sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Feliz Natal



É um desejo de todos que o Natal seja uma época feliz. É o dever de cada um de nós contribuir para que esta época seja apenas um símbolo de alegria, harmonia e paz, que possa ser vivida durante todo o ano. Feliz Natal e que 2016 seja um ano de esperança e de alegria continuada.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Talvez fosse da tristeza...

De repente tomou consciência que se sentia triste sempre que lhe apetecia escrever. Uma tristeza justificada, com causa e motivo concreto, bem definido e identificado. Talvez a tristeza fosse a sua principal fonte de inspiração. Talvez por isso as suas palavras estivessem banhadas de lágrimas, ora contidas, ora corridas, cheias e salgadas. Quanto mais longe da infância maior o sentimento de fragilidade que a assolava. Sentia-se sensível e tão vulnerável quanto uma canoa de único remador em pleno mar alto num dia de tempestade agravado por ventos ciclónicos. Perdia auto-estima com facilidade e estava cada vez mais necessitada de reforço acolhedor e reconfortante. Quando não o sentia, por via de um olhar, de uma palavra amiga ou de um abraço forte e aconchegante, acabava por se refugiar em si mesma, no caderno e na caneta porque as palavras eram genuínas e as linhas onde escrevinhava não a julgavam nem atraiçoavam.

Era à noite que mais escrevia e também era durante a noite que a tristeza a visitava com mais regularidade e intensidade. Talvez ninguém compreendesse estes estados de alma tão tardios que a levavam a ficar noites sem dormir escrevendo sem parar. Talvez ela não se importasse com isso. Ou talvez se apercebesse da indiferença e calada se contivesse de outras formas de expressão...

A tristeza é um sentimento desconcertante porque tão verdadeiro quanto intolerável mas sabia que com ele se sentia segura porque nunca a abandonava. A noite era boa conselheira porque longa e, por vezes, interminável. Tinha início e meio mas o fim parecia não querer chegar. Talvez até, por vezes, lhe faltasse a paciência e a capacidade para gerir a tristeza e talvez fosse por isso que pegava na caneta e no caderno, que já tinha poucas linhas vazias, e dava azo à liberdade de pensamento deixando a tinta desenhar letras conexas que relatavam um pouco do que sentia... Talvez fosse da tristeza...

São Tomé, 10 de Setembro de 2014 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Visita apressada

É em dias de calor como o de ontem, o de hoje e, muito provavelmente, o de amanhã que o meu pensamento é invadido por lembranças e o meu inconsciente viaja. Momentos recordados da terra e das gentes, dos sorrisos e das interjeições gritadas em som estridente num misto de espanto e diversão, das praias, das paisagens, dos trilhos e das caminhadas, da crueza de algumas coisas e da intensidade das emoções de muitas outras.
O calor abafado pela  humidade não me deixa respirar, estimula os sentidos e rouba a força às pernas dando-me a sensação que o chão desliza para níveis inferiores e os meus pés escorregam como se tentasse caminhar sobre as águas rápidas de um ribeiro.
É particularmente em dias como o de hoje que a minha África regressa e me visita, envolta numa neblina difusa. A visualização dos momentos vividos fica turva pela rapidez dos flashes que iluminam a minha memória mas, à medida que as imagens sucedem e se conjugam, o regresso torna-se mais nítido e aí está ela, que chega até mim num ápice como se me fizesse uma visita apressada.

Lisboa, 27 de Maio de 2015

domingo, 31 de maio de 2015

Quase meio século...

Em algumas alturas do ano dou comigo a pensar que o tempo passa depressa, rápido de mais! Já lá vai quase meio século e tanta coisa há por fazer, muito para ver, tanto por viver. Quase meio século... mais do que uma geração, uma vida. E apesar de tudo não sinto ainda o peso dos anos. That's a good new... 
É também nestas alturas que me dá para ir "procurar" por algumas pessoas que fizeram parte do meu passado e de quem me deixei perder porque não me quis fixar ou porque não valiam mesmo o esforço da fixação. Alguns daqueles de quem perdi o rasto e com quem o encontro foi afinal um mero acaso. E é nestas minhas pesquisas que confirmo, uma e outra vez, que fiz bem em seguir com a vida adiante por outro caminho porque o que trilham está minado e a todo o momento pode explodir. E percebo que estes pouco ou nada mudaram porque permanecem resistentes, apesar da vida os tentar ensinar e lhes ir demonstrando que há melhores formas de vida. Meio século de aprendizagens... quase... meio século... e tanto ainda para aprender e por viver... esta é, de facto, a boa notícia... Venha mais outro "quase" meio século! Por hoje... that's MY DAY!

terça-feira, 26 de maio de 2015

África...

