segunda-feira, 8 de agosto de 2005

STP de luto, morreu o cantor Camilo Domingos


Morreu o cantor santomense Domingos Lopes Gomes - Camilo Domingos - natural do Príncipe, com três discos de Ouro em 22 anos de carreira.


Tinha 40 anos. É uma perda para a família, para São Tomé e Príncipe e para o Mundo.

A música é uma das formas mais bonitas de eternizar a cultura de qualquer povo e os cantores africanos sabem-no fazer de forma ímpar, apesar das dificuldades que sentem de forma acrescida.

Portugal no seu melhor

Chegamos a Agosto e Portugal quase pára, o que tem aspectos muito magníficos e outros que nos transformam a vida num inferno, para não dizer desespero. Quais são os sintomas? Por um lado, os telefones tocam menos, deixamos de receber fluxos de mails de distracção, que em certas ocasiões nos entopem a caixa de correio, o trânsito reduz de forma radical, há quase sempre lugar nos restaurantes, os vizinhos vão de férias e o barulho diminui. Mas... quando precisamos de uma informação, da mais simples à mais complicada, e contactamos os serviços que nos podem, ou devem, esclarecer, deparamos com uma infinita perplexidade, como se fossemos completamente burros e as questões que colocamos não fizessem qualquer sentido. Mesmo quando alegamos prazos a cumprir, ouvimos a má vontade expressa em palavras e suspiros que desencorajam alguns e enfurecem os restantes. Se os contactos são telefónicos, desligamos com a estranha sensação, porque difícil de gerir, de termos incomodado sem motivo a pessoa que nos atendeu e quase nos sentimos na obrigação de pedir desculpa e fazer uma vénia, sabendo até à partida que ninguém nos vê. Mas com as novas tecnologias, nunca se sabe bem quem nos pode ver, porque ouvir, ao que parece é possível e comum. Mas pior que tudo, desligamos o telefone mais confusos do que estávamos antes de ligar e as dúvidas, além de não terem sido esclarecidas, multiplicam-se! E assim temos de viver... num Portugal que está no seu melhor!

Bioterra: educação ambiental na blogosfera

É sempre um prazer visitar o Bioterra: aprende-se de forma ligeira e levezinha, com a sensação de estarmos rodeados de ambientes agradáveis porque naturais e preservados. Uma forma muito interessante de promover a educação ambiental através da blogosfera. As imagens são fantásticas, os links de uma imensa utilidade, actuais e ricos em informação, e as mensagens levam-nos a reflectir sobre o futuro. Vale a pena mais uma incursão a este blog verde, azul e da cor da terra.

Galeria de Exposições do Centro Cultural Luso-Moçambique

Artistas africanos têm em Lisboa uma galeria que mostra alguns dos seus melhores trabalhos. Com pouco mais de seis meses de funcionamento, a Galeria de Exposições do Centro Cultural Luso-Moçambicano, na Loja 43 do Centro Comercial Apolo 70, promoveu seis exposições.

Com 235 sócios, o centro visa actuar em diversas áreas para além da Cultura, com realce para a área social, onde se acompanham cidadãos moçambicanos com menores recursos, hospitalizados, presos, mulheres e crianças.
A literatura africana é entendida como uma componente importante para a divulgação das línguas, tendo o Centro o objectivo de editar jovens escritores.

Neste momento, a Galeria tem em exposição obras de Malagatana, Lívio de Morais, Magina e Heitor Pais, que podem ser adquiridas.


sábado, 6 de agosto de 2005

Só pode ser...

Brincadeira...! E, no caso, de mau gosto! A discrepância na contagem dos votos na Guiné Bissau é de 2 votos... ?! Os descontentes só podem conformar-se, portanto, e respeitar os resultados. Mas lá que não soa bem... pois não soa! Mais informações no ExpressoÁfrica.

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Ao meu Pai

Há dias que ficam para sempre gravados e registados em nós, minuto a minuto, tornando-se impossível esquecê-los. Hoje é, para mim, um desses dias. Faz nove anos que o pior dia, por mim vivido até à data, aconteceu. Um dia triste que nunca esquecerei e que mudou, para sempre, a minha vida. A partir do dia 5 de Agosto de 1996 transformei-me.

E se, por um lado, o tempo voou, por outro, tenho a sensação que parou porque as lembranças permanecem muito presentes. Porquê? Porque “TU” eras uma pessoa infinitamente especial, pela bondade e dedicação, pelo cuidado e atenção, pela compreensão e entrega a todos os que precisaram, em algum momento de “TI”. Porque é impossível não nos lembrarmos de “TI” e da falta que nos fazes. “TU” foste o pai que, se pudesse escolher, preferiria ter, mas que por não ter tido essa possibilidade, afirmo com certezas que fui bafejada pela sorte por ser “TUA” filha, ter crescido e aprendido contigo a ser quem sou, acreditando no amor e na amizade, respeitando as diferenças e procurando ser melhor no dia de hoje do que fui ontem.

E, se me ouvires, e acredito que sim, fica a saber que me fazes muita falta!

Há dias

Há dias em que parecemos invisíveis: falamos e não nos ouvem; andamos e não nos vêem...

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

João Carlos Silva na Volta a Portugal em Bicicleta

O João Carlos Silva (“Na Roça com os Tachos” e Roça de S. João) vai estar presente na Volta a Portugal em Bicicleta, a acompanhar a RTP, não como corredor mas como animador, com os tachos e os petiscos que tão bem sabe confeccionar.

Aqui fica a dica para quem estiver por perto do circuito e quiser provar (ou relembrar) e apreciar os sabores africanos e equatoriais de São Tomé e Príncipe. E como a Volta está quase a começar...

 

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Recordações e Perplexidades

Ontem não pude estar em casa durante o dia porque iam dar mais “uma de mão” de verniz no chão. Uma vez em Lisboa, cidade que, de dia para dia, menos me encanta, até porque me deprime e angustia, e sem nada para fazer, decidi passear pelo Parque nas Nações. Este é um local que conheço bem e que faz parte das minhas ternas recordações no que aos afectos diz respeito. Foi um dos locais onde mais namorei com um dos homens mais doces que passou pela minha vida: também é verdade, e convém esclarecer, que foram poucos, por isso é fácil defini-los um a um.

Estávamos no início da década de 90 e o chamamento por África fazia-se ainda sentir de forma ligeira e pontual, já que a minha vida era feita em Portugal e eu não equacionava sequer a possibilidade de ter uma vida diferente da maioria das pessoas da minha família e dos meus amigos. Namorámos cinco anos, conjugando encontros, alguns desentendimentos e muitos momentos felizes, que resultaram numa aprendizagem mútua que nos conduziu ao que hoje somos: verdadeiros amigos, daqueles em quem seguramente podemos contar sempre, para sempre, venha aquilo que vier e aconteça o que acontecer.

A Exposição Mundial de 1998 veio transformar por completo aquela zona e as imagens que guardo, eternizadas pelo tempo. Em 1998 já não namorávamos e, por todos os motivos e mais alguns, resisti à Expo 98 e pouco a visitei. Aquele local guardava, para mim, um saudosismo tão terno quanto triste e tornou-se penosa uma simples visita. Custava-me muito voltar àquele sítio e como ninguém percebeu as minhas razões, porque eu também não as expliquei, fui chamada de todos os nomes possíveis e imaginários pelos mais próximos, verdadeiros adeptos e defensores da revitalização do espaço e da filosofia da Exposição.

