segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Pensamentos analógicos ou da sauna ao sacador de mãos


Há tempo que não fazia sauna e talvez por isso me surpreenda com as atitudes de algumas pessoas. Pois bem, o que se passa é o que a seguir explico. Estando dentro da cabine percebo que uma grande parte das frequentadoras do equipamento o utiliza como se de um secador se tratasse. Algumas pessoas - a maioria com a qual me tenho cruzado - entra na sauna, pensava eu, para uns minutos de desintoxicação. Engano meu. A maioria, considerando que apenas eu por lá permaneci por 10 minutos, entra e após o duche, que não faço a menor ideia se foi ou não eficaz, limpa-se cuidadosamente coma toalha, inclusivamente entre os dedos dos pés de forma a retirar qualquer resquício de humidade. Depois há algumas variantes, umas acabam por sair após a secagem, outras abrem os braços baloiçando-os, enrolam-se de novo na toalha e saem. Uma simples observação do comportamento destas pessoas num equipamento de uso comum em contexto de lazer é absolutamente hilariante. Sobretudo para quem, como eu, também lecciona Animação do Lazer e do Recreio. Num dia de aulas pus-me a pensar nesta experiências e, nem que ligeiramente, a sensação foi de "déjà vu". Nesse milésimo de instante realizei a cena.
Quando vamos à casa de banho de um centro comercial ou de um cinema, cada vez mais constatamos que, em substituição dos toalhetes de papel, surgem os secadores de mãos. Barulhentos e muito desagradáveis, apesar de supostamente mais ecológicos por não utilizarem papel, mas sem dúvida profundamente prejudiciais para quem tem problemas no ouvido interno. Fujo deles, portanto. Mas já vi, por pura curiosidade, o seu funcionamento: um jacto forte de ar, quente ou frio, que ajuda a eliminar a água secando as mãos. Para acelerar o processo de secagem, parece habitual sacudir as mãos ou esfregá-las em movimentos sem sentido pré-definido, ora em círculos, ora na vertical, fazendo com que o ar circule ainda mais depressa e assim as mãos ficam sem humidade aparente. Pois na sauna, a lógica parece ser semelhante para quem sai do duche. Não percebo como funciona, já que, por característica, a sauna acelera o processo de transpiração através dos poros e, por uma questão de higiene e de bem-estar, o duche só é suposto acontecer no final da sessão.
A parte mais engraçada de toda a cena foi quando, perante a minha perplexidade uma das dançarinas da sauna me olha com ar incomodado e diz: - "não gosto nada deste calor, faz-me sentir mal...". Eu fiquei ainda mais estupefacta, não sabia se haveria de rir ou chorar. Depois de assistir ao pormenor da arrumação dos frascos numa bolsa impermeável e da coreografia da secagem corporal, oiço-a dizer que se sente incomodada com o calor. Então porque entrou??? A única reacção que consegui ter foi um sorriso, que certamente resultou num tom amarelo esverdeado porque preenchido por uma incompreensão desconsolada, mas ainda consegui dizer: -"pois... na sauna faz calor, muito calor". Ela saiu abanando-se, servindo da mão como leque, e eu fiquei a pensar que as pessoas andam a ter reacções verdadeiramente estranhas... 

em 26 de Outubro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Conferência de Luanda sobre a Paz e Segurança na região do Golfo da Guiné

