quinta-feira, 19 de maio de 2005

Colecções

Há quem faça colecções de selos, de chávenas, de penicos, de canetas, de abre-livros, de relógios, de armas, de caixinhas, de dedais, de leques, de cromos, de vasos, de animais, de brincos e de anéis, de óculos, de postais ou de jornais antigos, temáticos e regionais. Há colecções originais e outras mais vulgares. Na verdade, desde pequena que nunca fui dada a colecções, porque requeriam uma atenção que nunca quis dar a objectos. O meu cuidado sempre esteve mais associado às pessoas e aos animais e, talvez por isso, nunca tenha percebido bem a dedicação de algumas pessoas em relação a um conjunto de folhas ou de peças, por mais raras que elas fossem, passando horas a observá-las com admiração, a limpá-las e a arrumá-las em local de destaque, não permitindo que outras pessoas lhes tocassem.

Mas desde que fui a África pela primeiríssima vez – aqui fica a homenagem a Guiné Bissau - rendi-me ao encanto de uma peça de artesanato e, sem dar conta, em cada incursão que fui fazendo a países africanos, ia comprando exemplares, diferentes e únicos, que hoje se transformaram numa colecção em constituição. O objecto que provocou os meus sentidos, captando a minha atenção, foram os pensadores em madeira. Hoje tenho-os de todas as coresm feitios, tamanhos e graus de perfeição. Uns são mais estilizados do que os outros, dos mais pequenos aos maiores, esculpidos em madeiras características de cada uma das regiões por onde fui passando, pelo que têm também tonalidades diferenciadas. Mas são lindos e, pela sua diversidade, resultam num conjunto muito harmonioso.

De novo Bissau

Recebi notícias de Bissau. O clima está mais calmo do que eu pensei inicialmente. E ainda bem. Aquele país e aquele povo não mereciam mais outra guerra e o sufoco que daí decorreria. Aguarda-se a evolução dos acontecimentos com tranquilidade. Parece que os meios de comunicação terão, uma vez mais, empolado o caso, porque quem por lá está continua a viver o quotidiano dentro da normalidade.

Fico Assim Sem Você (Adriana Calcanhoto)

Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem abraço
Sou eu assim sem você
Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Por quê? Por quê?
Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Nada do que foi volta III

A vida ensinou a Vera que chorar a ausência não só não resolve como agudiza a angústia e a sensação de perda. Mas, como chorar não é uma manifestação que a maioria das pessoas tenha por querer, Vera aprendeu a controlá-la e passou a chorar para dentro. Quando está triste, sorri e, para não ser traída pelo tremor dos lábios, trinca o inferior no canto esquerdo. Mordisca-o sorrindo para fora, mas no seu interior chove de tal forma que mais parece um dilúvio em dia de tempestade. E isso passou a acontecer cada vez com mais frequência. Abel nem disso dá conta e ela também faz porque ele não se aperceba. Ele está longe dela e pouco a vê, para dizer a verdade, cada vez menos. Por isso, o risco de tomar consciência do que se passa com ela é pequeno. E, para ela, isso é bom.

Depois de Abel, Vera não se voltou a apaixonar por mais nenhum homem. Não podia porque tendia a usar uma medida de comparação que não deixava margem para dúvidas. Abel tinha sido o “seu must” e apesar de tantas qualidades, ela sofrera muito por ele e continuava a sofrer. Era um risco viver sem afecto e sem paixão e os momentos de dureza emocional tornavam-se cada vez mais longos. Mas ela não queria sofrer mais. E contudo, a cada manhã em que acordava a lembrar-se do beijo que ele lhe dava quando saia para o trabalho, enquanto ela ficava na lazeira, ou nas noites de conversa e de amor partilhado, que ela queria acreditar que fora sentido, continuava a sofrer. Era feliz com a lembrança e infeliz com a recordação porque essa reforçava a ausência e a impossibilidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

A fantástica Guiné

Na Guiné encontrei algumas coisas fantásticas de tão ímpares: a altura das papaeiras; a variedade e diversidade de mangas; a quantidade de caju; o nome que dão ao amendoim – mancarra; a quantidade de abutres no céu de Bissau e o nome que lhes chamam – jagudi; a zona ribeirinha de Bafatá; a diversidade étnica; a quantidade de crianças nas ruas de Bissau; o mercado de Bandim; as crenças e as práticas culturais; e tantas outras coisas.

Guiné

E a minha querida Guiné, o meu primeiro amor africano, está prestes a entrar em conflito. Melhor dizendo, ali o conflito é latente. Infelizmente... E a preocupação com os amigos que lá vivem, os guineenses e os outros, aumenta. Dou comigo a recordar a primeira incursão a Bissau, quando a porta do avião foi aberta no aeroporto de Bissalanca, e senti o bafo quente e húmido, o ar denso e o cheiro intenso, misturando, de forma magnífica, os aromas da terra molhada com frutas, predominando uma essência adocicada que, ao primeiro cheiro, parecia algo enjoativo. Só mais tarde, vim a reconhecer o aroma, uma mescla de manga com cajú fresco. Aquele cheiro é inconfundível e aquela sensação incomparável.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Nada do que foi volta II

Talvez algumas coisas tivessem mesmo de ficar assim, sem retorno e sem regresso. Talvez fosse mesmo a lei da vida, ou como é que se chama às partidas pregadas pelo destino e feitas em desencontros. Por fim, naquele dia percebera que quando os sentimentos são unilineares perdem qualquer sentido e resultam em doença. E as doenças, a maioria pelo menos, cura-se. Não, Vera não se queria sentir doente de amor, essa é uma maleita que já não se usa. Amou-o, ama-o ainda e sente que talvez o venha sempre a amar, porque este é um sentimento que não se procura mas que, quanto se sente, não se confunde. Abel era o homem da vida de Vera, se é que isso existe. Podia nunca mais voltar a tê-lo, a sentir-se envolvida pelo abraço forte e pelos beijos ternos, pelo olhar carinhoso e pelos ralhetes preocupados, pelo cheiro intenso e reconfortante.
Mas uma coisa é certa, esta é a lembrança mais terna e mais saborosa que Vera tem dos homens. Abel é uma recordação que sabe a fruta de verão, carnuda e colorida, doce e sumarenta, refrescante e deliciosa num dia de calor. Talvez ele nem nela pense, mas os primeiros pensamentos de Vera são para ele e, muitas vezes, antes de adormecer, é o seu terno olhar que ela vê.

Nada do que foi volta I

“Nada do que foi volta”, pensou Vera quando se despediu de Abel. “Pelo menos não da mesma forma, ou como eu gostaria. Cada reencontro com ele é um novo momento para o conhecimento de uma faceta até aqui não revelada. É estranha a sensação, mas por mais que pensemos que conhecemos uma pessoa, acabamos por perceber, mais tarde ou mais cedo, que tivemos apenas uma visão do que ela é, ou pode ser.”
Apesar de conversador, Abel estava distante e pareceu-lhe triste. Sabia-lhe sempre bem vê-lo e aos encontros marcados não gostava de faltar. Sentia-os como rituais e defendia que esses deviam ser vividos para que as tradições se mantivessem. Não olhava para ele como um ritual ou como uma tradição mas o sentimento que tinha em relação a ele era tão profundo que queria guardá-lo para sempre.
Ouvia-o e sentia-se a partilhar alguns dos problemas que ele tinha, os possíveis e que ela podia saber. Queria apenas que ele estivesse bem, já que não podia sequer pensar no quanto gostaria que ficassem bem. E, com as devidas diferenças, a “Papisa Joana” voltou-lhe à lembrança.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Dúvida existencial

E, naquele final de tarde, depois de terminar mais um livro, que mais parecia um tratado novelístico, sobre os afectos, as paixões desencontradas, com o final possível mas longe de ser feliz, os dramas e as esperanças desta vida, pensei cá para comigo: "Também eu tenho andado atrás de um sonho, dediquei os meus dias a uma causa, a algo em que sempre acreditei. Que balanço farei eu daqui a 30 anos? Nessa altura, acharei eu que terá valido a pena?"

sábado, 14 de maio de 2005

A agricultura dos afectos

Não é fácil fazer com que algumas pessoas interiorizem a ideia de que o pousio afectivo não tem tempos pré-definidos, pode ser breve ou muito prolongado, tal como as filas de espera para pedir esclarecimentos ou informações num serviço público. Cada caso é um caso e por isso marcado pela particularidade. As pessoas são diferentes, e ainda bem, ou seja nem todas reagem da mesma forma aos estímulos e aos problemas!!! E nem todas interiorizam o modelo relacional e afectivo dos trópicos, mesmo quando lá não estão. Estou certa que é essa complexidade que faz da vida algo tão interessante, principalmente porque temos a capacidade e a possibilidade de escolher o que mais nos convém. Esta agora lembrou-me a Sara Tavares, quando canta “sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém”
“Andas muito bem disposta e risonha”, dizia-me alguém com quem já não falava há muito. Sim, risonha estava porque actualmente as nossas conversas fazem-me rir. Mas não diria que estivesse bem disposta, não particularmente. Esta pessoa entende as minhas recusas como uma forma de me “fazer difícil”, de demonstrar a inacessibilidade a que supostamente o pretendi remeter. Não é bem isso. Talvez até lhe possa dar um bocadinho de razão porque, no passado, terá havido alguns episódios inesquecíveis pela mágoa que geraram, simplesmente porque não eram aceitáveis e muito menos geríveis. Histórias... quem as não tem...?! Mas hoje, isso foi ultrapassado e o desconforto anterior deu lugar à impossibilidade actual. Não, porque não e porque, além do óbvio, os solavancos cardíacos são causadas por outro nome e por outras razões.
Não sei se em agricultura há terras que ficam impossibilitadas de serem plantadas para sempre, ou só por uma espécie, rejeitando-a a cada vez que é tentada a sua introdução, porque essa não é de facto a minha área. Mas uma coisa sei e posso garantir, a minha incapacidade para retornar ao passado é imensa, diria mesmo infinita, é total, principalmente quando o passado tem anos e, na altura própria, se revelou num mau ano agrícola. Outras terras serão, por certo, mais produtivas.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Matala

