quarta-feira, 15 de junho de 2005

Hora de relógio

Quando se combinava qualquer coisa em STP era costume seguir-se dois princípios:

  1. Um atraso dentro da normalidade podia ir até 1 hora, pelo que era socialmente considerado como regra que esperássemos até que os nossos amigos chegassem, com a calma e a tranquilidade que a paisagem transmitia e o espírito “leve leve só” dos santomenses, que nós fomos assimilando com o tempo e que, após o regresso, tanta falta nos faz. O encontro era sempre marcado com a indicação de “hora de relógio”, que é como quem diz “às 17 horas, sem falta, e com a possibilidade de te atrasares até às 18, sem que eu esteja com a cara número 3 quando apareceres”.
  2. Se o encontro desse lugar a espera, o mais pontual acabava sempre por já estar acompanhado por alguém, não com o objectivo imediato e exteriorizado de “engatar” quem quer que fosse, mas porque todos se acabavam por conhecer e era impossível frequentarmos um bar, café, restaurante ou local público sem que aparecesse alguém que conhecêssemos. E o encontro com os amigos tornava-se naturalmente numa reunião mais alargada.

Pois hoje ia jantar, pensava eu, com alguns amigos que conheci por terras paradisíacas. Mas foi adiado para amanhã por conveniência de mais do que um dos convivas, um deles foi já avisando que só chega mais para o tarde. E amanhã lá vamos nós, confraternizar e relembrar a “hora de relógio” e que, pensando bem, depois de regressarmos, devia ser antes “dia de calendário”.

Encontros e Jantares

Jantar com amigos é sempre um prazer, principalmente quando já passaram muitos meses desde a última vez que os vimos e/ou estão geograficamente dispersos por esse Mundo. Hoje é um desses dias ou melhor noites. Vou rever amigos que conheci em África, pois claro. Vamos conversar e rir, saber uns dos outros e as últimas estórias dos nossos “ódios de estimação”, falar sobre o passado, o presente e o futuro, relembrar as Africas pelas quais passámos e onde ainda queremos ir. E não há melhor local do que uma mesa farta para o fazer. O tempo vai ser curto, pelo menos para mim que chego tarde e saio cedo, porque ando numa “afobação” sem fim mas também porque o que quero saber é tanto que nunca dá para, num breve encontro, ouvir tudo.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Ódios de Estimação - 2

Os ódios de estimação são um dos factores que contribuem, de forma determinante apesar de inconsciente, para a sanidade social da maioria dos mortais. É que enquanto se entretêm a observar, comentar em grupo e recriar o que uns e outros foram, são ou serão, mesmo que nunca o venham a ser ou tenham sido, desviam a atenção sobre si mesmos, pensando estar safos dos olhares alheios e das consequentes más línguas, que lhes estão associadas de forma infalível. Além de tudo o mais, encerram uma função de sociabilidade importantíssima, já que somos obrigados a interagir uns com os outros para falar e destruir a vida alheia, mas também quando contactamos com o objecto da nossa raiva. E, no final, dá vontade de espreguiçar pela sensação de missão cumprida. Afinal, tudo isto dá muito trabalho, cansa e desgasta, por isso no final da sessão merecemos o descanso do guerreiro após uma luta mortífera porque desfizemos o adversário, mesmo que ele não nos tenha feito nada de mal. Não gostamos dele e isso é o suficiente.

Mas... quando nos sentimos como o ódio de estimação de alguém, percebemos o quão desconfortável se pode tornar esta cadeia de perseguições verbalizadas que podem mesmo chegar a destruir a vida mental dos mais sãos, a vida emocional dos mais estáveis, a vida profissional dos mais competentes. Tudo se inventa e tudo se relata com pormenores mórbidos e sádicos, procurando evidenciar realismo e uma veracidade impossível de duvidar. Os olhos dos ouvintes abrem-se incrédulos e as bocas emitem sons como “ahhhhh”, “ohhhh”, “arghhhh” seguidos de pausas complementadas por caretas que traduzem desaprovação para comportamentos tão impróprios. A avaliação que é feita resume-se a um “pois é... coitada(o), o que lhe havia de acontecer...”. E aquele terrível sentimento, que não se deve ter por ninguém, de pena cresce a um ritmo galopante por todos os que se dão connosco, sem que possamos sequer perceber porquê. Agora, quem relata valoriza-se aos olhos dos demais porque supostamente sabe, presenciou, viveu situações absolutamente confrangedoras daquele serzinho perdido, e partilha-as em tom de um secretismo delicioso.

De génios passamos a incompetentes, de santos a diabos, de boas pessoas a destruidores de tudo o que nos aparece pela frente. Pior, apesar de terem tido a melhor das impressões a nosso respeito, quando nos encontram abraçam-nos como se tivéssemos estado à beira da perdição ou da morte, mexem-nos nos braços com movimentos ascendentes e descendentes e, com o melhor sorriso que conseguem, tentando demonstrar compaixão, dizem “Afinal estás com bom aspecto...”. E uma pessoa, com cara de parva, só consegue pensar “Safa, mas onde pensa ele(a) que eu andei? Na travessia do deserto ou num mar infestado de tubarões? OU será que a última história que lhe chegou foi ter virado drogada ou alcoólica sem recuperação possível, prostituta ou assassina?”. Dá vontade de gritar e fugir mas, ao contrário, sai um sorriso amarelo que reforça o desconforto e dá as maiores certezas, que na verdade são incertas, ao interlocutor.

E ao juntarmos 2 mais 2, a estória sai direitinha como uma folha de jornal. A clarividência alheia é algo de transcendente, sobretudo a dos pobres de espírito. Porque não se ocupam em algo verdadeiramente útil, em vez de criarem e recriarem argumentos, inventarem feitos, juntarem peças que não têm a menor relação????

Livro Visão: África, 30 anos depois



Posted by Hello
A Visão produziu um livro em comemoração dos 30 anos de independências, procurando entre outras coisas evidenciar as mudanças. Serão 240 páginas a publicar no próximo dia 16 de Junho. Responsáveis pelo texto e fotografias dedicados a STP são os jornalistas Ana Margarida Carvalho e António Xavier. Custará 14.90 euros e acompanhará a revista. Nesta semana nas bancas, portanto. "Quando é que os portugueses chegaram a estes países? O que lá encontraram? Quais foram os principais momentos da sua História? Quem são as principais personagens? Quais são as principais riquezas de cada um deles? O que lá se produz? Quantas pessoas lá vivem? África, 30 anos depois faz o retrato dos países nos dias de hoje, reúne todos os dados estatísticos, apresenta os novos mapas e uma valiosíssima colecção de fotografias." Para além das reportagens, as crónicas de: Cáceres Monteiro; Joaquim Letria; Edite Soeiro; José Silva Pinto; J. Plácido Júnior; Luís Almeida Martins; Pedro Vieira; Rodrigues da Silva. E ainda, os balanços de Adriano Moreira, Pezarat Correia e Vítor Crespo.

