sexta-feira, 3 de setembro de 2004

I. O soldado que marchava com o passo certo - prelúdio

Invariavelmente, Blu contava-lhe uma história sempre que lhe queria dar na cabeça, nos dias após ela ter feito uma asneira. E a asneira era para ele “portar-se mal”. Já passara a fase dos 30 há algum tempo, mas, nestes dias, ele agia como se ela tivesse apenas três.
Em boa verdade, fazia o que tantos fizeram, antes, durante e depois dela, mas ele não gostava de a ver assim. Bebia uns copos a mais e fumava umas joints com quem as tinha. Não com ele, que era contra excessos e adicções. E fazia-o sempre demais, porque não sabia parar e deixava-se ir na embalagem. Isto acontecia esporadicamente e sempre que estava chateada com ele. Era um refúgio, um porto, uma evasão, o esconderijo onde ninguém entrava porque não a encontravam. Ela estava ali mas era como se não estivesse, ausentava-se do que a incomodava e por isso sorria, a pensar -“Estes gajos não prestam para nada. Não têm o que fazer e, ou estão no engate ou a dizer mal de alguém”. Era no fundo o seu pequeno mundo onde flutuava acima das ondas, levada pelo vento. E sabia-lhe bem. Sobretudo por não ser dada a ressacas.
Ficava louca de riso e de desejo por ele, mas se lhe diziam alguma coisa que ela não gostava... o caldo entornava e a baiana dançava. E parecia que escolhiam os dias em que estava com um sorriso de idiota estampado nos lábios, um olhar vago e um passo dançarino para a virem chatear. E depois, era tudo tão previsível... diziam-lhe coisas mesquinhas, contavam pormenores sórdidos acerca da vida dele, comparavam-no ao outro que tanta paixão lhe tinha despertado um ano antes, mas para o qual ela já não tinha olhos porque se tinha revelado um estafermo.
Era um gajo porreiro, como ela estava sempre a dizer, mas apenas isso. Já não tinha graça porque já tinha passado o prazo de validade dele. Era engraçado porque o "estafermo" lhe dizia nos tempos aureos que as mulheres vêm normalmente sem prazo de validade e cartão de garantia, por isso era tão difícil o relacionamento com elas - não se podiam devolver ao produtor. Só que pensando bem, ele é que ficou fora do prazo quando Shine conheceu Blu.
Na verdade, Blu não viria a ser muito diferente mas Shine queria acreditar que sim, que o tinha eleito por ser diferente. Afinal eles eram amigos e talvez tivessem muitos pontos em comum - o facto de não prestarem, de serem uns incorrigíveis sedutores e uns "bons malandros", mas sobretudo por se terem interessado por ela e ela por eles, mas em momentos diferentes.
Já não havia paciência e como ela gostava de lhes dizer, consciente de que os chocava – “Não há cu que aguente esta conversa. Olha, desemerda-te e deixa-te disso” – virava costas e deixava-os a falar sózinhos, enquanto dizia a Blu – “Tou farta destes gajos. Vou-me embora. Tu se quiseres fica”.
Ele não gostava de a ver assim, nem de a ouvir a dizer isso porque era um homem certo, composto e muito respeitado. Umas vezes vinha com ela, iam para casa e ele recusava-se a fazer amor com ela assim – “Não estás em condições. Vai dormir! Falamos amanhã” – dizia-lhe, enfurecendo-a de morte.
Achava-se injustiçada e meia perdida, e quando isto acontecia tinha de andar pela cidade a pé, fossem 10 horas da noite ou quatro da manhã. Tinha de andar, senão sufocava naquele calor húmido a apelar aos sentidos, rejeitada e a sentir-se sózinha. E lá ia avenida fora até à marginal, ver o mar e ouvi-lo, para sentir que o mau momento era lavado pelas ondas. Ele ficava fulo, não suportava vê-la sair e perceber que, no dia seguinte, metade da ilha comentaria que ela estava de tal forma que andava pela cidade, muitas vezes a chorar e sem ver ninguém, depois de ter desatinado num lugar público. Até haver alguém que parava, para a ir buscar às escadas da Catedral onde estava sentada sózinha, de frente para a baía a chorar em silêncio.
Mas nas outras vezes em que ele achava que ela tinha ultrapassado o limite do possível, ou quando uma outra de quem ela não gostava, e que não gostava dela, chegava ao bar, ele decidia ficar e dizia-lhe, sabendo o transtorno que lhe causava “OK, vai andando para casa que eu ainda fico um bocado”. Sabia os ciúmes que lhe causava e ela, só lhe apetecia partir tudo. Mas em vez disso, saía e procurava quem tivesse umas folhinhas e as quisesse partilhar num final de noite, para uma troca de confidências, algumas lágrimas de incompreensão e solidão, e nada mais, apesar dele ficar sempre na dúvida. Ela sentia-se trocada. E havia de ser logo por aquelazinhas que não valiam um chavo. Mas ele também não, pensava ela, e sentia-se um pouco mais confortada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

