quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Pindo Doce ou irritação galopante

Ir ao Pingo Doce, leia-se supermercado, é uma tarefa que se tem revelado insuportável de dia para dia. Talvez por isso tenha optado por fazer compras noutros locais e raríssimas vezes me vejo na contingência de, muito contrariada, passar pelas portas de vidro, dirigir-me a uma prateleira e de seguida à caixa. Ainda em 2006 foi a inovação dos sacos de plástico: pois independentemente do que trouxermos, mesmo que sejam todos os produtos expostos nas prateleiras temos de comprar os saquinhos de plástico. A administração do supermercado entendeu que os clientes não são merecedores sequer de um invólucro de papel para transportar as compras, o que na maior parte das vezes seria bastante adequado e mais ecológico. Por tudo isto das três uma: são precavidos e fazem-se acompanhar de saco; trazem as compras na mão; resolvem-se a gastar 2 cêntimos por saco. Quando lá vou, diga-se que raríssimas vezes, venho com as compras na mão porque me recuso a pagar sacos de plástico.

Hoje foi umas das raras vezes em que no final do dia lá fui absolutamente contrariada. Mais contrariada fiquei quando, tendo um saco de laranjas na mão e estando a olhar com ar desolado para o pão, dou com um segurança a espreitar-me. O homem, mal encarado ainda por cima, estava literalmente a olhar para mim. Primeiro desviei o olhar pois se ele é segurança tem por função vigiar. Ou isso é mais um vigilante...?! Mas depois nem queria acreditar no que a minha percepção me dizia. O homem seguiu-me dentro do supermercado... saí da bancada do pão porque não havia nenhum com ar apetitoso a pedir “leva-me contigo e come-me ao jantar” e dirigi-me a outra bancada, menos sugestiva ainda, onde havia pão pré embalado. E lá estava o homem a espreitar no final do corredor e a olhar para mim. Fiquei louca de irritação e só tive vontade de lhe ir perguntar se por acaso estava com o cabelo verde, com a roupa vestida ao contrário ou, se por algum acaso do destino, ele quereria alguma coisa. Mas contive-me! Afinal até estava bem disposta porque tinha acabado de sair do oftalmologista com quem tinha estado em grande e animada conversa sobre a Guiné Bissau e Guiledge, onde ele esteve aquartelado e local que visitarei em breve. Além do mais ele deu-me excelentes notícias já que está tudo ok com os meus olhos.

No meio de tudo isto e da irritação que o homem me provocou, veio-me à memória um célebre dia de Novembro, já lá vão uns bons anitos, em que fui comprar dois pacotes de leite e dois pacotes de bolachas a um supermercado perto de casa e o gerente, quando eu pagava a conta, a módica quantia de 814$00, ainda me recordo como se fosse hoje, me tira literalmente a mala e começa a remexer em todos os meus bens dizendo que alguém me tinha visto a roubar. Foi de tal forma que o pus e tribunal e ganhei, como é óbvio. É que roubar não faz propriamente o meu género muito menos em supermercados. Mas hoje, ao olhar aquele homenzinho fardado, com cara de poder e sem qualquer tipo de graça mas convencido que é o Todo Poderoso do supermercado, pensei que os meus 18-20 anos cheios de impulsividade e reacções pouco contidas já lá vão e que, se o interpelasse e a conversa entortasse, o resultado ia ser bem desagradável. Não valia o esforço e causar-me-ia maior irritação ainda.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...