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Conversas entre mulheres... solteiras

- Já pensaste porque é que combinas encontros e programas e, no fim, desmarcas? – perguntou, em tom de crítica, Alice a Beatriz quando esta lhe dissera que, mais uma vez, tinha desmarcado uma ida ao cinema porque estava frio e não lhe apetecia sair.
- Não, simplesmente não estava com disposição. Está frio, será isso assim tão estranho?
- O que é estranho é que ultimamente fazes isso repetidamente, sempre que tens alguma coisa combinada com um fulano. Isso só pode ter uma explicação... e fazia-te bem saires, ver gente, conversar e ser um bocadinho bajulada. Faz bem, não achas?
- Ah, não me venhas com as tretas das psicoterapias que tudo explicam, Alice. Está frio e simplesmente há dias em que não apetece sair da toca. Já pensaste que a maioria dos animais, que não efectuam migrações, hibernam? É como eu, já que não posso ir para o calor, refugio-me no conforto de casa. Olha, e já que falamos nisso, como tem passado a tua ausência de relação com o sexo masculino? Há quanto tempo não sais com ninguém?
- Não é disso que estamos a falar...
- É sim, é de mulheres solteiras que após os 35 anos não sentem, por uma infinidade de razões, a urgência de um encontro. Desiludiram-se algures, perderam a expectativa excessiva, a não ser quando estão verdadeiramente apaixonadas. E eu não estou. Mas principalmente não saem simplesmente porque tinham combinado. Desmarcam, quando não têm feeling. Não saem por obrigação, fazem-no quando querem e lhes apetece. E há dias em que apetece estar em casa, sentada sem fazer nada, a ver um suposto programa humorístico da treta, mas que faz rir, a ouvir a lenha a crepitar na lareira, a ler ou simplesmente a terminar um trabalho que ficou pendente. E fazer isso sem dar pelas horas passarem. Entendes o que sinto? Afinal, tu também sentes o mesmo...
- Hum... fez-te mal estar tanto tempo em África. Achas que lá viveste tanto que te desinteressaste da vida daqui, nada te serve e ninguém é adequado, já pensaste? Afinal África foi um engano para ti, iludiste-te e agora sentes-te frustrada porque não conseguiste chegar onde querias...
Beatriz sentiu uma súbita irritação pelo que acabara de ouvir. Alice era sua amiga há mais de uma década, mas desde que fora para África afastara-se e, cheia das certezas que temos sempre acerca da vida dos outros mas que em relação à nossa própria existência não fazem regra, achava-se no direito de fazer avaliações gratuitas. Como é que podia dizer aquilo daquela forma? Não querendo discutir com a amiga limitou-se a concluir:
- É verdade, em África vivi muito, coisas frustrantes mas outras muito compensadoras. Essa vida, por muitas mais que venha a viver, ninguém me tira. Acredita que se hoje sinto algum desconsolo, as vivências de África fizeram-me muito feliz. E hoje, tenho muito que recordar e as lembranças fazem-me sorrir, transmitem-me bons sentimentos. Se não tivesse lá estado não tinha sofrido, mas também não tinha amado e não tinha sido tão feliz quanto fui, em certa altura. Muitos são os que não se deram a ninguém e que também nunca sentiram a entrega. Eu senti as duas. Agora, desculpa Alice, mas esso é outro tema que nada tem que ver com a minha hibernação.

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