O som das ondas

O som das ondas imita o sussurrar dos amantes que não o são, que tentam ser algo que não conseguem. Precisam de amor como de ar para respirar e vão, de tentativa em tentativa, na busca de uma entrega total, que nunca chega a ser porque não pode ser assim, não é esse o seu destino. Ao contrário dos amantes, a praia é e permanece numa conjugação perfeita de elementos que se entregam uns aos outros numa simbiose total, sem desafinações transmitindo a imagem da sintonia natural.

Estás confuso?

- Estás confuso? Como me podes dizer isso? Logo a mim?
- Tens de perceber que o mundo não gira à tua volta, tenho problemas que ultrapassam a relação que tenho contigo. Sinto-me confuso, percebes?
- Não. Não percebo porque não posso perceber. Tenho este aspecto, é verdade, mas burrinha burrinha não serei. Confusão foi a que me criaste, no final da primeira noite, quando chegámos à praia te disse que não queria mais, que queria parar e que para mim chegava porque quem ia ficar mal era eu. Lembras-te do que me disseste? Que querias continuar porque tudo podia acontecer. Agarraste-me, seduziste-me e amaste-me dentro de água como só tu sabes, sem problemas que alguém nos visse, fazendo-me acreditar que contigo tudo era possível. E lembras-te do que dizias na brincadeira depois de nos amarmos longamente numa troca de fluxos salgados? Que as peixas iam ficar grávidas de ti... E eu ria-me que nem uma perdida só de imaginar... Confusão foi onde me meti por te querer tanto, por te sentir, por te desejar, porque me davas prazer como nenhum até aqui. Porque contigo cheguei ao céu e visitei a lua quando estava cheia e luminosa. Porque contigo atingi níveis de prazer louco e quase alienado, ultrapassei os meus limites e quis ver todas as estrelas e constelações do hemisfério sul, que só tu me soubeste descrever. Porque só tu me possuíste sem barreiras ou negações, tal e como quiseste porque também eu queria. Quis ter tudo assim como tu. E agora vens-me falar em confusão??? Como? Como? COMO??
- Mas tens de perceber a minha situação, eu quero-te tanto... mas estou confuso, há muita coisa que pode ser posta em causa... quem te diz que eu não te quero?
- Importante? E eu? Qual é a importância que eu tenho? Hein? Queres-me? O que é que isso significa exactamente? Podes operacionalizar, por favor? Olha, estou cansada e nem consigo mais dizer o teu nome. Cansada de esperar, de querer, de te desejar e de me sentir só, ansiosa, angustiada, sempre a viver na incerteza do teu querer. Tás confuso? OK, quando te decidires avisa... mas até lá, deixa-me viver em paz! E reencontrar-me, depois de conseguir juntar os pedacinhos todos que ficaram partidos.

Tu não prestas...

Hoje estou contente comigo mesma. Resisti quando te vi. Eu valho muito mais do que tu. E mereço muito melhor. Tu não prestas, nunca prestaste, apesar de eu ter querido achar que sim. Resisti e vou resistir sempre a partir daqui, porque a primeira vez é a que custa mais. E olha, que com o calor que faz nos trópicos, resistir não é fácil. O desejo ultrapassa a vontade e tu tens a habilidade de mo criar. Mas hoje, demonstrei a mim mesma. Consigo ver-te, estar contigo e odiar-te, tanto que nem desejo sinto por ti. Tu não prestas...

