

Um blog sobre a vida. Ilusões e sonhos, venturas, algumas desventuras, muitas realizações com a frustração necessária para alcançar o desejo da felicidade. Uma vida que se pretende feliz e preenchida por vivências sentidas. por Brígida Rocha Brito

A vida na maior parte da cidade de Luanda pode revelar uma infinita capacidade de sobrevivênciam e de adaptação à adversidade. Não na Luanda rica, na outra, a que claramente é dominante.
A rica Luanda é limpa e bem parecida, podendo fazer imagem de postal tuístico, senão agora, daqui a uns anos. Não faz porque oficialmente não se podem tirar fotografias a monumentos, pessoas ou paisagens, só à socapa é que se vão registando algumas imagens. Não entendo porquê, afinal a magnífica baía de Luanda e a Avenida Marginal poderiam representar o ex-libris angolano vocacionado para o turismo em meio urbano, ou de negócios. O património de traçado colonial tem vindo a perder-se, ao que soube. Pena, penso eu, já que os edifícios são de extrema beleza e o passado, bem ou mal recordado, faz parte da História de cada um, e de todos em conjunto, e não se deve renegar. Os condomínios fechados de luxo proliferam dando a sensação de que aqui o dinheiro se multiplica. O Centro Comercial na entrada da cidade dá conta disso: lojas estrangeiras de marca registada; restaurantes com esplanada; cinemas com estreias europeias; parque de estacionamento vigiado com guarda e pago. Na Luanda rica sonha-se e tem-se a sensação de que os sonhos são concretrizados. Tudo é possível: ter casa com piscina e court de ténis, segurança 24h por dia, toda a espécie de mordomias. A vida é um luxo e tem de ser bem aproveitada. Só que não é para todos, não pode ser porque se todos tivessem acesso deixaria de ser a cidade mais cara do mundo, ainda mais do que Tóquio. Como poderá ser, pergunto-me depois de ter uma panorâmica geral. E não é preciso andar por cá muito tempo para perceber como tudo funciona.
Na Luanda pobre, o lixo abunda, reproduz-se com uma enorme facilidade, aparece em qualquer local, está em toda a parte. É de todas as formas e feitios, misturam-se plásticos e latas com papel, matéria orgânica e indiferenciados, lodo e resíduos animais e humanos. Há de tudo um pouco. As pessoas convivem com os lixos com a maior normalidade. Fazem parte da vida uns dos outros como se fossem indissociáveis. As vendeiras, quitandeiras ou zungueiras, montam as suas pequenas bancas junto de amontoados de lixo, fazendo pequenas ou grande lixeiras, dependendo dos casos. As pessoas que por ali passam, e são muitas, parecem milhares num vai e vem sem parar, compram uma maçã, um alguidar, uns chinelos. O que houver. E há de tudo porque em Luanda tudo se vende e de tudo se compra.
As diferenças são abissais: os ricos são muito ricos e os pobres, mais do que isso, são miseráveis. Aqui percebe-se o que é viver abaixo do limiar da pobreza. Mais do que a análise dos relatórios e dos indicadores oficiais, uma incursão à Luanda pobre é uma experiência enriquecedora por se conseguir avaliar o quanto é dura esta realidade. Pior do que não ter o mínimo para viver, é conviver com lixeiras, nelas brincar e chapinhar em poças lamacentas porque dá para refrescar, desatolar um carro que ficou enterrado no lodo, quase submerso, e depois lavar as pernas e os pés lamacentos numa poça de água verde, com resíduos e seguramente carregada de bactérias e fungos, mas sentir a aliviada sensação de estar limpo de novo. Esta é uma experiência dura: contactar com a pobreza conformada e sem esperança. Por muita vontade que se tenha em contribuir para a mudança, porque se está descontente com a forma de vida, a resposta é sempre a mesma: para quê? Só eu penso assim, não vale a pena. E assim tudo permanece. O trabalho não permite ganhar a vida, só sobreviver, as crianças vivem como os pais viveram, eventualmente com menos até.