"Um arquipélago em busca de uma rota" na ÚNICA do EXPRESSO

Na Revista “Única” do Expresso desta semana, o tema de capa é dedicado aos 30 anos de independência e às mudanças operadas “Três Décadas Depois”, sendo passados em revista todos os países. Todos os artigos são de qualidade, despertando interesse, desde os assinados pelos jornalistas como pelo actual Secretário de Estado da Cooperação, João Cravinho, e as fotografias que os compõem de uma beleza sem fim. Para quem se interessa pelas temáticas africanas são incontornáveis e a arquivar para mais tarde reler.

De actualidade, e com interesse particular, o dedicado a STP, assinado pela jornalista santomense na BBC radicada em Londres, Maria Conceição Lima , denominado “Um arquipélago em busca de uma rota” – título excelentemente encontrado, não podia ser melhor... – dando grande destaque ao dossier petróleo. Dadas as minhas principais preocupações, fiquei com pena (muitíssima) de não conter mais referências ao turismo e ao ambiente (sobretudo quando decorreu um seminário há tão pouco tempo e quando eu própria lhe dei uma entrevista a pedido). Mas compreendo que a reportagem não pudesse abranger tudo. Bem, parabéns à Conceição, porque a problemática da exploração petrolífera tem de facto mobilizado “tutti quanti”...!

sábado, 11 de junho de 2005

Ódios de Estimação 1

Ao longo da nossa vida e nas mais diversas circunstâncias, todos nós nos cruzamos com pessoas que, pelos mais diversos motivos, nos são desagradáveis, com as quais antipatizamos ao primeiro olhar, e pelas quais passamos a nutrir uma espécie de ódiozinho, que vai sendo alimentado com o tempo e por novas situações que vão surgindo. São os nossos ódios de estimação, sem os quais uma parte da nossa existência ficaria esvaziada de conteúdo e motivação. Tudo neles nos irrita, até só a simples constatação que existem e que um dia, pela força do destino e para nossa tremenda infelicidade, passaram a fazer parte das nossas vidas. Na verdade, nem queremos pensar neles mas há sempre um “quêzinho” que não nos larga e nos persegue, fazendo lembrar que os caminhos pelos quais eles passam se cruzam com os nossos. Na maioria das vezes nem sequer nos achamos na obrigação de lhes dar o benefício da dúvida, e com razão: ou nos prejudicaram até à exaustão num passado mais ou menos recente; ou nos tentam prejudicar nos dias de hoje; ou tentarão fazê-lo, com toda a certeza, mais dia menos dia. Não há como fugir das artimanhas destes terríveis seres que, vá-se lá saber porquê, em tudo o que fazem e com quer que contactem, interferem com o nosso bem estar, com a nossa sanidade mental e com a nossa vida em geral.

Em São Tomé havia um ódiozinho de estimação generalizado para os portugueses residentes. Ninguém gostava dele e era o tema de conversa preferido da maioria, que relatava episódios diários, denegrindo a imagem, que já era naturalmente pouco favorecida, daquele indivíduo pouco dado a simpatias. Uma coisa é certa, quando se deixava de falar dele por uns dias, sentia-se falta e a conversa retomava. Ainda hoje, quando alguns dos ex-residentes se encontram, o tema acaba por ir ter sempre ao mesmo. Faz parte, é quase um ritual e torna-se divertido porque dinamiza os encontros. Sem ele, muitos de nós, que o conhecemos, não seríamos iguais ao que somos hoje.

Mas mais estranho é vermos o problema ao contrário. Nunca, ou poucas vezes, pensamos que podemos ser o ódiozinho de estimação de alguém. Mas somos... (continua)

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Novo governo em STP

E não podia deixar de referir que o novo governo de STP já está constituído e toma posse nos próximos dias. A “liderança” recai sobre uma mulher, a ex das finanças, que acumula. O Turismo ganhou, em minha opinião. O ex-director de Turismo e Hotelaria, Gaudêncio Costa, fica como Ministro do Comércio, Indústria e Turismo, acumulando com a agricultura e pescas... Apesar da força e da vontade do Gaudêncio, espero que não sejam sectores a mais, porque os novos dois são de peso... Desejo-te um bom trabalho, Gaudêncio.

Agora, quem terá tido a ideia de manter o Maquengo como Ministro do Emprego, Trabalho e Solidariedade. Só se pode justificar pelo historial no sector social. A ver se há melhorias, já que esta é uma área fundamental também em terras santomenses. Mas meu caro Fernando Maquengo, a integração dos técnicos de acção social que ficou por efectivar tinha sido fundamental, em vez de deixar que os jovens recém formados por especialistas nas diferentes matérias se viessem embora para Portugal, Cuba, Brasil... entre outros destinos. Vamos trabalhar Sr. Ministro, por favor...

Guapa, Barcelona!

Cheguei revitalizada e muito tranquila. Barcelona é uma das poucas cidades europeias que tem um mágico efeito sobre a minha alma. Acalma-me, apazigua-me com o Mundo e com a Vida. Ali sinto-me inexplicavelmente bem. A luz é reconfortante, os espaços abertos e a alegria reinante na Catalunha é contagiante. Vive-se de forma positiva e bem disposta, descontraída e levezinha. Tudo parece fácil por lá. É talvez das poucas cidades europeias onde, se me perguntassem se quereria viver, diria “SIM” sem pestanejar. E há um local, que visito desde a minha primeira viagem porque me apaixonei pela paisagem, Montserrat e estava lindo, esplêndido, sempre com um novo recanto por descobrir. Magnífico e muito recomendável a todos os que não conhecem. E quem gostar de caminhar, do cheiro a montanha e a floresta, da paisagem verdejante, tem em Montserrat um local idílico, ou não tivesse a conotação de “o monte serrado pelos Deuses”.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Descanso

Vou descansar para um dos locais onde me sinto absolutamente revitalizada e tranquila. Até breve. Até ao meu regresso.

Aniversário

De um amigo “netiano”, e leitor regular, também apaixonado por África no geral, e por STP em particular, o António Ferreira de Sousa, recebi este magnífico poema de Álvaro de Campos. Muito bonito. Aqui fica o meu agradecimento público.

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui – ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu só hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra do alçado - ,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa pensar a cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

(1929)



Ver para crer

Bem ao jeito do Santo que lhe dá o nome, só é possível acreditar na vida política de São Tomé e Príncipe vendo. Entrou de novo em crise. Em 4 anos de presidência, Fradique de Menezes tem a proeza de assisitir a instabilidades sucessivas, demissões governativas, alternâncias no poder, dissolução do parlamento e por aí fora. As contestações não têm fim e tudo por causa do petróleo, uma vez mais. Aquele país confunde-me porque tem tanto de beleza, provocando deslumbramento em todos os que por lá passam, como de desassossego gerado pelos desentendimentos. Dá-me vontade de repetir a frase que mais utilizei, com razão, numa das minhas estadias e que muito divertia todos os que a ouviam: "organizem-se"...!!!!

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Prenda

E hoje recebi uma outra prenda de uma pessoa muito especial, um grande amigo. O presente foi um livro, o novo da Margarida Rebelo Pinto “Pessoas como Nós”. Gostei porque foi ele que me ofereceu, ainda não o tinha, não estava a prever comprá-lo tão cedo e gosto de ler os textos dela durante as férias, preferencialmente na praia ou depois. Mas não resisti e li a passagem que publicita o livro. Aqui vai:

“Os homens nem sempre avançam, nem sempre atacam. Alguns preferem esperar, deixar que o tempo lhes traga o que mais precisam, para nunca terem de tomar decisões. O Fred é assim, como um lobo e os lobos preferem morrer de fome a cometer um erro. Ele nunca dará um passo em frente.