No tempo em que todos corriam em direcção à Expo com uma estóica paciência que os fazia aguardar durante horas infinitas e ao sol só para entrarem num pavilhão estrangeiro e apreenderem imagens, sons ou sensações, recolherem folhetos promocionais ou qualquer outro brinde, eu fugia do Parque das Nações. Quanto mais longe melhor. Vá-se lá saber porquê ontem apeteceu-me visitá-lo. Sozinha, ou melhor com duas revistas da treta na mão, percorri o espaço de lado a lado. Vi casais apaixonados, cães em correria desenfreada ao sabor do vento, homens a praticar desporto, correndo ou pedalando, crianças a rir e idosos a descansar, em contemplação do rio. Até polícia montada em dois cavalos magníficos, cinzentos e musculados que queriam acelerar não lhes sendo permitido ultrapassar o ritmo lento do passo para o trote, quanto mais o galope.

Mas também vi um espaço onde fui tão feliz, parafraseando um apresentador de TV, melhorado e embonecado para a Expo mas que hoje... hoje foi abandonado, exceptuando alguns pontos que resistem persistindo. Os restaurantes fecharam, os antigos pavilhões não tiveram melhor destino, os embarcadouros não recebem barcos e o que seria suposto ser uma marina está simplesmente desactivado e fechado com um cadeado ferrugento... E foi isto a reabilitação da zona oriental de Lisboa? Talvez tenha sido mas de forma não sustentável e absolutamente desoladora...

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Referências curriculares

No África Minha há uma referência aos atributos do CV do Nino Vieira, extraída do DN. Realisticamente assustador e seria bom que os guineenses não se esquecessem do passado... Mas será que se esqueceram????

domingo, 31 de julho de 2005

Uma amizade fantástica


Eu e o meu cão fomos amigos verdadeiros, daqueles que, pela reciprocidade, é raro encontrar. O Porthos, Bumba para os amigos, foi um cão fantástico em todos os momentos nos 12 anos em que fez parte da minha vida. Tenho saudades dele. Muitas. Infinitas. E hoje mais do que nunca. Um cão amigo, fiel, companheiro de brincadeiras e atento nas tristezas. Um dartacão verdadeiro, um mosqueteiro por natureza, o meu preferido porque gordo e bonacheirão, sempre bem disposto e pronto tanto para um programa diferente e aventureiro como para dormitar na sala ou por onde eu ficasse. Aqui fica um breve registo dos dois. Para quem não o conseguir vislumbrar na primeira imagem, tem a segunda.

Dia de cozinhar

Para mim, hoje foi dia de cozinhar porque é domingo. Bem, até parece que por ser domingo é um dia diferente dos outros. Na verdade, todos os dias me parecem mais ou menos iguais, até nas visitas à cozinha. Não há um dia em que não passe pela cozinha para mexer nos tachos, panelas, frigideiras, colheres de pau e facas. Aliás, são várias as vezes em que faço o corredor entre o escritório e a cozinha para ali preparar as refeições. Mas hoje foi uma preparação alargada porque a família se reuniu e não faltou ninguém.

O prato foi bacalhau, um que não tem nome porque resultou de uma invenção em momento particular de inspiração e que, como saiu bem, foi sendo repetido. O que leva? Batatas fritas em quadrados pequeninos, bacalhau cozido desfiado, alho francês cortado em rodelas e cozido, camarão cozido e cortado em pedacinhos, queijo de gratinar (o Président tem uma combinação de três queijos que produz um efeito magnífico), e ainda regado com molho bechamel (com uma variação, leva uma gema de ovo). Depois vai ao forno e quando gratinado está pronto a ser devorado.

Enquanto as batatas fritavam completei o almoço com uns bolinhos de coco. Os tais que fazem maravilhas ao meu ego nos dias menos felizes em que as perguntas não têm respostas...

Logo haverá mais uma incursão até à cozinha. Pensando bem, talvez pudesse abrir um restaurante onde servisse os meus pratos. Mas falta-me o principal... dinheiro para investir... O mal da maioria, portanto!

Necessidade de mudança

Naquela manhã, tal como em todas desde que regressara a casa, acordou com umas terríveis dores nas mãos: os ossos começavam a deformar-se e só lhe apetecia gritar para libertar a angústia e o desconsolo que sentia. Não era só a dor física que a assustava mas também a possibilidade de ter umas mãos, das quais sempre se orgulhara por serem magras com dedos compridos, precocemente deformadas.

Mas por defeito ou feitio, vá-se lá saber, permanecia calada e só se queixava quando as dores ultrapassavam o seu limite. Aprendeu a chorar para dentro de si mesma e se tivessem inventado uma máquina para medir a humidade humana, ela avariaria a dita porque no seu interior corria um dilúvio. Quem a visse não perceberia, a não ser que olhasse os seus olhos bem no fundo. Eram naturalmente humedecidos de tanto chorar para si mesma. Era raro as lágrimas verterem para fora das pálpebras porque aprendera a guardá-las. "Há coisas que devem ficar onde nascem e connosco", pensava. Os olhos tinham uma cor difícil de definir porque tanto pareciam castanhos claros como verdes, tendo dias em que estavam acinzentados. Dependia do quanto ela chorava.

Sentia-se cansada destes pequenos males que vinha a sentir, um após outro, sem ser nada de particularmente grave mas que lhe povocavam sofrimento.

Mas também estava cansada da vida que tinha, da impossibilidade de mudança, da falta de oportunidades, dos sonhos irrealizados porque tinha a mania das grandezas e sonhava sempre demasiado alto, das exigências que a vida lhe impunha com uma rotina diária pouco ou nada satisfatória. Um dia haveria de surgir uma mudança e a vida passaria a sorrir-lhe. Pelo menos queria acreditar nisso e repetia mentalmente aquela frase como se quisesse chamar os bons pronúncios, porque de agoiros já andava ela farta.

Blog africaníssimo

Muito africano o Transpórtis Virtual di Kauberdi Pa Aulil. E muito bonito. Vale a pena passar por lá. Muito recomendável.

sábado, 30 de julho de 2005

Não sou o único...

"Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ver os sonhos partirem
À espera que algo aconteça
A despejar a minha raiva
A viver as emoções
A desejar o que não tive
Agarrado às tentações
E quando as nuvens partirem
O céu azul brilhará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
(...)"
Xutos e Pontapés

Tudo

Por momentos sentia-se demasiado cansada... e esse cansaço encerrava tudo o que era possível e imaginário...

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Um Mundo de Sensações

Em África o tempo tende a parar e os sentidos quedam-se numa contemplação apelativa. A humidade quente e colante reflecte-se nos corpos despidos e nas peles tórridas. A brisa arrefece levemente o ambiente e vai chover. Uma chuva tropical, quente, intensa e fugaz a pronunciar sensações, emoções e vivências contraditórias e temporárias mas intensas e marcantes. O tempo que não passa, leve-leve como a vida que tem tempo para ser vivida.

Ritmos marcados pela emoção, sons ternos e movimentos sensuais apelando ao retorno, tal como as ondas levando e trazendo água nova misturada com velha; limpa e suja. A renovação é profundamente assustadora mas necessária.