CONFERÊNCIA DE LUANDA SOBRE A PAZ E SEGURANÇA NA REGIÃO DO GOLFO DA GUINÉ
LUANDA, 27-29 de Novembro
Temas em debate (lá estarei no painel 8)Painel #1: O Golfo da Guiné, zona de paz e segurança.Painel #2: A influência da paz e segurança na região do Golfo da Guiné para a estabilidade e desenvolvimento do Continente Africano.Painel #3: A extensão da Plataforma Continental, necessidade e desafio
 para a região do Golfo da Guiné.
Painel #4: O estado e as consequências da imigração ilegal para a paz e segurança na região do Golfo da Guiné.
Painel #5: A experiência da CEDEAO na manutenção da paz e segurança. Lições para a região do Golfo da Guiné.
Painel #6: A importância da segurança da região do Golfo da Guiné como rota de transporte marítimo.
Painel #7: A contribuição do mecanismo de manutenção da paz e segurança na África Central, à segurança da região do Golfo da Guiné.
Painel #8: O ecossistema da região do Golfo da Guiné como parte do seu ambiente de segurança.
Painel #9: A região do Golfo da Guiné na rede de produção e comércio internacional de droga.


domingo, 18 de novembro de 2012

Da Guiné, com a Guiné, para a Guiné

Somos muitos os que, num qualquer momento, nos apaixonámos por África e que, após uma primeira incursão à Guiné-Bissau, sentimos que a nossa vida mudou para sempre. Por lá conhecemos pessoas excepcionais, percorremos paisagens de encantos múltiplos, observámos espécies de cores e formas únicas que evidenciaram também alguma curiosidade por nós. 
E é muito gratificante sempre que encontramos outras pessoas que, como nós, não sendo guineenses, têm o mesmo sentimento em relação àquele povo que só merece o que de melhor existe ou que pode ser concebido.
Hoje foi um dia em que um blogger me contactou com o objectivo de partilharmos ideias sobre a Guiné-Bissau. Excelente, foi para mim uma enorme honra. Ora, aqui está: é no CART 3494 & Camaradas da Guiné. Tem muita informação que vale a pena explorar. Obrigada, grande dinamizador.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Como o macaco do conto: cego, surdo e mudo...

Os relatos de torturas na Guiné-Bissau continuam e os pormenores são absolutamente atrozes e de uma desumanidade impensável. Basta consultar algumas páginas da net (blogs, jornais digitais, grupos, facebook...). Não há quem pare esta gente? O que é feito da comunidade internacional? Ainda têm dúvidas e não querem ser acusados de ingerência??? E entretanto... como ficam as consciências de uns e de outros, deixando que alguns lunáticos que se sentem guerreiros do Apocalipse, agindo de forma mais cruel do que o mais feroz dos animais, continuem a agredir, a mutilar e a matar...? Para que servem afinal as organizações internacionais de carácter humanitário, tão defensoras dos direitos humanos, mas se calhar só no conforto da poltrona, e que se apelidam de cooperantes??? Seguramente que estou a passar por uma fase mais do que crítica e céptica... mas sou incapaz de compreender a ausência total de acção, incluindo por parte das representações estrangeiras no país. Fazem-me lembrar o macaco que, para não se comprometer, declara-se cego, surdo e mudo...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Once again... o medo reina em Bissau

Não, não parece ser justo e, em boa verdade, não é. A Guiné-Bissau está de novo a viver sob o clima do medo... Ataques verdadeiros ou supostos, mortes, perseguições, detenções e desaparecimentos com ou sem mais mortos. Está prestes a instalar-se o clima do terror. Ninguém merece viver assim, a pensar que um qualquer dia pode ser o seu e que esse dia está tão próximo que pode ser o já e o agora. Ninguém - ou quase - gosta de pensar no dia em que tudo muda.
Tenho para mim que viver com insegurança e na incerteza não é viver. É como se soubéssemos antecipadamente em que dia iríamos morrer e ainda com a certeza de termos o bónus da tortura mais ou menos violenta. Pior do que sentirmos que esse era o nosso fado seria olharmos para os que queremos muito e de quem gostamos porque são a nossa essência e sabermos que esse era o seu destino. Não queremos sofrer, e muito menos sem percebermos porquê, mas imaginarmos que os que mais amamos nesta vida estão a sofrer... faz-nos sofrer duplamente. É de enlouquecer a mente mais sã...
Viver em clima de medo permanente, a pensar que o que quer que seja pode acontecer, ver os dias a fugirem como se um qualquer monstro corresse desenfreadamente atrás de nós não é viver. É sobreviver aos impulsos, aproveitando os minutos que nos deixam como se fosse uma benesse. É olhar os dias a prazo e sabendo que a validade está a expirar...
E a pergunta que repito vezes sem conta, com o aperto no coração que sentimos quando ao olharmos para o que gostamos vemos possibilidades reais de destruição, é: quando é que o povo guineense terá paz, uma paz desejada e merecida..?! Porque tudo o resto não passam de pormenores que alguns procuram perpetuar sem sentido... 
E ainda me dá vontade de dizer bem alto para que todos oiçam: OLHEM AS CRIANÇAS NOS OLHOS E DIGAM-LHES, POR FAVOR, QUE ELAS SÃO O FUTURO DE UM PAIS FANTÁSTICO. NÃO AS DESILUDAM... POR NADA...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

