quinta-feira, 23 de junho de 2005

Alergias e calores húmidos

Quando penso em calor húmido, invariavelmente lembro-me de África, ou pelo menos das Áfricas pelas quais passei.

A primeira, Guiné Bissau é quente e a humidade uma das principais características. A sensação que se tem é de andar permanentemente nas proximidades de uma panela de pressão, cheia de frutas aromáticas, de terra molhada e de chuva. A pele cola como se o vapor da pressão nos perseguisse. Penso mesmo que esta sensação é agravada pela ausência de praias nos quilómetros mais próximos da capital, o que aumenta a vontade de um banho relaxante nas águas mornas das praias tropicais.

A segunda, Moçambique que, por coincidência do destino, recebeu a minha visita em épocas de grande calor e, claro está, infinita humidade. Aqui os cheiros foram, para mim, menos intensos mas as cores verdadeiramente fantásticas, principalmente das acácias que davam às ruas um colorido inconfundível e de extrema beleza. A sensação pegajosa da pele foi menos permanente do que a primeiríssima experiência, em parte porque passei uma parte dos meus dias entre banhos e as tentativas de captar, por entre as nuvens, algum raio de sol que teimava em se esconder.

A terceira, e mais apaixonante de todas, São Tomé e Príncipe, terra onde invariavelmente as amplitudes térmicas persistem em não ser evidentes, mas onde os níveis de humidade chegam a atingir os 90% com uma curiosa facilidade. Ali, a roupa colava à pele mas a sensação não era desagradável, antes pelo contrário, talvez porque o espírito fosse mais receptivo às mudanças e procurasse adaptar-se às contingências e dificuldades com que me ia confrontando, mais do que nas duas primeiras Áfricas. E além disso havia sempre uma praia por perto para um mergulho, mesmo que fugidio, em águas quentes e cristalinas, com uma paisagem de enquadramento simplesmente deslumbrante.

E hoje, só podia ser, relembro a humidade quente com saudosismo. E sabem porquê? Porque aqui faz calor, tem dias em que faz mesmo muito, e há humidade, só que não é quente e não tem o mesmo sabor, os cheiros não são os mesmos e as sensações menos reconfortantes. Além do mais, quando faz calor não há humidade e esta aparece com frequência para esfriar a temperatura. E com estas alterações climatéricas, as minhas alergias explodem e eu sinto-me de rastos. Começo a tomar antihistamínicos e corticóides locais e tenho a sensação que o Mundo vai desabar em cima da minha cabeça que lateja e dói sem parar, o nariz fica entupido e a respiração muito pesada. E eu só penso que, enquanto estive em África, numa qualquer, estes achaques não me davam e, apesar do intenso calor e da dureza da humidade, eu passava muito melhor do que aqui. Não pensem que eu não gosto da minha terra, porque gosto, mas reconheço que tenho umas saudades de África... que nem consigo explicar...

terça-feira, 21 de junho de 2005

De novo a lua

A lua está cheia de novo e hoje particularmente bonita: redonda, amarela, brilhante e luminosa. Muito inspiradora e a indiciar um dia de calor sem fim para amanhã. Vista do local onde me encontro, provoca-me e espreita-me entre os ramos da árvore que faz parte do meu quotidiano. E esta noite, apesar do cansaço que sinto, até consigo ver as duas caras numa troca de confidências que só aos amantes é permitida.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Presidenciais na Guiné Bissau

Estava um pouco apreensiva com as eleições na Guiné Bissau mas fiquei contente. Dentro do contexto, possivelmente enquadrável pela Lei de Murphy, tudo correu bem, muito melhor do que os mais optimistas poderiam pensar, sem incidentes de maior. Para já, quem está de parabéns é mesmo o povo guineense que está cansado de desencontros, lutas, agressões e desrespeitos. E agora, resta-me desejar com espírito positivo e crédulo qb que assim se mantenham quando forem tornados públicos os resultados.

domingo, 19 de junho de 2005

Certinhos

No outro dia conversava com um amigo e lembrei-me de África, uma vez mais. Não só por ele também fazer parte dela e ter sido lá que o conheci, mas principalmente porque o tema da conversa nos levou de novo até lá. Dizia-me ele, a propósito de alguém de quem gosta muito e por quem tem uma preocupação infinita, que ela tinha uma tendência para só se interessar pelos “marginaizinhos”. Não por marginais de peso ou de tradição, e isso já é uma sorte! Mas por aqueles que fazem disparatezinhos, que se desviam daquilo que sempre se idealizou para os filhos ou para as pessoas de quem se gosta muito, pelos não certinhos. Eu ri, claro, e disse-lhe que é natural porque os certinhos têm menos piada. Não é que eu pense assim, mas reconheço que há quem pense: o disparate é mais sedutor porque mais arriscado. Os níveis de adrenalina sobem mais depressa... O meu amigo não ficou nada consolado com o meu comentário, mas eu estava a brincar. E ele já devia saber disso...