África das ternas recordações e dos doces momentos, dos cheiros inconfundíveis, do ar suportavelmente irrespirável. Sensações e emoções, tempos de espera e de aprendizagem: de nós mesmos, do que viremos a ser, do que fomos, do que tentamos ser e do que nunca seremos...

STP, Dezembro 2002

Guiné Bissau em recontagem

A pedido de Malam Bacai Sanhá, os votos estão a ser recontados em Bissau e no Biombo. Para mais informação ler aqui. Só na próxima semana haverá certezas...

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Nome de mulher

A vida dele podia ser definida por fases, períodos temporais mais ou menos longos em função das situações, marcados pela distância e com África no horizonte. Desejava aquele continente onde, por acaso do destino, fizera uma primeira viagem que lhe proporcionou momentos inesperados e mais do que felizes e, desde essa altura, em que foi um Homem bafejado pela sorte e pelos encantamentos, nunca mais conseguiu deixar de procurar novos lugares e novas emoções. Sentia-se impelido a mais uma viagem, a última dizia a si mesmo, mas nunca era porque seguia-se sempre mais uma. As suas Africas tinham nomes ou talvez ele gostasse de lhes dar atributos porque nelas revia as mulheres que agora faziam parte das suas recordações. Todas elas o marcaram, tanto as Africas como as mulheres que lá conheceu. Pensando bem, a sua vida mudara desde que viajara para o sul, que conhecera novas paisagens e que se permitira sonhar com novas vidas.

Guiné Bissau: Boa Sorte...

Nino Vieira venceu. Teve mais votos e menos distritos. O que espero daquele país de que tanto aprendi a gostar? Que o povo não se tenha enganado e que tenha feito a sua escolha em consciência. E o que mais? Que a ordem regresse ao país com aceitação e respeito, o que não tem estado a acontecer desde que se soube os resultados. Para um seguimento mais atento, consultem Africanidades porque o Jorge Neto tem uma tarefa incansável de relatar com pormenor todos os acontecimentos. E ainda... desejos de muito boa sorte para quem já se esqueceu do passado...

Maputo na Megafauna

Na Megafauna encontrei uma foto magnífica do pôr do sol que me relembro que existia em Maputo. Mas não é tudo, a foto ilustra um poema fantástico de Alexandre Daskalos.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

Uma análise objectiva

Andava eu a visitar os blogs de leitura habitual e no Água Lisa há um post que capta toda a minha atenção. Porquê? Porque nele leio o que um dos meus blogs preferidos, e que também é visitante do “África de Todos os Sonhos”, pensa acerca do que escrevo. Uma análise directa, objectiva (como gosto) e sincera. Por tudo isto, só posso agradecer. Leiam aqui.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

domingo, 24 de julho de 2005

Homenagem a José Negrão

O investigador moçambicano José Negrão faleceu há dias. Conheci-o em Maputo por ocasião do Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais que se realiza de dois em dois anos. Naquele ano foi em Moçambique e, por essa razão, lá fui até um país que era para mim desconhecido e que, por muitas razões, me haveria de marcar para sempre: os sorrisos das crianças; os efeitos da guerra; a vontade explícita de promoção do desenvolvimento em várias vertentes, tais como o turismo, o que me levou a escolher como tema de tese de doutoramento o turismo ecológico como via para o desenvolvimento sustentável; as acácias; as praias e a paisagem; os arredores de Maputo; o magnífico Hotel Polana; todas as pessoas, tão diferentes umas das outras, que tive oportunidade de conhecer. E o Prof. José Negrão estava por lá também e, coincidência feliz, assistiu ao painel onde a minha comunicação se inseria. O tema geral era as sociedades rurais e o desenvolvimento participativo e a minha comunicação focava o “empowerment”, o desenvolvimento local e a participação na Guiné Bissau através da actuação das ONGs locais, no caso o trabalho da ALTERNAG e de dois projectos: Mulheres costureiras do Bairro de Belém e Crianças trabalhadoras e de rua.

Estávamos em 1998 e eu hiper nervosa porque apresentava os resultados da minha tese de mestrado, defendida há pouco tempo, estava cheia de vontade de dar continuidade às investigações em África com o doutoramento e representava a Universidade onde trabalhava desde 1992 e onde ficaria até 2002. Pois o José Negrão assistiu com a atenção que lhe era habitual, comentou com o “savoir faire” dos especialistas e eu vim feliz com a noção de uma missão bem cumprida. Quando cheguei a Lisboa, um colega da Universidade ligou-me dizendo que, como habitual ouvira a RDP África e num programa, o José Negrão fizera alusão, de forma muito positiva, ao trabalho dos jovens investigadores, nomeando a comunicação por mim apresentada.

No ano passado o Congresso realizou-se uma vez mais, eu com o doutoramento já entregue e a aguardar defesa oral – estapa que se veio a revelar muito bem cumprida – e ele como figura de destaque. Aqui fica o texto por ele apresentado, linkado a partir do site do congresso, como a homenagem possível que lhe posso prestar. Eu, que me sinto honrada por o ter conhecido e privilegiada por um dia ter sido destacada por tão ilustre figura no meio das Ciências Sociais africanas.

Um futuro para Bissau

Hoje é dia grande na Guiné Bissau. Dia de esperança no futuro, na estabilidade e na paz, no respeito e na democracia. O mundo devia pôr os olhos naquela pequena nação que se caracteriza pelas diversidades e que está a aprender, devagar devagarinho, a respeitar as diferenças com o espírito sabedor da tradição. Um exemplo unicamente descrito pelo Jorge Neto em Africanidades, ilustrado com fotografias. Das eleições de hoje um dos dois vencerá, Sanhá ou Nino Vieira. O desejo é que, no rescaldo dos resultados, o respeito permaneça e que, apesar dos dois desejarem vencer, o que não puder sair vencedor saiba perder. Pela democracia e pelo futuro de um dos povos mais encantadores de África.

Perguntas sem resposta...

  1. Qual foi a primeira coisa que te passou pela cabeça quando me viste pela primeira vez?
  2. Quando tomaste consciência que tudo tinha chegado ao fim?

Como não sei as respostas... vou fazer bolinhos de côco!

Sobre o Amor...

Estou a ler “O Segredo do Chocolate” de James Runcie: livro muito engraçado que apela aos sentidos e às emoções, quer se esteja enamorado hoje ou tenha estado num ontem mais ou menos próximo, sabendo que num amanhã também mais ou menos inevitável voltará a flutuar no ar só por ouvir a voz que desperta o melhor dos sentimentos. Fala-se de muitas coisas no livro mas principalmente de paixão e de amor, do arrebatamento que sentimos por um alguém que se vem a revelar diferente nas nossas vidas num dia qualquer e sem que consigamos perceber porquê. E numa fase de cepticismo em relação a sentimentos desta natureza, em que pergunto aos meus outros eus o que é afinal o amor, e porque eles também não chegaram ainda a uma resposta consensual, ao ler as doces páginas deste livro, encontrei algumas respostas possíveis:

“Apesar das circunstâncias separarem os amantes, Ignácia dá a Diego um elixir e uma promessa: se estiveres vivo então eu estarei viva. Nunca desistas de me procurar”
...
“Quem ama verdadeiramente demora a esquecer”
...
“- Então o amor é uma escravidão?
- Uma escravidão à qual nos candidatamos com prazer”
E depois, fala-se muito do cacau e do chocolate, da forma e da cor, da textura, do aroma e do paladar. E, de forma inevitável, lembro-me de África e da primeira vez que provei cacau fresco no decurso de uma caminhada em STP, cujo percurso passava por cacauzais, que admirei as diferentes tonalidades da casca, que senti o sabor, inicialmente estranho e depois viciante. E quando, numa outra caminhada fomos conhecer o processo de secagem do cacau: a maturação do fruto em tabuleiros imensamente grandes e catalogados por tempos e o cheiro intenso, nesta fase pouco agradável; os fornos e o calor aromático, saboroso e apelativo; o armazém onde era ensacado. Uma experiência fantástica e que transbordou de sensações. Tal como no livro, os sentidos estavam no pico.