A Primeira Pedra

De forma inexplicável aquele local permanece num calmo ponto de encontro, onde se acertam negócios, se discutem estratégias partidárias e se arranjam encontros amorosos, onde se vai para se ser visto, onde se “pica o ponto”, onde se passa uma boa tarde a ler, a ouvir o som do mar, a conversar ou a cuscar. Para tudo serve.
Todos se cumprimentam porque todos se conhecem, num sinal de cordialidade aparente mas, na verdade, profundamente falso. Parece ser um ritual, um hábito enraizado mas não sentido. São afáveis, sorridentes e aparentemente agradáveis, até para os que não conhecem e nunca viram. Mas após o primeiro contacto percebemos que a realidade é outra. Procuram tirar-nos a ficha, o mais completa possivel – origem, ligações familiares, estatuto socioeconómico, filiação partidária, actividade profissional, percurso académico, local, duração e objectivos da estadia, gostos e hobbies, conhecidos, amigos e principais inimigos... Como se tivessem alguma coisa que ver com isso. Mas a vida interior da maioria deles é tão pobre... para não dizer completamente vazia e desprovida de conteúdo. Não tem interesse e fazem da vida dos outros a causa das suas próprias existências.
Assustador, não?
Com base no que ficam a saber e nas fragilidades encontradas, tecem uma rede de estórias, com ditos e contos, relatos impossíveis de alguma vez terem acontecido. Contam e recontam, perguntam o que não sabem e passam a nossa primeira semana de estadia em investigações por conta própria, procurando saber um pouco mais, nem que seja um adjectivo que nos qualifique – preferencialmente pela negativa – para que o conteúdo das conversas, por mais simples que seja, sobre cada um de nós, ganhe forma e se torne em qualquer coisa de interessante, pela sordidez. Quem não tem muito para contar, ou sobre o que se falar, passa a ter.
Não é preciso muito, não é preciso quase nada. É preciso apenas chegar e ter qualquer coisa que se evidencie e marque pela diferença – a simplicidade, a beleza, a inteligência, a sedução, a simpatia, o à vontade, a postura aberta, a franqueza, a disponibilidade ou apenas por procurarmos ser nós próprios, sem camuflagens e refúgios. E, por não ser comum, torna-se interessante como tema de conversa e, nos subconscientes destas pobres almas, a diferença representa um risco.
Passamos a ser o alvo principal, o mais frágil, o mais fácil e o mais apetecível, pela simples razão que queremos conhecer, sem pensar na preversidade da mente humana fechada em ambientes pequenos, desenvolvendo-se em pensamentos circulares. Estrategicamente, há que aniquilar os novos para que se evidenciem apenas pelos traços negativos e condenáveis.
E estão todos de olhos postos em nós. Para quê? Para nos ver cair a primeira vez, pisar o risco, fazer a primeira asneira, mesmo que inócua. A partir daí, a fama está adquirida e é tudo muito mais fácil. Nem nos precisamos de esforçar para asneirar mais e mais. Não vale a pena, está tudo feito à partida. Por mais que façamos bem aos outros, haveremos sempre de ouvir a primeira história como se fosse regra. Ficamos marcados por um evento e se, por algum motivo, que só a nós diz respeito, reincidirmos... a “salvação” é impossível. Somos condenados torturados e queimados vivos, trucidados, destruídos, esquartejados. Não há nada a fazer, é assim e pronto.
A vontade que me deu foi transformar a asneira em banalidade e não liguei puto. Ou melhor, liguei, mas continuei na minha vidinha, nos meus disparates que só a mim diziam respeito, nas minhas loucuras pessoais, que não prejudicaram ninguém, e que me souberam como a Vida.
Foi uma experiência irrepetível, única, magnífica. Cresci como pessoa e percebi que não quero nunca ser como eles. Básicos, mentirosos, lineares, pobres de espírito, sem interesse, sem vida própria. Não vivem, limitam-se a vegetar por ali porque foi ali que foram parar e acomodaram-se por não conseguirem ser melhores. Mas se os pusessemos noutro lado, a postura seria a mesma porque ali só vão mesmo parar os que não prestam, aqueles que não conseguiram ir para outro lado, os falhados profissional, económica, social e afectivamente falando.
Esta é uma África que não é bem África, é uma mistura politicamente correcta e socialmente aceitável, onde todos representam um papel pré-definido. Mas, quem não cometeu erros? Quem é inimputável? Quem não se arrapende de nada? Esse seria o único com direito efectivo de atirar a primeira pedra. E por lá... não conheci nenhum com estas características. Mas todos falavam... do que era, do que não era, do que nunca tinha sido e até... do que viria a ser. Todos tiveram capacidades adivinhatórias brilhantes. Só por isso, valeu a pena. Leram-me o futuro e, como em tudo nesta vida, acertaram numas coisas e falharam outras.
Mas a terra não tem culpa, essa é magnificamente deslumbrante, misteriosa, sedutora, aliciante e acolhedora. A terra não teve culpa de seduzir os piores e de os reunir, criando o micro-cosmos da maledicência.