Bwa notxi Migu Malio.
Um amigo partiu esta semana para Matala, em mais uma missão. Matala é um nome bonito, alegre e muito sonoro e ele é uma excelente pessoa, com uma imensa capacidade de se voluntarizar, de trabalhar e de se adaptar às situações mais adversas. Vai lá ficar um ano e espero que vá dando notícias com regularidade. Boa viagem Mário e uma melhor estadia por terras angolanas. E espero que esta experiência de vida te enriqueça ainda mais. Um grande, GRAAAAANDE beijinho.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Gostos partilhados

O brilhantismo daquele encontro revelou-se nas afinidades. Gostavam de África e de Ilhas e acima de tudo encantaram-se por São Tomé, enamorando-se um pelo outro. Mas gostavam de mais, dos sorrisos e dos olhos dos santomenses com quem se cruzavam e com os quais trocavam uma ou outra palavra misturada com a intensidade do olhar, do ritmo leve leve e da descontracção só ali permitida, da paisagem, que alguns diziam monótona, pela densidade tão inspiradora, dos fins de semana partilhados e das actividades que realizavam em conjunto, das refeições a dois, a quatro, a oito, às vezes a mais, onde se reinventavam receitas e experimentavam paladares, do convívio que, por aquelas paragens, era obrigatoriamente intensificado.

Mudanças

Ao contrário da maioria, Z. gostava de ilhas. Transmitiam-lhe paz e tranquilidade, talvez por darem aos continentais como ele a sensação de que, sendo a vida tão contingencial e efémera, devia ser bem aproveitada. Todas as horas, os minutos, os segundos. Não valia a pena lutar contra o tempo, até porque ali era vivido de forma bem diferente. Nem brigar com as pessoas, afinal numa ilha todos eram necessários e importantes. Também nas ilhas havia um sentido de protecção mais evidente, pelo natural limite do espaço e do mar, infinito e inconstante, tudo rodear. As ilhas fascinavam-no e seduziam-no e era nelas que ele se deixava envolver, lenta e ternamente pelo mundo dos afectos. “Um dia”, pensou, “hei-de mudar-me para uma onde sinta que é a minha casa. Mas tem de ter calor, e muitas árvores e flores, e praias, e fruta abundante, e locais para passear, conhecendo pouco a pouco o desconhecido, e gente bonita, simpática e sorridente”. E foi assim que partiu para África, em busca do que não encontrara antes. E foi em São Tomé que se encontrou, que a viu e a conheceu. Foi ali que se envolveu e se perdeu de amores. E a partir daquela época nada mais ficou igual. Nem ele, nem ela.

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Espaço Cultural - STP

Foi criado um novo blog, Espaço Cultural - STP, com o objectivo de divulgar os escritores, pintores, escultores santomenses, mas também os artesãos, os contadores de histórias e os contos tradicionais. A iniciativa partiu de alguns membros do e-Grupo Caminhadas e Descoberta em STP, entre os quais moi même, e os links aparecem referenciados ao lado.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Continuando...

E o dia assim continuou, chatinho e cinzentão qb, a acompanhar o meu estado de alma. Há mesmo dias assim, e há muito que não passava o dia a pensar "quem me dera que chegue amanhã". Não por nada de especial e bom que me possa acontecer amanhã, mas apenas com um objectivo, que esta sensação de "tempo mental farrusco e choviscoso" passe depressa com uma boa noite de sono.
Em STP havia dias assim, tristonhos e lamurientos, com uma diferença importante: estava sempre calor, muito calor. E um mergulho no mar, seguido de uma caminhada longa pelo areal em busca de conchas, revitalizava qualquer estado anímico menos fortalecido. E quando, mesmo assim, chegava a casa acinzentada, dedicava-me a tratar das conchas com cuidado e atenção. Lavava-as, esfregava-as, secava-as e envernizava-as. Hoje olho para elas com orgulho e a minha alma ilumina-se.

Dia Não...

O dia começou "não", chato, rezingão, implicativo e pouco simpático. Pensei eu ir à aulinha de danças latinas mas não há condições. Hoje é uma manhã em que, ao fechar os olhos, revejo a tranquila Baía de Ana Chaves.


Baía Ana Chaves e o Ilhéu das Cabras ao fundo. São Tomé, Novembro 2002
Posted by Hello

Ah... Leão!

"Diz-me, se me visses como um animal, qual seria?" - perguntou-me ele esperando uma resposta do género: leão. Era assim que ele se via. Másculo, forte, possante, dominador, rei da selva, bonito e... por natureza, pouco fiel. "Sabes que um leão africano é capaz de cupular com várias leoas, umas seguidas às outras? Não se cansa, é insaciável. Está em cima de uma e salta para outra. É daí que vem a expressão: Ah... Leão...", referia ele com orgulho.
Eu olhei-o, primeiro estarrecida, porque ainda não o conhecia bem, e depois divertida, e sorri a pensar "Mas os homens por vezes fazem cada associação de ideias... já para não falar nas perguntas...".
Com o tempo vim a perceber aquela conversa assim como a pergunta. Era redundante, um pouco simplista até. Não havia nada de muito elaborado senão a tentativa de mais uma conquista. Eficaz e rápida, efémera e sem contrapartidas, hedonista e egoísta qb, como na culinária. Ele pensava e relacionava-se com as mulheres como o leão, o famoso rei da selva, perante 10 fémeas. Todas hão-de ser suas... só que... à vez. E elas que se cuidem!

segunda-feira, 9 de maio de 2005

É preciso uma paciência...

É fantástico como algumas pessoas se dão ao trabalho de escreverem para quem não conhecem com conversa da treta, personalizando o discurso e fazendo-se passar sabe-se lá por quem. Não, não me estou a referir aos meus queridos leitores que, sempre que me escrevem, animam o meu dia, a noite ou a hora em que leio os seus mails. Refiro-me mesmo a pessoas que não se identificam mas que enviam mails com corações, músicas foleiras e mensagens que... Santo Deus, não pensaria nunca enviar a alguém, quer gostasse quer não suportasse. E o trabalho que isso dá... serão que não têm mais o que fazer?
Em STP recebia de quando em vez mails com endereços que não existiam , cheguei mesmo a receber uma declaração de amor de quem nunca vim a saber quem era. Só podia mesmo ser gozo. Depois recebia de uma "Maria Tristeza", um "Pablo te ama", ou "Não desesperes". Regressei e a brincadeira abrandou mas apareceu-me uma outra que se fazia passar por quem não era. Foi desmascarada, acho, depois de me dar uma seca de quase meia hora num café mexicano ao pé da AR. Não apareceu, como seria de esperar porque não se poderia revelar. Fiquei fula da vida e barafustei com quem de direito, o célebre que encantava moças como os indianos encantam cobras. Ficavam todas enfeitiçadas e embeiçadas, e ainda não percebi como o fazia. Mas pronto, isso não interessa agora para o caso.
A verdade é que fico estarrecida a cada vez que estas brincadeiras acontecem. Dá vontade de responder torto e dizer simplesmente... "JÁ NÃO HÁ... PACIÊNCIA´"... É que não fica nada bem dizer a frase original num blog público.

Abelha, formiga ou just me?

Como se chamará à sensação de sermos abelhas ou formigas? Laboriosas, trabalhadoras, atarefadas, engenhosas, sem paramento? Pois é assim que hoje me sinto. Não fora uma hora de tapete, bicicleta e remo seguido de outra hora de Yoga pela manhã, não chegaria a esta hora a fazer tantas coisas. Aquela posição do "camelo" deixou-me louca de dores nas costas. É o que faz não cuidar de mim, como deve ser, desde Março. África, sempre África no me pensamento, nas minhas acções, no meu trabalho. E mais não digo porque não posso. Não ainda, talvez mais tarde.

domingo, 8 de maio de 2005

Contos tradicionais de Cabo Verde

Andando de um lado para o outro na net, fui dar com o Verbumimagus, blog fantástico que divulga contos tradicionais de Cabo Verde. A reter e a visitar.

Reflexão agradecida

Não posso deixar de agradecer à Helena pela associação brilhante que fez. Sinto-me honrada ao ler o poema do Francisco da Costa Alegre "Negócio Filosofado". E é sempre oportuna a divulgação da arte santomense.

"Xicuembo" em livro

O Carlos Gil (Xicuembo) publica livro com registos do blog. Moçambique, África, lusofonia, entre outros temas estão na ordem do dia. Estou muito curiosa e desejosa que 18 de Junho chegue. Será nas Galveias (Campo Pequeno) pelas 18 horas. Apareçam por lá porque, se o blog tem qualidade, o livro promete. E a capa é simplesmente fantástica. Vejam-na aqui.

sábado, 7 de maio de 2005

Bazaruto no "Fazendo Caminho"

O Fazendo Caminho tem-nos habituado a excelentes leituras associadas a imagens muito bonitas. Mas este post é simplesmente fantástico. Vale a pena passar por lá, ler o poema e... apreciar a foto!!! Bazaruto, portanto!

Revitalização semanal

Há ainda, neste mundo desenvolvido e diversificado, locais agradáveis, porque tradicionais, onde é possível “ir às compras” e escolher a fruta e os legumes, conversar com os vendedores e ouvir as histórias que têm para nos contar. A sensação que, cada vez mais, as “grandes superfícies” me transmitem é de impessoalidade, frieza, desconforto. As feiras e os mercados locais tornam-se prazeirosos porque ainda nos permitem contactar com o produtor, aquele a quem gostamos de chamar com carinho de “saloio”, e ouvir as histórias semanais da vida deles. Quando numa semana não os encontramos perguntamos por eles aos vizinhos e preocupamo-nos ao percebermos que estão doentes, foram hospitalizados ou algo de pior aconteceu com eles ou com familiares. É como se tivessem passado a fazer um pouco parte de nós e nós da vida deles. Este sentido solidário e comunitário revela-se fantástico porque, quando não aparecemos num fim de semana, somos assaltados com perguntas na próxima ida. Melhor, ali ainda nos oferecem um ramo de coentros ou de hortelã ou um ovo porque não fica no cesto a fazer nada sozinho. Ir às compras tornou-se, para mim, numa prática de lazer ao fim de semana porque quando vou ao “meu mercado”, de rua e envolto por vegetação, revitalizo-me para a semana.

