Avançar para o conteúdo principal

A tradição já não é o que era

Considerações sobre uma ida ao cinema (ou OH TEMPO, VOLTA PARA TRÁS)

Os rituais também se transformam, mudam, alteram-se com o passar do tempo. É pena que, nem sempre, se consiga conciliar a modernidade com a tradição. E ir ao cinema já não é o que era, e é pena! Para mim, ir ao cinema é um ritual: a sala cheia de gente que decide sair do conforto da sua casa, mesmo nos dias de frio e temporal, para se sentar numa sala grande, escura, com um écran imenso onde são projectadas imagens que relatam uma história, que não é a nossa mas que, enquanto a presenciamos, temos a sensação que é. Pelo menos um bocadinho. É fantástico chegarmos a horas ao cinema e termos o privilégio de assistir a excertos de outros filmes, que estão ou estarão em breve disponíveis para os vivermos, e para os quais a nossa sensibilidade de aproxima mais ou menos, em função dos temas. E depois, o filme começa com a apresentação, acompanhado de música normalmente adequada ao que vamos ver, e recomeçamos a viver situações protagonizadas por certos actores. Vibramos, sentimos, sofremos, rimos, apaixonamo-nos e desiludimo-nos com eles, e sem nos darmos conta encaixamo-nos na história com uma grande facilidade. Ou costumávamos fazer isso quando a ida ao cinema era um ritual vivido e sentido.
Depois chegaram as pipocas, as coca-colas e outros consumíveis, permitidos e incentivados, por serem uma nova forma de rentabilizar a sessão. A tradicional tablete de chocolate, saborosa e silenciosa, foi substituída por barulhos incessantes, mastigados e sorvidos, acompanhados por mexidelas no balde. É verdade. Como se o cheiro nauseabundo não fosse, só por si, suficiente. Mas a modernice (não modernidade) fez com que o desrespeito aumentasse e passou a comentar-se o filme em voz alta, trocando-se impressões acerca dos actores e até da própria história, como se o realizador nos tivesse pedido. A nós não, a eles! Porque eu sou daquelas para quem o cinema é ainda um ritual, dou comigo, durante uma boa parte do filme, a fazer “shiuuuuuuu” para os vizinhos do lado e de trás. Pior um pouco, a banalização da troca de mensagens por telemóvel imperou e é comum sermos desconcentrados da história por um vizinho que recebe ou envia sms, fazendo emitir uma luz verde, laranja ou amarela, realçada pelo escuro. E ainda, para agravar, há quem já não se contente com o envio das tais mensagens, supostamente rápidas e eficazes, falando mesmo, conversando sobre o que se está a ver e onde se vai logo após o filme.
Parece inacreditável mas é verdade. Uma ida ao cinema pode chegar mesmo a ser uma aventura quando, no meio da excitação provocada por um sms recebido ou até por uma cena do filme, recebemos pontapés nas costas porque o espaço entre filas nunca chega a ser suficiente para que não sejamos incomodados e possamos integrar-nos no que estamos e queremos ver. Ir ao cinema não é fácil...

Mensagens populares deste blogue

Calulu de Galinha, Pato ou Porco

Este post é dedicado à Helena, uma variação do Calulu de Peixe. Proponho a versão de carne que na minha opinião é incomparavelmente melhor. Uma refeição para preparar com tempo e calma, "leve-leve só", para saborear na tranquilidade de uma boa companhia.Recebi agora mais uma informação interessante - na língua local, não se diz Calulu mas sim Cálu ou Kalu, pelo que o termo que utilizamos (e que sempre ouvi em STP) será uma africanização/aportuguesamento absolutamente desnecessária (Obrigada, amigo Alcídio).Receita de CALULU DE GALINHA, PATO OU PORCO, gentilmente cedida por D. Alcinda Lombá (e transmitida pelo Paco)Ingredientes
Galinha, ou pato ou carne de porco fumada);
Folhas (ponto, maquêquê, galo, ótage, olho de folha de goiabeira, quimi, margoso, mesquito, mússua, damina, matrussu, tartaruga...);
óleo de palma;
beringela;
quiabo;
cebola;
tomate;
pau de pimenta;
óssame;
fruta pão;
farinha de mandioca;
Modo de preparação
Picar as folhas todas e em pedaços pequenos (opcional moer ou ama…

O Tubarão de STP – I Parte

Depois de ter regressado a Lisboa, após a minha última incursão a São Tomé, não há dia em que não me lembre das maravilhas do arquipélago, das suas particularidades, as mais apelativas e as outras... que representam riscos, mas que, por essa mesma razão, têm também o seu “quê” de sedução.
O tubarão de São Tomé é uma dessas particularidades, à volta do qual se tecem considerações, se contam histórias e se criam mitos, a maioria sem certezas. Sempre ouvi falar muito acerca do tubarão e nem sei porquê, talvez por ser um animal pouco simpático, que não permite grandes contactos com o Homem e que, apesar de tudo, existe em grande quantidade por aquelas águas. A maioria revelava desconhecimento sobre tipos e quantidade, principais riscos e ameaças, número de ataques e praias onde aparecem mais frequentemente. Mas as conversas evidenciavam sobretudo medo e desconforto. Havia quem: tivesse terror de o encontrar; dissesse já o ter avistado numa passagem de ano no pontão do Marlin, que era inof…