sábado, 16 de abril de 2005

Roça Bombaim, um dia de aventura

Num final de noite, depois de um jantar reconfortante e tranquilo com alguns membros da família, preparámo-nos para a viagem de regresso a casa. A conversa surgiu uma vez mais e hoje dou comigo a pensar porque será que acabamos sempre as nossas conversas a falar sobre África. Desta vez o tema foram as experiências que por lá tive que, para mim, foram vividas intensamente com espírito de aventura e hoje lembradas com gosto e um sorriso saudosista mas, para elas, como apenas mais umas vivências inconscientes e arriscadas da minha parte. É verdade que implicaram algum risco, mas a vida tem-me ensinado que algumas das coisas que nos dão mais prazer são aquelas que mais exigem de nós e, que por isso mesmo, pressupõem uma margem de incerteza.
Falávamos de uma ida a Bombaim aquando de uma das visitas da minha irmã mais velha a STP. Ela tinha muita curiosidade em conhecer aquela roça, emblemática por ter sido conduzida por uma família que viera da Índia, daí o seu nome, que trouxera consigo o famoso mangustão, introduzindo o fruto na ilha. Depois, era uma das roças que estava a ser aproveitada com fins turístico, bem no interior da ilha de São Tomé, região habitada pela temível cobra preta, com grande densidade florestal, e por isso de grande beleza paisagística, com um acesso que, só por si e em dias de sol e bom tempo, representava uma aventura. A estrada de ligação entre a Milagrosa e Bombaim era de terra – uma picada com passagem de um carro de cada vez – em muito mau estado, cheia de buracos, agravados pelas chuvas quase diárias no interior da ilha tendo, de um dos lados, do esquerdo, uma vista deslumbrante para a floresta. Mas, olhando para baixo, sentíamos a vertigem de ver um precipício sem fim, percebido não só por não termos a noção de onde ficava o chão mas também pela altura incálculável das árvores. A hipótese de retorno, com inversão de marcha, era praticamente impossível pela largura da estrada, uma vez a caminho a opção era seguir em frente. Um deslize de terra podia mesmo ser fatal e as possibilidades de busca eram muito limitadas pela ausência de meios, dificuldade de contactos e morosidade do socorro. Ali, tudo é “leve-leve só”, até em caso de acidente.
De facto, aquela viagem representava uma aventura mas, na minha mais do que modesta opinião, muitíssimo compensadora. O deleite para os olhos, a tranquilidade dos verdes intercalados pelo amarelo alaranjado das eritrinas, leutrineiras como os santomenses rurais lhes chamavam, os cursos de água e a magnífica Cascata de Bombaim. Valia a pena, pensei eu! E lá fomos, nós as duas e a irmã de um cooperante que também estava de visita e férias antes do seu casamento, que teria lugar no mês seguinte.
Para animar o ambiente, criando expectativa, e aumentar os níveis de adrenalina, chovia. Não chovia torrencialmente, não eram sequer chuvas tropicais, mas sim aquela chuva miudinha que vai molhando, penetrando a terra e alimentando o verde. Choveu só depois da Milagrosa, ou seja após termos entrado em piso de terra, com precipício do lado esquerdo e uma parede de terra do lado direito. O jipe derrapou vezes infinitas nos sulcos de terra lamacenta e, não será necessário dizer que, fizemos o percurso todo com redutoras, pelo que a velocidade não foi, nem podia ser, a tónica dominante da viagem. As minhas companheiras de passeio não iam muito à vontade, apesar de tentarmos acompanhar, o mais afinadamente que conseguimos, o Kalú Mendes que cantava na rádio. Chegámos, depois de eu ter batido numa pedra, que fez um tremendo estrondo, mas que, como é meu hábito nestas coisas, relativizei. É que não vale muito a pena aumentarmos a apreensão decorrente de momentos dramáticos, porque só faz com que o desconforto aumente.
Almoçámos em Bombaim e elas visitaram a roça. A D. Genoveva – Veva – estava feliz com a visita e serviu-nos o melhor que podia, com cordialidade e o sorriso de sempre. De repente, a meio do almoço, chegou um grupo de santomenses, que terão passado pelo mesmo calvário que nós, entraram na sala e disseram qualquer coisa que, com o stress do dia, eu não entendi mas o meu raciocínio descortinou apenas qualquer coisa como “de quem é aquele carro que tem fogo?”. Eu levantei-me num pulo, e a minha tranquilidade foi traída pela realidade da minha apreensão escondida, fiz a minha cara de alucinação em momento de crise e com os olhos abertos até à exaustão perguntei “O carro está a arder? Carro? Qual carro?”. Inconscientemente comecei a traçar o problema que teria pela frente, já que não havia seguros e a responsabilidade daquele jipe com 2 anos de vida era integralmente minha... Eles riram até não poderem mais e disseram com o ar calmo que só os santomenses conseguem ter “Dona, não tá a arder. Tem furo!”.
O regresso foi mais apreensivo, pelo menos para elas de forma exteriorizada, que já se viam engolidas pelas cobras, pelo Obô, o Parque Natural, e por qualquer outra coisa que pudesse aparecer. A D. Veva fez o caminho à nossa frente, não fosse acontecer mais algum percalço, separando-se de nós apenas na Milagrosa, onde a estrada não sendo brilhante era de alcatrão.
Tudo acabou bem e, apesar do risco, só lá indo é que pudemos viver tão intensamente a floresta santomense, nos sons, nos cheiros, nas cores, nas sensações. Foi um dia emocionante que, para mim, valeu a pena! E como este houve mais. Em terra e em mar...