Um sapato para cada pé

Certo dia, ao contemplar a tranquilidade de um pôr do sol intenso, como só em África é permitido, e conversando com alguém que se revelou sabedor da vida e dos negócios do coração, ouvi uma frase que retive: "a cada pé o seu sapato", que é como quem diz, nem todos os sapatos se adequam a todos os pés. Uns são demasiado pequenos, outros grandes; uns excessivamente apertados, outros largos; uns magoam no calcanhar, apesar de parecerem justos, outros caem. Encontrar o sapato certo para o pé não é tarefa fácil, tanto que é frequente ouvirmos dizer “este não é sapato para o pé dela”. Mas não vale a pena desesperar porque acabamos sempre por encontrá-lo. Pode demorar mais ou menos tempo, implicar maior ou menor custo, ser mais ou menos bonito ou exuberante, mas a verdade é que, um dia, surge sem nós darmos conta . Comprar o tamanho abaixo não é boa estratégia só para resolver a situação porque, mesmo que o tentemos moldar, calcar ou alargar, nunca nos fará sentir confortáveis. Se for o tamanho acima, vai alargar com o tempo e por mais soluções que procuramos encontrar para reduzir o espaço a mais, teremos sempre a sensação que não foi feito para nós.
Requisitos para uma boa relação pé-sapato:
1. dar a sensação de conforto (ausência de dor e de odor, entre outros aspectos)
2. ser adequado ao modo de vida e às necessidades (prático ou sofisticado)
3. permitir uma caminhada longa e sem esforço, sendo portanto resistente às contrariedades (chuva, frio, calor, entre outras)
4. ter um princípio implícito de “fidelização” (não fica bem andarmos a trocar de sapatos)
5. ter uma boa imagem (aspecto subjectivo, claro está)
Quando penso nesta associação, tal como me falaram inicialmente nela, vem-me à ideia a misteriosa arte de amar. Aos requisitos mencionados, juntaria mais alguns:
6. sentido de humor
7. companheirismo, capacidade de compreensão e aceitação das diferenças
8. relativização dos problemas com preocupação pelo parceiro
...
E, naquele fim de tarde, percebi que há sempre um sapato para cada pé. Pena que nem todos pensem assim...

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Calulu de Galinha, Pato ou Porco

Este post é dedicado à Helena, uma variação do Calulu de Peixe. Proponho a versão de carne que na minha opinião é incomparavelmente melhor. Uma refeição para preparar com tempo e calma, "leve-leve só", para saborear na tranquilidade de uma boa companhia.

Recebi agora mais uma informação interessante - na língua local, não se diz Calulu mas sim Cálu ou Kalu, pelo que o termo que utilizamos (e que sempre ouvi em STP) será uma africanização/aportuguesamento absolutamente desnecessária (Obrigada, amigo Alcídio).

Receita de CALULU DE GALINHA, PATO OU PORCO, gentilmente cedida por D. Alcinda Lombá (e transmitida pelo Paco)

Ingredientes
Galinha, ou pato ou carne de porco fumada);
Folhas (ponto, maquêquê, galo, ótage, olho de folha de goiabeira, quimi, margoso, mesquito, mússua, damina, matrussu, tartaruga...);
óleo de palma;
beringela;
quiabo;
cebola;
tomate;
pau de pimenta;
óssame;
fruta pão;
farinha de mandioca;
Modo de preparação
Picar as folhas todas e em pedaços pequenos (opcional moer ou amarrar e deixar cozer para depois pisar);
Preparar a carne (galinha, pato ou porco fumado) à parte;
cozer bem as folhas com fruta pão descascada em pedaços grandes, com pau de pimenta e óssame, óleo de palma e deixar cozer bem;
Juntar a carne, tomate, cebola, beringela, maquêquê, quiabo e deixar cozer "muito bem" (cerca de 3 horas ou mais);
tirar a fruta pão e deixar a panela a cozer bem;
adicionar água a gosto;
pisar bem a fruta e meter novamente na panela e deixar cozer até dissolver completamente;
Adicionar tempero, malagueta (opcional) e caldo;
Adiocionar folha de mosquito
Não esquecer o sal;
Come-se com banana cozida e pisada (angu de banana), com arroz ou/e farinha de mandioca

Calulu e Angu

Em Confissões e Desabafos de Savarin (77), a Helena do Digitalis apresenta-nos uma proposta de Calulu de Peixe e de Angu. Eu prefiro o de pato, galinha ou porco, mas fica o registo gastronómico, numa altura em que as receitas da culinária de São Tomé e Príncipe ainda não estão divulgadas.

Os contadores de histórias em STP

Ivo Ferreira e os Contadores de Histórias em STP

"Os narradores orais, contadores de histórias como também lhes chamam, são os guardadores dos tesouros da narração oral, histórias que passam de geração em geração. O realizador Ivo M. Ferreira foi encontrá-los em São Tomé e Príncipe e na bagagem trouxe memórias para dois documentários que a Cena Lusófona lança em Setembro em DVD: “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” e “À Procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé”. Em 2001, a Cena Lusófona lançou o projecto de identificar e documentar a presença e as performances dos narradores orais nos países de língua oficial portuguesa. O primeiro realizador a ser desafiado, para registar a tradição oral de São Tomé e Príncipe, foi Ivo M. Ferreira: “Quando o projecto me foi proposto eu disse que precisava de material. Foi aí que percebi que há uma lacuna muito grande de dados em relação a esta realidade e, especificamente, a São Tomé e Príncipe”. Mesmo sem as informações de que necessitava para iniciar as filmagens, partiu para a ilha do Príncipe, sem ter a certeza se regressaria com registos para apresentar. Na opinião de Ivo M. Ferreira, este primeiro trabalho, a que deu o nome de “Narradores Orais da Ilha do Príncipe”, reflecte um pouco a superficialidade de quem desconhece o universo que o espera. “Eu andei à procura deles, sempre a perguntar se alguém sabia quem contava histórias por ali”. Também ignorava as circunstâncias, quando são contadas as histórias. Isso ocorre, sabe-o hoje, na maioria das vezes quando alguém morre ou em datas de evocação de um falecimento. As pessoas reúnem-se numa casa ou num quintal e, ao longo da noite, há indivíduos “contratados” ou que aparecem a contar histórias. Filmar estes momentos poderia ter sido pouco natural, devido à presença da câmara, mas, segundo o realizador, depois de algumas horas de convívio e da desmistificação dos objectos de filmagem, público e contadores acabaram por agir naturalmente. Um dos aspectos mais ingratos na realização foi não conseguir captar as histórias, a não ser após tradução resumida. No entanto, para entender o lado performativo do contador e a forma como o fazia, Ivo Ferreira nunca precisou de tradutor. E conseguiu até intuir, através de gestos e posturas, quais os genuínos narradores orais, embora, na sua opinião, os sãotomenses sejam todos naturalmente teatrais: "Utilizam gestos e expressões que tornam o universo da oralidade num ambiente místico e encantatório que deslumbra qualquer ouvinte". “À procura de Sabino e outros contadores de São Tomé” é o resultado de uma segunda viagem do realizador ao mundo abordado no seu documentário anterior. Desta vez programou centrar-se mais na vida de um contador, acompanhá-lo no seu quotidiano, tentar perceber o que o levava a contar histórias. E surgiu um nome, alguém que as pessoas diziam ser um grande contador: Sabino. “Pensei, tenho de o encontrar. Ele simbolizava, por um lado, a resistência (embora fosse muito velho continuava a contar histórias), mas, por outro lado, simbolizava a inevitabilidade do fim desta tradição". Através de Sabino, percebeu, estava a contar a própria realidade do país. "Procurei-o. Fiz milhares de quilómetros naquela ilha cheia de buracos, matos e rios, dentro de um jipe. A certa altura comecei a filmar a própria procura do Sabino”. Para Ivo M. Ferreira, este documentário não significou só o registo dos narradores orais da ilha, suas histórias, mas também a dificuldade de os encontrar. Mesmo assim lamenta que num documentário deste tipo não exista espaço para ir um pouco mais longe em relação ao contador, conhecer mais acerca dele, das suas histórias. No decorrer do trabalho de campo, encontrou Caustrino Alcântara, pessoa esclarecida e sabedora que finalmente lhe conseguiu explicar todo o conceito que envolvia este universo da tradição oral, incluindo os vários tipos de histórias em activo. Alguém que, na opinião do realizador, conserva actualmente o maior espólio de histórias sãotomenses. Apesar de sentir que estes documentários podem ser algo muito efémero, no que respeita à identificação dos contadores, Ivo M. Ferreira acredita que tanto “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” como “À procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé” são pelo menos uma singela homenagem a estes zeladores de histórias. E de sonhos. A Cena Lusófona vai editar em DVD, em Setembro, “Narradores Orais da Ilha do Príncipe” e “À procura de Sabino e de outros contadores de São Tomé”. Neste DVD, que engloba os dois documentários de Ivo M. Ferreira, legendados em português, francês e inglês, podem também ser visionadas entrevistas com os principais intervenientes do Projecto Narradores Orais. Outras iniciativas editoriais estão em marcha. Ainda este ano, vai ser iniciada uma pesquisa sobre os narradores orais em Cabo Verde (a cargo de Catarina Alves Costa) e na Guiné-Bissau."