Já foi...

Foi ontem o lançamento do Xicuembo e eu não estive lá. Ficam aqui expressas as minhas desculpas a um dos bloguistas da minha preferência, já que tinha prometido estar presente. Mas não consegui...

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Hora de relógio

Quando se combinava qualquer coisa em STP era costume seguir-se dois princípios:

  1. Um atraso dentro da normalidade podia ir até 1 hora, pelo que era socialmente considerado como regra que esperássemos até que os nossos amigos chegassem, com a calma e a tranquilidade que a paisagem transmitia e o espírito “leve leve só” dos santomenses, que nós fomos assimilando com o tempo e que, após o regresso, tanta falta nos faz. O encontro era sempre marcado com a indicação de “hora de relógio”, que é como quem diz “às 17 horas, sem falta, e com a possibilidade de te atrasares até às 18, sem que eu esteja com a cara número 3 quando apareceres”.
  2. Se o encontro desse lugar a espera, o mais pontual acabava sempre por já estar acompanhado por alguém, não com o objectivo imediato e exteriorizado de “engatar” quem quer que fosse, mas porque todos se acabavam por conhecer e era impossível frequentarmos um bar, café, restaurante ou local público sem que aparecesse alguém que conhecêssemos. E o encontro com os amigos tornava-se naturalmente numa reunião mais alargada.

Pois hoje ia jantar, pensava eu, com alguns amigos que conheci por terras paradisíacas. Mas foi adiado para amanhã por conveniência de mais do que um dos convivas, um deles foi já avisando que só chega mais para o tarde. E amanhã lá vamos nós, confraternizar e relembrar a “hora de relógio” e que, pensando bem, depois de regressarmos, devia ser antes “dia de calendário”.

Encontros e Jantares

Jantar com amigos é sempre um prazer, principalmente quando já passaram muitos meses desde a última vez que os vimos e/ou estão geograficamente dispersos por esse Mundo. Hoje é um desses dias ou melhor noites. Vou rever amigos que conheci em África, pois claro. Vamos conversar e rir, saber uns dos outros e as últimas estórias dos nossos “ódios de estimação”, falar sobre o passado, o presente e o futuro, relembrar as Africas pelas quais passámos e onde ainda queremos ir. E não há melhor local do que uma mesa farta para o fazer. O tempo vai ser curto, pelo menos para mim que chego tarde e saio cedo, porque ando numa “afobação” sem fim mas também porque o que quero saber é tanto que nunca dá para, num breve encontro, ouvir tudo.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Ódios de Estimação - 2

Os ódios de estimação são um dos factores que contribuem, de forma determinante apesar de inconsciente, para a sanidade social da maioria dos mortais. É que enquanto se entretêm a observar, comentar em grupo e recriar o que uns e outros foram, são ou serão, mesmo que nunca o venham a ser ou tenham sido, desviam a atenção sobre si mesmos, pensando estar safos dos olhares alheios e das consequentes más línguas, que lhes estão associadas de forma infalível. Além de tudo o mais, encerram uma função de sociabilidade importantíssima, já que somos obrigados a interagir uns com os outros para falar e destruir a vida alheia, mas também quando contactamos com o objecto da nossa raiva. E, no final, dá vontade de espreguiçar pela sensação de missão cumprida. Afinal, tudo isto dá muito trabalho, cansa e desgasta, por isso no final da sessão merecemos o descanso do guerreiro após uma luta mortífera porque desfizemos o adversário, mesmo que ele não nos tenha feito nada de mal. Não gostamos dele e isso é o suficiente.