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Sonhos

Desde pequena que sonho muito tanto de noite, quando me deito para dormir, como de dia, sentada num sofá, a contemplar o mar que se vê da minha janela ou a ouvir música. Gosto de sonhar e de me sentir noutros mundos, noutras vidas, a viver situações únicas e que não se repetem porque os sonhos só são sonhados uma vez.

Mas há sonhos que me dão a estranha sensação de “déjà vu”, já que acabo por viver alguns episódios sonhados em noites anteriores, quando o inconsciente está desperto e actua sem me dar conta da sua presença ou o desejar. Não são bons nem maus e é difícil qualificá-los. Muitas vezes não interferem directamente comigo mas com situações do dia-a-dia com que me confronto, que presencio ou que me contam.

Às vezes, tenho mesmo receio de voltar a sonhar porque o que me é revelado durante o sono nem sempre é bom e o medo está na pergunta que fica sem resposta ao acordar “e se isto acontecer mesmo?”. Por sorte a maioria destes meus sonhos, que só me aparecem em estado inconsciente, não se realiza: é que, muitas vezes, são absolutamente estranhos ao misturarem pessoas num campo surrealista... São terríveis, constrangedores, por vezes agressivos fazendo-me acordar a meio da noite em sobressalto.

Mas há ainda outros que me desconsolam, não pelas situações criadas mas sim por me dar conta que, ao acordar, eles terminam também. Estes são os sonhos bons, fantásticos, magníficos que ficam normalmente por terminar e na melhor parte, nos quais o desfecho nunca chega a ser conhecido e que me criam aquela necessidade de espreguiçar até à exaustão, sentindo que cada músculo é esticado até o corpo se sentir confortável. Estes sonhos são tão bons, tão doces, tão cheios de ternura e simpatia, com tanto afecto demonstrado sem medo, sem receio, sem vergonha que quase tenho vontade de pedir à fada, que tem o poder de me embalar num sono feliz, que me ajude com a varinha e os pós de perlimpimpim a dormir só mais um pouquinho, para poder viver por mais uns minutinhos aquela excelsa sensação do que é a felicidade.

Universidade Lusíada em STP

Uma boa notícia: o ensino universitário vai por fim chegar a STP.

Estando ligada ao ensino e à formação, desde que ingressei no mercado de trabalho, já lá vão 13 anos, sendo uma pessoa muito interessada pelas questões do desenvolvimento africano, e alimentando um carinho muito especial por STP (conhecido e reconhecido), considero que, desde há uns bons tempos, esta é umas das melhores notícias relacionadas com o arquipélago onde todos os sonhos são possíveis.

STP está de parabéns, bem como a Universidade Lusíada que fez uma “aposta de peso”. Esperando que os jovens santomenses aproveitem ao máximo a possibilidade de localmente se qualificarem e que o Estado assegure as condições necessárias para que o ensino seja uma das prioridades nacionais.

Solariso e POR FAVOR, POUPEM ÁGUA!

No Solariso, o Pedro Rocha faz-nos também um apelo, em sintonia com o Bioterra: POR FAVOR POUPEM ÁGUA. No blog Solariso encontram mais informação.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Um apelo importante

O Bioterra é um dos meus blogs de eleição, não só porque trata de temas actuais, divulgando informação, mas principalmente porque funciona, para mim, como uma excelente “base de dados” no que respeita às questões ambientais, com links importantes, é honesto nos comentários e tem um grafismo bonito. Tenho aprendido muito com a leitura dos posts e com as ligações para outros sites temáticos. Consultem porque vale a pena!!! Mas hoje escrevo sobre o Biosfera porque há um post que trata de um problema que, diariamente, todos nos esquecemos (ou quase todos) e que deve ser mais do que relembrado, principalmente em época de férias quando o bem estar e o prazer presentes são sobrevalorizados, minimizando-se a relação do consumo-desperdícios. O tema é a Água. Leiam com atenção redobrada o post “A seca e a poupança de água – o consenso difícil”.

A lua

A lua teima em não abandonar a minha janela e torna-se impossível fugir dela, até porque além de redonda está de uma cor forte, amarelo torrado, como se me quisesse dizer palavras bonitas, quentes e acolhedoras. Por África a lua é magnífica, mas sempre a vi alta e distante, brilhante e branca. Aqui, quando cheia como hoje, dá-me uma estranha sensação de proximidade porque se apresenta maior do que lá, imensamente grande, e muito colorida, de tal forma que, ao observá-la com o cuidado e a atenção que merece, consigo identificar os contornos e os desenhos. A noite hoje está bonita, muito bonita... e ao olhar o céu sinto-me inacreditavelmente tranquila, de tal forma que até desejo que a imagem que deslumbra os meus olhos não se vá para que a paz permaneça...

Mais um dia negro na História Mundial

Acabei de ver na televisão que novos incidentes de natureza criminal e terrorista ocorreram em Londres e, mais uma vez, os alvos são civis, ou melhor pessoas como todos nós: anónimas; indiferenciadas; comuns; que se deslocam através dos transportes públicos para todo o lado. Pessoas que procuram apenas viver.

Mais uma vez trata-se de um acto inqualificável de criação e multiplicação da instabilidade, contra a segurança humana, o bem estar e o convívio pacífico e equilibrado entre povos de origens diferentes. Acções que incentivam os desencontros culturais criando mal estar e que, com o tempo, levarão ao aumento do racismo e da xenofobia.

Pior que tudo, mais uma vez, quem promove acções desta natureza não tem amor à própria vida nem respeito pela vida dos outros... e isto diz tudo. Não se trata de lutar por uma causa mas antes de educação para a vida ou para a morte que, nestes casos, se processam de forma fanática e doentia.

Hoje foi mais um dia negro na História Mundial.

Recordar é viver

Uma pessoa que conheci e que, com o tempo, se revelou uma sábia personagem, dizia-me com alguma frequência, e sempre que me perdia em divagações saudosistas, que as recordações e as lembranças nos fazem reviver os momentos bem passados, tornando presentes as pessoas que são, para nós, importantes mas que, por motivos vários, não nos fazem companhia em alguma fase desta vida. E por isso são mágicas e tão magníficas.

Não sei se é sempre fácil recordar os momentos vividos em STP mas, com o tempo, os bons prevalecem e ao lembrá-los a sensação que me fica é a de um tempo preenchido, que me enriqueceu e me modificou em muitas coisas. Não seria, por certo, a pessoa que sou hoje se não os tivesse vivido, se não tivesse estado em STP naquela altura e não tivesse conhecido todas aquelas pessoas, as boas e as más!!!