África, 
és terra doce, terna, quente e envolvente.
Com os teus cheiros intensos
emanas sensualidade.
Nos corpos ondulantes dos que te habitam, 
ao som de ritmos compassados com requebros,
crias desejo de simbiose e união.
Os teus paladares exóticos transformam vontades
e da indiferença fazes vida ardente.
És terra de duras experiências,
de contrastes aquecidos pelo sol e aliviados pelas chuvas,
onde se aprende a ser, a estar e a viver
com os sentidos tão expostos quanto receptivos.
África, tu és emoção e paixão...

comemorando o Dia de África com 1 dia de atraso

Lisboa, 26 de Maio de 2015

sábado, 11 de abril de 2015

Reflexões sobre a organização

- O que quer dizer 'organizar' quando falamos sobre pessoas? - esta era uma pergunta que, de dia para dia, vinha ter comigo com maior rapidez, frequência e intensidade.
- Podemos organizar ideias, papéis, roupas, salas, secretárias, armários e gavetas, agendas e tarefas. Mas pessoas...?! - pensava...

Há alguns - muitos - anos atrás era habitual utilizar a expressão 'organiza-te', tanto para algumas pessoas, e fazia-o com um sorriso nos lábios, como para mim mesma, e neste caso a voz rouca da minha consciência crítica sussurava ao ouvido para ter a certeza que a escutava e entendia: "tens de te organizar...!". Hoje sei que essa voz aparecia sempre que o meu coração balançava para esferas pouco seguras mas prazerosas. Em boa verdade, a expressão era escutada por mim sempre que alguém me tentava desorganizar... ou seria mesmo eu que me deixava desorganizar... e, no meu subconsciente, representava a necessidade de sentir a brisa fresca do Outono em paragens onde o Verão não tinha início nem fim. Sabia que tinha de ganhar consciência de que a vida requer sempre um pouco de ordem, alguma organização quase sistemática e metódica, rigor qb no comportamento e critério na atitude. Não, não é fácil sobretudo quando o momento resulta de vivências intensas e sentidas. Houve alturas em que sabia que era fundamental pôr os pontos nos is e viver mais pela razão do que pela emoção porque a razão é organização e a emoção o seu contrário. Criar o equilíbrio parecia periclitante e pouco lógico...

Hoje a organização faz parte da minha vida, aliás passou a ocupar um espaço cada vez maior à medida que me fui afastando dos núcleos da desorganização.
Mas o que pensar de pessoas profundamente desorganizadas, impreparadas e descentradas do essencial mas que se julgam o supra-sumo da organização? Pessoas que circulam cirandando, que andam como se dançassem num baile de máscaras. Pessoas que se comportam como se a vida fosse um 'show off' permanente e estivessem em cima de um palco em representações imparáveis. Pessoas que criam uma imagem, tão suspensa quanto superficial, apenas assente na capacidade de organização alheia. Pessoas que vivem de forma aligeirada e esvoaçante, sem base e fundamento mas que se auto-intitulam descobridores do crepúsculo. É cansativo, desgastante e exasperante porque chega a ser lunático. Tenho a sensação de que por momentos, horas ou dias, os meus pés se descolam do chão e o meu corpo levita sobrevoando o mundo real. Só que nem sempre estou no meio de um sonho...


em São Tomé, 10 de Setembro de 2014


quinta-feira, 9 de abril de 2015

No back up da memória...



Tudo o que foi vivido ficou memorizado, momento após momento, como se de fotografias virtuais se tratasse. Sempre que necessário basta recuperar o ficheiro no back up da memória, seleccioná-lo, visualizar a imagem e... o sorriso regressa com o efeito de um clique.