É bom o frio...

O frio não chegou ainda mas, de vez em quando, faz uns ligeiros ameaços reconfortando-me. Sim, espero-o há tempo como se de um amigo distante se tratasse. A presença dele leva-me a enroscar mais vezes em ti e a sentir o teu calor. É bom o frio. De vez em quando, nem que seja...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Faz hoje 10 anos... :-)

Da varanda da Roça de S. João, a baía de Angolares
Hoje é mais um dia especial. Faz 10 anos que estava a ultimar os preparativos para uma experiência inesquecível. E como tudo o que é inesquecível provavelmente irrepetível mas muitas e muitas vezes relembrado. Faz hoje 10 anos que fui para São Tomé e Príncipe, com a cabeça repleta de expectativas de um futuro que se abrisse a novas oportunidades após a conclusão do doutoramento. E depois... depois a coisa fez-se, já lá vão 7 anos e meio. E depois desse momento também inesquecível, veio um pós doutoramento de 6 anos com mais coisas pelo meio. As expectativas de que o mundo se abrisse em oportunidades permaneceram mas, para dar razão ao Murphy que engendrou a lei, o mundo não só não se abriu como até parece que se fechou. Uma coisa é certa: mesmo que essas expectativas jamais se venham a cumprir, as experiências e as vivências inesquecíveis ficam comigo para sempre. E também o carinho por esse magnífico país que me acolheu como só STP e os santomenses sabem fazer, jamais se esquecem!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Na corda bamba

Tantas e tantas vezes sentiu-se baloiçar na corda bamba, como se não houvesse chão por baixo e a sabedoria estivesse no equilíbrio dos movimentos. Até aqui, teve sempre coragem e força para chegar ao fim da corda, a um qualquer porto seguro. Hoje já não sentia a mesma energia e vontade de vencer. Na verdade, tudo parecia tão pouco compensador que já não sabia se valeria a pena ir um pouco mais além, esforçar-se um pouco mais, só um bocadinho assim. Sentia-se esgotado, trôpego, sem forças, cambaleante, para além do desassossego lhe apoquentar os dias. Haveria certamente outros lugares melhores, mais tranquilos, mais estáveis, mais seguros, mais...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Visões entre Lisboa e Cascais...