Ontem, num dos bairros de Luanda pobre, enquanto por lá andei fui falando com mulheres, crianças e alguns homens, Fotografiei-os e fez-se festa. A alegria era comum a quase todos porque o dia era diferente dos anteriores e dos que se seguem, mas também porque lhes chegou um pouco de vaidade e orgulho quando os deixei ver o quanto são bonitos e sorridentes. Foi um dos momentos raros em que alguém de fora os visita, fotografa e acarinha. Tudo corria bem para eles até que um dos mais velhos decidiu que o fim da festa tinha chegado e pegou num chinelo encarnado que, como outro qualquer objecto coersivo, resultou na perfeição dispersando os mais novos. Sim, estes conhecem o peso do chinelo e a sensação do impacto da borracha na carne. Ainda chegou a tocar em alguns mas seria certamente mais incisivo se eu não tivesse intervido. Tinha sido ele quem tinha pedido as primeiras fotos e ficara orgulhoso de si mesmo quando se viu e pediu mais. Porque não teriam os outros direito a uma foto e a ser vaidosos? Sorriu e de forma condescendente respondeu: só mais uma, então. E assim foi. Percebi depois que estava num dos locais com maior índice de criminalidade da cidade, eventualmente do país. Todos me olhavam com ar de curiosidade acrescida mas, apesar das intensas recomendações, não senti animosidade por parte de ninguém.

Em Luanda oiço as notícias sobre o mais recente golpe de Estado na Guiné-Bissau, depois de ter recebido um sms de um amigo dando conta de mais uma crise. De novo a instabilidade que regressa àquele pequeno país africano, tão rico em gentes e culturas, tão pobre em recursos. Tão vulnerável a esquemas paralelos e não formais.
A vida em África é dura, penso nisso sempre que lá estou. A Guiné-Bissau parece ser um laboratório vivo de dificuldades e dureza, como se fosse necessário provar uma vez mais a capacidade de resistência. Pois se alguém tem dúvidas, pode ficar tranquilo. A população da Guiné-Bissau é resistente, aguenta fundo quase tudo e merece ter paz, nem que seja por tudo o que já passou.
Em Luanda a vida também é dura, difícil, repleta de problemas e constrangimentos, mas a aparente estabilidade político-governativa parece aliviar, superficialmente, as dificuldades do dia-a-dia. Pelo menos adormece-as. A vida também se faz de esquemas, trocas e baldrocas, mas os níveis são diferentes, superiores, inflaccionados. E quem se conseguir mover nos círculos certos e no momento oportuno consegue passar à frente e avançar na vida. Quem não consegue fica para trás... muito para trás, esquecido, como se não existisse ou fosse um ser de outro planeta bem distante. É duro viver de forma bloqueada, para alguns sem esperança, porque o futuro não chega, fica lá mais à frente num apeadeiro qualquer onde o comboio não pára. Nos bairros periféricos não há futuro, só presente e passado. O passado foi melhor do que o presente. A vida não se faz fácil e a fé esmorece abrindo caminho para novos cultos, ou quem sabe os mesmos mas com novas formas e diferentes protagonistas. Tudo vale para fazer passar uma fé em troca de um contributo sob a forma de dízimo, umas vezes mais e outras menos, mas proporcional ao rendimento anual do crente. As igrejas proliferam, são de todas as formas e feitios, sempre atentas às fragilidades de uns ou de outros. Até é pouco justo que seja nas situações de maior insegurança ou desconforto que os novos mentores de uma fé desmontável surjam como salvadores, mas aposta-se na crença de que fica garantido um lugar de paz na passagem para uma outra vida qualquer...



Durante o 1º Encontro de Desenvolvimento Local, realizado em STP em Abril de 2009, foi lançado o desafio de editar um livro com algumas contribuições e outros textos que se enquadrassem na temática em análise. Terminámos o trabalho e o livro está pronto. E estamos muito orgulhosos com o resultado final:
O lançamento será na Livraria BARATA (Av. Roma, 11A), dia 22 de Março, pelas 18h e o livro será apresentado pelo Professor Doutor Luís Moita.
