Um blog sobre a vida. Ilusões e sonhos, venturas, algumas desventuras, muitas realizações com a frustração necessária para alcançar o desejo da felicidade. Uma vida que se pretende feliz e preenchida por vivências sentidas. por Brígida Rocha Brito
terça-feira, 1 de setembro de 2015
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Visita apressada
É em dias de calor como o de ontem, o de
hoje e, muito provavelmente, o de amanhã que o meu pensamento é invadido por
lembranças e o meu inconsciente viaja. Momentos recordados da terra e das
gentes, dos sorrisos e das interjeições gritadas em som estridente num misto de
espanto e diversão, das praias, das paisagens, dos trilhos e das caminhadas, da
crueza de algumas coisas e da intensidade das emoções de muitas outras.
O calor abafado pela humidade não me deixa respirar, estimula os
sentidos e rouba a força às pernas dando-me a sensação que o chão desliza
para níveis inferiores e os meus pés escorregam como se
tentasse caminhar sobre as águas rápidas de um ribeiro.
É particularmente em dias como o de hoje que
a minha África regressa e me visita, envolta numa neblina difusa. A visualização
dos momentos vividos fica turva pela rapidez dos flashes que iluminam a minha memória
mas, à medida que as imagens sucedem e se conjugam, o regresso torna-se mais nítido
e aí está ela, que chega até mim num ápice como se me fizesse uma visita
apressada.
Lisboa,
27 de Maio de 2015
domingo, 31 de maio de 2015
Quase meio século...
Em algumas alturas do ano dou comigo a pensar que o tempo passa depressa, rápido de mais! Já lá vai quase meio século e tanta coisa há por fazer, muito para ver, tanto por viver. Quase meio século... mais do que uma geração, uma vida. E apesar de tudo não sinto ainda o peso dos anos. That's a good new... É também nestas alturas que me dá para ir "procurar" por algumas pessoas que fizeram parte do meu passado e de quem me deixei perder porque não me quis fixar ou porque não valiam mesmo o esforço da fixação. Alguns daqueles de quem perdi o rasto e com quem o encontro foi afinal um mero acaso. E é nestas minhas pesquisas que confirmo, uma e outra vez, que fiz bem em seguir com a vida adiante por outro caminho porque o que trilham está minado e a todo o momento pode explodir. E percebo que estes pouco ou nada mudaram porque permanecem resistentes, apesar da vida os tentar ensinar e lhes ir demonstrando que há melhores formas de vida. Meio século de aprendizagens... quase... meio século... e tanto ainda para aprender e por viver... esta é, de facto, a boa notícia... Venha mais outro "quase" meio século! Por hoje... that's MY DAY!
terça-feira, 26 de maio de 2015
África...
África,
és terra doce, terna, quente e envolvente.
és terra doce, terna, quente e envolvente.
Com os teus cheiros intensos
emanas sensualidade.
emanas sensualidade.
Nos corpos ondulantes dos que te habitam,
ao som de ritmos compassados com requebros,
crias desejo de simbiose e união.
Os teus paladares exóticos transformam vontades
e da indiferença fazes vida ardente.
És terra de duras experiências,
de contrastes aquecidos pelo sol e aliviados pelas
chuvas,
onde se aprende a ser, a estar e a viver
com os sentidos tão expostos quanto receptivos.
África, tu és emoção e paixão...
comemorando o Dia de África com 1 dia de atraso
Lisboa, 26 de Maio de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
Reflexões sobre a organização
- O que
quer dizer 'organizar' quando falamos sobre pessoas? - esta era
uma pergunta que, de dia para dia, vinha ter comigo com maior rapidez, frequência
e intensidade.
- Podemos organizar
ideias, papéis, roupas, salas, secretárias, armários e gavetas, agendas e
tarefas. Mas pessoas...?! - pensava...
