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O "Rei Amador"

Há quem não goste de ouvir falar na história (estória?) do “Rei Amador” por ter sido transformado em herói nacional. Representa um símbolo para o povo santomense e é um elemento reforçador de identidades. Há quem grite e barafuste que não é mais do que um produto colonial. Até pode ser, mas enquanto se vai acreditando que efectivamente existiu, algures no final do século XVI (1595), ganha-se a força que o dia-a-dia tantas vezes retira. O “Rei Amador” é como o Dom Sebastião português. É um símbolo de esperança no reencontro, a certeza que um dia, quem sabe e sabe-se lá quando, a mudança será possível. É um sinal de força e de luta, do reconhecimento das características culturais, da possibilidade de libertar todos os cativos só por se ter auto-proclamado Rei de todos os santomenses, o que nos tempos que correm significa um lutador pelos direitos dos mais desfavorecidos.

Em São Tomé e Príncipe foi comemorado o dia 4 de Janeiro, que virou feriado nacional, homenageada a mítica figura histórica (apesar de negado e contrariado por alguns historiadores ocidentais) e erguido um busto em sua honra. Mais, as comemorações decorreram precisamente nos jardins do Arquivo Histórico. Coincidência, ironia ou simplesmente a tentativa de readquirir um sentido e de reforçar a identidade nacional? O que importa? Para o magnífico arquipélago, este foi um acontecimento nacional e o que conta é a valorização cultural e a continuidade da autonomia, tal como para qualquer povo, qualquer que seja a sua origem e o seu passado histórico. A História faz-se do reconhecimento do passado e também das acções do presente, dos contos relatados e dos mitos revalorizados porque o futuro será também, um dia, História.  

Contra o que muitos colegas defendem, eu confesso que a valorização e a divulgação do mito do Rei Amador não só não me choca como até lhe reconheço mérito (o que me tem custado algumas discussões mais acesas). Do ponto de vista cultural, dá força e reunifica um povo que, cada vez mais do ponto de vista político, está dividido, quando só tem motivos para se unir.

Parabéns São Tomé e Príncipe e, por favor, não deixem que os mitos desapareçam porque são social e culturalmente importantes representações simbólicas!

 

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