Após o regresso, Outubro 2014

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Diálogo com a Terra em hora de despedida

Ao partir bate uma saudade impossível de descrever. Os minutos passaram com a rapidez de um relógio de tempo apesar de ficar com a ideia de que os ponteiros não andavam. Agora, ao avaliar o que vivi, percebo que os segundos esticaram em minutos e as horas em dias. Um dia ganhou a dimensão de uma semana e um mês de um ano. Ao partir, sei que o regresso urgirá. Mais tempo menos tempo voltarei porque a saudade surge de repente e de forma apertada. É difícil explicar a quem quer que seja que não tenha vivido a mesma experiência e arrisco até passar por louca desvairada e incontida... 
Ao espreitar pela janela inicio um diálogo tão silencioso quanto emotivo. A Terra diz-me com a tristeza no olhar:
- Não partas, não vás, não me deixes para trás, aqui no meio do mar sem poder acompanhar-te.
- Não me partas o coração... tenho de seguir viagem porque a vida aguarda-me do outro lado... - respondo num tom sumido.
- Se tens de partir... promete-me que regressas uma e outra vez... não ficarei igual sem ti...
Com um aperto no coração, os sentidos inebriados e os olhos alagados de lágrimas contidas que antecipam a despedida acabo por lhe dizer:
- Não te abandono jamais. Fazes parte de mim e eu de ti. És a minha Terra e eu serei sempre tua. Onde quer que eu esteja, por onde quer que eu ande, estarás no meu pensamento e preenches o meu coração. Da distância faz-se perto. Quando a solidão se fizer sentir e a vontade de regressar apertar, mesmo que não possa vir a correr ou a voar, fecharei os olhos e rapidamente nos reencontramos... Tu reinventaste em mim a capacidade de sonhar e de acreditar que entre o sonho e o feito há apenas um pulinho...
E subindo com o céu no horizonte olho uma vez mais para a Terra, fixo-a e sorrio. Ali está e fica uma parte de mim e comigo trago, para sempre, uma parte dela.

São Tomé, Abril de 2014


terça-feira, 7 de abril de 2015

Coisas da terra...


O desassossego é grande pela sensação de que uma parte do que poderia vir a ser ficou na incerteza da incompletude, nas reticências de um texto não escrito, numa pintura idealizada mas não pincelada na tela... O coração contém-se e depois esvazia-se. Anseia, angustia, quase desespera e desvanece ao pressentir que o que poderia ter sido jamais será... E esse é o maior dos desassossegos...


Algures em 2014. Em nenhures de parte nenhuma...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Sobre a arte de viajar... ou com a viagem no pensamento


Preparar uma viagem que se idealizou requer uma preparação cuidada e sistemática. Sempre e inevitavelmente. A viagem é um momento assumido com seriedade e gerido com rigor; é uma empreitada importante que liga expectativas e realizações através de uma linha à qual damos o nome de vivências. E, em tempo de viagem, o desejo é que as experiências vividas sejam únicas e inesquecíveis porque sabemos que serão certamente irrepetíveis. A água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte e a viagem que se empreende é vivida apenas uma vez, jamais se repete da mesma forma. Olhar para o interior de nós mesmo é o primeiro passo para que a viagem corra de acordo com o desejado. Fazer a revisão do que vivemos antes e das experiências anteriores é um exercício prévio que ajuda a reduzir as possibilidades de insucesso ou de frustração, sobretudo se o destino for visitado por repetição. Preparar a viagem não é apenas uma questão de agendamento, implica pesquisa, consulta, leitura, recolha de elementos facilitadores como mapas, endereços e telefones. A viagem começa muito antes de fazer a mala e partir, é uma vivência sentida, interiorizada e esperada que também tem continuidade para além do regresso ao se tornar presente através das histórias eternizadas, das fotografias revisitadas e partilhadas e das emoções relembradas.

em 18 de Agosto de 2014, a preparar nova incursão a São Tomé, sem o Príncipe

quarta-feira, 18 de março de 2015

Sei que um dia...

Sei que um dia vou voltar. Não, não me perguntem quando porque não consigo alcançar essa resposta. Nem para mim mesma... mas sei que um dia o regresso se vai tornar tão urgente que, talvez sem dar conta, faço a mala e parto. Há de ser um chamamento. Há de revelar-se uma emergência que nem eu própria compreenderei. Há de resultar em inevitabilidade, tal como antes aconteceu. 