Há alguns - muitos - anos atrás era habitual utilizar a
expressão 'organiza-te', tanto para algumas pessoas, e fazia-o com um sorriso
nos lábios, como para mim mesma, e neste caso a voz rouca da minha consciência crítica sussurava ao ouvido
para ter a certeza que a escutava e entendia: "tens de te organizar...!". Hoje sei que essa voz aparecia sempre
que o meu coração balançava para esferas pouco seguras mas prazerosas. Em boa
verdade, a expressão era escutada por mim sempre que alguém me tentava
desorganizar... ou seria mesmo eu que me deixava desorganizar... e, no meu
subconsciente, representava a necessidade de sentir a brisa fresca do Outono em
paragens onde o Verão não tinha início nem fim. Sabia que tinha de ganhar
consciência de que a vida requer sempre um pouco de ordem, alguma organização quase
sistemática e metódica, rigor qb no comportamento e critério na atitude. Não,
não é fácil sobretudo quando o momento resulta de vivências intensas e sentidas.
Houve alturas em que sabia que era fundamental pôr os pontos nos is e viver mais pela razão do que pela
emoção porque a razão é organização e a emoção o seu contrário. Criar o
equilíbrio parecia periclitante e pouco lógico...
Hoje a organização faz parte da minha vida, aliás passou a ocupar um espaço cada vez maior à medida que me fui afastando dos núcleos da desorganização.
Mas o que pensar de pessoas profundamente desorganizadas, impreparadas e descentradas do essencial mas que se julgam o supra-sumo da organização? Pessoas que circulam cirandando, que andam como se dançassem num baile de máscaras. Pessoas que se comportam como se a vida fosse um 'show off' permanente e estivessem em cima de um palco em representações imparáveis. Pessoas que criam uma imagem, tão suspensa quanto superficial, apenas assente na capacidade de organização alheia. Pessoas que vivem de forma aligeirada e esvoaçante, sem base e fundamento mas que se auto-intitulam descobridores do crepúsculo. É cansativo, desgastante e exasperante porque chega a ser lunático. Tenho a sensação de que por momentos, horas ou dias, os meus pés se descolam do chão e o meu corpo levita sobrevoando o mundo real. Só que nem sempre estou no meio de um sonho...
Hoje a organização faz parte da minha vida, aliás passou a ocupar um espaço cada vez maior à medida que me fui afastando dos núcleos da desorganização.
Mas o que pensar de pessoas profundamente desorganizadas, impreparadas e descentradas do essencial mas que se julgam o supra-sumo da organização? Pessoas que circulam cirandando, que andam como se dançassem num baile de máscaras. Pessoas que se comportam como se a vida fosse um 'show off' permanente e estivessem em cima de um palco em representações imparáveis. Pessoas que criam uma imagem, tão suspensa quanto superficial, apenas assente na capacidade de organização alheia. Pessoas que vivem de forma aligeirada e esvoaçante, sem base e fundamento mas que se auto-intitulam descobridores do crepúsculo. É cansativo, desgastante e exasperante porque chega a ser lunático. Tenho a sensação de que por momentos, horas ou dias, os meus pés se descolam do chão e o meu corpo levita sobrevoando o mundo real. Só que nem sempre estou no meio de um sonho...
em São Tomé, 10 de Setembro de 2014
quinta-feira, 9 de abril de 2015
No back up da memória...
Tudo o que foi vivido ficou memorizado, momento após momento, como se de fotografias virtuais se tratasse. Sempre que necessário basta recuperar o ficheiro no back up da memória, seleccioná-lo, visualizar a imagem e... o sorriso regressa com o efeito de um clique.
Após o regresso, Outubro 2014
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Diálogo com a Terra em hora de despedida
Ao partir bate
uma saudade impossível de descrever. Os minutos passaram com a rapidez de um
relógio de tempo apesar de ficar com a ideia de que os ponteiros não andavam.
Agora, ao avaliar o que vivi, percebo que os segundos esticaram em minutos e as horas
em dias. Um dia ganhou a dimensão de uma semana e um mês de um ano. Ao partir, sei que o regresso urgirá. Mais tempo menos tempo voltarei porque a saudade
surge de repente e de forma apertada. É difícil explicar a quem quer que seja
que não tenha vivido a mesma experiência e arrisco até passar por louca
desvairada e incontida...