Depois do carro ter avariado, sei lá eu o que é que tem, dei-lhe tréguas até ir para a oficina. Não me apetece gastar mais dinheiro com ele, nunca um carro com tão pouco tempo me deu tantos problemas. Azar, dirão alguns. Pois não sei. Em maré de azar é no que mais tenho andado. Ou isto dá uma volta ou não sei. Já não sei nem quero saber. E essa é a pior parte, não querer saber. Não me interessa, já nem me interessa.
São quase 20h30 e à minha frente, no comboio para Cascais, vai uma figura que tem a imagem de Jesus Cristo. Se andasse por estes lados, até poderia ser Ele. Tenho vindo focalizada nele, siderada ao ponto dele se ter também fixado em mim, o que não é uma situação confortável. Mas o pior é que não consigo desviar os olhos. É mesmo parecido com a imagem que tenho Dele. A questão é que ele me faz lembrar Jesus Cristo mas já eu não me pareço em nada com a Maria Madalena.
A esta hora, os meus companheiros de carruagem têm um ar triste, circunspecto, metido com eles próprios. Mais do que introvertidos parecem desiludidos. Porque será...?! Não olham para ninguém: uns seguem de olhos fechados como se o Mundo fosse de tal forma feio e desconfortável que mais vale não o ver; outros viajam com os olhos abertos mas sem nada ver, com o olhar fixado no vazio. Da minha parte, partilho o sentimento de desconforto mas sou incapaz de não os observar e escrevo no meu caderninho. Entretenho-me por tudo e por nada a observar um e a ouvir outro. Tudo serve para o meu espírito vaguear por outras vidas e a caneta corre pela folha desenfreadamente sem parar. Um dia escrevo um livro de histórias ou contos, ou quem sabe um romance... Com o que já vi e vivi bem que podia escrever uma colecção inteira...
O Jesus Cristo da minha carruagem parece o único a quem a vida corre sem sentir o prejuízo ou o desconforto de viajar a esta hora num comboio desconfortável cheio de grafittis como se fosse a parede de um barracão velho e devoluto. Chegou um amigo gordo, enorme, daqueles que só temos ideia de existirem nos filmes, com ar tão Heavy Metal quanto tranquilo. A festa foi imediata depois da pergunta - "Como estás?" - e da resposta - "Tá-se bem...". Conversaram toda a viagem, riram animados mas sem inquietarem os outros que permaneceram sem sequer darem conta de que, para eles, a vida parece correr sobre carris.
E agora é a minha vez de me surpreender: o meu companheiro de viagem levantou-se e vai sair na mesma estação que eu. É meu conterrâneo, portanto, e eu nunca antes tinha dado conta de que ele existia por estes lados. É a minha vez de ir jantar...

E se a vida fosse só lazer...

A vida quotidiana devia ter mais momentos de lazer ou até quem sabe ser apenas lazer. Tudo seria mais fácil, simpático, escorreito, animado, recreativo... O problema seria um só: deixaríamos de valorizar os tempos e os espaços dedicados ao lazer para passarmos a entendê-los como a quotidianeidade. E aí...? Ah pois é, aí passaríamos a entender esses momentos como rotineiros, obrigatórios e comuns, em vez de serem definidos como excepcionais porque marcados pela diferenciação Passariam a ser tempos e espaços de diversão obrigatória, de aprendizagem lúdica e de festa contínua. E nada na vida é permanente, tudo é efémero, transitório, passageiro... até, e sobretudo, a parte animada da vida recriada e reconstruída. Tudo o mais se faz, se passa sem nos darmos conta. Uma enorme frustração...

domingo, 16 de setembro de 2012

Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento...

E depois de um sonho rápido mas intenso acordei. Não, não estava lá de novo e lamentei-me por isso. Mas enquanto dormitei passei pelas ilhas só para dizer - "Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento"... 
No sonho estávamos todos por lá. E quando digo todos, são todos mesmo. Todos os que fui conhecendo ao longo de mais de 15 anos de permanências e visitas às ilhas. A passagem foi um pouco confusa, tenho de admitir, porque estranhamente todas as pessoas se conheciam e interagiam sem problemas, até as que não é suposto virem a conhecer-se ou conseguir trocar duas palavras que seja. 
Não sei se sonhei com o paraíso mas fiquei muito mais bem disposta quando acordei... e, na verdade, gostei de rever tanta gente no curto espaço de tempo de 20 minutos...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Powerpoints do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", São Tomé, Agosto de 2012


Estão disponíveis para consulta e download os slides das apresentações em formato PDF referentes às comunicações do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", realizado em São Tomé no passado mês de Agosto.
Recomendamos a todos que, em caso de pretenderem utilizar alguma informação que agora disponibilizamos, deverão contactar os respectivos autores cujos emails estão identificados nas apresentações, procedendo à respectiva referenciação.