Difícil escolha, ou talvez não...

“Já pensaste que essa tua mania quase obsessiva, e que tem sido intensificada à medida que vais ficando mais velha, para o contacto com a natureza, a preservação, a protecção de espécies e a vida saudável te afasta da vida social?” – perguntou-me ele com ar crítico.
“Não, nunca tinha pensado nisso, mas provavelmente tens razão” – respondi-lhe de forma natural – “E tu, já pensaste que no contacto com a natureza, o risco de magoares os teus sentimentos é bem menor do que o que está implícito às relações humanas?”
“Talvez fosse inteligente encontrares um meio termo e, em vez de te sentires tão próxima dos animais, das plantas e das paisagens, podias olhar à tua volta e veres que há pessoas interessantes com muito para dar”
“Até podes ter razão. Mas... estás a referir-te exactamente a quem?”
Ele levantou-se da mesa e, sem responder, afastou-se. Ela sorriu e pensou no quanto os homens por vezes se tornam básicos. A natureza, na sua simplicidade, é muito mais interessante porque harmoniosa.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

cup&cino em Santos

Uma ex-aluna minha, muito querida e que trabalhou comigo após se ter tornado socióloga, abriu um Cup&Cino em Santos. Não é por ter sido minha aluna ou por ter trabalhado comigo, mas é a simpatia e a eficiência em pessoa, que sempre teve o fascínio por África e que se deliciava a ouvir-me nos relatos, nas miragens de fotografias e nos sonhos.
Fica no Largo Vitorino Damásio (em frente à Caixa Geral de Depósitos ao pé da UAL-Boavista)
E-mail:
cupcino.santos@iol.pt
Telf: 213909471
Visitem-na que serão muito bem recebidos. Afinal é mais uma socióloga que se revelou uma mulher de coragem. O mundo é das mulheres está visto e das sociólogas em particular!!!! Parabéns, Joana!

Sabores do Mundo

Uma iniciativa interessante da ACIME e da UNESCO: Sabores do Mundo disponível na net. Pena não disponibilizarem receitas da Guiné Bissau e de São Tomé. Mas há de Angola, de Cabo Verde e de Moçambique. Permite pesquisar restaurantes, desde que se saiba o nome, identifica locais para compra de produtos por região e é um interessante intrumento pedagógico, já que explica as características e as finalidades das especiarias e principais produtos gastronómicos utilizados.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

2005-2014: uma década importante

Estamos na Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (Nações Unidas - UNESCO). A ver vamos o que conseguiremos dentro de 10 anos. Será necessário mudarmos muitos comportamentos ao nível: político e de cidadania; económico; social; cultural; ambiental. Vamos a isso!

Aprendizagem ao longo da vida

Há pessoas que têm uma infinita capacidade de nos surpreender pela negativa desiludindo-nos. Ao fim de muito tempo de as conhecermos e de nelas confiarmos revelam-se. Ainda bem que são poucas. Ou talvez sejamos nós que vamos aprendendo ao longo da vida e nos tornemos mais cautelosos. Esta é a verdadeira e dura aprendizagem ao longo da vida...

O "Nómada da Pós Modernidade"

Quando pensava nele não sabia como o definir. Ao fim de um bom par de anos, desde que se tinham cruzado pela primeira vez numa África imensa, que ela definiria mais tarde como “o Grande Espaço”, porque olhando para a paisagem a imagem que retinha era de uma área infinita, conseguiu por fim encontrar uma expressão para o definir. Aquele era o que em Sociologia se chamaria de “nómada pós moderno”. Não parava quieto mais do que dois anos no mesmo local, e dois anos representavam a eternidade. Fugia dos outros, da vida e de si próprio. Procurava dar a ideia de ter uma elevada auto-estima, e por essa razão dava-se ao luxo de tratar os outros de forma variável, mas quase sempre mal. Tornava-se arrogante com as graçolas, dizia mal da África onde estava oficialmente para reconstruir a vida que lhe pregara partidas incontáveis apanhando-o desprevenido, mas na verdade estava ali de passagem e sem grandes expectativas. Enganava-se enganando os outros. Era um daqueles que se serviam das Áfricas deste mundo em proveito próprio e não pela paixão que poderia nutrir pelas terras e pelas gentes. Este “nómada pós moderno” era o tipo de pessoa que quem ama verdadeiramente África não quer encontrar, mas que infelizmente é muito mais comum do que se pode pensar à partida.

As relações Europa-África: o caso de São Tomé e Príncipe

O Seminário sobre “As relações Europa-África: o caso de São Tomé e Príncipe”, na Universidade de Aveiro (org: IEEI, IPAD, ECDPM) correu bem. Pena que os santomenses não tenham participado em maior número e de forma mais activa, o que teria permitido um debate mais proveitoso.
O grande tema foi o petróleo, claro está, e eu lá estive a defender estratégias alternativas com o turismo, no segmento ecológico. É que, se os resultados da exploração petrolífera não forem os que alguns ainda esperam, STP fica sem rumo. E isso é uma coisa que, na minha modesta cabeça, não deve e não pode acontecer. Há que encontrar alternativas, estratégias bem estruturadas e sedimentadas que complementem a aposta eufórica.
E no meio da generalidade céptica lá estive eu com optimismo reforçado, naif para alguns, voluntarioso para outros. E falei apaixonadamente, segundo me disseram mais tarde, mostrando slides com fotos ilustrativas das potencialidades e apelando para os efeitos benéficos. Claro que fiquei satisfeita com as avaliações finais. Só podia ficar, é sinal que a mensagem, que procurei transmitir, passou e foi bem entendida.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Links

Ahah! Hoje sinto-me um pouco mais uma mulher dos tempos modernos. Há um bom par de meses que ando a "postar" e a "blogar", ora escrevinhando pensamentos, sentimentos, algumas histórias e muitas estórias, ora navegando pelas escritas alheias, deliciando-me e sonhando. Tenho privilegiado quase sempre os blogs sobre África ou que com ela têm afinidades. Apesar das tentativas não conseguira até hoje colocar links para consulta, com excepção dos directos nos posts. Mas, graças ao "meu colega" Adelino, santomense de gema, do Tristesantos e o Parto do Cavalo, comecei a introduzir os links pelos quais vou viajando e sonhando. Obrigada Adelino porque a tua explicação foi muito proveitosa.
A selecção vai aumentar porque tornei-me numa bloguista assídua.

domingo, 1 de maio de 2005

Petição por IVO FERREIRA

Nem sequer o conheci bem mas cruzei-me várias vezes com ele em STP. É realizador de cinema e de documentários, jovem e sonhador. Queria construir um complexo de turismo ecológico no Príncipe com cabanas numa praia. Ainda começou a construir mas os esforços acabara frustrados e saiu de STP após algum investimento. Partiu desiludido, com novos projectos para outros lugares.
Perdi-lhe o rasto e não mais ouvi falar dele. Até que um amigo comum, que também residiu em STP, me enviou um sms pedindo para assinar a petição para a sua libertação. Está preso no Dubai por consumo de haxixe depois de ter sido acusado pela ex-namorada do amigo com quem partilhava apartamento. Os negócios do coração, quando mal geridos, criam de facto situações muto desconfortáveis.
Vamos todos assinar a petição para a libertação do Ivo porque senão, aquele rapaz que gosta de levar a vidinha "na boa e na sua" arrisca-se a 5 anos de cadeia por fumar uns "cigarrinhos para rir"... Assinem aqui

Ver, rever e visitar a Roça de S. João

Para ver, rever e visitar o novo site da Roça de S. João. Marca pela simplicidade e harmonia entre imagem, texto e informação. Quem quer visitar STP, ou tem saudades da varanda e da vista sobre a baía de Angolares, do licor de jaca, do grito dos morcegos, da simpatia das gentes, da hospitalidade do João Carlos Sila e da Isaura, do sorriso das crianças a aprenderem a pintar ou a moldar arame criando formas e brinquedos, e na impossibilidade de visitarem pessoalmente a Roça, passem pelo site. Alegra a vista e adoça a alma. No mínimo faz-nos sonhar...

Blog de STP

Novo blog de STP: Adelino Cassandra em Tristesantos e o Parto do Cavalo. Imagem, poemas, reflexões e muitas outras coisas. Vale a pena passar por lá.

Ao meu AMIGO

Hoje estou triste. Enquanto estive fora, meu amigo e fiel cão partiu para uma longa viagem.
Para sempre vou relembrá-lo pelo companheirismo, presença constante e boa disposição permanente.
Fui uma privilegiada por ter sido sua amiga. Com ele aprendi, cresci e melhorei a pessoa em que me tornei depois dele ter passado a fazer parte da minha rotina diária.
Nunca o esquecerei e estou certa que me fará falta. Muita!

sábado, 23 de abril de 2005

Interregno, descanso e lazer

Vou descansar, passear e comemorar o doutoramento. Usufruir de uma prenda oferecida pela mana. Uma viagem, mas desta vez não a África. Vou até ao centro da civilização. A civitas. Até breve. Até ao meu regresso.

Integração

Numa aula sobre Demografia e Movimentos de População em África, falando de migrantes, deslocados e refugiados, foi abordado o tema da integração e das medidas que requer para um resultado efectivo. Integração não é inclusão nem apenas inserção, apesar de implicar as duas, disse eu a dada altura. Os sorrisos abriram-se nas caras dos meus ouvintes, população africana com formação mínima de licenciatura. O debate surgiu de imediato por ser um tema sensível. Arriscando a possibilidade de confronto de opiniões opostas, vale sempre a pena falar nele.