Ao espreitar pela
janela inicio um diálogo tão silencioso quanto emotivo. A Terra diz-me com a
tristeza no olhar:
- Não partas, não vás, não me deixes
para trás, aqui no meio do mar sem poder acompanhar-te.
- Não me partas o coração... tenho de
seguir viagem porque a vida aguarda-me do outro lado... - respondo num tom sumido.
- Se tens de partir... promete-me que
regressas uma e outra vez... não ficarei igual sem ti...
Com um aperto no
coração, os sentidos inebriados e os olhos alagados de lágrimas contidas que
antecipam a despedida acabo por lhe dizer:
- Não te abandono jamais. Fazes parte
de mim e eu de ti. És a minha Terra e eu serei sempre tua. Onde quer que eu
esteja, por onde quer que eu ande, estarás no meu pensamento e preenches o meu
coração. Da distância faz-se perto. Quando a solidão se fizer sentir e a
vontade de regressar apertar, mesmo que não possa vir a correr ou a voar,
fecharei os olhos e rapidamente nos reencontramos... Tu reinventaste em mim a
capacidade de sonhar e de acreditar que entre o sonho e o feito há apenas um
pulinho...
E subindo
com o céu no horizonte olho uma vez mais para a Terra, fixo-a e sorrio. Ali
está e fica uma parte de mim e comigo trago, para sempre, uma parte dela.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Coisas da terra...
O desassossego é grande pela sensação de que uma parte
do que poderia vir a ser ficou na incerteza da incompletude, nas reticências de um texto não escrito, numa pintura idealizada mas não pincelada na tela... O coração contém-se e depois esvazia-se. Anseia, angustia, quase desespera e
desvanece ao pressentir que o que poderia ter sido jamais será... E esse é o
maior dos desassossegos...
Algures em 2014. Em nenhures de parte nenhuma...
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Sobre a arte de viajar... ou com a viagem no pensamento
Preparar uma viagem que se
idealizou requer uma preparação cuidada e sistemática. Sempre e
inevitavelmente. A viagem é um momento assumido com seriedade e gerido com
rigor; é uma empreitada importante que liga expectativas e realizações através
de uma linha à qual damos o nome de vivências. E, em tempo de viagem, o desejo
é que as experiências vividas sejam únicas e inesquecíveis porque sabemos que
serão certamente irrepetíveis. A água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte
e a viagem que se empreende é vivida apenas uma vez, jamais se repete da mesma
forma. Olhar para o interior de nós mesmo é o primeiro passo para que a viagem
corra de acordo com o desejado. Fazer a revisão do que vivemos antes e das
experiências anteriores é um exercício prévio que ajuda a reduzir as
possibilidades de insucesso ou de frustração, sobretudo se o destino for visitado
por repetição. Preparar a viagem não é apenas uma questão de agendamento,
implica pesquisa, consulta, leitura, recolha de elementos facilitadores como
mapas, endereços e telefones. A viagem começa muito antes de fazer a mala e
partir, é uma vivência sentida, interiorizada e esperada que também tem
continuidade para além do regresso ao se tornar presente através das histórias eternizadas,
das fotografias revisitadas e partilhadas e das emoções relembradas.
em 18 de Agosto de 2014, a preparar nova incursão a São Tomé, sem o Príncipe
em 18 de Agosto de 2014, a preparar nova incursão a São Tomé, sem o Príncipe
quarta-feira, 18 de março de 2015
Sei que um dia...
Sei que um dia vou voltar. Não, não me perguntem quando
porque não consigo alcançar essa resposta. Nem para mim mesma... mas sei que um
dia o regresso se vai tornar tão urgente que, talvez sem dar conta, faço a mala
e parto. Há de ser um chamamento. Há de revelar-se uma emergência que nem eu
própria compreenderei. Há de resultar em inevitabilidade, tal como antes
aconteceu.
