Falávamos de uma ida a Bombaim aquando de uma das visitas da minha irmã mais velha a STP. Ela tinha muita curiosidade em conhecer aquela roça, emblemática por ter sido conduzida por uma família que viera da Índia, daí o seu nome, que trouxera consigo o famoso mangustão, introduzindo o fruto na ilha. Depois, era uma das roças que estava a ser aproveitada com fins turístico, bem no interior da ilha de São Tomé, região habitada pela temível cobra preta, com grande densidade florestal, e por isso de grande beleza paisagística, com um acesso que, só por si e em dias de sol e bom tempo, representava uma aventura. A estrada de ligação entre a Milagrosa e Bombaim era de terra – uma picada com passagem de um carro de cada vez – em muito mau estado, cheia de buracos, agravados pelas chuvas quase diárias no interior da ilha tendo, de um dos lados, do esquerdo, uma vista deslumbrante para a floresta. Mas, olhando para baixo, sentíamos a vertigem de ver um precipício sem fim, percebido não só por não termos a noção de onde ficava o chão mas também pela altura incálculável das árvores. A hipótese de retorno, com inversão de marcha, era praticamente impossível pela largura da estrada, uma vez a caminho a opção era seguir em frente. Um deslize de terra podia mesmo ser fatal e as possibilidades de busca eram muito limitadas pela ausência de meios, dificuldade de contactos e morosidade do socorro. Ali, tudo é “leve-leve só”, até em caso de acidente.
De facto, aquela viagem representava uma aventura mas, na minha mais do que modesta opinião, muitíssimo compensadora. O deleite para os olhos, a tranquilidade dos verdes intercalados pelo amarelo alaranjado das eritrinas, leutrineiras como os santomenses rurais lhes chamavam, os cursos de água e a magnífica Cascata de Bombaim. Valia a pena, pensei eu! E lá fomos, nós as duas e a irmã de um cooperante que também estava de visita e férias antes do seu casamento, que teria lugar no mês seguinte.
Para animar o ambiente, criando expectativa, e aumentar os níveis de adrenalina, chovia. Não chovia torrencialmente, não eram sequer chuvas tropicais, mas sim aquela chuva miudinha que vai molhando, penetrando a terra e alimentando o verde. Choveu só depois da Milagrosa, ou seja após termos entrado em piso de terra, com precipício do lado esquerdo e uma parede de terra do lado direito. O jipe derrapou vezes infinitas nos sulcos de terra lamacenta e, não será necessário dizer que, fizemos o percurso todo com redutoras, pelo que a velocidade não foi, nem podia ser, a tónica dominante da viagem. As minhas companheiras de passeio não iam muito à vontade, apesar de tentarmos acompanhar, o mais afinadamente que conseguimos, o Kalú Mendes que cantava na rádio. Chegámos, depois de eu ter batido numa pedra, que fez um tremendo estrondo, mas que, como é meu hábito nestas coisas, relativizei. É que não vale muito a pena aumentarmos a apreensão decorrente de momentos dramáticos, porque só faz com que o desconforto aumente.
Almoçámos em Bombaim e elas visitaram a roça. A D. Genoveva – Veva – estava feliz com a visita e serviu-nos o melhor que podia, com cordialidade e o sorriso de sempre. De repente, a meio do almoço, chegou um grupo de santomenses, que terão passado pelo mesmo calvário que nós, entraram na sala e disseram qualquer coisa que, com o stress do dia, eu não entendi mas o meu raciocínio descortinou apenas qualquer coisa como “de quem é aquele carro que tem fogo?”. Eu levantei-me num pulo, e a minha tranquilidade foi traída pela realidade da minha apreensão escondida, fiz a minha cara de alucinação em momento de crise e com os olhos abertos até à exaustão perguntei “O carro está a arder? Carro? Qual carro?”. Inconscientemente comecei a traçar o problema que teria pela frente, já que não havia seguros e a responsabilidade daquele jipe com 2 anos de vida era integralmente minha... Eles riram até não poderem mais e disseram com o ar calmo que só os santomenses conseguem ter “Dona, não tá a arder. Tem furo!”.
O regresso foi mais apreensivo, pelo menos para elas de forma exteriorizada, que já se viam engolidas pelas cobras, pelo Obô, o Parque Natural, e por qualquer outra coisa que pudesse aparecer. A D. Veva fez o caminho à nossa frente, não fosse acontecer mais algum percalço, separando-se de nós apenas na Milagrosa, onde a estrada não sendo brilhante era de alcatrão.