Mas... quando nos sentimos como o ódio de estimação de alguém, percebemos o quão desconfortável se pode tornar esta cadeia de perseguições verbalizadas que podem mesmo chegar a destruir a vida mental dos mais sãos, a vida emocional dos mais estáveis, a vida profissional dos mais competentes. Tudo se inventa e tudo se relata com pormenores mórbidos e sádicos, procurando evidenciar realismo e uma veracidade impossível de duvidar. Os olhos dos ouvintes abrem-se incrédulos e as bocas emitem sons como “ahhhhh”, “ohhhh”, “arghhhh” seguidos de pausas complementadas por caretas que traduzem desaprovação para comportamentos tão impróprios. A avaliação que é feita resume-se a um “pois é... coitada(o), o que lhe havia de acontecer...”. E aquele terrível sentimento, que não se deve ter por ninguém, de pena cresce a um ritmo galopante por todos os que se dão connosco, sem que possamos sequer perceber porquê. Agora, quem relata valoriza-se aos olhos dos demais porque supostamente sabe, presenciou, viveu situações absolutamente confrangedoras daquele serzinho perdido, e partilha-as em tom de um secretismo delicioso.

De génios passamos a incompetentes, de santos a diabos, de boas pessoas a destruidores de tudo o que nos aparece pela frente. Pior, apesar de terem tido a melhor das impressões a nosso respeito, quando nos encontram abraçam-nos como se tivéssemos estado à beira da perdição ou da morte, mexem-nos nos braços com movimentos ascendentes e descendentes e, com o melhor sorriso que conseguem, tentando demonstrar compaixão, dizem “Afinal estás com bom aspecto...”. E uma pessoa, com cara de parva, só consegue pensar “Safa, mas onde pensa ele(a) que eu andei? Na travessia do deserto ou num mar infestado de tubarões? OU será que a última história que lhe chegou foi ter virado drogada ou alcoólica sem recuperação possível, prostituta ou assassina?”. Dá vontade de gritar e fugir mas, ao contrário, sai um sorriso amarelo que reforça o desconforto e dá as maiores certezas, que na verdade são incertas, ao interlocutor.

E ao juntarmos 2 mais 2, a estória sai direitinha como uma folha de jornal. A clarividência alheia é algo de transcendente, sobretudo a dos pobres de espírito. Porque não se ocupam em algo verdadeiramente útil, em vez de criarem e recriarem argumentos, inventarem feitos, juntarem peças que não têm a menor relação????

Livro Visão: África, 30 anos depois



Posted by Hello
A Visão produziu um livro em comemoração dos 30 anos de independências, procurando entre outras coisas evidenciar as mudanças. Serão 240 páginas a publicar no próximo dia 16 de Junho. Responsáveis pelo texto e fotografias dedicados a STP são os jornalistas Ana Margarida Carvalho e António Xavier. Custará 14.90 euros e acompanhará a revista. Nesta semana nas bancas, portanto. "Quando é que os portugueses chegaram a estes países? O que lá encontraram? Quais foram os principais momentos da sua História? Quem são as principais personagens? Quais são as principais riquezas de cada um deles? O que lá se produz? Quantas pessoas lá vivem? África, 30 anos depois faz o retrato dos países nos dias de hoje, reúne todos os dados estatísticos, apresenta os novos mapas e uma valiosíssima colecção de fotografias." Para além das reportagens, as crónicas de: Cáceres Monteiro; Joaquim Letria; Edite Soeiro; José Silva Pinto; J. Plácido Júnior; Luís Almeida Martins; Pedro Vieira; Rodrigues da Silva. E ainda, os balanços de Adriano Moreira, Pezarat Correia e Vítor Crespo.

"Um arquipélago em busca de uma rota" na ÚNICA do EXPRESSO

Na Revista “Única” do Expresso desta semana, o tema de capa é dedicado aos 30 anos de independência e às mudanças operadas “Três Décadas Depois”, sendo passados em revista todos os países. Todos os artigos são de qualidade, despertando interesse, desde os assinados pelos jornalistas como pelo actual Secretário de Estado da Cooperação, João Cravinho, e as fotografias que os compõem de uma beleza sem fim. Para quem se interessa pelas temáticas africanas são incontornáveis e a arquivar para mais tarde reler.