Há lugares assim que são para nós tão evidentemente
naturais e próximos quanto a essência da vida. Não é ainda o momento, sei
disso, e também sei que talvez demore uma eternidade. Sei, porque já aprendi,
que, em muitas circunstâncias, é preciso aguardar com a tranquilidade sábia de
um mestre. E eu sou ainda uma aprendiz no misterioso percurso da vida, que
aceitou que não adianta forçar a antecipação e que a inevitabilidade tem um
tempo próprio. Não é por desejarmos muito que os acontecimentos felizes nos
encontram...
São Tomé, Setembro 2014
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Há pessoas assim... invejosas e maledicentes... mais vale fugir delas... VÁ DE RETRO!!!! ;-)
E disse com muita propriedade e infinita verdade. Uma troca de ideias sobre alguém que - graças a Deus, aos Santos e aos Querubins - já não vejo há muito tempo, fez-me retomar este pensamento tão bem traduzido no século XVII e que hoje, no século XXI, continua tão actual. Como é possível que passados tantos anos... uns bons 11 ou 12 anos, uma pessoa infinitamente medíocre mantenha a mesma postura...?! Não aprendeu nada com a vida durante esse tempo. E isso, definitivamente não é muito normal... E com isto, lá vou parar ao século XVIII e a Antoine Rivarol quando dizia com assertividade que:
"Circula no mundo uma inveja velocípede que vive de intriguinhas: chama-se maledicência. Diz estouvadamente mal do que não tem certeza, e oculta o bem de que tem evidência".
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Eu não gosto do Carnaval!
Os adeptos que me desculpem mas... EU NÃO GOSTO DO CARNAVAL! Até acho alguma graça aos mais pequeninos mascarados - quando os pais cuidam da forma e se preocupam com o resultado. Hoje vi uma hippie, uma sevilhana, uma bruxa e um palhaço que estavam fantásticos, mas atenção que não tinham mais do que 12 anos. Agora.... o espírito carnavalesco da festinha com martelinhos, papelinhos pelo ar, serpentinas a rodopiar pelo pescoço e a emaranhar-se nos pés fazendo-me escorregar como se fosse uma diversão por obrigação faz-me lembrar a superficial excitação da passagem de ano, que resulta também num modelo pré-formatado de diversão porque é o dia. Não, não gosto do Carnaval e menos ainda da importação das mocinhas descascadas numa visualização pré-nua (quando não mesmo nua) em terras onde as temperaturas do ar oscilam entre os 8 e os 10º. Para quê... porquê???? Não estamos no Brasil!!!! - dá vontade de lembrar algumas almas folionas para quem o motivo não é importante, o que conta é soltar o corpo seguindo o ditado de que no Carnaval ninguém leva a mal. Como se pudéssemos antecipar o pico do Verão e tivéssemos a obrigação de estar na praia num dia em que toda a aldeia decidiu molhar os pés. Não, não estou mal disposta nem em dia não, simplesmente não gosto do Carnaval, nem de ajuntamentos e não compreendo o espírito tão pouco genuíno da vivência carnavalesca neste Portugal onde tudo calha...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Questões e explicações
Porque voltamos ao lugar onde fomos
felizes?
Porque regressamos ao grupo que nos enquadra e estrutura?
Porque procuramos
estar junto dos que nos querem bem e nos reforçam?
Porque...? Porque...?
Porque...?
São tão infinitas as questões quanto as razões e explicações que me
ajudam a encontrar as respostas. E, muitas vezes, em certos contextos e enquadramentos, sem darmos conta, as reflexões
acompanham as vivências e a compreensão das dúvidas mais existenciais torna-se óbvia...
São Tomé, 10 de Setembro de 2014
Reflexão em jeito de balanço de viagem
Em jeito de balanço, cada viagem é uma, única, inconfundível e
irrepetível. O destino pode até ser muitas vezes o mesmo mas a forma como se
vivem aquelas horas torna a estadia diferente. As motivações, o estado de
espírito, a capacidade e a vontade de nos entendermos e fazermos entender
influenciam muito a forma como os dias passam e os acontecimentos sucedem.