Não sei se tenho vocação para ser mãe porque vivo demasiado virada para dentro, em função do meu trabalho e do meu sucesso, mas a Julieta, que é doida varrida, está a fazer um bom trabalho com o Duarte. E se não tiver filhos, nunca saberei (...).”

Engraçada esta passagem. Acho que vou gostar do livro...

Privilégio

Se ontem não pude ir passear na praia, apesar de ser esse o meu desejo, hoje não perdi a oportunidade. A manhã nasceu encalorada e as minhas células ansiavam pela frescura da água salgada e pela agradável sensação da massagem natural da areia na sola dos pés. Magnífico este privilégio de morar junto à praia. Com uma simples visita e uma caminhada ritmada mas tranquila, sem nos darmos conta, o dia decorre de forma muito mais ligeira.

E foi assim

E assim se passou mais uma dia de anos de alguém que será eternamente criança. Amanheceu e anoiteceu com um calor a lembrar os trópicos e as regiões equatoriais africanas. Já não me lembro de passar um dia de anos como o de hoje há muito tempo. Pensei ir à praia mas, só para me contrariar e pôr à prova a minha capacidade de adaptação, mais uma alergia decidiu não me abandonar, bem cedo, ainda de madrugada, o que me impossibilitou de apanhar sol. E passei o dia em boa companhia, a receber as chamadas dos amigos, e neste ano foram muitos os que se lembraram e que não entram para a “lista negra”. Para finalizar o dia passado em família, um jantar a condizer, animado e divertido, com muitas histórias, algumas sobre as Áfricas por onde alguns de nós já passámos e com os olhos atentos e cheios de curiosidade da mais adorável das crianças, de apenas 5 anos. Pronto, tenho de reconhecer que estou mais velha e praticamente na enigmática fronteira dos 40, quase assustada mas ainda não completamente. Para já, ainda divertida.

terça-feira, 31 de maio de 2005

Como começar bem o dia de anos

Uma excelente forma de começar um dia de anos é com um passeio à beira mar, de preferência com os pés descalços e “de molho”. Revigorante, reconfortante e revitalizante. O passeio dos 3 “re”, seguido do "dolce farniente". Pena que a temperatura da água do mar seja muito mais fria do que em África. Mas, mesmo assim, será melhor do que nada. E assim vai ser!

Signos

De signo... sou GÉMEOS!!! Aqui ficam alguns dos meus traços, segundo http://astrologia.sapo.pt/, no link características dos signos.

Deve ser o meu “outro eu” a falar neste momento mas... não me reconheço nestas características... sobretudo nas que dizem respeito ao Amor... Vá-se lá saber porquê...

Adaptáveis * Curiosos * Aventureiros
22 de Maio a 21 de Junho
O 3º signo do Zodíaco
Elemento: Ar, Mutável
Planeta Regente: Mercúrio
Princípio: Activo
Parte do corpo: Mãos, Braços e Pulmões
Estação do ano: Fim da Primavera no hemisfério norte
Incensos: Alecrim e Jasmim
Pedras: Ágata
Dia: Quarta
Metal: Platina
Cor: Amarela
Personalidade dos Gémeos: "Fala comigo"
A maneira mais fácil para conhecer um Gémeo é numa festa. Vemo-los entrar em todas as conversas. Querem-se sentar com a banda, meterem-se com as empregadas, e discutirem misturas com o empregado do bar. Eles rodopiam mais rápido do que conseguimos seguir. Se tentar pedir a um Gémeo para se concentrar numa só coisa, eles simplesmente não conseguem. Têm de mostrar o pouco conhecimento que têm sobre todos os assuntos, e procurar saber o que nós sabemos e porquê e onde e como conseguimos essa informação. São faladores, e espalham o seu talento pelo mundo. Adoram receber nova e interessante informação, para de seguida a espalharem. Não esquecer que existem duas pessoas dentro de um Gémeo, e ambas querem mudança, variedade e estimulação mental constante. É quase como se os dois estivessem a lutar dentro do Gémeo, deitam fumo e rasgam papéis aos bocadinhos. Um Gémeo desaparecerá num ápice e alguém aparecerá no seu lugar, que poderá ter algo interessante a dizer.
AMIZADE
Os Gémeos estão sempre rodeados por pessoas, eles fascinam e seduzem. São difíceis de aproximação, temos de passar pela multidão. Têm poucos verdadeiros amigos. Precisam de estímulo e alguém que partilhe dos mesmos estranhos interesses. São difíceis de acompanhar. Mantêm-se à volta de pessoas que compreendam porque estão sempre atrasados, estão simplesmente muito ocupados.
AMOR
Porquê amar? E o que é o amor afinal? Um Gémeo questionará isto, não conseguem fechar as suas mentes o tempo suficiente para o coração tomar o controlo. Assuntos do coração não são importantes para os Gémeos. Confundem a monogamia com aborrecimento, precisam da sua liberdade. É preciso entretê-los constantemente, seduzi-los e dar-lhes estímulo mental. O aborrecimento é o seu maior receio. Deixem-nos ser o que eles realmente são: "Confusos".

Mas afinal... quem será o astrólogo que me chamou confusa? Logo eu...?! Que sei tão bem o que/quem quero e o que/quem não quero!!!

O dia de anos

O dia de anos sempre foi um dos meus preferidos. Em pequena achava que era mesmo um dia diferente e que não era preciso ir à escola. Afinal era o dia em que eu nascera e por isso se tornava tão especial. Sim, no dia em que nascemos só devíamos mesmo fazer as coisas que gostássemos, sem obrigações. Lazer, lazer, lazer! E prendas, claro, muitas prendas. Este era um ponto de discórdia em minha casa, já que eu gostava que os presentes fossem surpresa, mas, nos dias que antecediam a data, não resistia a percorrer os cantos todos da casa até descobrir os embrulhos.

Era uma trabalheira que dava um gozo indescritível. Ainda hoje me lembro do meu coração a bater mais depressa quando me decidia a empreender esta tarefa arriscada. Os níveis de adrenalina subiam só de pensar que podia ser descoberta numa situação constrangedora, envolta por papel de embrulho e laçarotes. Eram minutos fantásticos e o encontro, dos meus olhos com as caixas ou sacos, memorável. Uma vez descoberto o local secreto, dedicava-me a abrir os presentes, um por um, com todo o cuidado, esperando que ninguém percebesse onde a minha curiosidade me levara. Este meu desejo era em vão porque, não só percebiam o que eu fizera como, ficavam zangados, o que era terrível porque eu não os queria desiludir, só que não resistia.

No dia de anos, recebia as prendas na mesma e fazia uma enorme festa como se os estivesse a ver pela primeira vez, mas os outros ficavam tristes porque entendiam que aquele momento era um ritual que eu estragara.

Fui crescendo e fui percebendo que a vida não era, na totalidade, como eu desejava e que o Mundo nem sempre entendia bem estes meus devaneios infantis. Apesar de tudo, fui bafejada pela sorte e, por imperativos da profissão, tive sempre a possibilidade de, com alguma flexibilidade, escolher os meus horários laborais. Claro que quando, com muito tempo de antecedência, escolhia os dias de trabalho e propunha os horários, tinha sempre em atenção a “minha data”. E fui-me habituando a ter aquele dia livre para fazer o que muito bem me apetecesse.

