terça-feira, 30 de novembro de 2004

Explicações sobre os objectivos da conquista - recurso a analogias

Conversava com um amigo de sempre, num dos dias de angústia emocional e cepticismo afectivo-relacional, um dos poucos homens sobre os quais posso dizer que na sua presença me sinto assexuada, já que não nos despertamos o mínimo interesse sexual, nem sequer emotivo. Confiamos totalmente um no outro, falamos acerca de tudo sem problemas de nos sentirmos avaliados ou de sermos criticados. Somos confidentes e conselheiros.
- Afinal diz-me, o que quer um homem que se esforça, de forma quase sobrehumana, para conquistar uma mulher, largando-a de seguida? Não a quer verdadeiramente ou desinteressou-se simplesmente? Ou...? - perguntei-lhe
- Há de tudo, minha linda. Um homem é um caçador nato. Pensa que desde sempre, e nos mais diversos contextos, o homem sente necessidade de capturar presas e, quanto mais dificeis mais apetecíveis...
- Uma presa? Dizes que um homem olha para mim como se fosse uma peça de caça? Só isso??? - indaguei incrédula, desiludida e profundamente desagradada com a analogia
-
Não te choques nem fiques triste. Se perceberes como os homens sentem, talvez seja tudo menos difícil. Tenta ouvir-me com calma. O objectivo de um homem quando vai à caça não é normalmente encher o frigorífico para se alimentar durante o ano. O gozo está na dificuldade em identificar a presa, no esforço e na luta, na estratégia e na perspicácia. Uma vez conseguida e capturada, o interesse esmorece e a preocupação é encontrar outra, definir nova estratégia, conseguir nova captura. O animal caçado serve-lhe sobretudo como troféu, para mostrar aos outros a beleza do exemplar, comprovando as suas capacidades de caçador e essas percebem-se pelo número de animais caçados. Já pensaste o trabalho que dá, depois da caçada, arranjar os animais e cozinhá-los?
- Mas isso é tão básico, primário, primitivo. E os sentimentos verdadeiros onde ficam?
- Olha, és tu que gostas de ir à pesca com amigos, não és? Pois bem, qual é o prazer da pesca? Não o teu, que nem cana tens, mas dos teus amigos que pescam?
- A possibilidade de estarem ao ar livre, junto ao mar, a contemplar, a conversar...
- Contemplar o mar, colocar a minhoca, lançar a cana e aguardar. O prazer está na expectativa que se cria durante a espera, até se saber se o peixe morde. Quando morde, queres saber se vem peixe ou algas, se for peixe, se é grande ou pequeno, bom para comer ou para devolver ao mar... Mas quando morde e o retiras, o interesse passou porque a tarefa foi concluída. Voltas a colocar nova minhoca, a lançar a cana e a aguardar. Para quê? Para pescares mais um, e outro e ainda outro.
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Mas essa é uma imagem terrível. Sinto-me comparada a uma galinhola ou a um sargo. Na melhor das hipóteses a uma perdiz ou a um linguado, mas na maioria das vezes a uma tainha, pequena e sem graça, que foi atrás do isco e ficou presa no anzol...
- É isso mesmo, vês como percebeste? É preciso aprenderes que podes ser tu a ludibriar o pescador ou o caçador. Passas à frente deles sem seres apanhada ou ficares presa no anzol porque sabes distinguir.
- Mas isso não é amor, não há sentimento nem afecto, nem paixão...
- Pois não. Na conquista não há sentimento, só emoção. Os afectos podem surgir depois, desde que haja vontade, dedicação e esforço mútuo com entrega. Mas não te confundas, quando um homem sentir amor por ti, tu vais perceber que, com ele, não é mais uma conquista e que tu não és, para ele, mais um troféu de caça ou de pesca porque representas mais do que um simples exemplar.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...