sexta-feira, 6 de maio de 2005

Os contadores de histórias em STP

Ivo Ferreira e os Contadores de Histórias em STP

"Os narradores orais, contadores de histórias como também lhes chamam, são os guardadores dos tesouros da narração oral, histórias que passam de geração em geração. O realizador Ivo M. Ferreira foi encontrá-los em São Tomé e Príncipe e na bagagem trouxe memórias para dois documentários que a Cena Lusófona lança em Setembro em DVD: “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” e “À Procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé”. Em 2001, a Cena Lusófona lançou o projecto de identificar e documentar a presença e as performances dos narradores orais nos países de língua oficial portuguesa. O primeiro realizador a ser desafiado, para registar a tradição oral de São Tomé e Príncipe, foi Ivo M. Ferreira: “Quando o projecto me foi proposto eu disse que precisava de material. Foi aí que percebi que há uma lacuna muito grande de dados em relação a esta realidade e, especificamente, a São Tomé e Príncipe”. Mesmo sem as informações de que necessitava para iniciar as filmagens, partiu para a ilha do Príncipe, sem ter a certeza se regressaria com registos para apresentar. Na opinião de Ivo M. Ferreira, este primeiro trabalho, a que deu o nome de “Narradores Orais da Ilha do Príncipe”, reflecte um pouco a superficialidade de quem desconhece o universo que o espera. “Eu andei à procura deles, sempre a perguntar se alguém sabia quem contava histórias por ali”. Também ignorava as circunstâncias, quando são contadas as histórias. Isso ocorre, sabe-o hoje, na maioria das vezes quando alguém morre ou em datas de evocação de um falecimento. As pessoas reúnem-se numa casa ou num quintal e, ao longo da noite, há indivíduos “contratados” ou que aparecem a contar histórias. Filmar estes momentos poderia ter sido pouco natural, devido à presença da câmara, mas, segundo o realizador, depois de algumas horas de convívio e da desmistificação dos objectos de filmagem, público e contadores acabaram por agir naturalmente. Um dos aspectos mais ingratos na realização foi não conseguir captar as histórias, a não ser após tradução resumida. No entanto, para entender o lado performativo do contador e a forma como o fazia, Ivo Ferreira nunca precisou de tradutor. E conseguiu até intuir, através de gestos e posturas, quais os genuínos narradores orais, embora, na sua opinião, os sãotomenses sejam todos naturalmente teatrais: "Utilizam gestos e expressões que tornam o universo da oralidade num ambiente místico e encantatório que deslumbra qualquer ouvinte". “À procura de Sabino e outros contadores de São Tomé” é o resultado de uma segunda viagem do realizador ao mundo abordado no seu documentário anterior. Desta vez programou centrar-se mais na vida de um contador, acompanhá-lo no seu quotidiano, tentar perceber o que o levava a contar histórias. E surgiu um nome, alguém que as pessoas diziam ser um grande contador: Sabino. “Pensei, tenho de o encontrar. Ele simbolizava, por um lado, a resistência (embora fosse muito velho continuava a contar histórias), mas, por outro lado, simbolizava a inevitabilidade do fim desta tradição". Através de Sabino, percebeu, estava a contar a própria realidade do país. "Procurei-o. Fiz milhares de quilómetros naquela ilha cheia de buracos, matos e rios, dentro de um jipe. A certa altura comecei a filmar a própria procura do Sabino”. Para Ivo M. Ferreira, este documentário não significou só o registo dos narradores orais da ilha, suas histórias, mas também a dificuldade de os encontrar. Mesmo assim lamenta que num documentário deste tipo não exista espaço para ir um pouco mais longe em relação ao contador, conhecer mais acerca dele, das suas histórias. No decorrer do trabalho de campo, encontrou Caustrino Alcântara, pessoa esclarecida e sabedora que finalmente lhe conseguiu explicar todo o conceito que envolvia este universo da tradição oral, incluindo os vários tipos de histórias em activo. Alguém que, na opinião do realizador, conserva actualmente o maior espólio de histórias sãotomenses. Apesar de sentir que estes documentários podem ser algo muito efémero, no que respeita à identificação dos contadores, Ivo M. Ferreira acredita que tanto “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” como “À procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé” são pelo menos uma singela homenagem a estes zeladores de histórias. E de sonhos. A Cena Lusófona vai editar em DVD, em Setembro, “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” e “À procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé”. Neste DVD, que engloba os dois documentários de Ivo M. Ferreira, legendados em português, francês e inglês, podem também ser visionadas entrevistas com os principais intervenientes do Projecto Narradores Orais. Outras iniciativas editoriais estão em marcha. Ainda este ano, vai ser iniciada uma pesquisa sobre os narradores orais em Cabo Verde (a cargo de Catarina Alves Costa) e na Guiné-Bissau."

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...