Com o tempo a magia do dia de anos foi-se perdendo, tal como outros encantos, e hoje penso mesmo que já não se devia fazer anos a partir dos... trinta e... Claro que o ritual das prendas continua a ser magnífico, para quem dá e para mim que recebo, apesar de ter perdido a prática no que respeita à quebra do ritual da oferta com a antecedente busca. Mas a ideia de fazer mais um ano é terrível. Só de pensar que passaram 12 meses por mim sem que eu tivesse realizado grandes feitos, mas com o aparecimento de novas rídulas (espero que ainda não sejam rugas) no contorno dos olhos, da proximidade dos cabelos brancos (que ainda não chegaram), de mais umas gramas (para não dizer quilos) entre outras coisas assusta-me.

Eu que era a “menina dos anos” aqui em casa e que estou ad eternum condenada a ser uma criança, mas agora mais velha (madura...???), penso que, se há greves a tanta coisa, também devia haver a greve ao dia de anos.

África na Expo 2005 do Japão

África está representada na Expo2005 no Japão http://www-1.expo2005.or.jp/en/venue/globalcommon05.html e, pelo que sei, alguns dos pavilhões têm despertado interesse nos visitantes. Este é o caso de São Tomé e Príncipe. Na maioria dos casos, os visitantes não tiveram ainda o privilégio de conhecer o arquipélago, mas têm demonstrado, aos técnicos que por lá se encontram deslocados, interesse numa próxima visita. Há que reconhecer que é um bom trabalho a favor da divulgação das potencialidades e recursos nacionais, principalmente com o objectivo da dinamização do turismo.

Mais uma receita de Calulú de Pato, Galinha ou Carne de Porco

Esta receita foi retirada da Revista Piá, ano 0, nº 2, Janeiro 2003, pg. 28 (com fotografia):
Ingredientes: maquequê, jimboa, mússua, couve, olho de libo, otâje, cominhos, mesquito, ponto, damina, tartaruga; ossame, tomate, cebola, malagueta grande, óleo de palma, pau pimenta, 1 fruta pão, beringela, quiabo, carne escolhida
Modo de preparação:
Corte em pedaços a carne escolhida, tempere com pimenta, cominhos, sal, casca de pau pimenta seca e flores de mesquito. Deixe marinar. Lave muito bem os ingredientes, pique as folhas, descasque a fruta pão e corte em quatro partes. Refogue as folhas, quiabo, maquequê, beringela, tomate sem pele, pisado ou esmagado com as mãos, cebola picada, malagueta cortada em duas lascas, a carne escolhida, óssame batido, pau pimenta e coloque numa panela com um pouco de água, leve ao lume e deixe cozer. Acrescente água quente ao refogado. Retire a fruta pão e pise, ou melhor triture-a. Enquanto o calulú estiver ao lume, pise um pouco de cominhos, sal, casca de pau pimenta seca, flores de mesquito e acrescente ao calulú, não esquecendo de pôr um ramo de mesquito. Prove e rectifique os temperos. Acompanha-se com angu (feito com banana pão ou prata, pontada entre “madura e crua”, pisada no almofariz ou triturada com varinha. Pode-se acompanhar também com arroz branco ou farinha de mandioca.


Posted by Hello

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Há dias assim

Há dias assim em que inexplicavelmente somos invadidos por uma energia imensa, que nos parece infinita. Andamos quilómetros, corremos, fazemos mil e uma coisas, sentimo-nos incansáveis e imparáveis, desdobramo-nos em pequenos e grandes gestos, multiplicamos acções e o Mundo parece-nos pequeno. Mas, também de repente, a quebra apodera-se do nosso corpo e do nosso espírito e damos connosco sem nos conseguirmos mexer mais. Até que um novo dia chegue.

Menu da Semana Gastronómica de STP

SEMANA DE SÃO TOMÉ – RESTAURANTE Terreiro do Paço (Lisboa)

Cozinha equatorial, feita de ingredientes e temperos exóticos (preços entre 12.10€ e 13.90€ o prato)

Segunda-feira, dia 30 de Maio

Azagoa de carne (carne de porco, folha de Mandioca e feijão vermelho com farinha de mandioca)

Calulu de peixe (garoupa, tomate, malagueta e quiabos com arroz e farinha de mandioca)

Terça-feira, dia 31 de Maio

Molho de fogo (peixe fumado, peixe salgado, tomate, coentros e limão com banana cozida)

Jogo (cação e garoupa, fruta pão com arroz e farinha de mandioca)

Quarta-feira, dia 01 deJunho

Feijão à moda da terra (feijão vermelho, peixe fumado, tomate, ossame e pau de pimenta com arroz)

Arroz de Peixe da Terra

Quinta-feira, dia 02 de Junho

Muqueca de Peixe (pargo, tomate, beringela, óleo de palma com arroz)

Peixe Limão (garoupa, matabala, piri-piri, farinha de mandioca, sementes de óssamo e mocócó)

Sexta-feira, dia 03 de Junho

Azagoa de Peixe (corvina e pargo fumados, folha de mandioca e feijão vermelho com farinha de mandioca)

Calulu de Carne (galinha, tomate, cebola, malagueta e quiabos com arroz e farinha de mandioca)

Sábado, dia 04 de Junho

Calulu de peixe (garoupa, tomate, malagueta e quiabos com arroz e farinha de mandioca)

Domingo, dia 05 de Junho

Azagoa de carne (carne de porco, folha de Mandioca e feijão vermelho com farinha de mandioca)

OS DOCES DE SÃO TOMÉ (entre 3.20€ e 3.50€)

Aranha

Arroz de milho

Cocada

domingo, 29 de maio de 2005

As Relações Europa-África II

Já que estou numa de divulgação, algumas das comunicações apresentadas no Seminário "As Relações Europa-África" também já se encontram disponíveis on line para consulta. O meu contributo foi também sobre o turismo ecológico em STP, claro. Desta vez o título foi: "O Desenvolvimento para além do petróleo: o exemplo do turismo em São Tomé e Príncipe"

STP e VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais

Já se encontram disponíveis alguns textos de comunicações apresentadas no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais que teve lugar em Coimbra em Setembro de 2004.

O meu contributo foi sobre o tema: Turismo Ecológico em São Tomé e Príncipe: da Ecopedagogia à preservação Ambiental


SAHARA

Não sendo um “grande filme”, o Sahara é divertido e dispõe bem, permite ver paisagens e locais em África, relembrar paragens conhecidas e sonhar com novos destinos. As situações criadas aproximam-se de um misto de aventuras ao jeito dos “Salteadores da Arca Perdida” e do 007. E como o cinema é um espaço lúdico onde vamos para descontrair, este é um filme adequado.

sábado, 28 de maio de 2005

I Mostra Gastronómica dos Países de Língua Portuguesa

A STUDIUM e a Associação Amigos do Príncipe, numa organização conjunta com o Restaurante Terreiro do Paço, vão realizar a I Mostra Gastronómica dos Países de Língua Portuguesa, sob a orientação do Chefe Vitor Sobral.
O evento decorrerá entre 25 de Maio e 5 de Junho naquele restaurante. Com este evento pretende-se, promover a gastronomia tradicional dos PALOP e apoiar projectos de Saúde e Educação das Crianças de Rua que vivem nestes países.

