso. Antes pelo contrário, até era desolador e mal cheirento porque o lodo emergiu com a falta de água e o único motivo interessante eram as g…

Just live....

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A dada altura, a minha consciência crítica disse-me: 
- "Viver a vida" é fazer coisas que nos tornam felizes e a felicidade transforma-nos em pessoas melhores. Por isso não desistas de um sonho se acreditas que ao realizá-lo vais ser feliz.
E ao regressar dei comigo a pensar que, por vezes e em boa verdade, as consciências críticas são de uma sabedoria extrema...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Viver é bom, eu gosto... parte 1

Viver é bom, eu gosto. Mas apesar de gostar tenho de reconhecer que, de tempos a tempos - com muito maior frequência do que gostaria ou desejaria - a minha estrela da vida tem-me posto à prova. Ainda não percebi porquê, ou para quê. Acredito, ou tenho acreditado, que seja uma forma de crescer e me tornar numa pessoa melhor. Mas ainda não percebi bem se esta é a verdade, ou a principal razão, porque há tanta gente que passa por tanto e nem por isso aprende ou se torna melhor. Seja como for, ou tiver de ser, ainda acredito que cada tropeção me faz aprender qualquer coisa. Já dei os meus, é verdade. Diria até que alguns foram excessivos ou evitáveis e talvez por isso hoje seja como sou. Os anos têm passado de forma rápida, parece-me que nem sei por alguns passarem mas na verdade, ao olhar para trás, percebo que me fui modificando e cada ano tem resultado num processo de aprendizagem. Ou melhor, de tropeções com algumas queda. Mas tenho a consciência que me tenho conseguido levantar mesmo…