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Nem sabes quanto...

- Tenho saudades tuas... - disse ele olhando-a fixamente após um doce momento de ternura.
Ela não respondeu por palavras porque não conseguiu dizer nada, apesar de lhe querer dizer muito. Mas pensou - "também eu... nem tu sabes quanto..."

Passagem de Testemunho

O Testemunho foi-me passado pela Pitucha e pelo Carlos Gil. Aqui vai:
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
"Chocolate" de Joanne Harris, porque me permitiu sentir os cheiros doces, amargos e com um travo picante nas descrições sobre a confecção. E o enredo é brilhante: a criança e o amigo imaginário, os ciganos, o padre e a aldeia pequenina onde tudo o que acontece se sabe, e até o que não chega a acontecer passa a ser motivo. Mas sobretudo pela determinação que está implícita.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Não.
Qual foi o último livro que compraste?
"A Filha do Capitão" como prenda de anos para um amigo, mas acabou por ficar de empréstimo nas minhas mãos.
Que livros estás a ler?
"A Filha do Capitão" e a reler "O Rei, o Sábio e o Bobo"
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"O Pincipezinho" do Saint Exupéry; "Equador" do Miguel Sousa Tavares, claro para reler; "Manual do Guerreiro da Luz" do Paulo Coelho; "A Ilha das Três Irmãs" e os seguintes da Nora Roberts
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Até me sinto no reality show... é que não queria excluir ninguém. E já confirmei que muitos outros já tiveram o testemunho passado, pelo que aguardemos que respondam também à "chamada". Assim sendo, mando já beijinhos para todos e cá vão os meus votos:
- Cacusso porque me inspira numa área que domino mal, a poesia
- Helena porque vive, recria e conta
- Margens pela doçura das palavras e das imagens

Feliz Associação

No Kitanda é feita uma feliz associação entre uma fotografia da Baía de Ana Chaves, em São Tomé, e um poema da Alda Espírito Santo. Vejam aqui. A bem dizer da verdade, o blog prima pelas felizes associações entre imagens e poesias, pelo que é sempre agradável passar por lá.
Da minha parte, aqui fica um agradecimento, é que a fotografia é da minha autoria e está publicada no blog das Caminhadas e Descoberta em São Tomé e Príncipe.

terça-feira, 12 de abril de 2005

LZEC 2005

Os rapazes dos jipes estão a preparar-se para uma nova incursão por São Tomé. O Latitude Zero 2005 começa a mexer. Lá vou eu escrever, escrever e escrever sobre ambiente, áreas protegidas e espécies endémicas. E recomendar para terem infinitos cuidados. Já sei a resposta que me vão dar "Nós temos! Ou acha que queremos estragar o paraíso?".

Há dias assim...

Há dias assim como o de hoje. Por mais que uma pessoa se esforce, a falta vontade e de estímulo não permitem avançar. E as forças cósmicas parece que se reuniram e estão todas de feição a ajudar ao marasmo... É um estrafego... um sufoco...

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Obrigada...

Um agradecimento a todos os que lêem o "África de Todos os Sonhos" e que têm feito referências e comentários muito simpáticos. Desta vez, queria deixar aqui um obrigado especial para a Chuinguita porque tem sido sempre incansável comigo e a Pitucha que faz uma referência de destaque.