De actualidade, e com interesse particular, o dedicado a STP, assinado pela jornalista santomense na BBC radicada em Londres, Maria Conceição Lima , denominado “Um arquipélago em busca de uma rota” – título excelentemente encontrado, não podia ser melhor... – dando grande destaque ao dossier petróleo. Dadas as minhas principais preocupações, fiquei com pena (muitíssima) de não conter mais referências ao turismo e ao ambiente (sobretudo quando decorreu um seminário há tão pouco tempo e quando eu própria lhe dei uma entrevista a pedido). Mas compreendo que a reportagem não pudesse abranger tudo. Bem, parabéns à Conceição, porque a problemática da exploração petrolífera tem de facto mobilizado “tutti quanti”...!

sábado, 11 de junho de 2005

Ódios de Estimação 1

Ao longo da nossa vida e nas mais diversas circunstâncias, todos nós nos cruzamos com pessoas que, pelos mais diversos motivos, nos são desagradáveis, com as quais antipatizamos ao primeiro olhar, e pelas quais passamos a nutrir uma espécie de ódiozinho, que vai sendo alimentado com o tempo e por novas situações que vão surgindo. São os nossos ódios de estimação, sem os quais uma parte da nossa existência ficaria esvaziada de conteúdo e motivação. Tudo neles nos irrita, até só a simples constatação que existem e que um dia, pela força do destino e para nossa tremenda infelicidade, passaram a fazer parte das nossas vidas. Na verdade, nem queremos pensar neles mas há sempre um “quêzinho” que não nos larga e nos persegue, fazendo lembrar que os caminhos pelos quais eles passam se cruzam com os nossos. Na maioria das vezes nem sequer nos achamos na obrigação de lhes dar o benefício da dúvida, e com razão: ou nos prejudicaram até à exaustão num passado mais ou menos recente; ou nos tentam prejudicar nos dias de hoje; ou tentarão fazê-lo, com toda a certeza, mais dia menos dia. Não há como fugir das artimanhas destes terríveis seres que, vá-se lá saber porquê, em tudo o que fazem e com quer que contactem, interferem com o nosso bem estar, com a nossa sanidade mental e com a nossa vida em geral.

Em São Tomé havia um ódiozinho de estimação generalizado para os portugueses residentes. Ninguém gostava dele e era o tema de conversa preferido da maioria, que relatava episódios diários, denegrindo a imagem, que já era naturalmente pouco favorecida, daquele indivíduo pouco dado a simpatias. Uma coisa é certa, quando se deixava de falar dele por uns dias, sentia-se falta e a conversa retomava. Ainda hoje, quando alguns dos ex-residentes se encontram, o tema acaba por ir ter sempre ao mesmo. Faz parte, é quase um ritual e torna-se divertido porque dinamiza os encontros. Sem ele, muitos de nós, que o conhecemos, não seríamos iguais ao que somos hoje.

Mas mais estranho é vermos o problema ao contrário. Nunca, ou poucas vezes, pensamos que podemos ser o ódiozinho de estimação de alguém. Mas somos... (continua)

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Novo governo em STP

E não podia deixar de referir que o novo governo de STP já está constituído e toma posse nos próximos dias. A “liderança” recai sobre uma mulher, a ex das finanças, que acumula. O Turismo ganhou, em minha opinião. O ex-director de Turismo e Hotelaria, Gaudêncio Costa, fica como Ministro do Comércio, Indústria e Turismo, acumulando com a agricultura e pescas... Apesar da força e da vontade do Gaudêncio, espero que não sejam sectores a mais, porque os novos dois são de peso... Desejo-te um bom trabalho, Gaudêncio.

Agora, quem terá tido a ideia de manter o Maquengo como Ministro do Emprego, Trabalho e Solidariedade. Só se pode justificar pelo historial no sector social. A ver se há melhorias, já que esta é uma área fundamental também em terras santomenses. Mas meu caro Fernando Maquengo, a integração dos técnicos de acção social que ficou por efectivar tinha sido fundamental, em vez de deixar que os jovens recém formados por especialistas nas diferentes matérias se viessem embora para Portugal, Cuba, Brasil... entre outros destinos. Vamos trabalhar Sr. Ministro, por favor...

Guapa, Barcelona!

