Avançar para o conteúdo principal

Nada do que foi volta II

Talvez algumas coisas tivessem mesmo de ficar assim, sem retorno e sem regresso. Talvez fosse mesmo a lei da vida, ou como é que se chama às partidas pregadas pelo destino e feitas em desencontros. Por fim, naquele dia percebera que quando os sentimentos são unilineares perdem qualquer sentido e resultam em doença. E as doenças, a maioria pelo menos, cura-se. Não, Vera não se queria sentir doente de amor, essa é uma maleita que já não se usa. Amou-o, ama-o ainda e sente que talvez o venha sempre a amar, porque este é um sentimento que não se procura mas que, quanto se sente, não se confunde. Abel era o homem da vida de Vera, se é que isso existe. Podia nunca mais voltar a tê-lo, a sentir-se envolvida pelo abraço forte e pelos beijos ternos, pelo olhar carinhoso e pelos ralhetes preocupados, pelo cheiro intenso e reconfortante.
Mas uma coisa é certa, esta é a lembrança mais terna e mais saborosa que Vera tem dos homens. Abel é uma recordação que sabe a fruta de verão, carnuda e colorida, doce e sumarenta, refrescante e deliciosa num dia de calor. Talvez ele nem nela pense, mas os primeiros pensamentos de Vera são para ele e, muitas vezes, antes de adormecer, é o seu terno olhar que ela vê.

Mensagens populares deste blogue

Calulu de Galinha, Pato ou Porco

Este post é dedicado à Helena, uma variação do Calulu de Peixe. Proponho a versão de carne que na minha opinião é incomparavelmente melhor. Uma refeição para preparar com tempo e calma, "leve-leve só", para saborear na tranquilidade de uma boa companhia.Recebi agora mais uma informação interessante - na língua local, não se diz Calulu mas sim Cálu ou Kalu, pelo que o termo que utilizamos (e que sempre ouvi em STP) será uma africanização/aportuguesamento absolutamente desnecessária (Obrigada, amigo Alcídio).Receita de CALULU DE GALINHA, PATO OU PORCO, gentilmente cedida por D. Alcinda Lombá (e transmitida pelo Paco)Ingredientes
Galinha, ou pato ou carne de porco fumada);
Folhas (ponto, maquêquê, galo, ótage, olho de folha de goiabeira, quimi, margoso, mesquito, mússua, damina, matrussu, tartaruga...);
óleo de palma;
beringela;
quiabo;
cebola;
tomate;
pau de pimenta;
óssame;
fruta pão;
farinha de mandioca;
Modo de preparação
Picar as folhas todas e em pedaços pequenos (opcional moer ou ama…

O Tubarão de STP – I Parte

Depois de ter regressado a Lisboa, após a minha última incursão a São Tomé, não há dia em que não me lembre das maravilhas do arquipélago, das suas particularidades, as mais apelativas e as outras... que representam riscos, mas que, por essa mesma razão, têm também o seu “quê” de sedução.
O tubarão de São Tomé é uma dessas particularidades, à volta do qual se tecem considerações, se contam histórias e se criam mitos, a maioria sem certezas. Sempre ouvi falar muito acerca do tubarão e nem sei porquê, talvez por ser um animal pouco simpático, que não permite grandes contactos com o Homem e que, apesar de tudo, existe em grande quantidade por aquelas águas. A maioria revelava desconhecimento sobre tipos e quantidade, principais riscos e ameaças, número de ataques e praias onde aparecem mais frequentemente. Mas as conversas evidenciavam sobretudo medo e desconforto. Havia quem: tivesse terror de o encontrar; dissesse já o ter avistado numa passagem de ano no pontão do Marlin, que era inof…