Poderão assim consultar as apresentações (formato PDF) do Seminário em:

Em breve disponibilizaremos os textos das Sessões de Abertura e de Encerramento e apenas mais tarde os textos das comunicações.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Conversa encantada

Há tempos, alguém me perguntava dando a entender profundo conhecimento sobre a causa dos afectos, apesar de se calhar perceber muito menos deles do que eu:
- Apaixonaste-te?
- Não, claro que não - respondi - não, acho que não, por quem? Nem tempo houve para isso...
- Mas encantaste-te...
- Sim, sabes que gosto de me deixar encantar. E sabes que facilmente me encanto com tudo, por tudo... não com todos nem por todos...
- E não tens medo de confundir o que sentes?
- Não, porque teria? São sentimentos claramente diferentes, apesar de igualmente inspiradores...
- E igualmente perigosos...?
- Não diria tal, desta vez não me parece que tenha corrido o risco de me confundir. E depois, tudo é tão claro, tão honesto, tão sincero. As pessoas que são encantadoras têm um não sei o quê de diferente e por isso é um encanto podermos partilhar tempos e espaços sem o medo, ou a ansiedade, de vermos o nosso eu mais profundo remexido... Até porque as pessoas verdadeiramente encantadoras procuram não nos desencantar.
- Será...?
- Sim, é um prazer estar com pessoas encantadoras porque elas nos transmitem a mesma sensação, que somos, para elas, pessoas igualmente encantadoras. Na sua companhia, o tempo voa, não se retém... 

A angústia do (re)início

É nas épocas de (re)início que compreendo os actores de teatro. Segundo eles, o início de uma peça é sempre angustiante, um pouco stressante até, como se fosse a primeira vez. Eu sinto precisamente isso... :-) Depois tudo flui e a normalidade parece regressar com o apaziguamento dos sentidos. Mas até lá, as horas que antecedem o retorno são pouco confortáveis...

sábado, 8 de setembro de 2012

A visão das emoções

Sim, era possível alguém encantar-se por outro alguém com rapidez ultra-sónica. Não sei se esses sentimentos seriam paixão, diria que não, que não passariam de um deslumbramento estimulado por uma solidão anterior acoplada por uns rasgos de atenção, nem sempre regulares e contínuos, e sobretudo alimentados pelo aliciamento do "descompromisso" que apenas os locais de passagem permitem a quem, mesmo que involuntária ou inconscientemente se deixa levar por eles. São Tomé e Príncipe tinha e continua a ter essa factor quase místico que permite às pessoas sentirem de forma diferente tudo o que é normal em vivências efémeras e tão fugazes que se ocorressem noutro contexto jamais seriam marcadas pela diferenciação. 
Hoje tenho esta visão mais do que clara como se fosse a evidência das evidências e é bom viajar para as ilhas com a plena consciência do efeito que provocam. É como se, ao olhar para os outros, conseguisse rever situações que eu própria vivi e  que não me dão a capacidades visionárias mas que talvez me permitam ser um pouco mais cautelosa. Nem todos realizam esta ideia apenas porque não se deram ao trabalho de observar e analisar o que se passa. E regressam sempre - uns mais cedo, outros mais tarde porque ainda por lá permanecem uma temporada - com a sensação de que aquela foi a experiência das suas vidas, que os sentimentos que julgam ter sentido são os mais sinceros e profundos e que conseguirão perpetuar o que não passou de um simples contacto. E não podem nascer sentimentos verdadeiros? Podem mas o que tenho visto, ao longo do tempo, não é a sinceridade emocional...  
É talvez esse o maior deslumbramento das ilhas: estimulam a capacidade de sonhar, acreditar e tentar realizar. E enquanto se sonha... vive-se...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A inversão do "déjà vu"