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

O tempo

Depois da tempestade vem a bonança. Hoje estou com o tempo. Acordei "nublada", passei a céu cinzento no final na manhã, mas depois do almoço fiquei "solarenga". O céu está agora azul claro com nuvens espaçadas, contrastando com o azul do mar, mais forte e definido. Assim estou eu, mais definida e determinada. Só chove para limpar o céu.

terça-feira, 31 de agosto de 2004

O passado reencontrado

Olá, "tu do meu passado", ainda bem que te encontro hoje e espero que por mais um pouco. Acompanha-me nos momentos de tristeza e de solidão. Diz-me que sim, que não partes ou desapareces uma vez mais, como se nunca tivesses existido e fosses apenas mais um dos meus fantasmas, dos meus receios imaginários ou dos meus sonhos.
Sim, fica, apenas por um instante, mas fica. Até eu já não chorar... E hoje, eu choro. Muito.

Aprender

O que é viver senão aprender a sermos melhores? No dia-a-dia, num contínuo e sem paragens, quando nem tempo, capacidade ou vontade temos para aprender a crescer devagar devagarinho. As vontades ficam-se por outros ritmos e gestos que não chegam a ser mais do que simples intenções. Não vale a pena, não é suficientemente importante para... Vontades sem capacidades, insuficientes, inacabadas porque não chegam a sê-lo nunca.

Grito de cansaço

Hoje apetece-me gritar. E para não o fazer, escrevo e repesco o que escrevi em momentos de tristeza, de angústia e de desilusão.
Quem não os teve? Todos já tiveram com certeza. Mas cada vez mais sinto que esses momentos são pesados, angustiantes e prolongados.
Estou cansada... mas por favor, não me perguntem porquê...

Renovação

A renovação é um processo profundamente assustador e intimidatório.
Alguém que conheci em tempos disse-me um dia – a mudança é telúrica – não me soou nada bem, mas tenho de admitir que ele tinha razão. Terá ele mudado? Ou terá ficado assustado com a perspectiva de mudar, intimidado com os resultados possíveis e conformado ao que sempre foi?
A propósito, será possível um adulto mudar?

Agosto 2004, Lisboa

Momentos de dúvida

Se me queres e se te quero, como te quero,
Porque não podemos
Querer,
Ficar,
Estar,
Amar,
Partilhar?
Porque temos de optar pela ausência
Intolerável,
Impenetrável,
Tão dolorosa?
A resposta é uma só – não me queres!

Iniciado em STP, 9 Maio 2003 e terminado hoje...

Angustiada

Sinto a pele a queimar de novo. Não de desejo mas de angústia. Acabei de te ouvir e percebi. Uma vez mais avanças e recuas. Estou cansada, desgastada, saturada. Algum dia te vais definir e perceber o que queres? Se queres...?!

Que ele esteja bem

E, de quando em vez, tinha necessidade de ter notícias dele.
Nunca mais o quis ver ou falar-lhe directamente.
Afinal ele tinha sido o causador de um longuíssimo sofrimento,
uma ferida que, ao fim de um bom par de anos, continuava por sarar.
Mas, apesar de orgulhosamente não reconhecer,
no seu intímo gostava de saber que ele estava bem ou que ia indo.
Isso era um bom sinal.
Significava que estava vivo e que a vida se encarregava de o ir transportando,
sabe-se lá por que caminhos.
Mas ele sobrevivia às intempéries e às tempestades, aos verões tórridos,
às emoções e às desilusões desta vida.
Tal como ela. Mas à distância.
Porque em proximidade, ela nem sequer pensava.
Bastava-lhe saber que a vida continuava.
E assim inconscientemente sentia-se mais confortada.
Ela não era má pessoa, muito pelo contrário.
Apesar do transtorno afectivo que ele lhe causara, desestruturando-a, não lhe desejava mal.
Ele que seguisse o seu caminho em paz e que lhe permitisse, de quando em vez, saber dele.
Que estava bem. E ela sentia-se confortada com isso.