Contactos : RESTAURANTE TERREIRO DO PAÇO
TEL: 210312850; FAX 210 312 859
Email: terreirodopaco@quintadaslagrimas.pt

A gastronomia é uma vertente forte da Cultura de qualquer Povo. A mesa é um espaço privilegiado de encontro e de encontros, ou não estivesse a mesa simbolicamente associada à ideia de reunião, de comunhão, de refeição. Em África este conceito de partilha é mesa é elevado à forma de arte.
A primeira semana gastronómica traz à mesa do restaurante TERREIRO DO PAÇO a cozinha de São Tomé e Príncipe. É uma ocasião para saborear o CALULU de São Tomé e o MOLHO DE FOGO do Príncipe entre outros manjares exóticos e que raramente chegam às nossas mesas.
A gastronomia de São Tomé e Príncipe caracteriza-se pela sua excelência, pelo apelo de todos aromas, de todos os paladares, e de todas as cores numa simbiose entre a prodigalidade da natureza da terra e a sabença culinária das suas gentes.
É uma cozinha de tacho, feita de tradições passadas de geração em geração. É uma cozinha tão fascinante como o é este pequeno país ao qual Portugal está tão ligado.
O restaurante Terreiro do Paço situa-se na praça do mesmo nome, junto aocais onde durante séculos partiram as naus, caravelas, paquetes rumo às Terras de África e do Oriente donde voltavam carregadas do cheiro de especiarias, esperanças, recordações, fortunas, de cacau e café.
O Terreiro do Paço enquanto cais de ver partir assumiu um papel importante como entreposto comercial e cultural. E, como entreposto cultural, o Terreiro do Paço quer este ano, no qual se comemoram 250 anos do grande terramoto de Lisboa, ser o epicentro da vida gastronómica do Mundo
Português na capital.
Parte da receita desta mostra gastronómica será doada à Associação para a Reinserção das Crianças Abandonadas e em Risco de São Tomé, que desenvolve um meritório trabalho em prol da melhoria das condições de vida das crianças mais carenciadas deste país.

quinta-feira, 26 de maio de 2005

Mais um mail anónimo

E hoje recebi mais um daqueles mails que nunca virei a saber quem teve a ideia do envio.

Mas o conteúdo é bonito e tenho de reconhecer que me sabe sempre bem ler uma mensagem assim. Aqui fica o registo do texto recebido:

“Antes de magoar um coração,

Veja se não está dentro dele.

Pois se um dia chorei

Não foi porque perdi

E sim porque amei”.

Bem... apesar de não saber quem magoei, torno públicas as desculpa e agradeço o afecto.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Há coisas engraçadas, apesar de tudo...

Podia ter-me dado para melhor. Imaginem que, num serão de véspera de feriado, fui reler o historial de mensagens que troquei com alguém que, um dia, fez parte da minha vida, aqui há muito tempo e de forma fugaz, numa África distante, bem a sul do Equador, e à qual não regressei desde essa altura. Como é meu hábito nestas coisas dos afectos mal geridos, guardei as palavras trocadas nos diferentes momentos, com o único objectivo de um dia mais tarde as reler. Foi o que hoje fiz, e a culpa é da televisão que não se decide a cativar os caseiros como eu. E pronto, vim para o meu posto para me entreter e distrair um bocadinho do cansaço que me vai na alma e fui reler palavras trocadas e religiosamente guardadas entre papel e uma caixa de correio perdida nos cantinhos da net.

Quem ele foi não interessa, e quem ele é hoje muito menos. O que é importante é que o resultado não foi brilhante, o que se passou naquele curto espaço de tempo teve um final muito pouco feliz e as vivências possíveis não ultrapassaram as expectativas. As minhas, como é óbvio. Não chegou sequer a ser uma história de amor porque não passou de um entusiasmo criado em clima tropical e alimentado à distância via e-mail e, de quando em vez, por correio, através dos postais que ele me enviava dos locais por onde passava. Uma história moderna mas pouco proveitosa, portanto.

O engraçado de tudo isto é que, ao ler os e-mails trocados nas diversas fases pelas quais passámos desde que nos conhecemos, a sensação que fica é a de ter existido uma grande cumplicidade afectivo-emocional, marcada por intimidades, e do nosso efémero e condenado relacionamento ter sido muitíssimo profundo. Apesar do contexto, ainda há coisas engraçadas...

Estranha relação

Para ser franco, e o mais sincero possível com a vida, Joaquim já não sabia o que fazer para chegar ao fim do dia com um sorriso aberto estampado no rosto, uma palavra amável ou um espírito positivo e optimista. Já tentara de tudo um pouco: andar a pé à beira do rio; encontrar um amigo que já não via há algum tempo; jantar com o grupo de sempre; ler umas páginas do último livro que adquirira; ouvir música relaxante; fazer desporto; frequentar aulas de Yoga e de relaxamento; comer um gelado ou sentar-se num jardim a contemplar as flores e a escutar os pássaros.

Nos dias em que alterava a rotina, introduzindo um não sei quê de diferente, parecia que tudo corria melhor. Com ele, com a mulher e com todos os outros que, por um qualquer motivo incluído o acaso, se cruzavam com ele. Mas nos outros dias, em que repetia gestos, contactos ou percursos, sentia-se a viver uma eternidade difícil de suportar. E o mundo desabava sobre a sua cabeça e nas suas mãos de forma pesada e dura. Que o dissesse a mulher, Maria, que invariavelmente o recebia, abrindo a porta, com um silêncio sofrido e adivinhatório dos passos que se sucediam após o toque de campainha.

Joaquim era um homem amargo com a vida, com os outros e sobretudo consigo próprio, sem o reconhecer, procurando demonstrar uma auto-estima acima do comum dos mortais. Falava do que gostaria de ser como se fosse, evidenciando as suas melhores características, até aquelas com que sonhava. Por não gostar de nada em si, idealizava-se o melhor dos homens e procurava convencer-se a si próprio que não havia igual, apesar de não passar de um ser medíocre em qualquer esfera da sua vida – afectiva, profissional, relacional.

Maria era uma mulher às direitas, íntegra, respeitadora e cordata, boa profissional e meritória no seu desempenho, mas ao lado de Joaquim anulava-se por medo da mão pesada no silêncio, do olhar rude na intimidade, dos gestos bruscos, desprovidos de emoção, de sentimento e de afecto. Nos dias bons, tolerava-o e nos maus, perante o descontrole sem motivo aparente, odiava-o calada, sem proferir palavra ou emitir qualquer som. Procurava simplesmente passar despercebida naquela imensa casa que ambos construíram e partilhavam.

Aquele era um casal que tinha tudo para deixar de o ser mas, apesar de ninguém entender como ou porquê, ambos insistiam em se manterem juntos. Havia muito a preservar e que não queriam perder e contudo deixavam escapar o que de melhor podiam viver, a tranquilidade, a paz, o afecto, o amor.