Complexo de inferioridade

Tenho um cão, um boxer de pelo amarelo, rapaz simpático e focenhudo, corpolento e mal encarado qb, muitíssimo eficaz na tarefa de desencorajar a aproximação de pessoas indesejadas. Mas, na verdade, é muito mais simpático, e dado a novos contactos, do que a própria dona, que é rapariga pacata que gosta da sua tranquilidade e a quem não agrada ser interpelada de forma desnecessária e com intuitos pouco claros.
Uma das minhas actividades predilectas é passear o “meu beiças”, usufruindo da sua alegre companhia e realizando caminhadas muito tranquilizantes. O único problema é que, nas proximidades vive um pincher, cuja dona teima em passear junto à minha porta, cão pequeno e irritante com problemas de identidade. Chama-se Miura e julga-se de tal forma valente que não tem a menor noção da realidade. Em cada vez que nos cruzamos com eles, aqueles 35 centímetros frenéticos investem cheios de agressividade e violência, com mau feitio e má disposição, em direcção ao “meu beiças”, que se mantem impávido e sereno parado e extasiado a olhá-lo sem compreender aquela atitude. Quando os outros se afastam, olha-me e suspira, emitindo um "bffff" que traduz o que sente. E eu partilho o "bfff" com ele!
Não fossem os cerca de 40 quilos de boxer tão calmos e pacatos, já não havia Miura com identidade de touro por estas bandas. Aquilo é um desassossego num dia só. Em minha opinião, a dona devia levá-lo a um psicólogo ou psiquiatra canino porque aquele complexo de inferioridade pode custar-lhe caro daqui a uns tempos, se ele tem o azar de se cruzar com um rotweiller ou um pitbull em mau dia. E já agora, podia ir também porque o feitio dela está longe de ser fácil... deve ser um problema de convivência, com certeza!

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Desejos

"Não desapareças agora" - teve vontade de lhe pedir, mas sabia que esse era um desejo irrealizável e uma pessoa só deve desejar o que pode ter. E sabia que aquele era apenas mais um momento que ficaria registado na sua memória. Por isso, após os encontros em que os afectos os aproximavam, ela calava-se e não conseguia dizer uma palavra. Mas pensava. Pensava muito, demais.

Triste olhar

Por mais que tentasse nunca iria conseguir explicar-lhe porque é que os seus olhos choravam sem que vertesse uma lágrima. Humedeciam, enchiam-se de água, e escorriam por dentro mas nem uma gota saía. Parado e fixando-a, continuava sem perceber se a cor daqueles olhos era verdadeira ou apenas o reflexo da tristeza que transmitiam. Ela negava, dizia que não chorava. Porque haveria de estar triste? Mas os olhos não mentiam e talvez fosse por isso que fixava um ponto no infinito e não o abandonava. E, por não perceber, ele não deixava de apreciar a beleza da expressão daquele triste olhar que tanto o encantava.

Inspiração

"Onde vais tu buscar inspiração para escreveres tanto?" - perguntou-lhe um amigo que, apesar de não estar explicitamente identificado, se revia numa grande parte dos textos, que ela insistia em partilhar com o Mundo.
Ela sorriu e respondeu-lhe com um ar vago: "É a vida que me inspira" - Ela não podia e não queria admitir, muito menos para ele, que a grande e verdadeira fonte de criatividade estava ali mesmo à sua frente, a olhar para ela e a inspirá-la uma vez mais. Se os sentimentos estavam ainda à flor da pele e não era suposto falar deles, ela não falaria.

Cumplicidades

O encontro decorreu em clima de normalidade aparente, aliás como era habitual. Não houve palavras amargas nem desgostosas. Falaram de tudo e de nada, evitando o encontro dos olhares, que quando acontecia os traía. A conversa fluía naturalmente, falando dos problemas do dia-a-dia como se estivessem estado juntos horas antes. Foi assim desde sempre, quando se encontraram pela primeira numas das Africas pelas quais os dois passaram, mas desta vez na mesma altura. Apesar da cumplicidade e da intimidade, havia temas sensíveis que não só não eram abordados como evitados: os sentimentos, os desejos, as expectativas, que ficavam na esfera do entendimento subjacente.

Para ti

Este post é dirigido a uma pessoa que não vou nomear mas que sabe quem é. "Just to remember" ou melhor "to never forget". Porque a uma promessa não se pode faltar. E um dia prometeste-me honestidade.

If you search for tenderness,
it isn't hard to find
You can have the love you need to live
But if you look for truthfulness
You might just as well be blind
It always seems to be so hard to give
Honesty is such a lonely word
Everyone is so untrue
Honesty is hardly ever heard
And mostly what I need from you
I can always find someone to say they sympathize
If I wear my heart out on my sleeve
But I don't want some pretty face
To tell me pretty lies
All I want is someone to believe
I can find a lover,
I can find a friend
I can have security until the bitter end
Anyone can comfort me with promises again
I know, I know
When I'm deep inside of me, don't be too concerned
I won't ask for nothin' while I'm gone
But when I want sincerity
Tell me where else can I turn
Because you're the one that I depend upon
Billy Joel

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Memória curta

Será possível que o Mundo seja de tal forma dinâmico que já é permitido ao Nino Vieira candidatar-se à Presidência da República na Guiné Bissau? É verdade que voltou à Pátria e foi aclamado quase como um herói, e isso já não é de todo normal, mas esta formalização é demais. Estarão já todos esquecidos do que se passou há uns anos atrás? Não foi assim há tanto tempo!!!

Tolerâncias

Passei a manhã a ouvir falar sobre África e as dificuldades que por lá se vivem, e da minha cabeça não saiu a ideia de STP estar a enfrentar um surto de cólera. Não me espanta mas entristece-me. Não me admirei quando ouvi a notícia pela primeira vez porque quem conhece aquela terra e aquelas gentes como eu só pode estranhar que o problema não tivesse surgido antes. A inexistência de esgotos e de saneamento adequado, a vulgarização da falta de higiene como prática de normalidade, a ausência de informação generalizada e a pouca, ou nenhuma, preocupação com a formação, a educação e a informação levam de forma quase natural à proliferação de doenças e epidemias. É revoltante que, num país que subsiste por causa da Ajuda ao Desenvolvimento e da Cooperação Internacional, que injecta anualmente milhões, seja sempre a população a receber estes efeitos.
Dá vontade de dizer bem alto: É PRECISO MUDAR AS MENTALIDADES NO QUE À HIGIENE, À SAÚDE E A ALGUMAS PRÁTICAS DIZ RESPEITO. É PRECISO MELHORAR EFECTIVAMENTE AS CONDIÇÕES DE VIDA DAS POPULAÇÕES, PORQUE SE ASSIM NÃO FOR, MEUS CAROS GESTORES DO PODER PÚBLICO, NÃO HAVERÁ DESENVOLVIMENTO NEM DAQUI A 5 MILHÕES DE ANOS!!! STP TEM UMA POPULAÇÃO QUE NÃO CHEGA AOS 140.000 HABITANTES... ENTENDEM O QUE ISSO SIGNIFICA?????

terça-feira, 19 de abril de 2005

O mistério do futuro

Num dia de desespero Alice decidiu-se a ir consultar pessoa conhecedora das artes de prever o futuro. A vida corria-lhe mal e ela queria, a todo o custo, alterar o ciclo negativo em que vivia. Nem ela própria sabia se acreditava no estranho mundo das adivinhas, mas uma coisa era certa: não perdia nada. Ia com espírito aberto, pensando que tudo o que poderia ouvir naquela tarde solarenga não podia ser pior do que o sufoco de desesperança em que vivia nos últimos anos. E lá foi.
Ao chegar foi recebida por um olhar perscrutador do outro lado que foi substituído por um sorriso que tentou demonstrar acolhimento. Sentiu-se de imediato avaliada mas pensou “nestes milésimos de segundos, ninguém pode ler os meus pensamentos, o meu passado e o que virá a seguir”. Foi conduzida para uma sala que lhe pareceu pequena, desprovida de móveis, com excepção de uma mesa e duas cadeiras. A mesa estava coberta por um pano verde e no topo tinha um baralho de cartas de tarot e um outro “normal de jogar”, umas folhas lisas, uma caneta, uma vela apagada que nunca foi acesa, e uma taça com água e umas plantas que lhe pareceram nenúfares.
A sessão começou com uma reza de olhos fechados, numa tentativa da “mestre” receber as energias de Alice, que se sentia com um misto de apreensão e de vontade de rir, sabe-se lá se pelo nervosismo ou pela estranheza do ambiente. Decorreram longos minutos de silêncio, em que as cartas foram distribuídas com cuidado e misturadas com saber, viradas e analisadas. A consulta começou com uma leitura geral para os tempos mais próximos. Alice encontrava-se a viver um ciclo que só se alteraria após 4 anos, pelo que não valia a pena contrariar a lógica dos acontecimentos. Afinal o karma sempre existia... Daqui foram às particularidades e aos diferentes sectores da vida – o trabalho, o dinheiro, os amores, a saúde.
Foi vista uma viagem de trabalho para terras distantes e muitas mudanças no trabalho que resultariam em sucesso e em dinheiro, mas não de forma imediata, nada de grave na saúde e novo amor, pessoa que não conhecia à data da consulta, que surgiria sem que ela o quisesse ou desejasse. Mas mais uma vez, este homem desconhecido, um pouco mais velho mas não muito, seria kármico, pelo que não valeria a pena negá-lo. E no que respeita a este assunto, Alice sorriu com cepticismo.
Depois, e a pedido de Alice, regressaram ao passado e a “mestre” acertou nos pormenores, o que lhe causou desconforto. E assim se despediram, com muitos conselhos e recomendações. Afinal, Alice era intuitiva e concentrava as energias em si, as boas mas também as mais negativas que a conduziriam a estados menos felizes de quando em vez. Desceu o elevador a rir sozinha e a pensar “E se eu me dedicasse à adivinhação?”.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Imaginário(s) Africano(s)

Dizer que África está no imaginário de quase todos nós não é real e muito menos verdadeiro, já que se trata de um continente constituído por pequenos grandes mundos, repleto de diversidades: culturais e sociais, paisagísticas e ambientais... Cada vez mais penso que cada pessoa, que tem este magnífico continente no seu imaginário, tenha lá vivido, ido ou apenas com ele sonhado, tem uma representação africana diferente. Não há um mas vários imaginários, tal como há uma imensidade de pessoas e muitas Áfricas diferentes. Mas todas elas absolutamente inspiradoras... É também isso que torna aquele espaço físico e cultural tão especial: a riqueza resultante da diversidade...

domingo, 17 de abril de 2005

Aquela era a África que...