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

À Noite no Passante

O Passante permanece placidamente sereno e tropical, enquanto como uma tosta mista e bebo uma coca cola, fugindo às recomendações, de que fosse sem gelo e sem limão. Mas com este calor uma coca cola sem gelo e limão saberia simplesmente a água choca açucarada, por isso que seja o que Deus quiser.
A minha frugal refeição é alegrada pela música que se vai fazendo ouvir, crioula e bem ritmada, misturando-se com o som das ondas a bater no paredão ao rebentarem.
“Yoyoyoyoyoyoyo... yoyoyááááááááá” vai-se ouvindo, intercalado por batidas quentes e apelativas, convidando para um kizomba bem colado. Mas àquela hora – do mosquito – não há pares que queiram dançar e mesmo que os houvesse, eu não dançaria. Não por não gostar mas... sei lá eu... A minha fraca experiência de vida diz-me para ser cautelosa nas escolhas e nas danças. Há quem diga que a dança é uma frustração sexual - uma tentativa de sexo com quem nunca se terá. E as danças africanas são exímias. Por isso... mesmo que me aparecesse à frente o maior dançarino do Mundo a ensinar passos novos, o sedutor mais irresistível com uma conversa desconhecida ou o amante mais prodigioso a propor-me o que mais me agrada... naquela altura, eu resistiria. Não por falta de vontade mas por medo de voltar a viver tudo outra vez. Tudo o que não foi bom...
As músicas que vou ouvindo falam da saudade sentida pelos amantes, apelando ao retorno, tal como as ondas, levando e trazendo água nova misturada com a velha, limpa e suja, sem que seja possível distingui-las, criando um mesclado de sentimentos e de colorações.
E eu... penso em ti, na forma como me entreguei, sem que o merecesses, sem que tivesses a capacidade de apreciar; na incompletude do que senti, nas emoções que ficaram por realizar; numa África tão diferente desta que se me apresenta ligeirinha, suave e adocicada, aquela que eu queria e não esta onde vim parar, por vontade própria, por medo de voltar à outra, onde tu estavas, e de te reencontrar. Vens-me ao pensamento a toda a hora. Que é de ti?
E eu, que nem gosto de coca cola, dou comigo a pensar no quanto esta bebida me soube bem – fresca e borbulhante – permitindo-me novas sensações, fazendo-me pensar na possibiliadde de renovação. Afinal já lá vai tanto tempo... e eu continuei presa a uma imagem, que já não sei mais se é real ou fictícia, mas tão negativa, que me fez tanto mal... E porquê???

Sabes o que te diria se te visse? Que venha o futuro, um futuro diferente do presente e do passado, pelo qual eu tanto anseio e que me dou ao luxo de pensar que mereço. Que me permita renascer numa nova África, esquecendo a antiga...
Na minha primeira viagem a São Tomé, 2000

O nosso ritual

Começou por ser nas noites de domingo, quando todos se recolhiam, cansados do dia de praia ou porque a moleza invadia os movimentos e o espírito não contrariava a vontade, após uma longa caminhada, que sózinhos cumpríamos o “nosso” ritual.
Sentiamo-nos bem assim. Ouviamos música, normalmente dos meus CDs, que com a minha partida herdaste, sendo as nossas faixas preferidas o She e o Honesty. E ouviamos repetidamente, sem nos cansarmos, porque qualquer uma tinha que ver connosco.
E ao som da música, nas noites quentes de domingo e para terminar o fim de semana em beleza, o ritual repetia-se - bebiamos chá e conversávamos.
Beber chá em África é uma prática magnífica. “Muito magífica mesmo”, como eu te diria acerca das coisas inesquecíveis. O chá que alimentou a ternura que surgia com um olhar, um desabafo e um sorriso. E de domingo, o ritual passou para outros dias da semana, em função da necessidade que sentiamos de uma carícia, de um abraço, de um segredo partilhado, de um miminho, de uma noite intensamente bem passada.
O ritual foi ganhando importância e fomos variando os chás em função do dia, do estado de espírito e da vontade, porque fomos também apurando os sentidos e entregando-nos, chá a chá, momento a momento, noite a noite. E assim aqueciamos as emoções.
Já era, só por si um ritual, a pergunta que, dependendo dos dias, eu ou tu faziamos – “Ofereces-me um chá?”. E o que queriamos era a voz, o reencontro do olhar quando nos sentiamos distantes, o toque intenso dos nossos dedos procurando-nos, fazendo-nos sentir presentes, o sabor quente das nossas bocas numa troca terna e envolvente, directa e profunda, doce e picante, tornando-nos únicos no Mundo.
E hoje, passadas tantas noites sem chá, sinto-te ainda presente. E tudo, por causa do ritual...

domingo, 29 de agosto de 2004

Amante experiente

Era com certezas de amante experiente que me dizias
- Sabemos como isto começou mas não sabemos como vai terminar... tudo é possível, tudo pode acontecer. Tudo, percebes?
Nunca medi bem as tuas palavras, mas hoje recordo-as sem parar. Só te posso dar razão e, se já te admirava, passei admirar-te ainda mais. O que me dizias revelava uma sabedoria adquirida pela experiência de vida que quase só os homens têm. E tu tinhas...
Agosto 2004