São Tomé, 13 de Setembro de 2014
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
O tempo dos sítios
Em São Tomé, a 10/09/2014
Brinde ao futuro
Há momentos importantes nas nossas vidas porque nos ajudam a definir
prioridades, a olhar para o presente, a arrumar o passado e a delinear o
futuro. O passado não se renega, não se esquece e não se apaga. Faz parte de
nós e reforça tudo aquilo em que nos tornámos. O presente é o que vivemos no
momento e construímos, mesmo que nem sempre consigamos organizar, articular e
corrigir todas as situações pelas quais vamos passando, sobretudo quando nem
todo o encadeado de acontecimentos depende de nós. O futuro está em aberto e é
nele que me apetece acreditar porque o que vivi ou estou a viver não se
repetirá e o que virá deixa-me cheia de expectativas. Na verdade... já tenho
saudades do que irei viver...
São Tomé, 10/09/2014 (mas poderia ter sido pensado e escrito hoje,
01/01/2015)
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Coração apaziguado ou... a arte de fazer as pazes com o coração
Ao fim de muitos anos o meu coração apaziguou-se, talvez tenha feito as
pazes com a Terra... Em boa verdade, não foi com a Terra porque nunca esteve
zangado com ela. Nem com a Terra nem com as gentes e por isso senti sempre
vontade de regressar. Apaziguou-se com ele próprio, e depois comigo, tranquilizou
os ímpetos, amainou as vontades mais escondidas por trás de uma aparente
felicidade. Durante anos não fora um coração feliz; foi ansioso por qualquer
coisa que procurou infinitamente sem encontrar e que julgava que ali poderia estar.
Foram buscas sem fim, encontros de equívocos que resultaram em (des)enganos
incompletos, tristes, sem sentido.
Por fim, depois de tanto tempo, olhar para o presente sem regressar
inevitavelmente ao passado era uma vitória pessoal. A certeza da vontade era
que nada mais do que foi deveria regressar. Cada experiência era isso mesmo: uma
vivência única e irrepetível, e o que lá vai já foi. Não queria que o passado
fosse apagado. Cada minuto antes vivido faz parte de mim e conduziu-me ao que
hoje sou. Mas a vontade de reviver o que se esgotou há muito desvaneceu-se,
desapareceu envolta em névoa. De repente tive a sensação de que todos os encontros
e momentos vividos, felizes ou não, merecem apenas ser lembrados como se de um
conto se tratasse. Ao revisitar alguns locais apeteceu-me apenas rever essas
lembranças começando o descritivo da memória com a frase: "Há muito muito
tempo passei uma longa temporada aqui...".
Agora, mais do que nunca, sinto o coração apaziguado, tranquilo,
descontraído e o que me dá essa certeza é que posso vir e partir para de novo regressar
sem correr o risco de viajar aos pedaços. A cada vez que retornar e voltar a
sair faço-o inteira sem deixar parte do meu coração por ali perdido...