Aquela era a África que me fascinou e seduziu, pela qual me apaixonei e, para sempre, me deixei encantar. Ali todos os sonhos foram tornados realidade e as vivências eternizadas. Guardei-as dentro de mim, depois de as ter registado, uma a uma, nos cantinhos mais escondidos da minha memória, auxiliada por fotografias, palavras passadas para um papel, umas de forma articulada e outras nem tanto, desenhos e rabiscos, conchas e cocos envernizados por mim em momentos de tranquilidade e que aproveitei para espalhar por todo o lado por onde passo.

Hoje, longe destas Áfricas por onde fui passando e que me deixaram marcas profundas, que jamais me abandonarão, vou, de tempos a tempos, retirando as lembranças em função do que quero recordar e reviver. Houve dias bons e maus, ternos e angustiantes, aventureiros ou arriscados e monótonos, que voaram à minha frente sem que desse conta da sua passagem ou que se atrasaram, fazendo com que os minutos demorassem séculos a passar. E, na verdade, todos os momentos foram importantes para a pessoa que hoje sou porque me fizeram crescer, aprendendo de forma positiva, alegre e feliz com pessoas inesquecíveis, mas também com a tristeza das desilusões que resultam de entregas indevidas, seja no amor, na amizade ou no simples conhecimento.

sábado, 16 de abril de 2005

Roça Bombaim, um dia de aventura

Num final de noite, depois de um jantar reconfortante e tranquilo com alguns membros da família, preparámo-nos para a viagem de regresso a casa. A conversa surgiu uma vez mais e hoje dou comigo a pensar porque será que acabamos sempre as nossas conversas a falar sobre África. Desta vez o tema foram as experiências que por lá tive que, para mim, foram vividas intensamente com espírito de aventura e hoje lembradas com gosto e um sorriso saudosista mas, para elas, como apenas mais umas vivências inconscientes e arriscadas da minha parte. É verdade que implicaram algum risco, mas a vida tem-me ensinado que algumas das coisas que nos dão mais prazer são aquelas que mais exigem de nós e, que por isso mesmo, pressupõem uma margem de incerteza.
Falávamos de uma ida a Bombaim aquando de uma das visitas da minha irmã mais velha a STP. Ela tinha muita curiosidade em conhecer aquela roça, emblemática por ter sido conduzida por uma família que viera da Índia, daí o seu nome, que trouxera consigo o famoso mangustão, introduzindo o fruto na ilha. Depois, era uma das roças que estava a ser aproveitada com fins turístico, bem no interior da ilha de São Tomé, região habitada pela temível cobra preta, com grande densidade florestal, e por isso de grande beleza paisagística, com um acesso que, só por si e em dias de sol e bom tempo, representava uma aventura. A estrada de ligação entre a Milagrosa e Bombaim era de terra – uma picada com passagem de um carro de cada vez – em muito mau estado, cheia de buracos, agravados pelas chuvas quase diárias no interior da ilha tendo, de um dos lados, do esquerdo, uma vista deslumbrante para a floresta. Mas, olhando para baixo, sentíamos a vertigem de ver um precipício sem fim, percebido não só por não termos a noção de onde ficava o chão mas também pela altura incálculável das árvores. A hipótese de retorno, com inversão de marcha, era praticamente impossível pela largura da estrada, uma vez a caminho a opção era seguir em frente. Um deslize de terra podia mesmo ser fatal e as possibilidades de busca eram muito limitadas pela ausência de meios, dificuldade de contactos e morosidade do socorro. Ali, tudo é “leve-leve só”, até em caso de acidente.
De facto, aquela viagem representava uma aventura mas, na minha mais do que modesta opinião, muitíssimo compensadora. O deleite para os olhos, a tranquilidade dos verdes intercalados pelo amarelo alaranjado das eritrinas, leutrineiras como os santomenses rurais lhes chamavam, os cursos de água e a magnífica Cascata de Bombaim. Valia a pena, pensei eu! E lá fomos, nós as duas e a irmã de um cooperante que também estava de visita e férias antes do seu casamento, que teria lugar no mês seguinte.
Para animar o ambiente, criando expectativa, e aumentar os níveis de adrenalina, chovia. Não chovia torrencialmente, não eram sequer chuvas tropicais, mas sim aquela chuva miudinha que vai molhando, penetrando a terra e alimentando o verde. Choveu só depois da Milagrosa, ou seja após termos entrado em piso de terra, com precipício do lado esquerdo e uma parede de terra do lado direito. O jipe derrapou vezes infinitas nos sulcos de terra lamacenta e, não será necessário dizer que, fizemos o percurso todo com redutoras, pelo que a velocidade não foi, nem podia ser, a tónica dominante da viagem. As minhas companheiras de passeio não iam muito à vontade, apesar de tentarmos acompanhar, o mais afinadamente que conseguimos, o Kalú Mendes que cantava na rádio. Chegámos, depois de eu ter batido numa pedra, que fez um tremendo estrondo, mas que, como é meu hábito nestas coisas, relativizei. É que não vale muito a pena aumentarmos a apreensão decorrente de momentos dramáticos, porque só faz com que o desconforto aumente.
Almoçámos em Bombaim e elas visitaram a roça. A D. Genoveva – Veva – estava feliz com a visita e serviu-nos o melhor que podia, com cordialidade e o sorriso de sempre. De repente, a meio do almoço, chegou um grupo de santomenses, que terão passado pelo mesmo calvário que nós, entraram na sala e disseram qualquer coisa que, com o stress do dia, eu não entendi mas o meu raciocínio descortinou apenas qualquer coisa como “de quem é aquele carro que tem fogo?”. Eu levantei-me num pulo, e a minha tranquilidade foi traída pela realidade da minha apreensão escondida, fiz a minha cara de alucinação em momento de crise e com os olhos abertos até à exaustão perguntei “O carro está a arder? Carro? Qual carro?”. Inconscientemente comecei a traçar o problema que teria pela frente, já que não havia seguros e a responsabilidade daquele jipe com 2 anos de vida era integralmente minha... Eles riram até não poderem mais e disseram com o ar calmo que só os santomenses conseguem ter “Dona, não tá a arder. Tem furo!”.
O regresso foi mais apreensivo, pelo menos para elas de forma exteriorizada, que já se viam engolidas pelas cobras, pelo Obô, o Parque Natural, e por qualquer outra coisa que pudesse aparecer. A D. Veva fez o caminho à nossa frente, não fosse acontecer mais algum percalço, separando-se de nós apenas na Milagrosa, onde a estrada não sendo brilhante era de alcatrão.
Tudo acabou bem e, apesar do risco, só lá indo é que pudemos viver tão intensamente a floresta santomense, nos sons, nos cheiros, nas cores, nas sensações. Foi um dia emocionante que, para mim, valeu a pena! E como este houve mais. Em terra e em mar...

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Nem sabes quanto...

- Tenho saudades tuas... - disse ele olhando-a fixamente após um doce momento de ternura.
Ela não respondeu por palavras porque não conseguiu dizer nada, apesar de lhe querer dizer muito. Mas pensou - "também eu... nem tu sabes quanto..."

Passagem de Testemunho

O Testemunho foi-me passado pela Pitucha e pelo Carlos Gil. Aqui vai:
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
"Chocolate" de Joanne Harris, porque me permitiu sentir os cheiros doces, amargos e com um travo picante nas descrições sobre a confecção. E o enredo é brilhante: a criança e o amigo imaginário, os ciganos, o padre e a aldeia pequenina onde tudo o que acontece se sabe, e até o que não chega a acontecer passa a ser motivo. Mas sobretudo pela determinação que está implícita.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Não.
Qual foi o último livro que compraste?
"A Filha do Capitão" como prenda de anos para um amigo, mas acabou por ficar de empréstimo nas minhas mãos.
Que livros estás a ler?
"A Filha do Capitão" e a reler "O Rei, o Sábio e o Bobo"
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"O Pincipezinho" do Saint Exupéry; "Equador" do Miguel Sousa Tavares, claro para reler; "Manual do Guerreiro da Luz" do Paulo Coelho; "A Ilha das Três Irmãs" e os seguintes da Nora Roberts
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Até me sinto no reality show... é que não queria excluir ninguém. E já confirmei que muitos outros já tiveram o testemunho passado, pelo que aguardemos que respondam também à "chamada". Assim sendo, mando já beijinhos para todos e cá vão os meus votos:
- Cacusso porque me inspira numa área que domino mal, a poesia
- Helena porque vive, recria e conta
- Margens pela doçura das palavras e das imagens

Feliz Associação

No Kitanda é feita uma feliz associação entre uma fotografia da Baía de Ana Chaves, em São Tomé, e um poema da Alda Espírito Santo. Vejam aqui. A bem dizer da verdade, o blog prima pelas felizes associações entre imagens e poesias, pelo que é sempre agradável passar por lá.
Da minha parte, aqui fica um agradecimento, é que a fotografia é da minha autoria e está publicada no blog das Caminhadas e Descoberta em São Tomé e Príncipe.

terça-feira, 12 de abril de 2005

LZEC 2005

Os rapazes dos jipes estão a preparar-se para uma nova incursão por São Tomé. O Latitude Zero 2005 começa a mexer. Lá vou eu escrever, escrever e escrever sobre ambiente, áreas protegidas e espécies endémicas. E recomendar para terem infinitos cuidados. Já sei a resposta que me vão dar "Nós temos! Ou acha que queremos estragar o paraíso?".

Há dias assim...