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Comentários

Finalmente decidi-me a experimentar os comentários aos posts que vou colocando. Vamos ver se e no que resulta...

terça-feira, 19 de julho de 2005

Considerações

Apesar do calor que faz no ar, do céu estar límpido e a noite iluminada, terá a lua deixado de fazer sentido para mim? Será por África estar agora longe, cada vez mais? Já estarei a sentir os efeitos da nostalgia do passado? Nãããã... porque se fosse a nostaláfrica uma vez mais a fazer das suas, por certo que eu estaria agora a contemplar o luar no céu, a observar aquela misteriosa senhora redonda e brilhante, que se diz inspiradora de bons e duradoiros sentimentos, ou apenas à procura das minhas amigas estrelas para mais algumas confidências ou simples desabafos. Mas não. Não tenho tempo para falar de mim e pouca vontade de verter lágrimas por quem não é merecedor. Estou sentada ao pé de outro grande amigo que tem a amabilidade de, com um sábio silêncio, me ouvir sem que eu fale, comunico por toques e o sinal da empatia que se estabeleceu entre nós desde que nos conhecemos, já lá vão uns bons 7 anos, expressa-se nestas linhas. Nunca me abandonou e muito menos me traiu, fosse nos bons ou nos maus dias, e eu retribuo-lhe a permanência com uma imensa fidelidade. Todos me aconselham a trocá-lo. Além de não ser oportuno nesta altura, e podendo parecer estranho, sinto afectividade pelo “meu bichinho”. Sei que os há melhores, mais rápidos e potentes, com uma prestação mais coerente às necessidades dos dias de hoje, mas gosto dele, o que hei-de eu fazer??? Nem tudo se troca só porque apareceram novos modelos, novas cores ou formatos...

Site oficial da Região Autónoma do Príncipe

Também vale a pena consultar o site da Região Autónoma do Príncipe
Mais um excelente trabalho no sentido da divulgação do arquipélago.


Assembleia Nacional de STP

O site da Assembleia Nacional da República Democrática de São Tomé e Príncipe já está disponível. É bastante completo e tem um grafismo agradável. É mais um útil meio de informação, divulgação e trabalho.


A constatação e a resolução

Não é dele que estou farta. É de mim a gostar dele! Para grandes males, grandes remédios: a partir de hoje, vou mudar-me!

02/07/2005

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Na ressaca das férias

Estou na ressaca das férias! Nitidamente dou comigo a querer esquecer: não as férias mas alguns sentimentos vividos em África; pessoas que me marcaram e que eu quis marcar, mas na vida das quais não deixei sequer um sinal, de tal forma que, por certo, já me terão esquecido; paisagens que me parecem hoje mais do que distantes, apenas sonhadas e não vividas. Não sei se tenho vontade de voltar e também, com toda a certeza, este será um sentimento que, daqui a um bom par de dias, me parecerá mais um sonho. Mas é esta a minha realidade de hoje. Estranha e que vem de muitas e muitas desilusões, insistentemente sentidas, de forma quase teimosa, quase doentia. Aqueles dias não existiram. Terei sido eu a recriá-los?

domingo, 17 de julho de 2005

Regresso

O sentimento de pós-férias é quase sempre depressivo: é um período mais curto do que desejaríamos; nunca descansamos tanto quanto necessitamos; deixamos sempre muitas actividades radicais e diferentes da rotina diária por praticar; o tempo por cá está sempre pior do que lá; o sentido da responsabilidade e do cumprimento das tarefas assola-nos de forma irreversível. Mas sobretudo porque a paisagem altera-se completamente.

Estou de volta...

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Preciso de...

FÉÉÉRIAS!!!!!!!!!!!!!!!
SOL, MAR, PAISAGEM VERDE, TRANQUILIDADE E MUITA PAZ! LIVROS E DESCANSO...
E é o que vou fazer. Voltarei daqui a duas semanas, mais coisa menos coisa... Mais encontrada e descontraída. Fiquem bem e até ao meu regresso...

Falta de coragem

Havia dias em que a tristeza e a angústia chegavam tão depressa que mais parecia terem sido trazidas por um raio numa noite de tempestade com trovoada, rasgando o céu com a urgência do encontro com o destino. Havia dias em que a saudade dos que já cá não estão para uma festa e um abraço, uma palavra ou apenas um olhar, se tornava insuportável. Havia dias em que o desconforto causado pelo desencanto e pela desilusão, que a vida se tinha encarregado de tornar presentes, se revelava sufocante. Havia dias em que tinha vontade de desistir porque sentia que mais nada fazia sentido. Mas nem para isso tinha coragem...

Conversas trocadas

- Achas possível viver sózinho? – perguntou-lhe o coração de manteiga pelo qual ela se apaixonara uns anos antes e pelo qual ainda sentia um baque quando ele entrava numa sala sem que ela o esperasse, e que se desfazia com qualquer saia que passasse pelo seu campo visual, consciente dos estragos que provocava ou até involuntariamente e sem querer perturbar.

Mas aquele era talvez um dos homens mais naturalmente perturbados, que se dizia sensível às belezas femininas, que se encantava com qualquer rabo de saias e que se deslumbrava com qualquer tipo de beleza. Para ele não havia mulheres feias e muito menos desinteressantes. Em qualquer uma conseguia encontrar um sinal de arrebatamento que o fazia balançar, desengonçava e podia até desestruturar. Aquele era um homem emocionalmente muito desorganizado e ela que procurava, antes de mais, orientar-se. Tinha até a mania de oferecer bússolas aos amigos porque era uma forma de reconhecer os pontos seguros da sua vida. Pois àquele nunca oferecera nenhuma, talvez o mal estivesse mesmo aí...

- Já alguma vez te apaixonaste de forma tão intensa que eras capaz de largar a vida que tens por esse sentimento e para correres atrás do motivo do teu desassossego? Já te sentiste fundir noutra pessoa e ser capaz de qualquer loucura por ela? – respondeu ela com a consciência que estava a ser traída pela sua própria voz, que soava a desilusão contida, resultado de uma expectativa alimentada durante anos.

Ele olhou-a e encolheu os ombros sem perceber ao certo o que ela queria dizer com aquilo...

 

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Um despertar feliz

Hoje acordei, como sempre com o rádio a despertar-me, e tive a alegre sensação de estar de novo em STP. Foi hoje, no programa da manhã em 104.3, RCP (Rádio Club Português).

Em vez da música habitual, o som era a voz do João Carlos Silva (Roça de S. João, Teia d’@rte e Na Roça com os Tachos), que falava, como só ele sabe fazer: da magia de STP; das roças; do turismo; da natureza e da paisagem; da criatividade na cozinha; do bem estar que uma boa refeição, bem confeccionada e degustada com prazer, provoca no corpo e na mente; na cultura mestiça porque mesclada de origens, que a tornam única.

Foi bom ouvi-lo a conjugar palavras, como sempre, de uma forma muitíssimo feliz para quem o ouve. Tudo sai perfeito – o sentido das palavras, os sons, os “tum tum tum”, o sorriso que nos transmite com a voz e que visualizamos, a alegria de viver e a capacidade de acreditar no que faz e no que diz. Foi reconfortante ouvir a recomendação de sempre “Façam o favor de serem felizes. Muito felizes!”.