São Tomé, 10/09/2014
São Tomé, 10/09/2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 2
Passava das 5h da manhã quando embarcámos; descolámos depois das 5h30. Ao entrar o avião pareceu-me ter acabado de entrar num engarrafamento em hora de ponta. O voo devia estar praticamente cheio e a desorganização dos passageiros era enorme: pessoas em pé, com resistência em se sentar, malas, sacos, pacotes que saíam para fora do porta-bagagem. A hora era tardia, o cansaço começava a fazer-se sentir e eu não me sinto confortável com ajuntamentos. Por milésimos de segundo a vontade que tive foi desatar a correr dali para fora. Contrariando os meus ímpetos furiosos limitei-me a respirar fundo na expectativa de encontrar um espacinho livre de gente onde me pudesse esticar por umas horas de olhos fechados. Alegrei-me ao vislumbrar três filas centrais abandonadas por todos os que tinham entrado antes de mim. Ninguém parecia querer aqueles lugares e num rasgo de sorte a hospedeira que por ali circulava sorriu perante o meu ar ansioso ao perguntar se podia ocupar uma das filas. Passei a viagem esticada nos três bancos com os correspondentes cobertores por cima do corpo e as três almofadas a embalarem o meu imaginário, envolvendo o descanso merecido. Eu dormi, tinha mesmo de ser assim, perdi o pequeno-almoço, antecipado para as seis e qualquer coisa em resultado dos atrasos, e o almoço que, pela mesma ordem de razões, também passou para as 10h da manhã. A esta hora, semi-acordada, a procurar recuperar o estado de consciência mas sem imaginar a forma como o estômago receberia os alimentos cozinhados oferecidos no catering do avião, procurei perceber como é que os outros assumiam a viagem. Foi terrível, quase catastrófico para o meu estômago, ver alguns - muitos - beber vinho tinto às 10h10 sem terem nada no bucho e como se não houvesse amanhã, repetindo sempre que possível. Foi igualmente estranho ver quase todos comerem ravioli com queijo e cogumelos tão cedo. Fui incapaz de tal façanha e fiquei-me por um sumo de maçã e pão com manteiga.
Enquanto estabelecia conjecturas acerca dos hábitos alimentares dos viajantes de aviões com atraso, percebi que o tempo até passou depressa dentro do grande pássaro de asas longas. Sobrevoávamos a ilha de São Tomé e em breve aterraríamos no Aeroporto Internacional. Antes disso entregaram-nos uns questionários de avaliação do serviço e do voo. A tripulação não teve certamente culpa mas há coisas fantásticas nestas avaliações, das quais também sou normalmente adepta. Pedem-nos para avaliarmos o sistema de audio e video mas o avião não dispunha dessas funcionalidades... nem uma TV com filmes ou documentários, nem música clássica, africana, pop ou pimba. Foi um voo sem animação, pelo que não havia como avaliar. Também não havia campo para comentários, reclamações ou sugestões e por isso quem o quis fazer teve obrigatoriamente de rabiscar o formulário sem garantia de alguém ler estas anotações.
À nossa chegada, o céu estava nublado, escuro, cinzento, pesado, intercalado com uns tímidos raios de sol fazendo emergir uma luminosidade que indiciava calor húmido. Fez-me lembrar outras chegadas, outras experiências, outras vivências...
Nova fila nos aguardava na pista do aeroporto, desta feita para a monitorização do ébola. Parecia uma cena de filme. Técnicos e enfermeiros artilhados de máscara e luvas mas suficientemente descobertos na pele para poderem ser contaminados no caso de contacto com doentes infectados. A tez era séria porque o assunto requeria cuidados e atenção. Iam apontando um termómetro electrónico ao olho direito de cada passageiro que entregava uma ficha devidamente preenchida com dados sobre a origem e os contactos anteriores. Para não variar, seguiu-se a fila novamente formada para o controle dos vistos de entrada e, por fim, num edifício interiormente remodelado, chegámos à sala de recolha de bagagens. Ao fim de tantos anos - 15, 16? - a confusão persiste. O que melhorou foi o ar condicionado, a iluminação e o aspecto mais clean. De resto, tudo continua invariavelmente na mesma. Para nós, a desorganização que se vive na sala multiplicou-se à conta dos caixotes e dos rolos, sem carrinhos disponíveis e enorme dificuldade em chegar à frente. Aguarda-se a colocação da bagagem fora do formato, o que significa esperar de novo pelo fim... O maior problema surge, conforme esperado, no controle das bagagens. Desta vez, as malas nem sequer foram abertas mas os caixotes recolheram atenção e como o conteúdo eram manuais escolares em grande quantidade para entregar nas escolas, foi entendido que teriam de ter uma guia de exportação. Como fazer para que os técnicos da Alfândega entendessem que se tratava de uma acção de cooperação? Não havia nada a fazer, não entenderam e confiscaram, supostamente para verificação, caixotes e rolos de cartazes, no caso referentes ao tema da biodiversidade. Complicações africanas... resta-nos a resignação... até porque se segue um dia marcado por um atraso de horas...