Lembranças da Lua Cheia

Lembras-te do luar na boca do inferno? E de como a lua estava cheia e redondinha, brilhante e colorida? Lembras-te da grande inspiração que nos levou a um ponto no céu, que só os eleitos conseguem alcançar? Lembras-te de termos dançado, ao som de uma música imaginária, passos por nós inventados, num jogo de sedução?
Atingimos um estado pleno de felicidade suprema, que nos chegou através do vento e protegida por fadas, duendes e gnomos...
Lembras-te do que sentimos e do que ouvimos? Todos os anjos, arcanjos e querubins estavam reunidos a brindar ao nosso amor e cantavam cânticos que só nós podíamos escutar.
A conjugação astral foi favorável e, depois de tantos encontros anteriores, vimo-nos com olhos de paixão desenfreada. Tão louca e tão dada... e os deuses festejaram connosco num eterno momento de felicidade conseguida. Para sempre, meu amor. E hoje, a ver a lua cheia, tão diferente daquela noite, lembro-me de ti, para sempre.
Lisboa, Agosto 2004

Quem és?

Quem és tu, que me apareces e me foges, que me queres, me recusas e te ausentas?

O Tempo em África

Enquanto lá estamos, temos a sensação que o tempo tende a parar – é quase um fait divers, mas eu senti-o, não foi ninguém que me contou. E apesar de tudo, hoje, que já lá não estou, mas tenho esperança de voltar logo que possa, parece-me que o tempo, que por lá passei, voou.
Os sentidos quedam-se na contemplação, porque tudo é um estímulo, quente, terno, doce, acolhedor e envolvente. A humidade colante reflecte-se nos corpos despidos e nas peles tórridas. O vento procura arrefecer o ambiente, “parece que vai chover... pode ser que alivie” – alguém diz, numa estranha combinação de conforto e de afrontamento e continua com um tom conhecedor e conformado, perante o desconforto dos novatos – “Faz parte, é o clima...”. E tudo a partir desta frase é explicado pelo clima. Boa justificação para qualquer manifestação dos sentidos, da mais pura à mais... extravagante.
As chuvas africanas, caracteristicamente tropicais – intensas e fugazes, como quase tudo o que se vive por lá – dão-nos a estranha sensação de quanto tudo pode ser contraditório, contrastante e temporário. Jà me tinham falado disto e já o sentira, mas noutros contextos, noutras Áfricas tão diferentes desta, e por outras razões. Mais dramáticas, confesso.
A verdade é que, nada permanece, apesar da mudança nos parecer sempre tão lenta. O tempo não passa... às vezes custa a passar... e nos dias maus então... sentimos o “leve-leve”, de forma pesada, e agravada pela dureza do clima. “A vida aqui não é fácil. Não há condições...”, acabo por constatar, com a sensação que o meu mundo não é aqui, que não pertenço a esta terra, mas que também não me sinto bem no sítio de onde vim. É estranho e contraditório. Sinto-me desenquadrada e preciso que me ajudem. Peço mas... todos parecem sorrir com o meu desacerto. Sinto a vida num rompante, a passar passando, devagar devagarinho.
À minha frente, no Passante – local de grande inspiração para a escrita – o mar verde, azul, cinzento, em função do tempo e dos estados de alma de quem o vê, denso e intenso, permanente na passagem, num ir e vir constante e renovado. Talvez por isso goste tanto deste sítio. O mar é como os meus olhos, muda de cor mas a intensidade permanece.
Esta é a melhor imagem que, algum dia, consegui ter, do ser, do estar e do ficar, saindo e passando.
STP, Dezembro 2001

sábado, 28 de agosto de 2004

Querer

Deixa ir, deixa estar, deixa ser... DEIXA!
Ficar e permancer, esquecer por querer. O princípio e o fim num só, como forças desiguais e desigualmente semelhantes.
Amo-te, quero-te, desejo-te. O teu corpo, a tua pele, o teu ser, tudo num só.
Angustias-me. Não te quero mais. Fazes-me mal. Sai. Quero ser eu sem ti, porque tu não me deixas ser como eu quero.
Quem se ama deixa-se ir, quando não nos quer. Não se prende e não se força.
Se um dia voltares a querer e, se eu ainda te quiser, voltaremos de novo a querer-nos.
Agosto 2004

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...