terça-feira, 7 de setembro de 2004

O erro de Shine - Bad Guy

O Maior erro de Shine foram as confidências feitas a Bad Guy, em dias maus. Contou-lhe os medos que sentia, as angústias que lhe passavam pela alma, os desejos mais profundos e os sentimentos que nutria por uma ou outra pessoa. Falou-lhe das noites de desespero, chorou na sua presença em noites de tristeza ou de incompreensão, riu muito com os disparates que ele lhe dizia, aparentemente sentidos, sabendo o efeito que provocava: incredulidade e choque.
Shine quis acreditar na simpatia e amizade aparente que Bad Guy demonstrava sentir por ela e, por isso, confiou-lhe uma parte de si, sem receio das reacções dele ou que viesse a utilizar o que ia ouvindo, em tom de confissão, que só se tem com os amigos verdadeiros. E esquecia-se de quanto aquela terra era pequena. Afinal, a amizade só se consegue com o tempo e, se ela fosse uma pessoa desconfiada como diziam, nunca teria permitido que Bad Guy e outros que tais se tivessem aproximado dela, fazendo-se passar por seus amigos. De repente, a vida de Shine, que a considerava desinteressante, foi transformada numa telenovela passada em horário nobre.
Mas, na verdade, Bad Guy não era exactamente o que aparentava a Shine. Por ser um homem emocionalmente frustrado e sexualmente insatisfeito, fazia da vida dos outros o principal tema que ocupava os seus pensamentos, o argumento predilecto para uma conversa de café ou um serão, acabando por arranjar estrategemas, com os quais se divertia, sempre que o alvo caía.
Bad Guy era amigo de Smile e não gostava da maioria das pessoas que por lá passavam, referindo-se a elas como “aquele/a inteligente”. Isso deixava-a profundamente irritada.
- Como se Bad Guy fosse muito inteligente e todos os outros não fossem ninguém – pensava ela – afinal se fosse tão perfeito não magoava os outros, seria sensível, delicado, bem educado, respeitador, e sobretudo feliz. Mas não... os defeitos que vê nos outros são o reflexo do que ele é.
E como ele era naturalmente maldizente, ela procurava dar-lhe o desconto e não ligar. Desde que o conhecia, Bad Guy contava histórias acerca de toda a gente, cheias de pormenores realistas, não esquecendo as ligações que se podiam estabelecer. O que Shine não contava era que ele fizesse isso com ela também.
Ele era uma das pessoas mais conhecida na ilha e, no início, Shine olhou para ele como sendo bem relacionado, disponível e pronto a ajudar, amável, se bem que um pouco estranho. Havia algumas reacções nele que inexplicavelmente não lhe transmitiam muita confiança, mas Shine pensou que a sua maneira de ser estava a actuar de novo. Afinal ele estava a ser tão simpático com ela, porque haveria de estar a ser desconfiada? Convidava-a para um café, almoçar e jantar, ia ter com ela para a levar à praia ou à discoteca local, era um óptimo conversador e tinha uma forma de estar que a fazia rir muitas vezes.
Ele não era minimamente atraente e ela nunca notara qualquer indício que a fizesse pensar que ele queria algo dela, além de uma boa conversa e de um pouco de companhia. Blu sempre achara que Bad Guy se apaixonara, sem sucesso, por Shine, que o tratava como um simples amigo, rindo-se do que ele dizia, fazendo-lhe confidências ou pedindo opiniões sobre os seus casos amorosos, e não podia sequer compreender como ela se continuava a dar com ele, depois das coisas que lhe dizia e da forma como reagia, sobretudo em círculos sociais. Quanto mais gente estivesse presente mais agressivas eram as reacções dele para com ela, sem motivo aparente.
Bad Guy era um solitário, apesar de ter tido casamentos mal sucedidos, que assim resultaram pelo seu egoísmo galopante associado à tendência reconhecida para o perfeccionismo. Ninguém o satisfazia plenamente: ele próprio era uma imperfeição, física, psicológica e emocional e vasculhava os defeitos dos outros como forma de expiar os seus.
- A melhor arma é o ataque – dizia-lhe Blu sempre que Shine se queixava das estranhas reacções de Bad Guy quando os via juntos. Ele não geria facilmente a solidão em que vivia e refugiava-se nos enredos alheios, que lhe davam o entusiasmo e a vida que ele não tinha por impossibilidade e incapacidade.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...