Sono

Hoje é um daqueles dias em que o cansaço decidiu visitar-me e, acredito, alojar-se por uns dias. Há muito que não tinha esta sensação estranha de querer dormir, dormir, dormir sem parar. Em STP havia dias assim, em que, por mais e melhor que se tivesse dormido, não apetecia fazer nada e o sono ficava, de forma contagiante, por uma temporada. Normalmente antecedia tempestades e temporais de chuva batida pelo vento, acompanhadas de calor forte, intenso, imparável, provocando os sentidos. Mas aqui, só pode estar relacionado com o calor repentino e a única coisa que provoca é mesmo o sono.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Lua

Depois de um dia cansativo e desgastante não há nada como contemplar o céu iluminado pela lua. Hoje cheia, redonda, imensa e particularmente bonita, de uma cor quente: amarelo torrado. Dou comigo a sorrir sozinha pelas lembranças do luar africano, lá para os lados da Boca do Inferno, que me assolam a alma. Absolutamente inspirador e muito saboroso...

domingo, 22 de maio de 2005

STP na revista VOLTA AO MUNDO

STP é tema de capa da Revista Volta ao Mundo de Junho de2005. A reportagem “São Tomé e Príncipe, um segredo no Equador” (pg. 52-78) é marcada por fotografias variadas de São Tomé, do Ilhéu das Rolas e do Príncipe, com Bom Bom incluído. Fotos espectaculares que merecem ser guardadas.

O texto contém algumas imprecisões, mas vale a pena ler. O jornalista Paulo Rolão, autor do texto, e o fotojornalista Luís Filipe Catarino, responsável pelos registos fotográficos, revelam-se encantados e seduzidos (o que é absolutamente normal!!!) numa curta estadia, passando por alguns (mas não muitos) locais. Os alojamentos privilegiados foram Clube Santana, Ilhéu das Rolas e Bombom, havendo referências ao Miramar. Turismo Rural visitado: S. João e Bombaim. Roças visitadas: Agostinho Neto, Monte Café, Sundy e S. Joaquim.

As praias referidas como as melhores: em São Tomé, Tamarindos, Conchas (extenso areal a perder de vista...?!), Lagoa Azul (com areia...?!); no Príncipe, Banana e Macaco. Fiquei desiludida porque não referem, por exemplo, as praias de Micondó e Piscina, nem roças emblemáticas para visita e passagem como Água Izé, que me parece obrigatória, Vista Alegre, Ponta Figo, Java, Colónia Açoreana, entre tantas outras...

Ainda como restaurantes aconselhados: apenas o Pirata, o Bigodes, o Filomar e o Café e Companhia (aconselhamento muito limitado...); como pratos típicos: calulu e djogó; fruta: apenas a banana (...?!xê...). Não falam na jaca, na cajamanga, no safu, no mamão... nem no búzio, no peixe andala, no polvo grelhado, no magnífico e saboroso concon... e tantos outros pratos típicos!

Em termos de aconselhamento, o artigo parece ficar muito aquém das expectativas, não disponibilizando informação importante e útil, mas a imagem é sedutora e aliciante. Um aspecto a referir – apoiaram-se na Navetur (Bibi e Luís Beirão) e no Luís Mário, que me parece ter sido uma boa opção.

Mas devem portanto ter perdido a melhor parte de STP...

Nada do que foi volta - VI

- “Responde-me uma pergunta Abel. Já sentiste alguma vez que, quando se quer muito uma coisa, por se querer tanto e durante demasiado tempo, de repente chegamos à conclusão que a deixámos de querer?”

Abel ficou calado com a perplexidade de quem não entendeu a questão que Vera lhe colocara. Por vezes, ela parecia ter uma complexidade interior tão grande que se tornava incompreensível. Mas afinal, o que queria ela? Vera era mesmo uma complicadinha, nunca percebia o que era mais do que óbvio. E sem dizer nada pensava:

- “Durante uma infinidade de tempo gostou de mim e sofreu porque eu não lhe dava toda a atenção que ela achava que merecia. Conhecemo-nos numa altura em que eu queria aproveitar o tempo de liberdade, sem prisões e sem obrigações. Ninguém me pode condenar por isso. Eu estava ali, naquela África onde tudo é permitido a um estrangeiro, para viver e me divertir. Mulheres não me faltaram e ela não podia ser a única. Eu não lhe podia dar isso e ela sabia-o desde o início. Eu gostava dela e de estar com ela mas não de forma permanente. Não podia ser e eu não estava disponível para isso. Mas agora que a minha vida mudou, o que se passa com ela para não querer? Há realmente mulheres estranhas, enquanto estão em África desfazem-se em paixões e afectos, só querem amor e carinho, mas quando de lá saem passam-se, mudam, ficam frias e distanciadas, parece até que enregelam...”

Vera apaixonara-se por Abel, depois de muitas insistências, dele se fazer presente e de a apoiar em tudo o que ela precisava. Tornou-se o braço direito daquela mulher que não passava despercebida no raio dos poucos quilómetros quadrados onde, por motivos diferentes, tinham escolhido viver. Apoiava-a discretamente, era o seu escudeiro, o seu polícia e o seu bombeiro. Estava ali para o que desse e viesse. Não havia dúvidas que, durante os meses em que a conquista decorreu, aquela Vera era uma terra desconhecida, falada como sendo inóspita, pelo feitio reactivo em relação a brincadeiras que algumas pessoas tinham e que não lhe agradavam, mas para ele tornara-se uma delícia muito apetitosa, uma descoberta diária que se ia revelando cada vez mais interessante, uma companheira. Além do mais, para Abel este era um trunfo que não queria perder. Dos amigos, nenhum acreditava que ele a conquistasse, mas ele confiava nas suas capacidades porque conseguia tudo o que queria.

Abel só não contou que, durante o tempo em que estiveram juntos, mas também quando a vida os afastou, e ele aproveitou para se ir orientando, Vera foi sabendo de tudo o que se passava à volta dele e sofria à distância. Aquela África era sua, era assim que a via, e as mentiras de Abel, as suas intrusões, os devaneios e desassossegos em que passou a viver, desiludiram-na. Em momento algum, ela quis acreditar que Abel era tão linear no que aos afectos respeitava porque queria sentir-se diferente aos olhos dele. Se o desamor de Abel a desgostou, o tempo ajudou-a a conhecê-lo e a perceber que a frase, que alguém lhe repetia sucessivamente “Tu mereces melhor!”, era a única verdade que existia naquela relação.

sábado, 21 de maio de 2005

Nada do que foi volta - V

- “Vamos ficar juntos, juntinhos, vem para aqui, ao pé de mim. Vá lá, não te faças esquisita e diz que sim. Diz, diz, diz... vá lá. Não te lembras de tudo o que já vivemos juntos? Não te apetece de novo?” – e Abel estendeu a mão em direcção a Vera, fechando os olhos como se quisesse transformar um sonho em realidade.

Vera não se mexeu um milímetro e olhava-o incrédula. Fora Abel que errara há uns tempos atrás, que faltara à honestidade prometida, que a enganara naquela terra de ninguém, umas portas à frente daquela em que coabitavam. E agora quase se fazia de vítima por estarem separados. Não, ela não queria voltar para ele desta forma. Era uma incongruência porque, além de tudo o mais, arriscava-se a que, após um fugaz envolvimento, ele a deixasse de novo. E Vera aprendera qualquer coisa com ele: apenas pisar o solo que se conhece bem. O risco era, para ela, demasiado grande e o custo a pagar por um entusiasmo incomportavelmente alto.