Prefácio, Professor Doutor Luís Moita
Tecendo considerações sobre o Desenvolvimento Local, Brígida Rocha Brito
Metodologias de Intervenção: As metodologias mutatis mutandis do Desenvolvimento Local, Orlando Garcia
Reflexões sobre experiências de Desenvolvimento Local, Marcos Olímpio dos Santos
Dois Arquipélagos Atlânticos, Álvaro Monjardino
Participação Social e Educação Ambiental: os processos participativos nas estratégias locais de sustentabilidade, Joaquim Ramos Pinto e Pablo Meira Cartea
Segunda Parte – Partilha de Experiências em contexto lusófono
Turismo e Desenvolvimento Local: das potencialidades às realizações, Brígida Rocha Brito
O papel dos actores sociais no desenvolvimento Local em São Tomé e Príncipe: acções para a dinamização do turismo sustentado, Nuno Alarcão e Brígida Rocha Brito
Turismo, Solidariedade e Desenvolvimento: Convergências e divergências em contexto insular africano, Joana Marques e Brígida Rocha Brito
RoçaMundo Ecologic Park. Ecologia, Economia e Emprego (Roçar o local com o olhar do mundo), Isaura Carvalho e Carlos Albuquerque
Os cetáceos de São Tomé e Príncipe: a luta pela biodiversidade e dignidade de um povo, Francisco Gonçalves
Educação para o Desenvolvimento Local. A reforma do ensino secundário. Propostas de intervenção, Maria Antónia Barreto
Educação e desenvolvimento. Uma experiência de cooperação com a República Democrática de São Tomé e Príncipe, Maria João Cardona
A acção da Misericórdia santomense, Mirian Trindade e Sílvia Pereira
O Comércio Justo e o Desenvolvimento Local na Guine Bissau. O caso Artissal – Associação de Tecelagem Tradicional, Mariana Tandler Ferreira
Experimentar uma outra forma de economia com mercados solidários, Ana da Silva
A crescente autonomia do Poder Local. Caso de estudo: o município da Chibia (Angola), Catarina Cunha
"Uma outra educação", ou "a forma mais dura de nos confrontarmos com os afectos" é um filme que retrata algumas situações não tão distantes da realidade. Um homem casado que se interessa por uma mocinha ávida de ter experiências únicas marcadas pela diferença. A coisa corre mal quando ela percebe que ele é casado, depois de ter acreditado que a história poderia ir mais longe do que o possível. Apaixona-se, abdica da vida programada por um sonho e quando bate com os pés no chão, realiza que o mundo dela, e com o qual deseja, é bem diferente. Vai a tempo, dá a volta à situação, depois de muita angústia e raiva sentidas, e segue em frente. 
O Livro está pronto e ficou MAGNÍFICO! Em breve, muito em breve, indicarei local, dia e hora para a apresentação pública. É uma iniciativa conjunta do CEA/ISCTE-IUL e da Universidade Autónoma de Lisboa. Chama-se “Abrindo Trilhos Tecendo Redes. Reflexões e experiências de Desenvolvimento Local em contexto lusófono”. Fala de muitas coisas: cooperação, parcerias, desenvolvimento local; conceitos e experiências. A edição é da GERPRESS (obrigada Manuel Pedro Sousa Dias, o resultado final está magnífico e agrada a quem já o viu), o ISBN é 978-989-06094-2-6 e o Depósito Legal: 306397/10. A organização esteve a meu cargo (que coordenei), do Joaquim Ramos Pinto e do Nuno Alarcão. E conta com cerca de uma dezena de reflexões e casos, sendo o prefaciado pelo Professor Doutor Luís Moita.
Já foi editado o "Estudo socioconómico das condições de bem-estar das famílias nos sectores de Bigene e São Domingos", no âmbito do Projecto KONKOBAI (Acabar com a fome nos sectores de Bigene e São Domingos), promovido pela Parceria de Desenvolvimento - Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e Acção para o Desenvolvimento (AD) na Guiné-Bissau.Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...