Há dias assim como o de hoje. Por mais que uma pessoa se esforce, a falta vontade e de estímulo não permitem avançar. E as forças cósmicas parece que se reuniram e estão todas de feição a ajudar ao marasmo... É um estrafego... um sufoco...

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Obrigada...

Um agradecimento a todos os que lêem o "África de Todos os Sonhos" e que têm feito referências e comentários muito simpáticos. Desta vez, queria deixar aqui um obrigado especial para a Chuinguita porque tem sido sempre incansável comigo e a Pitucha que faz uma referência de destaque.

Nostaláfrica III

Ser-se nostálgico com quem não conheceu, não viveu e não sentiu África pode ter duas consequências perfeitamente opostas. A saber:
1. Acham-nos uns chatos saudosistas. A conversa torna-se num monólogo, que termina muitas vezes em discussão e com a expressão ofendida e ofensiva "Mas se gostas tanto e é lá que te sentes bem, porque não vais para lá?". Nestes casos a conversa fica por aqui, depois de um levantar de voz em que os saudosistas e os não saudosistas tentam fazer valer os seus argumentos, sem o conseguirem e sem mudarem de opinião. É desgastante e torna-se, ao fim de algumas tentativas, um desconsolo traduzido em desencontros. Não vale a pena porque estas duas mentes nunca se hão-de entender no que a África diz respeito.
2. Acham-nos pessoas interessantes, com um passado repleto de vivências invejáveis e sedutoras, por termos conhecido culturas diferentes, ambientes ricos e cheios de diversidade. As conversas tornam-se num diálogo permanente de perguntas e respostas porque tudo o que contamos nunca é suficiente, já que os nossos interlocutores querem saber sempre mais do que aquilo que lhes contamos. Estas conversas são um desafio porque começamos a falar de florestas ou de espécies ameaçadas e acabamos a conversa nas práticas de feitiçaria. É que, em África, tudo tem relação com tudo. É impossível falarmos de um tema sem o relacionarmos com outros 30.000.

Nostaláfrica II

E a minha "nostaláfrica" acaba por ser voluntária e auto-incentivada. Gosto daquele continente e não há dia em que não me lembre de, pelo menos, dois ou três acontecimentos ali vividos. Foram momentos felizes e, como em tudo na vida, com o tempo tendemos a eliminar as vivências menos boas. Vamos "apagando" da memória os maus encontros, os dias de tristeza e de angústia, para ocuparmos a maioria do espaço disponível com os pôres do sol de cores fortes, com as paisagens densas, com as primeiras sensações ao experimentarmos novos paladares e sentirmos cheiros, até aqui, desconhecidos.
Por uma razão ou por outra, cá continuo a escrever sobre África, seja nos momentos de lazer, relembrando sonhos vividos ou idealizando outros, seja nos momentos de trabalho. Mas nem sempre a inspiração ajuda e é nestes que apelo à nostalgia, reavivando lembranças, repescando sonhos, revendo fotografias, reencontrando amigos e partilhando em conjunto o mesmo sentimento de saudade e de vontade de regressar.

Plataforma das ONGDs dos Países de Língua Oficial Portuguesa

O programa para o encontro de 26 e 27 de Abril em Lisboa pode ser consultado AQUI

domingo, 10 de abril de 2005

Nostalgia de África ou Nostaláfrica

Almoçava com um amigo de uns anos, não muitos, mas os suficientes para saber que aquela amizade seria para sempre. Conheceram-se numa África quente, que permitiu viver sonhos até áquele momento impensados. Partilharam meses, semanas, dias, horas e minutos. Viveram emoções únicas, tiveram em conjunto muitas vivências felizes e outras marcadas pela tensão das despedidas.
- Aquela foi uma tarde muito gira - comentou ele ao ver umas fotografias, publicadas numa revista, de tartarugas bebés a caminho do mar, e que ilustravam um artigo sobre protecção de espécies.
- É verdade, tens razão, foi um dia espectacular. África cria-nos destas coisas - disse ela, a meio da conversa, com um sorriso estampado no rosto e um olhar vago - uma nostalgia infinita, uma vontade de agarrar o tempo passado e de reviver uma vez mais todos os bons momentos. Mas é um sentimento bom, não é?
- É... - respondeu ele simplesmente porque não havia muito mais a dizer.
- Já pensaste que lhe podíamos chamar "nostaláfrica", a nostalgia de África que veio para ficar e se instalou dentro de nós, e que nós também não queremos deixar partir... porque, sempre que nos lembramos, voltamos a viver tudo de novo e uma vez mais somos felizes...

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Terres d'Aventure

As propostas de viagens ecoturísticas apresentadas pela Terres d'Aventure são fantásticas. A filosofia da viagem passa por actividades de contacto com a natureza, tais como as caminhadas, a escalada, a canoagem e o kayak, o cavalo e outras formas alternativas de locomoção, com o objectivo da descoberta.
Mas há muito mais em África: Namíbia, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Madagascar, Mali, Botwana, Uganda, Reunião, Senegal, Togo, Benin, Zambia e Malawi.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Moçambique IV

A saga moçambicana causava angústia a Lai, sempre que se lembrava de cada minuto ali vivido, das histórias ouvidas em conversa de café e que, sem perceber porquê, acreditara, na forma como aquele romance, se é que algum dia o foi, se desenrolou. Aos tropeções, aos baldões, com incompreensão, muita violência e agressividade, nos gestos e nas palavras. E a verdade é que, mais tarde, tudo se confirmou, o que ela ouvira e do que desconfiava, mesmo sem razão. O pior acabou mesmo por acontecer e por marcar Lai da pior forma.
Já em Lisboa, após terem passado anos do regresso de Maputo, e sem lá ter regressado, mas com a certeza que um dia voltaria, Lai pensava: É fantástico como algumas pessoas nos enganam, uma e outra vez, sucessivamente, de forma voluntária e pensada, sem que nos demos conta disso. Pode ser até ingenuidade, mas não será bom acreditarmos sempre que todas as pessoas têm uma parte boa? Teremos de reconhecer e aceitar que há pessoas que, vá-se lá saber porquê, são desprovidas de bons sentimentos só porque são desestruturadas e por terem vivido experiências menos boas no passado? Mas isso todos vivemos... E a sua “história moçambicana”, como gostava de a referenciar, apesar de não o ser de facto, só por ter sido vivida naquele magnífico território, veio-lhe uma vez mais à memória como um flash, claro e nítido, fazendo-a arrepiar.
Quando regressou, Lai falou com uma amiga que conhecera MI e que dele tinha a melhor das impressões, e o comentário que ouviu foi: escreve isso e publica, essa é uma história que vale a pena ser escrita e lida. Mas Lai não gostava de falar sobre a sua intimidade e muito menos a desconhecidos. E o relato da história foi ficando para melhores dias. Um dia escrevo, dizia Lai a si mesma, um dia. Ela nunca chegou a ter coragem de a contar, palavra por palavra, porque sentia vergonha da humilhação por que passou com uma pessoa que não mereceu um centésimo de grama de afecto e de atenção, a quem mais tarde Lai tentou perdoar sem o conseguir porque as marcas deixadas por aquele indivíduo foram maiores do que qualquer outra coisa na vida.
Hoje sou eu a relatá-la.

H-Luso Africa

Quem se interessa por África deve passar por H-Luso Africa

Loucura

Sempre que me cruzo com alguém a falar e a gesticular sozinho no meio da rua, umas vezes de forma tranquila e outras muito acesa, roçando a agressividade, penso que a linha que separa a razoabilidade da loucura é extermamente ténue. Isso confunde-me um pouco, quase me amedronta porque realizo que, sem nos darmos conta, podemos falar, conversar e até gritar com fantasmas imaginários que vivem no inconsciente e que se aproximam do nosso pequeno mundo através dos sonhos. Um dia, os habitantes das nossas profundezas saltam e passam a fazer parte da nossa quotidianeidade. Estes são os loucos mais puros e mais inofensivos que nem nos vêem quando connosco se cruzam, apesar de nos serem desconfortáveis e de nos retrairmos sempre que os vimos naquela gesticulação enlouquecida, traduzindo um mundo tão próprio.
Mas mais estranho e mais assustador é quando nos cruzamos e convivemos, em algum momento da nossa vida com os loucos encobertos, aqueles que escondem a loucura com a normalidade. Estes só se dão a revelar nos seus piores momentos, através de acções perfidamente estudadas, encontrando um alvo e não o abandonando antes de o destruir. É com estes que temos de ter cuidado!

terça-feira, 5 de abril de 2005

ECO

O termo eco vulgarizou-se. E sou eu que o digo, uma apaixonada pelas questões ambientais, apesar de não me sentir uma ambientalista, pura e dura. Mas defendo os projectos ambientalmente integrados, o ecoturismo, a ecopedagogia, a própria ecologia. Mas há pouco fiquei absolutamente fascinada com uma outra denominação que ainda nunca tinha encontrado - um "eco-friend".

Just me...