Hoje, o meu despertar foi magnífico. Obrigada João Carlos!

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Presidência da República de STP

Os efeitos da globalização fazem-se sentir um pouco por todo o lado, o que contraria, em parte, o Síndrome dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, resultante da conjugação de diferentes factores como a situação de insularidade, a pequena dimensão, a distância em relação aos principais centros internacionais e o isolamento, agravados por um outro leque de factores que se podem classificar em históricos, demográficos, económicos, sociais, culturais, já para não falar nos climatéricos e nos geográficos que, não determinando, condicionam o percurso de cada país.

Ao olharmos para um PEID, leia-se Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento, fazemos quase sempre uma leitura imediata de condenação ao insucesso, ao bloqueio e à estagnação. Mas São Tomé e Príncipe revela-se, de quando em vez, um grande país. Digo-o, não por ser uma eterna apaixonada das “ilhas encantadas” mas sim porque a realidade é só uma. STP está a modernizar-se, pode até ser ao ritmo “leve leve”, mas este dá-lhe o encanto da sedução prolongada.

Para terem uma ideia do porquê do que digo, sigam o meu breve raciocínio: em 2000 não havia luz nas ruas da cidade e uma consulta à Internet era uma aventura. Em 2001 abriu um cibercafé – bar Tropicana – as ruas da cidade não pareciam as mesmas, porque iluminadas. Daqui para a frente, e até hoje, foi ver as mudanças ocorrerem, a modernização ser uma realidade e os sites de divulgação do país proliferarem. Hoje, a informação disponível na net sobre o país é já abundante, seja através de Grupos de debates, generalistas e temáticos, de páginas pessoais ou intitucionais ou de blogs. O INE nacional disponibiliza informação on line; alguma legislação é também encontrada; os jornais digitais multiplicam-se... Mas, melhor do que tudo isto, a Presidência da República de São Tomé e Príncipe já tem site disponível na net. Para quem interessar, alguns links estão ainda em construção, mas a imagem visual é muito agradável e o conteúdo apela ao diálogo. Vale a pena consultar já que, além de tudo o mais, contem informação importante como decretos, discursos, e permite ver as caras dos assessores do Presidente.

O Doce, a Flor e o Maracujá

A propósito do maracujá e da sua magnífica flor - ver Digitalis, Devaneios à Sombra de uma Pérgola de Flor-da-paixão,de dia 29 de Junho - lembrei-me do doce que se fazia em STP: fácil e rápido de praparar, nutritivo, simultaneamente doce e refrescante. O maracujá santomense, só por si, era muito magnífico!!! Grande, diria enorme, sumarento, doce e com umas sementinhas crocantes que faziam delícias. Como é bom lembrar...
Doce de Maracujá
Misturar numa taça o conteúdo de uma lata de leite condensado com uma gelatina (após a mistura do pó - preferencialmente folhas - com a água) líquida. Com a varinha mágica (em caso de não haver batedeira), misturar bem os ingredientes. No final, juntar a polpa do maracujá e, com uma colher, misturar bem. Colocar no frigorífico até solidificar e servir bem fresco. A este doce pode juntar-se ainda polpa de manga (fresca e não de lata...) e rodelas de banana (preferencialmente banana maçã que corta o doce excessivo).

Posted by Hello

Posted by Hello

terça-feira, 28 de junho de 2005

IEEI - Destaque Guine-Bissau

No site do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais, o destaque vai para a Guiné-Bissau. documentos oficiais, papers e relatórios, informações gerais e links úteis .

 

 

Diário de uma viagem em solidão - Parte Primeira

Maputo, 31 de Dezembro de 1998

Hoje é o último dia do ano. Um dia passado na mais perfeita solidão apesar de estar contigo. Ou de ser suposto estar contigo porque foi por ti que vim, mas tu, tu não estás nem aí. Estou e sinto-me só, o que é uma contradição. À minha volta há dezenas de pessoas, gente de todas as cores, tamanhos, feitios e idades. Falam uma variedade de idiomas, riem, conversam, discutem ou namoram-se. E eu, estou sozinha num sítio onde não conheço ninguém e ninguém me conhece, a não seres tu. Ninguém se importa sequer com isso mas também não era suposto que alguém, a não seres tu, se preocupasse.

É estranho este ambiente que está a ser recriado à beira desta piscina magnífica, dando uma imagem de festividade sem que eu sinta que posso, por algum momento, fazer parte dela. Sinto-me uma pateta alegre por ter vindo fazer uns bons milhares de quilómetros para a terra das acácias de flor vermelha, onde a água rola ao contrário nos lavatórios e até as estrelas têm no céu uma imagem desconhecida para mim. E fi-lo por ti, para ti, mas não quero, por um segundo que seja, que o percebas. Esperava-te diferente, é verdade, mas se não estás, não quero que fiques e que me enganes mais.

De pensar que apenas cheguei ontem e já estou arrependida. E sabes porquê? Porque me fazes sentir a mais, depositando-me aqui e eclipsando-te sem uma palavra. E de pensar que foste tu que insististe para eu vir, fazendo projectos.

O calor sufoca-me e cala as palavras que gostaria de dizer e as gargalhadas que tinha necessidade de dar. Mas não há condições para o riso aberto, franco e descontraído. Pode ser que tudo mude como o tempo, afinal hoje também já fizeram muitos tempos: sol e calor abrasador como no verão; trovoada e chuva como no Inverno... só que sem frio.

Diz-me, o que faço eu aqui? – pergunto-te em silêncio, sem emitir um som que seja. Olho-te, quando apareces, quase sempre de fugida, e querendo dizer-te tanto, calo-me...

segunda-feira, 27 de junho de 2005

Conchas e búzios

Ando numa fase cansativa em que as arrumações são a minha prioridade. Não arrumações em sentido figurado, mas sim tudo o que tem que ver com a limpeza e a recolocação dos objectos nos sítios depois das obras necessárias após o incêndio em Março. É engraçado perceber que a casa tem mais coisas do que devia porque agora já não sei bem os sítios de cada peça e sobram-me algumas... Não tenho jeito para engenharia, portanto.

No meio do cansaço houve uma tarefa que me deu um infinito prazer: a caixa onde tinha guardado as minhas conchas e os búzios trazidos de África, uns apanhados nas longas caminhadas pela praia, outros oferecidos e uns quantos comprados. Todos têm um significado e uma história, desde os mais pequenos aos maiores. E todos, sem excepção, me fazem sorrir. Afinal, enquanto por lá andei, tratei um por um com um carinho e atenção particulares. Lavei-os, esfreguei-os, limpei-os, envernizei-os e sequei-os cuidadosamente.

E hoje retirei-os do caixote, desembrulhei-os, de novo um por um, e voltei a limpá-los. Ao pegar-lhes, as imagens vividas passaram à frente dos meus olhos com uma estranha nitidez: foram momentos vividos há tempo mas pareceram-me ainda muito presentes. E as personagens reapareceram: o companheiro, o amigo e as amigas, as falsas e interesseiras conhecidas, as falaciosas confidentes, o intriguista, os vendedores.

E pela proximidade das memórias, tentei ouvir o som do mar na boca dos búzios mas a distância imperou e não me deixou escutá-lo.

