sábado, 25 de março de 2006

Guiné Bissau: Segunda Parte

A chegada a Bissau, após o segundo voo, fez-se de forma tranquila, se é que isso é possível depois do muito stress vivido no dia anterior. O ar estava mais limpo o que representava uma maior visibilidade, se bem que a poeira ainda permanecesse. O calor começou de imediato a fazer-se sentir e o meu dia estava longe de acabar. À chegada encontro um novo aeroporto, Osvaldo Vieira. Há que não esquecer que não ia à Guiné Bissau desde Abril de 1996, ou seja há 10 anos e a minha vontade de ver coisas novas ou melhoradas era muito grande. Costuma dizer-se que a esperança é a última a morrer e é bem verdade!

Depois de uma passagem na fronteira para carimbar o passaporte, com o inacreditável pedido de “uma ajuda” acompanhado de um sorriso, e da demora na recolha das bagagens, saímos e combinámos os procedimentos seguintes: trocar dinheiro; comprar um cartão de telemóvel de uma das redes locais, no caso Areeba por ser a que me disseram ter maior cobertura no norte; munir-me de águas suficientes para os dias que se aproximavam. A proposta foi partir naquele dia para o norte para que o trabalho não atrasasse e a mim a ideia não me pareceu nada descabida. Assim foi, mas antes quis fazer uma incursão pela cidade que há alguns anos atrás me acolheu.

A cidade estava suja, muito mesmo, e notei-a mais degradada, o que era naturalmente de esperar, tendo em conta que a reconstrução e a reabilitação patrimonial em África não são normalmente entendidas como prioridades. Notei que algumas estradas estão alcatroadas, fazendo um estranho contraste com outras, pela proximidade, muitas vezes ligando-se umas às outras. A explicação que me deram para esta situação, que me pareceu estranha, teve uma conotação política. Ora bolas, pensei cá para comigo, terá sempre de ser assim? Pois parece mesmo que sim. Infelizmente! Também o que foi em tempos o Palácio Presidencial, aquela área onde não se podia sequer passar, está hoje em ruínas, bem como o Mercado Central, onde se vendia artesanato, frutas e legumes, depois de ter ardido por completo, está encerrado evidenciando os sinais do incêndio. Hoje, na rua do Mercado, as mulheres vendem os seus produtos em bancas de madeira, fazendo pensar nas dificuldades com que irão certamente confrontar-se quando as chuvas começarem. E já não falta muito...

Depois, fui dar uma volta com um amigo que actualmente reside em Bissau, passeámos de carro pelas ruas da cidade para “matar saudades” e rever os “djugudi”, os abutres que por motivo nenhum abandonam este pequeno país, fazendo a sua ronda para conseguir alimento. E não são esquisitos nem sequer selectivos. Continuam a ser incómodos para quem os vê e não nutre particular simpatia, e além do mais representam uma população em crescimento. Vá-se lá saber porquê... Não, de facto esta não é uma imagem muito inspiradora mas, penso eu, terei de me habituar.

Depois de tomarmos o pequeno almoço num café para mim novo, porque antes não existia, fizemos uma incursão a pé por Bandim, aquele fantástico mercado onde se vende de tudo um pouco e que é um mundo dentro da capital. Percorremos as ruas mais estreitas e escuras, repletas de gente, e ele comprou música local, não em CDs, mas sim em cassetes, bem à maneira tradicional.

Em Bandim os cheiros estão mais intensos do que nunca, a sujidade acumula-se nas ruas e nos cantos porque além de tudo o que se vende, também se cozinha, lava e seca loiça. Ali há espaço para tudo. Há quem venda e quem compre, quem cozinha e quem come, quem dorme, quem brinca, quem namore e seduza, quem penteie e costure. Ali não há problema, a não ser que quem visita deve ter algum cuidado, talvez muito, com o que leva nos bolsos para que não saia de lá sem nada. Eu não me posso queixar porque, apesar dos infinitos avisos, a minha entrada, permanência e saída foram completamente pacíficas.

O almoço fez-se na Pensão Central, o espaço da D. Berta, também conhecida por “Avó Berta”, com a simpatia que lhe conheci há 10 anos atrás, acolheu-nos tão bem como sempre na companhia do seu fiel cão que por sinal está muito mais calmo e menos refilão do que já foi em mais novo. O restaurante continua igual ao que sempre foi e ali senti-me tranquila, talvez pelo sorriso e as palavras doces dela, ou pela comida, ou ainda por ser domingo e a cidade estar quase deserta.

Com o fim do almoço a partida para o norte tornava-se necessária: a estrada é degradada, maioritariamente numa picada marcada pelos acidentes do relevo, pelo movimento de outros veículos e pelos factores naturais. Não me podia atrasar porque ainda tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de caminho. Mais para mais do que para menos. E lá fomos, eu e o motorista que me acompanharia no trabalho de campo, homem pouco conversador e muito menos sorridente, que não gostava de perguntas e evitava as respostas.

(continua)

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...