Cheguei revitalizada e muito tranquila. Barcelona é uma das poucas cidades europeias que tem um mágico efeito sobre a minha alma. Acalma-me, apazigua-me com o Mundo e com a Vida. Ali sinto-me inexplicavelmente bem. A luz é reconfortante, os espaços abertos e a alegria reinante na Catalunha é contagiante. Vive-se de forma positiva e bem disposta, descontraída e levezinha. Tudo parece fácil por lá. É talvez das poucas cidades europeias onde, se me perguntassem se quereria viver, diria “SIM” sem pestanejar. E há um local, que visito desde a minha primeira viagem porque me apaixonei pela paisagem, Montserrat e estava lindo, esplêndido, sempre com um novo recanto por descobrir. Magnífico e muito recomendável a todos os que não conhecem. E quem gostar de caminhar, do cheiro a montanha e a floresta, da paisagem verdejante, tem em Montserrat um local idílico, ou não tivesse a conotação de “o monte serrado pelos Deuses”.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Descanso

Vou descansar para um dos locais onde me sinto absolutamente revitalizada e tranquila. Até breve. Até ao meu regresso.

Aniversário

De um amigo “netiano”, e leitor regular, também apaixonado por África no geral, e por STP em particular, o António Ferreira de Sousa, recebi este magnífico poema de Álvaro de Campos. Muito bonito. Aqui fica o meu agradecimento público.

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui – ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu só hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra do alçado - ,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa pensar a cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

(1929)



Ver para crer

Bem ao jeito do Santo que lhe dá o nome, só é possível acreditar na vida política de São Tomé e Príncipe vendo. Entrou de novo em crise. Em 4 anos de presidência, Fradique de Menezes tem a proeza de assisitir a instabilidades sucessivas, demissões governativas, alternâncias no poder, dissolução do parlamento e por aí fora. As contestações não têm fim e tudo por causa do petróleo, uma vez mais. Aquele país confunde-me porque tem tanto de beleza, provocando deslumbramento em todos os que por lá passam, como de desassossego gerado pelos desentendimentos. Dá-me vontade de repetir a frase que mais utilizei, com razão, numa das minhas estadias e que muito divertia todos os que a ouviam: "organizem-se"...!!!!

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Prenda

E hoje recebi uma outra prenda de uma pessoa muito especial, um grande amigo. O presente foi um livro, o novo da Margarida Rebelo Pinto “Pessoas como Nós”. Gostei porque foi ele que me ofereceu, ainda não o tinha, não estava a prever comprá-lo tão cedo e gosto de ler os textos dela durante as férias, preferencialmente na praia ou depois. Mas não resisti e li a passagem que publicita o livro. Aqui vai:

“Os homens nem sempre avançam, nem sempre atacam. Alguns preferem esperar, deixar que o tempo lhes traga o que mais precisam, para nunca terem de tomar decisões. O Fred é assim, como um lobo e os lobos preferem morrer de fome a cometer um erro. Ele nunca dará um passo em frente.

Não sei se tenho vocação para ser mãe porque vivo demasiado virada para dentro, em função do meu trabalho e do meu sucesso, mas a Julieta, que é doida varrida, está a fazer um bom trabalho com o Duarte. E se não tiver filhos, nunca saberei (...).”

Engraçada esta passagem. Acho que vou gostar do livro...

Privilégio

Se ontem não pude ir passear na praia, apesar de ser esse o meu desejo, hoje não perdi a oportunidade. A manhã nasceu encalorada e as minhas células ansiavam pela frescura da água salgada e pela agradável sensação da massagem natural da areia na sola dos pés. Magnífico este privilégio de morar junto à praia. Com uma simples visita e uma caminhada ritmada mas tranquila, sem nos darmos conta, o dia decorre de forma muito mais ligeira.

E foi assim

E assim se passou mais uma dia de anos de alguém que será eternamente criança. Amanheceu e anoiteceu com um calor a lembrar os trópicos e as regiões equatoriais africanas. Já não me lembro de passar um dia de anos como o de hoje há muito tempo. Pensei ir à praia mas, só para me contrariar e pôr à prova a minha capacidade de adaptação, mais uma alergia decidiu não me abandonar, bem cedo, ainda de madrugada, o que me impossibilitou de apanhar sol. E passei o dia em boa companhia, a receber as chamadas dos amigos, e neste ano foram muitos os que se lembraram e que não entram para a “lista negra”. Para finalizar o dia passado em família, um jantar a condizer, animado e divertido, com muitas histórias, algumas sobre as Áfricas por onde alguns de nós já passámos e com os olhos atentos e cheios de curiosidade da mais adorável das crianças, de apenas 5 anos. Pronto, tenho de reconhecer que estou mais velha e praticamente na enigmática fronteira dos 40, quase assustada mas ainda não completamente. Para já, ainda divertida.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...