Livraria Barata - Descontos

As Livrarias Barata oferecem descontos em TODOS OS LIVROS, a partir do dia 18 de Junho (incluindo infantis, técnicos, romance...). O desconto varia em função do ano de edição. Assim sendo:
- anterior a 2000 = desconto de 50%

- entre 2000 e 2001 = desconto de 30%

- entre 2002 e 2003 = desconto de 20%

- entre 2004 e 2005 = desconto de 10%
Barata da avenida de roma

Barata de campo de ourique

Barata técnica [IST]

Barata agronomia [ISA]

Barata técnica [FCT]

Barata évora [UE]


Minutos infantis

Como é boa a companhia das crianças, pensava Adelaide, após ter usufruído da companhia de uma maravilhosa criança de 5 anos, durante uns breves 30 minutos. A dada altura ele disse-lhe: “Que saudades eu tenho de sentir os pés na areia...”, e ela aproveitou a deixa e perguntou-lhe: “queres ir à praia?”. A resposta não se fez tardar naqueles enormes olhos castanhos. E lá foram. Ele correu com os pés descalços atrás das gaivotas e Adelaide sorria atrás dele, caminhando calmamente, enquanto pensava no quanto é bom ter espírito de criança e nunca se cansar de correr, rir, brincar, sonhar, desejar e realizar. O tempo não passou para eles, voou, mas aquele final de tarde, numa praia quase deserta no início do verão, ficará na memória dos dois.

domingo, 26 de junho de 2005

O durante e o após

Por vezes sentia-se dividido entre o que desejava muito e o que sentia ser a atitude justa e correcta, regulada pela medida certa. Isso acontecia-lhe com maior frequência desde que saíra de África que, como gostava de dizer enquanto massajava o queixo com um sorriso espalhado no rosto e o olhar vago das lembranças, era o continente dos infinitos sonhos e dos 2 Ms, majestoso e mágico. Em África tudo parecia simples demais e as respostas aos problemas não requeriam grande teorização porque eram directas e os meios para os solucionar, os mais imediatos porque os possíveis.

Mas aqui, a vida passou a complicar-se e todos os actos, por mais lineares que parecessem inicialmente, complexificavam-se com uma incontrolável rapidez, tornando-se obrigatoriamente consequentes. Também aqui, a vida ganhou o tom da intelectualidade até à última consequência e quanto mais básico for o problema, maior reflexão parece necessitar. Dá a sensação que por cá as pessoas teimam em não ser felizes porque têm de ser muito sérias e excessivamente adultas para se tornarem credíveis e confiáveis. Perderam o sentido do riso e da gargalhada, do disparate e da leveza a que o ser é dado, da ternura e da compreensão, da descontração e do “savoir faire” em função das necessidades do momento. Mas por certo ganharam a racionalidade e o falso, mas permanente, sentido crítico em relação a tudo e a todos, menos a si próprios.

sábado, 25 de junho de 2005

Verdade esquecida

“Quando entregamos o coração, arriscamos mais do que a nós mesmos. Colocamos em risco a pessoa que o recebeu”

Nora Roberts in “Entre o Céu e a Terra”, pg. 264

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Noutra África

Noutra África os resultados das presidenciais já soam. No Africanidades há detalhes: Sanhá com 158.000 e Nino Vieira com 138.000. É motivo para dizer: XIIII, AÍ VEM ELEIÇÃO DE NOVO.
Pena que quem ficou em 3º lugar, Kumba Ialá, tenha mau perder, ele, os apoiantes e os representantes do partido. A manifestação supostamente não autorizada já vai em 3 mortos... um desassossego. Falava eu aqui há uns dias na desejada paz para um povo merecedor.

Numa das Áfricas

Por África é minha e de todos os que por lá passaram, vale a pena passar pelo Chuinga e ler tudo, mas em particular o Conto de Fadas, dividido em duas partes. Magnífico!

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Alergias e calores húmidos

Quando penso em calor húmido, invariavelmente lembro-me de África, ou pelo menos das Áfricas pelas quais passei.

A primeira, Guiné Bissau é quente e a humidade uma das principais características. A sensação que se tem é de andar permanentemente nas proximidades de uma panela de pressão, cheia de frutas aromáticas, de terra molhada e de chuva. A pele cola como se o vapor da pressão nos perseguisse. Penso mesmo que esta sensação é agravada pela ausência de praias nos quilómetros mais próximos da capital, o que aumenta a vontade de um banho relaxante nas águas mornas das praias tropicais.

A segunda, Moçambique que, por coincidência do destino, recebeu a minha visita em épocas de grande calor e, claro está, infinita humidade. Aqui os cheiros foram, para mim, menos intensos mas as cores verdadeiramente fantásticas, principalmente das acácias que davam às ruas um colorido inconfundível e de extrema beleza. A sensação pegajosa da pele foi menos permanente do que a primeiríssima experiência, em parte porque passei uma parte dos meus dias entre banhos e as tentativas de captar, por entre as nuvens, algum raio de sol que teimava em se esconder.

A terceira, e mais apaixonante de todas, São Tomé e Príncipe, terra onde invariavelmente as amplitudes térmicas persistem em não ser evidentes, mas onde os níveis de humidade chegam a atingir os 90% com uma curiosa facilidade. Ali, a roupa colava à pele mas a sensação não era desagradável, antes pelo contrário, talvez porque o espírito fosse mais receptivo às mudanças e procurasse adaptar-se às contingências e dificuldades com que me ia confrontando, mais do que nas duas primeiras Áfricas. E além disso havia sempre uma praia por perto para um mergulho, mesmo que fugidio, em águas quentes e cristalinas, com uma paisagem de enquadramento simplesmente deslumbrante.

E hoje, só podia ser, relembro a humidade quente com saudosismo. E sabem porquê? Porque aqui faz calor, tem dias em que faz mesmo muito, e há humidade, só que não é quente e não tem o mesmo sabor, os cheiros não são os mesmos e as sensações menos reconfortantes. Além do mais, quando faz calor não há humidade e esta aparece com frequência para esfriar a temperatura. E com estas alterações climatéricas, as minhas alergias explodem e eu sinto-me de rastos. Começo a tomar antihistamínicos e corticóides locais e tenho a sensação que o Mundo vai desabar em cima da minha cabeça que lateja e dói sem parar, o nariz fica entupido e a respiração muito pesada. E eu só penso que, enquanto estive em África, numa qualquer, estes achaques não me davam e, apesar do intenso calor e da dureza da humidade, eu passava muito melhor do que aqui. Não pensem que eu não gosto da minha terra, porque gosto, mas reconheço que tenho umas saudades de África... que nem consigo explicar...

terça-feira, 21 de junho de 2005

De novo a lua

A lua está cheia de novo e hoje particularmente bonita: redonda, amarela, brilhante e luminosa. Muito inspiradora e a indiciar um dia de calor sem fim para amanhã. Vista do local onde me encontro, provoca-me e espreita-me entre os ramos da árvore que faz parte do meu quotidiano. E esta noite, apesar do cansaço que sinto, até consigo ver as duas caras numa troca de confidências que só aos amantes é permitida.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Presidenciais na Guiné Bissau