A sensação de "déjà vu" nem sempre é boa, muitas vezes dá a ideia de haver uma certa inversão na vida. Em São Tomé, a percepção de ter presenciado anteriormente algumas situações é muito reconfortante fazendo-me sentir segura e confortável, como se tivesse uma extra-capacidade para antever os resultados, quase com um sentido previsionista. Mas ao regressar percebo que a vida por cá permanece quase igual, o que não é assim lá muito reconfortante. Para além da crise, sobre a qual já não se aguenta mais ouvir falar porque a vida do comum dos mortais foi profundamente afectada sem evidentes benefícios efectivos ou materializáveis. As análises económicas continuam a ser devastadoras, terrificantes e apenas aceitáveis para quem vive em permanente delírio não tomando conta da realidade, nem querendo tomar... E ao regressar percebo que a sensação de "déjà vu" me acompanha ou persegue... mas no pior sentido do termo. Como se a nossa vida fosse realmente cíclica e eu estivesse a viver de novo situações anteriormente conhecidas pouco confortáveis e marcadas pela incerteza. Bem sei que devemos aceitar o que não depende de nós mas... a bem dizer da verdade... esta vida não é fácil e há que encontrar alternativas, reinventá-las, recriá-las... E isso também não é fácil... pelo menos por aqui...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Percepções

Praia Piscina
Aqueles são lugares de encontro, de reunião e de partilha. Tudo faz sentido quando se está por lá, ou parece fazer, apesar de sabermos que até os melhores momentos se esvaem por serem fugazes, fluídos, voláteis... Mas, enquanto se vivem é como se fossem eternos porque a intensidade que lhes atribuímos é muito compensadora.

domingo, 2 de setembro de 2012

Prolongamentos da existência

Praia das Conchas, São Tomé
Pensando bem, a tendência foi sempre de adocicar os momentos vividos, mesmo os menos doces. Até os que não foram vividos ficando suspensos em possibilidades inviáveis foram aligeirados pelos recantos da memória para que não fossem ensombrados por vontades incumpridas. As vivências passaram assim a ser prolongadas por lembranças e olhares revisitados vezes sem conta, como se a cada regresso tudo se pudesse viver de novo. Não que quisesse recuperar na íntegra o passado - alguns momentos poderiam mesmo ter sido evitados - mas a minha memória tem essa insondável capacidade de seleccionar apenas o melhor. Hoje, mais do que nunca, os sorrisos aparecem ao recuperar momentos perdidos no tempo e nas vidas que entretanto se fizeram presentes. Tudo muda porque a vida é transitória mas nós temos a capacidade de prolongar o que de melhor tivemos e assim vamos recuperando um pouco de outros eus que fazem parte do que somos hoje...

sábado, 1 de setembro de 2012

Gosto de ilhas

O que sempre me encantou nas ilhas, e em particular naquelas, foi a sensação de que ali a evasão não só é possível como se transforma em realidade. É possível ser diferente, criar situações, encarnar personagens, viver sonhos. Basta querer. As ilhas influenciam de tal forma a nossa interioridade que é fácil acreditar que a transitoriedade é a constância, que o efémero é perene, que a ilusão é a verdade. Se conseguirmos aceitar esta mistura que muitas vezes se molda numa indefinição difusa, então as ilhas são o melhor lugar para se visitar e até viver. Eu gosto de ilhas. Transmitem-me tudo isto e, ainda mais importante, paz!

No regresso

Sempre que regressava do que gostava de chamar o "paraíso na terra" ou o "local onde todos os sonhos são possíveis" sentia uma angústia, um vazio, uma ausência vá-se lá saber de quê, mas que parecia marcar os minutos, os dias, as semanas... No regresso tudo parecia inexoravelmente desconfortável, desconcertante, desinteressante...

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...