Posted by Hello

Reflexões

São estranhas e confusas as minhas sensações porque muito contraditórias. Sei o que quero e tenho medo de querer, sei o que procuro e tenho medo de encontrar. Os dias passam numa sucessão de minutos, uns atrás dos outros, permitindo que a sensação de incompletude me invada. Dias vividos de forma rotineira, monótona e quase maquinal. Acho que é isso que procuro quando vou para África, a fuga à rotina e ao quotidiano... a procura e o reencontro com a diferença!
Algures no combóio entre Cascais e Lisboa, Janeiro de 2002

(In)definição de sentimentos

Tenho, com alguma frequência, dificuldade em definir sentimentos, particularmente os meus. Também tenho dificuldade em compreender, interpretar e explicar os sentimentos dos outros em relação a mim, em especial de algumas pessoas que, pela incongruência das atitudes, me confundem. E, apesar de tudo, faço um esforço sobre-humano para relacionar estas dificuldades, tentando ultrapassá-las...
São Tomé, Janeiro 2003

Sentimentos

Há sentimentos bons e maus, que ora nos fazem sentir bem, nos estimulam e funcionam como uma injecção de adrenalina no auge de uma overdose, ora nos põem a ressacar, fazendo-nos sentir os seres mais miseráveis à face da terra. E há pessoas que nos transmitem estas diferentes formas de sentir.
São Tomé, Janeiro 2003

O Grande Amor

"A maioria não aguenta que alguns escutem a voz do grande amor e a sigam até ao fim dos seus dias"
"Leia «Longtemps», romance do amor inesquecível, de Erik Orsenna, se não tiverem ainda alcançado os óculos crespusculares que vos permitirão ler a história do vosso próprio coração. O amor entre um homem que abandona tudo pela mulher que o amará a vida inteira sem abandonar nada por ele"
"Há quem morra sem saber quem amou. Há quem seja capaz de ver, aos vinte e poucos anos, que j+a encontrou a pessoa da sua vida, mas que só conseguirá entender-se com ela depois dos cinquenta - por excesso de fogo cruzado"
Inês Pedrosa in "O grande Amor", Revista Única, nº 1686 de 18 de Fevereiro de 2005

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Falta de paciência

A verdade é só uma: perdi a paciência com aqueles dois, um e uma, com as histórias inventadas e recriadas, com o entrelaçar de enredos.

ALQVIMIA

Porque há pequenos prazeres que se tornam grandes.
De lamentar que a ALQVIMIA não exista em Lisboa.

domingo, 3 de abril de 2005

Chega!

"Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel"

Gonzaguinha, "Grito de Alerta"

Capítulos

A vida dela era feita de capítulos, uns longos e outros curtos, uns que se tornavam reais, e até demasiado, enquanto que outros não passavam de sonhos. A vida dela em África foi marcada por episódios, uns que se transformaram em capítulos e outros que não passaram disso mesmo, um episódio sem importância. Mas ela conseguia identificá-los um por um, falar sobre eles, descrevê-los, explicar os sentimentos associados, as pessoas envolvidas, a importância dos efeitos decorrentes. Nada lhe escapava porque, para o bem e para o mal, a memória era um dos dons com que nascera.
E está na altura de regressar ao tema Moçambique. Muito em breve a história continuará, ponto por ponto.

Perfídia

Tinha uma infinita capacidade de se surpreender com as características de algumas pessoas. Costumava chamar-lhes qualidades por serem intrínsecas e estruturais e não pelo sentido positivo que normalmente se lhes atribui. A perfídia era uma das que a enervavam mais e para a qual ela se revelava completamente intolerante. E sem querer nomear ninguém porque não gostava de personalizar os sentimentos, a não ser os excepcionalmente bons, reconhecia que algumas pessoas que conhecia, outras que julgava conhecer e outras ainda que pensara que um dia viria a conhecer, mas que o tempo e as atitudes à distância eliminavam qualquer vontade, eram pérfidas.

Africanidades

Passem pelo Africanidades e não percam o post "João paulo II e África". Fantástico.

Margens

No Margens os textos e as imagens fazem-nos sonhar e viajar. Não perder o post "De Ouro e Prata"

Há coisas

Há, há coisas e há pancas, muito maiores do que as minhas, que são inocentes, ingénuas, passageiras, previsíveis, lineares, inócuas, entre outros tantos adjectivos de qualificação. Mas há quem tenha pancas grandes, imensas, infinitas, intoleráveis, arquitectadas, permanentes, imprevisíveis, complexas. Para estas, como uma ex-colega minha diria, "Já não há..." paciência que aguente (eu termino a frase dela porque não me parece bem publicar a original no blog!!!! Mas imaginem o que viria no lugar das reticências).

Tinha dias assim

Tinha dias assim, em que gostava de se sentir uma diva, bonita e observada, comentada e apreciada, causadora de inveja feminina perante os olhares intensos dos homens. Não que fosse bonita de facto, mas havia qualquer coisa nela que cativava, chamando a atenção e prendendo-a. Não era naturalmente sedutora mas seduzia, sem fazer por isso. Nem ela sabia explicar como ou porquê e isso fazia-a sentir bem. Tinha dias. E tinha outros em que fazia por parecer feia, sentindo a irritação crescer no seu interior sempre que via alguém olhá-la, fixando-a, ficando preso a sabe-se lá o quê. Porquê? Porque tinha dias em que, olhando o espelho, não gostava do que via e queria que todos fizessem também essa avaliação. Mas havia qualquer coisa nela que cativava, estando bonita ou feia.

Porque gostava de João Paulo II

Gostava deste Papa porque ele reunia um conjunto de requisitos que considerava importantes. Ao olhar para a sua figura reconhecia um olhar terno, atento e compreensivo, a sua figura inspirava bons sentimentos, de bondade e de perdão. O seu Papado caracterizou-se pelo conservadorismo em questões que eu própria considero fundamentais e que requerem capacidade de acompanhamento das mudanças, tais como o uso de preservativo ou o reconhecimento e o respeito das opções e das diferenças sexuais e do foro mais íntimo, desde que não se prejudique ninguém, como é óbvio. Mas a sua actuação marcou pela diferença na abordagem de temáticas importantíssimas. Foi um Papa aberto às diferenças culturais e à aproximação de povos, reconhecendo as diferentes religiões e crenças, procurou conhecer todos os cantos do Mundo e a civilização no sentido mais abrangente, na procura incessante da Paz. Representou a personificação do sofrimento resignado, e sendo um Homem de comunicação morreu sem falar.
Apesar das dúvidas existenciais e de contornos religiosos que me assolam de quando em vez, este foi um Papa que admirei pela convicção e pela força, pela capacidade de lutar e por nunca desistir. Fiquei triste com a sua morte, porque ao fim de mais de 20 anos a vê-lo, sei que terei dificuldade em gostar tanto do próximo, mesmo sem saber quem ele é. Levarei tempo a afeiçoar-me de novo, porque precisarei de sorrir com as atitudes pouco protocolares e de aproximação aos fiéis, com a determinação que transmite confiança e com a fé inabalável. Que João Paulo II descanse em Paz e que o novo Papa, que não terá por certo um trabalho fácil, faça um bom trabalho.

sábado, 2 de abril de 2005

Hoje

Hoje, tal como todos os dias do ano, é dia de aniversário para alguém.
Hoje é, para mim, um dia especial porque um amigo faz anos. Tem nome de flor e cheiro natural, cativa como um jardim e talvez também por isso lhe tenha oferecido, em tempos, um dos meus livros preferidos, emblemático mas que para alguns pode parecer um "fait divers": O Principezinho do Saint Exupéry.
Ele mereceu-o porque era um amigo especial, diferente de todos os outros, por todas as razões e mais algumas. Mas a principal era ter-me cativado. E o que é cativar, perguntou-me ele numa das longas conversas que tinhamos, iluminados pela luz das velas enquanto bebericávamos um chá, acompanhados pela música de um dos 80 cds que eu levara comigo. A resposta para estas e outras dúvidas, pensei, estava naquele pequeno livro que nos fala de amizade, da importância dos pormenores e de tantas outras coisas. Ele já o tinha mas, segundo confessou, nunca lhe dera a devida atenção. Foi em África que o leu, depois de eu o ter oferecido. Nada mais adequado.
Aqui fica um beijinho de Parabéns:
" - O que é um ritual? - perguntou o Principezinho
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora diferentes das outras horas(...)"

Leve leve

Sabe bem viver um dia atrás do outro, devagar devagarinho, como diria um qualquer santomense com um grande sorriso na face e um olhar tranquilo: "leve leve só". Nem sei porquê mas é bom ouvir a chuva cair e vê-la escorregar pelos vidros, sentir o cheiro da terra molhada e olhar o mar, cheio e escuro num dia de temporal. É bom deixar o tempo passar calmamente e perceber a infinidade de coisas que se pode fazer em 60 segundos, quanto mais numa hora.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

O Papa

Gosto deste Papa, apesar de nem sempre ter estado de acordo com as ideias por ele defendidas e professadas. Mas gosto dele e lamento muitíssimo o sofrimento que tem tido ao longo da sua vida. Este Homem vai ficar para a História porque, acima de qualquer outra coisa, tem sido um exemplo de fé, de resignação perante a dor e o sofrimento, de confiança e de determinação, de luta e de força de vontade. A Ele presto a minha homenagem enquanto está vivo. E aqui fica expressa a minha admiração pela forma como viveu.

quinta-feira, 31 de março de 2005

A gula e o Anisakis

Já aqui falei do Anisakis que me acompanha e que nunca me abandona, dia e noite. A minha alergia alimentar, ao peixe e mariscos, mas que pode activar com qualquer elemento alergénico e libertador de estamina. Pois é, foi detectado em idade adulta depois de me provocar angioedema, vulgo inchaço na cara e garganta associado a manifestações dérmicas e gástricas.
O meu mal é ser completamente louca por peixe mal passado, aquele que fica bem agarrado à espinha, depois de grelhado, com os lombos suculentos e deliciosos. E marisco... qualquer um, desde percebes a lagostins, passando pelas gambas, de todos os tamanhos e cores, e pelas ameijoas.
Como sei os riscos que corro, normalmente porto-me bem e ando em pé à conta de carne, massas e legumes. Mas, de quando em vez, decido comer e pronto, tenho momentos de prazer gastronómico acrescidos pelo aguçar do paladar e da expectativa de que um dia não sentirei os terríveis e assustadores efeitos. Como e delicio-me, saboreio lentamente como se fosse um dos últimos prazeres desta vida e que por isso tem de ser bem aproveitado. E é quase imediato. O meu sofrimento recomeça uma vez mais para que nunca mais me esqueça da apreensão que me causam a rouquidão e a grossura na garganta, a dormência no lado esquerdo do corpo e os enjoos seguidos de maratonas para a casa de banho. E tudo por causa da "gula"...

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...