Estava um pouco apreensiva com as eleições na Guiné Bissau mas fiquei contente. Dentro do contexto, possivelmente enquadrável pela Lei de Murphy, tudo correu bem, muito melhor do que os mais optimistas poderiam pensar, sem incidentes de maior. Para já, quem está de parabéns é mesmo o povo guineense que está cansado de desencontros, lutas, agressões e desrespeitos. E agora, resta-me desejar com espírito positivo e crédulo qb que assim se mantenham quando forem tornados públicos os resultados.

domingo, 19 de junho de 2005

Certinhos

No outro dia conversava com um amigo e lembrei-me de África, uma vez mais. Não só por ele também fazer parte dela e ter sido lá que o conheci, mas principalmente porque o tema da conversa nos levou de novo até lá. Dizia-me ele, a propósito de alguém de quem gosta muito e por quem tem uma preocupação infinita, que ela tinha uma tendência para só se interessar pelos “marginaizinhos”. Não por marginais de peso ou de tradição, e isso já é uma sorte! Mas por aqueles que fazem disparatezinhos, que se desviam daquilo que sempre se idealizou para os filhos ou para as pessoas de quem se gosta muito, pelos não certinhos. Eu ri, claro, e disse-lhe que é natural porque os certinhos têm menos piada. Não é que eu pense assim, mas reconheço que há quem pense: o disparate é mais sedutor porque mais arriscado. Os níveis de adrenalina sobem mais depressa... O meu amigo não ficou nada consolado com o meu comentário, mas eu estava a brincar. E ele já devia saber disso...

Já foi...

Foi ontem o lançamento do Xicuembo e eu não estive lá. Ficam aqui expressas as minhas desculpas a um dos bloguistas da minha preferência, já que tinha prometido estar presente. Mas não consegui...

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Hora de relógio

Quando se combinava qualquer coisa em STP era costume seguir-se dois princípios:

  1. Um atraso dentro da normalidade podia ir até 1 hora, pelo que era socialmente considerado como regra que esperássemos até que os nossos amigos chegassem, com a calma e a tranquilidade que a paisagem transmitia e o espírito “leve leve só” dos santomenses, que nós fomos assimilando com o tempo e que, após o regresso, tanta falta nos faz. O encontro era sempre marcado com a indicação de “hora de relógio”, que é como quem diz “às 17 horas, sem falta, e com a possibilidade de te atrasares até às 18, sem que eu esteja com a cara número 3 quando apareceres”.
  2. Se o encontro desse lugar a espera, o mais pontual acabava sempre por já estar acompanhado por alguém, não com o objectivo imediato e exteriorizado de “engatar” quem quer que fosse, mas porque todos se acabavam por conhecer e era impossível frequentarmos um bar, café, restaurante ou local público sem que aparecesse alguém que conhecêssemos. E o encontro com os amigos tornava-se naturalmente numa reunião mais alargada.

Pois hoje ia jantar, pensava eu, com alguns amigos que conheci por terras paradisíacas. Mas foi adiado para amanhã por conveniência de mais do que um dos convivas, um deles foi já avisando que só chega mais para o tarde. E amanhã lá vamos nós, confraternizar e relembrar a “hora de relógio” e que, pensando bem, depois de regressarmos, devia ser antes “dia de calendário”.

Encontros e Jantares

Jantar com amigos é sempre um prazer, principalmente quando já passaram muitos meses desde a última vez que os vimos e/ou estão geograficamente dispersos por esse Mundo. Hoje é um desses dias ou melhor noites. Vou rever amigos que conheci em África, pois claro. Vamos conversar e rir, saber uns dos outros e as últimas estórias dos nossos “ódios de estimação”, falar sobre o passado, o presente e o futuro, relembrar as Africas pelas quais passámos e onde ainda queremos ir. E não há melhor local do que uma mesa farta para o fazer. O tempo vai ser curto, pelo menos para mim que chego tarde e saio cedo, porque ando numa “afobação” sem fim mas também porque o que quero saber é tanto que nunca dá para, num breve encontro, ouvir tudo.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Ódios de Estimação - 2

Os ódios de estimação são um dos factores que contribuem, de forma determinante apesar de inconsciente, para a sanidade social da maioria dos mortais. É que enquanto se entretêm a observar, comentar em grupo e recriar o que uns e outros foram, são ou serão, mesmo que nunca o venham a ser ou tenham sido, desviam a atenção sobre si mesmos, pensando estar safos dos olhares alheios e das consequentes más línguas, que lhes estão associadas de forma infalível. Além de tudo o mais, encerram uma função de sociabilidade importantíssima, já que somos obrigados a interagir uns com os outros para falar e destruir a vida alheia, mas também quando contactamos com o objecto da nossa raiva. E, no final, dá vontade de espreguiçar pela sensação de missão cumprida. Afinal, tudo isto dá muito trabalho, cansa e desgasta, por isso no final da sessão merecemos o descanso do guerreiro após uma luta mortífera porque desfizemos o adversário, mesmo que ele não nos tenha feito nada de mal. Não gostamos dele e isso é o suficiente.

Mas... quando nos sentimos como o ódio de estimação de alguém, percebemos o quão desconfortável se pode tornar esta cadeia de perseguições verbalizadas que podem mesmo chegar a destruir a vida mental dos mais sãos, a vida emocional dos mais estáveis, a vida profissional dos mais competentes. Tudo se inventa e tudo se relata com pormenores mórbidos e sádicos, procurando evidenciar realismo e uma veracidade impossível de duvidar. Os olhos dos ouvintes abrem-se incrédulos e as bocas emitem sons como “ahhhhh”, “ohhhh”, “arghhhh” seguidos de pausas complementadas por caretas que traduzem desaprovação para comportamentos tão impróprios. A avaliação que é feita resume-se a um “pois é... coitada(o), o que lhe havia de acontecer...”. E aquele terrível sentimento, que não se deve ter por ninguém, de pena cresce a um ritmo galopante por todos os que se dão connosco, sem que possamos sequer perceber porquê. Agora, quem relata valoriza-se aos olhos dos demais porque supostamente sabe, presenciou, viveu situações absolutamente confrangedoras daquele serzinho perdido, e partilha-as em tom de um secretismo delicioso.

De génios passamos a incompetentes, de santos a diabos, de boas pessoas a destruidores de tudo o que nos aparece pela frente. Pior, apesar de terem tido a melhor das impressões a nosso respeito, quando nos encontram abraçam-nos como se tivéssemos estado à beira da perdição ou da morte, mexem-nos nos braços com movimentos ascendentes e descendentes e, com o melhor sorriso que conseguem, tentando demonstrar compaixão, dizem “Afinal estás com bom aspecto...”. E uma pessoa, com cara de parva, só consegue pensar “Safa, mas onde pensa ele(a) que eu andei? Na travessia do deserto ou num mar infestado de tubarões? OU será que a última história que lhe chegou foi ter virado drogada ou alcoólica sem recuperação possível, prostituta ou assassina?”. Dá vontade de gritar e fugir mas, ao contrário, sai um sorriso amarelo que reforça o desconforto e dá as maiores certezas, que na verdade são incertas, ao interlocutor.

E ao juntarmos 2 mais 2, a estória sai direitinha como uma folha de jornal. A clarividência alheia é algo de transcendente, sobretudo a dos pobres de espírito. Porque não se ocupam em algo verdadeiramente útil, em vez de criarem e recriarem argumentos, inventarem feitos, juntarem peças que não têm a menor relação????

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...