Nostalgia

A nostalgia acompanha os que viveram sentimentos fortes, lutaram e ultrapassaram, amaram e sofreram, tiveram dias felizes em locais inesquecíveis, perpetuando lembranças simplesmente por se quererem recordar; os que marcaram os locais por onde passaram pela realização, e as pessoas com quem contactaram pela diferença de atitude.

A nostalgia não abandona os que se deram, se apaixonaram e entregaram a causas e a ideais; os que souberam dizer “Eu quero” com determinação, contra tudo e todos, numa altura em que ninguém acreditava ser possível e que, no momento certo, escolheram dizer “Não!” com a certeza de ser a melhor escolha, sem haver lugar para o lamento, o queixume ou o arrependimento.

E eu sinto-me nostálgica muitas e muitas vezes porque faço presentes os bons momentos que um dia vivi, afastando da memória os que assim não foram.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Deixa-me...

Deixa-me chorar e gritar, pensar e concluir, sorrir, rir e gargalhar.

Deixa-me aconchegar no teu abraço e sentir o calor que me transmites, confortando-me.

Deixa-me olhar os teus olhos e entender tudo o que me dizes por palavras e o que omites não falando.

Deixa-me falar sem dizer nada.

Deixa-me conversar sobre qualquer coisa ou sobre tudo.

Deixa-me ouvir os sons, sentir os sabores e ver os tons.

Deixa-me ficar e fica tu também...

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Reflexão

Com regularidade, mas não tão frequentemente quanto gostaria, viajo pelos blogs que me introduziram neste mundo da escrita partilhada. E já são muitos. Tenho constatado que, de tempos a tempos, o tom dos posts vira pessimista, derrotista, triste, pesaroso, algo depressivo. A maioria fala-nos de amores desencontrados, perdidos, de pessoas abandonadas, solitárias e “ensolidadas”. Como se o mundo acabasse com as rupturas, com a perda de um afecto, com a falta de companhia e de companheiro. Como se cada um ficasse a ser apenas metade do que já foi, incompleto e marcado pela incapacidade de ultrapassar o dia-a-dia. Como se a vida pesasse e tivesse deixado de fazer qualquer sentido, ficando cada um sem rumo. Cada um não, porque quem partiu continua o seu percurso com espírito aliviado e alma renovada. Dá vontade de postar um comentário (Chuinga como te entendo finalmente...) ou de escrever ao autor apelando ao bom senso, dizendo:

“Atenção Amiga(o), o Mundo não acabou porque aquele em quem depositaste afeição, carinho e dedicação te abandonou. Esse foi um engano com o qual te cruzaste. Não mais do que um equívoco que foi de tal forma falacioso que nunca te mereceu. Tu não viste em tempo útil mas nunca é tarde para acordar. Pensa bem que, se alguém te deixou indevidamente e sem que o tivesses motivado a tal, então é porque também não te mereceu. Olha em todas as direcções porque, mais cedo ou mais tarde, talvez só daqui a uns tempos, vais reconhecê-lo(a) sem que tenhas de fazer qualquer esforço para isso. E pára de te lamentar da vida que, na verdade, foi tua amiga fazendo-te sofrer um pouco, mas antes agora do que depois. Levanta a cabeça, endireita as costas e pensa em tudo o que podes fazer para te sentires feliz, sem dependeres de alguém que não retribuiu a tua afeição.”

E, Brígida, após teres visitado as “casas netianas” dos teus amigos deste estranho mundo e de teres constatado que na maioria o tom da escrita de hoje era derrotista, não te esqueças que a mensagem que acabaste de escrever em momento de inspiração é também um “post-it” para ti mesma. Retira uma lição da tua própria reflexão.

Nada do que foi volta - IV

Abel não sentia saudades de Vera, mas sim da vida que tinha tido quando se cruzaram, partilhando espaços e tempos, momentos únicos que jamais se repetirão e que ele nem sequer desejou que se repetissem. Sentia a nostalgia do passado pela liberdade que tinha usufruído naquele local, pela possibilidade de se relacionar com quem entendesse e de se sentir dono da sua própria vida, sem ter de dar explicações do que fazia, a quem quer que fosse. Foi aí que conheceu Vera, uma mulher independente, interessante, não particularmente bonita mas o suficiente para se destacar das outras que ali viviam, que cativava os homens e causava inveja às mulheres. Tinha os requisitos para lhe chamar a atenção.

Vera era uma mulher estranha porque demasiado directa e sincera, de uma frontalidade que Abel desconhecia porque nunca encontrara estes predicatos em ninguém. Se essa forma de ser e de estar o seduzia também o afastava e a relação deles foi, desde o início, marcada por desencontros e contradições. Havia uma atracção irresistível entre os dois que era difícil de contrariar, principalmente quando se encontravam sozinhos. Passaram a fazer parte da vida um do outro porque o contexto assim o permitiu e o destino o ditou.

Vera era, para Abel, uma conquista necessária, não só por estranhamente ser uma das mulheres mais cobiçadas do sítio, consequentemente muito conhecida e um ponto de referência num mundo que ele começava a descobrir, mas também por ter um halo de mistério à sua volta que ele queria perceber e desmistificar. Ninguém sabia ao certo o que motivava aquela mulher a viagens sucessivas e estadias solitárias, andando por onde queria e relacionando-se com quem entendia, sempre com ar de ser senhora do seu nariz. Falava a todos e, na verdade, não se dava a ninguém. Tinha consciência que era comentada pela maioria, nem sempre bem, e apesar disso continuava o seu rumo com a sábia certeza de que os ditos e contos só afectam quem neles acredita.

E, enquanto se iam conhecendo, Vera olhava Abel com a tranquilidade de estar segura porque aquele homem, apesar de simpático, não fazia o seu género e não havia a menor hipótese de se envolverem. Ela nem sequer ali estava para se envolver com ninguém. Queria apenas aprender num sítio distante, longe da protecção dos seus, conhecer novas caras e espíritos abertos, e melhorar-se como pessoa, encontrando um rumo para a vida. Abel olhava Vera como se de uma peça de caça se tratasse, tinha de a capturar, e falando com um amigo de sempre foi feita uma aposta. Ela seria sua.

Colecções

Há quem faça colecções de selos, de chávenas, de penicos, de canetas, de abre-livros, de relógios, de armas, de caixinhas, de dedais, de leques, de cromos, de vasos, de animais, de brincos e de anéis, de óculos, de postais ou de jornais antigos, temáticos e regionais. Há colecções originais e outras mais vulgares. Na verdade, desde pequena que nunca fui dada a colecções, porque requeriam uma atenção que nunca quis dar a objectos. O meu cuidado sempre esteve mais associado às pessoas e aos animais e, talvez por isso, nunca tenha percebido bem a dedicação de algumas pessoas em relação a um conjunto de folhas ou de peças, por mais raras que elas fossem, passando horas a observá-las com admiração, a limpá-las e a arrumá-las em local de destaque, não permitindo que outras pessoas lhes tocassem.