Há lugares assim que são para nós tão evidentemente naturais e próximos quanto a essência da vida. Não é ainda o momento, sei disso, e também sei que talvez demore uma eternidade. Sei, porque já aprendi, que, em muitas circunstâncias, é preciso aguardar com a tranquilidade sábia de um mestre. E eu sou ainda uma aprendiz no misterioso percurso da vida, que aceitou que não adianta forçar a antecipação e que a inevitabilidade tem um tempo próprio. Não é por desejarmos muito que os acontecimentos felizes nos encontram...

São Tomé, Setembro 2014

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Há pessoas assim... invejosas e maledicentes... mais vale fugir delas... VÁ DE RETRO!!!! ;-)

"Nunca um invejoso perdoa ao mérito", Pierre Corneille dixit.
E disse com muita propriedade e infinita verdade. Uma troca de ideias sobre alguém que - graças a Deus, aos Santos e aos Querubins - já não vejo há muito tempo, fez-me retomar este pensamento tão bem traduzido no século XVII e que hoje, no século XXI, continua tão actual. Como é possível que passados tantos anos... uns bons 11 ou 12 anos, uma pessoa infinitamente medíocre mantenha a mesma postura...?! Não aprendeu nada com a vida durante esse tempo. E isso, definitivamente não é muito normal... E com isto, lá vou parar ao século XVIII e a Antoine Rivarol quando dizia com assertividade que:
"Circula no mundo uma inveja velocí­pede que vive de intriguinhas: chama-se maledicência. Diz estouvadamente mal do que não tem certeza, e oculta o bem de que tem evidência".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eu não gosto do Carnaval!

Os adeptos que me desculpem mas... EU NÃO GOSTO DO CARNAVAL! Até acho alguma graça aos mais pequeninos mascarados - quando os pais cuidam da forma e se preocupam com o resultado. Hoje vi uma hippie, uma sevilhana, uma bruxa e um palhaço que estavam fantásticos, mas atenção que não tinham mais do que 12 anos. Agora.... o espírito carnavalesco da festinha com martelinhos, papelinhos pelo ar, serpentinas a rodopiar pelo pescoço e a emaranhar-se nos pés fazendo-me escorregar como se fosse uma diversão por obrigação faz-me lembrar a superficial excitação da passagem de ano, que resulta também num modelo pré-formatado de diversão porque é o dia. Não, não gosto do Carnaval e menos ainda da importação das mocinhas descascadas numa visualização pré-nua (quando não mesmo nua) em terras onde as temperaturas do ar oscilam entre os 8 e os 10º. Para quê... porquê???? Não estamos no Brasil!!!! - dá vontade de lembrar algumas almas folionas para quem o motivo não é importante, o que conta é soltar o corpo seguindo o ditado de que no Carnaval ninguém leva a mal. Como se pudéssemos antecipar o pico do Verão e tivéssemos a obrigação de estar na praia num dia em que toda a aldeia decidiu molhar os pés. Não, não estou mal disposta nem em dia não, simplesmente não gosto do Carnaval, nem de ajuntamentos e não compreendo o espírito tão pouco genuíno da vivência carnavalesca neste Portugal onde tudo calha...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Questões e explicações

Porque voltamos ao lugar onde fomos felizes? 
Porque regressamos ao grupo que nos enquadra e estrutura? 
Porque procuramos estar junto dos que nos querem bem e nos reforçam? 
Porque...? Porque...? Porque...?
São tão infinitas as questões quanto as razões e explicações que me ajudam a encontrar as respostas. E, muitas vezes, em certos contextos e enquadramentos, sem darmos conta, as reflexões acompanham as vivências e a compreensão das dúvidas mais existenciais torna-se óbvia...


São Tomé, 10 de Setembro de 2014 

Reflexão em jeito de balanço de viagem

Em jeito de balanço, cada viagem é uma, única, inconfundível e irrepetível. O destino pode até ser muitas vezes o mesmo mas a forma como se vivem aquelas horas torna a estadia diferente. As motivações, o estado de espírito, a capacidade e a vontade de nos entendermos e fazermos entender influenciam muito a forma como os dias passam e os acontecimentos sucedem.