05/09/2014
05/09/2014
A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 1
Uma vez mais, a aventura
começou. A caminho de São Tomé mas sem ter sequer saído do aeroporto. A chegada
foi antes das 22h e a fila para o check in era de tal forma grande que dava
várias voltas apertadas; o balcão nem se via. Tantas e tantas vezes fiz esta
viagem e ainda não tinha tido esta dupla experiência: a de viajar
pela STP Airways; e a de ter uma longuíssima noite de espera. Há atrasos e atrasos e este bateu o record de todas as possibilidades. Na fila a espera para
chegar à frente e despachar as malas durou mais de 2 horas e a noite parecia ser ainda uma criança porque o que estava para vir nem se tinha anunciado. O aeroporto
estava quente, abafado, cheio de gente que circulava para a frente e para trás
sem destino ou objectivo, falando ora com um ora com outro, na maioria eram conversas de ocasião com um sorriso aberto espelhado na face. As nossas caras espelhavam apenas surpresa e perplexidade. Procurámos estar a horas para nos reunirmos e tratarmos de despachar a bagagem pessoal e as caixas com o material para a formação e a distribuição. De facto não contámos com aquele cenário e nem sequer pensámos ser possível. Esperar era a palavra de ordem e não valia a pena o desassossego que nos invadia o corpo, a alma e o coração. Em pé passámos as duas longas horas até chegarmos ao balcão, depois disso foram muitas mais. A sensação que ficou da espera
foi asfixiante e atrofiante, piorando ao escutar o aviso feito pela hospedeira:
a partir daquele momento ainda deveríamos contar com um atraso de mais de cinco
horas. Resignei-me com enorme desconforto. Nada podia fazer... Saímos dali e montámos arraiais junto ao guiché 101 da Alfândega. Nós, os caixotes, as malas pequenas que nos acompanhavam para a cabina e os rolos com os cartazes temáticos. Enquanto um colega tentava resolver as questões burocráticas com a papelada eu e a outra colega adoptámos os tapetes de dois guichés fechados para descansar as pernas e assentar ideias.
A espera estava por ali para me fazer companhia durante aquela noite em que o descanso parecia ter-se ausentado sabe-se lá para onde. Dei comigo a pensar que com a TAP nunca passei semelhante tormenta e que apesar das queixas que se podem fazer à companhia, para mim continua a ser uma referência. Não fora o ébola e a alteração na rota da TAP com escalas no Gana tanto na ida como no regresso e tudo seria como dantes...
Subimos em busca do suposto snack que nos seria entregue no piso da restauração mas como sempre todos os serviços estavam entretanto encerrados. Contentei-me com um pacote de batatas fritas, um pacote de maltesers e uma água que comprei na máquina enquanto os meus dois colegas descansavam os olhos dormitando tranquilamente numa cadeira desconfortável da sala de embarque...
05/09/2014
05/09/2014
em paz...
"Não são apenas os loucos que procuram as cavernas e os lugares tranquilos, mas também aqueles que por terem a alma em paz acabam por desprezar os assuntos dos homens.
Quando o espírito, oprimido pelas inquietações exteriores, aspira ao repouso do corpo, evade-se para os lugares tranquilos; e aí, desperto logo cedo, faz em si mesmo o percurso do país da verdade (...)"
Hipócrates in "Do Riso e da Loucura"
Quando o espírito, oprimido pelas inquietações exteriores, aspira ao repouso do corpo, evade-se para os lugares tranquilos; e aí, desperto logo cedo, faz em si mesmo o percurso do país da verdade (...)"
Hipócrates in "Do Riso e da Loucura"
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Este post é dedicado à Helena , uma variação do Calulu de Peixe. Proponho a versão de carne que na minha opinião é incomparavelmente melhor....


