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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2014

Coração apaziguado ou... a arte de fazer as pazes com o coração

Ao fim de muitos anos o meu coração apaziguou-se, talvez tenha feito as pazes com a Terra... Em boa verdade, não foi com a Terra porque nunca esteve zangado com ela. Nem com a Terra nem com as gentes e por isso senti sempre vontade de regressar. Apaziguou-se com ele próprio, e depois comigo, tranquilizou os ímpetos, amainou as vontades mais escondidas por trás de uma aparente felicidade. Durante anos não fora um coração feliz; foi ansioso por qualquer coisa que procurou infinitamente sem encontrar e que julgava que ali poderia estar. Foram buscas sem fim, encontros de equívocos que resultaram em (des)enganos incompletos, tristes, sem sentido. Por fim, depois de tanto tempo, olhar para o presente sem regressar inevitavelmente ao passado era uma vitória pessoal. A certeza da vontade era que nada mais do que foi deveria regressar. Cada experiência era isso mesmo: uma vivência única e irrepetível, e o que lá vai já foi. Não queria que o passado fosse apagado. Cada minuto antes vivido faz p…

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 2

Passava das 5h da manhã quando embarcámos; descolámos depois das 5h30. Ao entrar o avião pareceu-me ter acabado de entrar num engarrafamento em hora de ponta. O voo devia estar praticamente cheio e a desorganização dos passageiros era enorme: pessoas em pé, com resistência em se sentar, malas, sacos, pacotes que saíam para fora do porta-bagagem. A hora era tardia, o cansaço começava a fazer-se sentir e eu não me sinto confortável com ajuntamentos. Por milésimos de segundo a vontade que tive foi desatar a correr dali para fora. Contrariando os meus ímpetos furiosos limitei-me a respirar fundo na expectativa de encontrar um espacinho livre de gente onde me pudesse esticar por umas horas de olhos fechados. Alegrei-me ao vislumbrar três filas centrais abandonadas por todos os que tinham entrado antes de mim. Ninguém parecia querer aqueles lugares e num rasgo de sorte a hospedeira que por ali circulava sorriu perante o meu ar ansioso ao perguntar se podia ocupar uma das filas. Passei a via…

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 1

Uma vez mais, a aventura começou. A caminho de São Tomé mas sem ter sequer saído do aeroporto. A chegada foi antes das 22h e a fila para o check in era de tal forma grande que dava várias voltas apertadas; o balcão nem se via. Tantas e tantas vezes fiz esta viagem e ainda não tinha tido esta dupla experiência: a de viajar pela STP Airways; e a de ter uma longuíssima noite de espera. Há atrasos e atrasos e este bateu o record de todas as possibilidades. Na fila a espera para chegar à frente e despachar as malas durou mais de 2 horas e a noite parecia ser ainda uma criança porque o que estava para vir nem se tinha anunciado. O aeroporto estava quente, abafado, cheio de gente que circulava para a frente e para trás sem destino ou objectivo, falando ora com um ora com outro, na maioria eram conversas de ocasião com um sorriso aberto espelhado na face. As nossas caras espelhavam apenas surpresa e perplexidade. Procurámos estar a horas para nos reunirmos e tratarmos de despachar a bagagem p…

em paz...

"Não são apenas os loucos que procuram as cavernas e os lugares tranquilos, mas também aqueles que por terem a alma em paz acabam por desprezar os assuntos dos homens.
Quando o espírito, oprimido pelas inquietações exteriores, aspira ao repouso do corpo, evade-se para os lugares tranquilos; e aí, desperto logo cedo, faz em si mesmo o percurso do país da verdade (...)"

Hipócrates in "Do Riso e da Loucura"

Noite de Consoada

Consoada familiar e tranquila. Regresso a casa com a habitual passagem pelas ruas da Baixa para ver as iluminações e escolher a mais bonita rua de Lisboa. Um ritual que me acompanha desde que me lembro de ser gente. As ruas estão aparentemente desertas e as iluminações tentam dar cor e vida à cidade que parece deserta. Só parece porque os "sem abrigo" continuam por ali. Ao sair da casa que foi da avó e hoje é da tia onde sempre se passou a noite de 24, o coração aperta ao ver que as carrinhas da Comunidade Vida e Paz também circulam por ali, estando uma parada na Praça da Figueira e outra no Rossio. E isto tem dois significados: um desolador e outro espantoso. O primeiro diz-me que, de facto, a cidade continua a ter pessoas que vivem na rua - cada vez mais - e que não são apenas adictos ou desestruturados. São pessoas que perderam muito, quase tudo. Quase porque continuam com vontade de viver mesmo sem ter a possibilidade de apreciar o brilho das luzes, as cores ou o movimen…