São Tomé, 13 de Setembro de 2014

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O tempo dos sítios

Teremos nós um tempo para os sítios ou terão os locais um tempo pré-definido para serem vividos por nós? Haverá um limite temporal, que desconhecemos, que nos faz olhar para as experiências vividas como irrepetíveis? Haverá algum momento nas nossas vidas em que se dá o clique e, ao fim de muito insistirmos, acabamos por perceber onde é o nosso verdadeiro lugar? Haverá alguma situação que nos obriga a carregar no interruptor e a ouvir o tal clique que nos indicia que é o momento ideal para a mudança porque deixou de fazer sentido continuar a insistir naquilo que não nos serve? Há muitos anos andei à procura de mim mesma em paragens longínquas sem me encontrar e hoje, nessas mesmas paragens, percebo quem sou e onde quero estar... 

Em São Tomé, a 10/09/2014

Brinde ao futuro

Há momentos importantes nas nossas vidas porque nos ajudam a definir prioridades, a olhar para o presente, a arrumar o passado e a delinear o futuro. O passado não se renega, não se esquece e não se apaga. Faz parte de nós e reforça tudo aquilo em que nos tornámos. O presente é o que vivemos no momento e construímos, mesmo que nem sempre consigamos organizar, articular e corrigir todas as situações pelas quais vamos passando, sobretudo quando nem todo o encadeado de acontecimentos depende de nós. O futuro está em aberto e é nele que me apetece acreditar porque o que vivi ou estou a viver não se repetirá e o que virá deixa-me cheia de expectativas. Na verdade... já tenho saudades do que irei viver...



São Tomé, 10/09/2014 (mas poderia ter sido pensado e escrito hoje, 01/01/2015)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Coração apaziguado ou... a arte de fazer as pazes com o coração

Ao fim de muitos anos o meu coração apaziguou-se, talvez tenha feito as pazes com a Terra... Em boa verdade, não foi com a Terra porque nunca esteve zangado com ela. Nem com a Terra nem com as gentes e por isso senti sempre vontade de regressar. Apaziguou-se com ele próprio, e depois comigo, tranquilizou os ímpetos, amainou as vontades mais escondidas por trás de uma aparente felicidade. Durante anos não fora um coração feliz; foi ansioso por qualquer coisa que procurou infinitamente sem encontrar e que julgava que ali poderia estar. Foram buscas sem fim, encontros de equívocos que resultaram em (des)enganos incompletos, tristes, sem sentido.
Por fim, depois de tanto tempo, olhar para o presente sem regressar inevitavelmente ao passado era uma vitória pessoal. A certeza da vontade era que nada mais do que foi deveria regressar. Cada experiência era isso mesmo: uma vivência única e irrepetível, e o que lá vai já foi. Não queria que o passado fosse apagado. Cada minuto antes vivido faz parte de mim e conduziu-me ao que hoje sou. Mas a vontade de reviver o que se esgotou há muito desvaneceu-se, desapareceu envolta em névoa. De repente tive a sensação de que todos os encontros e momentos vividos, felizes ou não, merecem apenas ser lembrados como se de um conto se tratasse. Ao revisitar alguns locais apeteceu-me apenas rever essas lembranças começando o descritivo da memória com a frase: "Há muito muito tempo passei uma longa temporada aqui...".

Agora, mais do que nunca, sinto o coração apaziguado, tranquilo, descontraído e o que me dá essa certeza é que posso vir e partir para de novo regressar sem correr o risco de viajar aos pedaços. A cada vez que retornar e voltar a sair faço-o inteira sem deixar parte do meu coração por ali perdido...