Mas desde que fui a África pela primeiríssima vez – aqui fica a homenagem a Guiné Bissau - rendi-me ao encanto de uma peça de artesanato e, sem dar conta, em cada incursão que fui fazendo a países africanos, ia comprando exemplares, diferentes e únicos, que hoje se transformaram numa colecção em constituição. O objecto que provocou os meus sentidos, captando a minha atenção, foram os pensadores em madeira. Hoje tenho-os de todas as coresm feitios, tamanhos e graus de perfeição. Uns são mais estilizados do que os outros, dos mais pequenos aos maiores, esculpidos em madeiras características de cada uma das regiões por onde fui passando, pelo que têm também tonalidades diferenciadas. Mas são lindos e, pela sua diversidade, resultam num conjunto muito harmonioso.

De novo Bissau

Recebi notícias de Bissau. O clima está mais calmo do que eu pensei inicialmente. E ainda bem. Aquele país e aquele povo não mereciam mais outra guerra e o sufoco que daí decorreria. Aguarda-se a evolução dos acontecimentos com tranquilidade. Parece que os meios de comunicação terão, uma vez mais, empolado o caso, porque quem por lá está continua a viver o quotidiano dentro da normalidade.

Fico Assim Sem Você (Adriana Calcanhoto)

Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem abraço
Sou eu assim sem você
Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Por quê? Por quê?
Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Nada do que foi volta III

A vida ensinou a Vera que chorar a ausência não só não resolve como agudiza a angústia e a sensação de perda. Mas, como chorar não é uma manifestação que a maioria das pessoas tenha por querer, Vera aprendeu a controlá-la e passou a chorar para dentro. Quando está triste, sorri e, para não ser traída pelo tremor dos lábios, trinca o inferior no canto esquerdo. Mordisca-o sorrindo para fora, mas no seu interior chove de tal forma que mais parece um dilúvio em dia de tempestade. E isso passou a acontecer cada vez com mais frequência. Abel nem disso dá conta e ela também faz porque ele não se aperceba. Ele está longe dela e pouco a vê, para dizer a verdade, cada vez menos. Por isso, o risco de tomar consciência do que se passa com ela é pequeno. E, para ela, isso é bom.

Depois de Abel, Vera não se voltou a apaixonar por mais nenhum homem. Não podia porque tendia a usar uma medida de comparação que não deixava margem para dúvidas. Abel tinha sido o “seu must” e apesar de tantas qualidades, ela sofrera muito por ele e continuava a sofrer. Era um risco viver sem afecto e sem paixão e os momentos de dureza emocional tornavam-se cada vez mais longos. Mas ela não queria sofrer mais. E contudo, a cada manhã em que acordava a lembrar-se do beijo que ele lhe dava quando saia para o trabalho, enquanto ela ficava na lazeira, ou nas noites de conversa e de amor partilhado, que ela queria acreditar que fora sentido, continuava a sofrer. Era feliz com a lembrança e infeliz com a recordação porque essa reforçava a ausência e a impossibilidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

A fantástica Guiné

Na Guiné encontrei algumas coisas fantásticas de tão ímpares: a altura das papaeiras; a variedade e diversidade de mangas; a quantidade de caju; o nome que dão ao amendoim – mancarra; a quantidade de abutres no céu de Bissau e o nome que lhes chamam – jagudi; a zona ribeirinha de Bafatá; a diversidade étnica; a quantidade de crianças nas ruas de Bissau; o mercado de Bandim; as crenças e as práticas culturais; e tantas outras coisas.

Guiné

E a minha querida Guiné, o meu primeiro amor africano, está prestes a entrar em conflito. Melhor dizendo, ali o conflito é latente. Infelizmente... E a preocupação com os amigos que lá vivem, os guineenses e os outros, aumenta. Dou comigo a recordar a primeira incursão a Bissau, quando a porta do avião foi aberta no aeroporto de Bissalanca, e senti o bafo quente e húmido, o ar denso e o cheiro intenso, misturando, de forma magnífica, os aromas da terra molhada com frutas, predominando uma essência adocicada que, ao primeiro cheiro, parecia algo enjoativo. Só mais tarde, vim a reconhecer o aroma, uma mescla de manga com cajú fresco. Aquele cheiro é inconfundível e aquela sensação incomparável.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Nada do que foi volta II

Talvez algumas coisas tivessem mesmo de ficar assim, sem retorno e sem regresso. Talvez fosse mesmo a lei da vida, ou como é que se chama às partidas pregadas pelo destino e feitas em desencontros. Por fim, naquele dia percebera que quando os sentimentos são unilineares perdem qualquer sentido e resultam em doença. E as doenças, a maioria pelo menos, cura-se. Não, Vera não se queria sentir doente de amor, essa é uma maleita que já não se usa. Amou-o, ama-o ainda e sente que talvez o venha sempre a amar, porque este é um sentimento que não se procura mas que, quanto se sente, não se confunde. Abel era o homem da vida de Vera, se é que isso existe. Podia nunca mais voltar a tê-lo, a sentir-se envolvida pelo abraço forte e pelos beijos ternos, pelo olhar carinhoso e pelos ralhetes preocupados, pelo cheiro intenso e reconfortante.
Mas uma coisa é certa, esta é a lembrança mais terna e mais saborosa que Vera tem dos homens. Abel é uma recordação que sabe a fruta de verão, carnuda e colorida, doce e sumarenta, refrescante e deliciosa num dia de calor. Talvez ele nem nela pense, mas os primeiros pensamentos de Vera são para ele e, muitas vezes, antes de adormecer, é o seu terno olhar que ela vê.

Nada do que foi volta I

“Nada do que foi volta”, pensou Vera quando se despediu de Abel. “Pelo menos não da mesma forma, ou como eu gostaria. Cada reencontro com ele é um novo momento para o conhecimento de uma faceta até aqui não revelada. É estranha a sensação, mas por mais que pensemos que conhecemos uma pessoa, acabamos por perceber, mais tarde ou mais cedo, que tivemos apenas uma visão do que ela é, ou pode ser.”
Apesar de conversador, Abel estava distante e pareceu-lhe triste. Sabia-lhe sempre bem vê-lo e aos encontros marcados não gostava de faltar. Sentia-os como rituais e defendia que esses deviam ser vividos para que as tradições se mantivessem. Não olhava para ele como um ritual ou como uma tradição mas o sentimento que tinha em relação a ele era tão profundo que queria guardá-lo para sempre.
Ouvia-o e sentia-se a partilhar alguns dos problemas que ele tinha, os possíveis e que ela podia saber. Queria apenas que ele estivesse bem, já que não podia sequer pensar no quanto gostaria que ficassem bem. E, com as devidas diferenças, a “Papisa Joana” voltou-lhe à lembrança.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Dúvida existencial

E, naquele final de tarde, depois de terminar mais um livro, que mais parecia um tratado novelístico, sobre os afectos, as paixões desencontradas, com o final possível mas longe de ser feliz, os dramas e as esperanças desta vida, pensei cá para comigo: "Também eu tenho andado atrás de um sonho, dediquei os meus dias a uma causa, a algo em que sempre acreditei. Que balanço farei eu daqui a 30 anos? Nessa altura, acharei eu que terá valido a pena?"

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...