São Tomé, 10/09/2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 2

Passava das 5h da manhã quando embarcámos; descolámos depois das 5h30. Ao entrar o avião pareceu-me ter acabado de entrar num engarrafamento em hora de ponta. O voo devia estar praticamente cheio e a desorganização dos passageiros era enorme: pessoas em pé, com resistência em se sentar, malas, sacos, pacotes que saíam para fora do porta-bagagem. A hora era tardia, o cansaço começava a fazer-se sentir e eu não me sinto confortável com ajuntamentos. Por milésimos de segundo a vontade que tive foi desatar a correr dali para fora. Contrariando os meus ímpetos furiosos limitei-me a respirar fundo na expectativa de encontrar um espacinho livre de gente onde me pudesse esticar por umas horas de olhos fechados. Alegrei-me ao vislumbrar três filas centrais abandonadas por todos os que tinham entrado antes de mim. Ninguém parecia querer aqueles lugares e num rasgo de sorte a hospedeira que por ali circulava sorriu perante o meu ar ansioso ao perguntar se podia ocupar uma das filas. Passei a viagem esticada nos três bancos com os correspondentes cobertores por cima do corpo e as três almofadas a embalarem o meu imaginário, envolvendo o descanso merecido. Eu dormi, tinha mesmo de ser assim, perdi o pequeno-almoço, antecipado para as seis e qualquer coisa em resultado dos atrasos, e o almoço que, pela mesma ordem de razões, também passou para as 10h da manhã. A esta hora, semi-acordada, a procurar recuperar o estado de consciência mas sem imaginar a forma como o estômago receberia os alimentos cozinhados oferecidos no catering do avião, procurei perceber como é que os outros assumiam a viagem. Foi terrível, quase catastrófico para o meu estômago, ver alguns - muitos - beber vinho tinto às 10h10 sem terem nada no bucho e como se não houvesse amanhã, repetindo sempre que possível. Foi igualmente estranho ver quase todos comerem ravioli com queijo e cogumelos tão cedo. Fui incapaz de tal façanha e fiquei-me por um sumo de maçã e pão com manteiga.
Enquanto estabelecia conjecturas acerca dos hábitos alimentares dos viajantes de aviões com atraso, percebi que o tempo até passou depressa dentro do grande pássaro de asas longas. Sobrevoávamos a ilha de São Tomé e em breve aterraríamos no Aeroporto Internacional. Antes disso entregaram-nos uns questionários de avaliação do serviço e do voo. A tripulação não teve certamente culpa mas há coisas fantásticas nestas avaliações, das quais também sou normalmente adepta. Pedem-nos para avaliarmos o sistema de audio e video mas o avião não dispunha dessas funcionalidades... nem uma TV com filmes ou documentários, nem música clássica, africana, pop ou pimba. Foi um voo sem animação, pelo que não havia como avaliar. Também não havia campo para comentários, reclamações ou sugestões e por isso quem o quis fazer teve obrigatoriamente de rabiscar o formulário sem garantia de alguém ler estas anotações. 




À nossa chegada, o céu estava nublado, escuro, cinzento, pesado, intercalado com uns tímidos raios de sol fazendo emergir uma luminosidade que indiciava calor húmido. Fez-me lembrar outras chegadas, outras experiências, outras vivências... 
Nova fila nos aguardava na pista do aeroporto, desta feita para a monitorização do ébola. Parecia uma cena de filme. Técnicos e enfermeiros artilhados de máscara e luvas mas suficientemente descobertos na pele para poderem ser contaminados no caso de contacto com doentes infectados. A tez era séria porque o assunto requeria cuidados e atenção. Iam apontando um termómetro electrónico ao olho direito de cada passageiro que entregava uma ficha devidamente preenchida com dados sobre a origem e os contactos anteriores. Para não variar, seguiu-se a fila novamente formada para o controle dos vistos de entrada e, por fim, num edifício interiormente remodelado, chegámos à sala de recolha de bagagens. Ao fim de tantos anos - 15, 16? - a confusão persiste. O que melhorou foi o ar condicionado, a iluminação e o aspecto mais clean. De resto, tudo continua invariavelmente na mesma. Para nós, a desorganização que se vive na sala multiplicou-se à conta dos caixotes e dos rolos, sem carrinhos disponíveis e enorme dificuldade em chegar à frente. Aguarda-se a colocação da bagagem fora do formato, o que significa esperar de novo pelo fim... O maior problema surge, conforme esperado, no controle das bagagens. Desta vez, as malas nem sequer foram abertas mas os caixotes recolheram atenção e como o conteúdo eram manuais escolares em grande quantidade para entregar nas escolas, foi entendido que teriam de ter uma guia de exportação. Como fazer para que os técnicos da Alfândega entendessem que se tratava de uma acção de cooperação? Não havia nada a fazer, não entenderam e confiscaram, supostamente para verificação, caixotes e rolos de cartazes, no caso referentes ao tema da biodiversidade. Complicações africanas... resta-nos a resignação... até porque se segue um dia marcado por um atraso de horas...

05/09/2014

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...