Nostaláfrica III

Ser-se nostálgico com quem não conheceu, não viveu e não sentiu África pode ter duas consequências perfeitamente opostas. A saber:
1. Acham-nos uns chatos saudosistas. A conversa torna-se num monólogo, que termina muitas vezes em discussão e com a expressão ofendida e ofensiva "Mas se gostas tanto e é lá que te sentes bem, porque não vais para lá?". Nestes casos a conversa fica por aqui, depois de um levantar de voz em que os saudosistas e os não saudosistas tentam fazer valer os seus argumentos, sem o conseguirem e sem mudarem de opinião. É desgastante e torna-se, ao fim de algumas tentativas, um desconsolo traduzido em desencontros. Não vale a pena porque estas duas mentes nunca se hão-de entender no que a África diz respeito.
2. Acham-nos pessoas interessantes, com um passado repleto de vivências invejáveis e sedutoras, por termos conhecido culturas diferentes, ambientes ricos e cheios de diversidade. As conversas tornam-se num diálogo permanente de perguntas e respostas porque tudo o que contamos nunca é suficiente, já que os nossos interlocutores querem saber sempre mais do que aquilo que lhes contamos. Estas conversas são um desafio porque começamos a falar de florestas ou de espécies ameaçadas e acabamos a conversa nas práticas de feitiçaria. É que, em África, tudo tem relação com tudo. É impossível falarmos de um tema sem o relacionarmos com outros 30.000.

Nostaláfrica II

E a minha "nostaláfrica" acaba por ser voluntária e auto-incentivada. Gosto daquele continente e não há dia em que não me lembre de, pelo menos, dois ou três acontecimentos ali vividos. Foram momentos felizes e, como em tudo na vida, com o tempo tendemos a eliminar as vivências menos boas. Vamos "apagando" da memória os maus encontros, os dias de tristeza e de angústia, para ocuparmos a maioria do espaço disponível com os pôres do sol de cores fortes, com as paisagens densas, com as primeiras sensações ao experimentarmos novos paladares e sentirmos cheiros, até aqui, desconhecidos.
Por uma razão ou por outra, cá continuo a escrever sobre África, seja nos momentos de lazer, relembrando sonhos vividos ou idealizando outros, seja nos momentos de trabalho. Mas nem sempre a inspiração ajuda e é nestes que apelo à nostalgia, reavivando lembranças, repescando sonhos, revendo fotografias, reencontrando amigos e partilhando em conjunto o mesmo sentimento de saudade e de vontade de regressar.

Plataforma das ONGDs dos Países de Língua Oficial Portuguesa

O programa para o encontro de 26 e 27 de Abril em Lisboa pode ser consultado AQUI

domingo, 10 de abril de 2005

Nostalgia de África ou Nostaláfrica

Almoçava com um amigo de uns anos, não muitos, mas os suficientes para saber que aquela amizade seria para sempre. Conheceram-se numa África quente, que permitiu viver sonhos até áquele momento impensados. Partilharam meses, semanas, dias, horas e minutos. Viveram emoções únicas, tiveram em conjunto muitas vivências felizes e outras marcadas pela tensão das despedidas.
- Aquela foi uma tarde muito gira - comentou ele ao ver umas fotografias, publicadas numa revista, de tartarugas bebés a caminho do mar, e que ilustravam um artigo sobre protecção de espécies.
- É verdade, tens razão, foi um dia espectacular. África cria-nos destas coisas - disse ela, a meio da conversa, com um sorriso estampado no rosto e um olhar vago - uma nostalgia infinita, uma vontade de agarrar o tempo passado e de reviver uma vez mais todos os bons momentos. Mas é um sentimento bom, não é?
- É... - respondeu ele simplesmente porque não havia muito mais a dizer.
- Já pensaste que lhe podíamos chamar "nostaláfrica", a nostalgia de África que veio para ficar e se instalou dentro de nós, e que nós também não queremos deixar partir... porque, sempre que nos lembramos, voltamos a viver tudo de novo e uma vez mais somos felizes...

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Terres d'Aventure

As propostas de viagens ecoturísticas apresentadas pela Terres d'Aventure são fantásticas. A filosofia da viagem passa por actividades de contacto com a natureza, tais como as caminhadas, a escalada, a canoagem e o kayak, o cavalo e outras formas alternativas de locomoção, com o objectivo da descoberta.
Mas há muito mais em África: Namíbia, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Madagascar, Mali, Botwana, Uganda, Reunião, Senegal, Togo, Benin, Zambia e Malawi.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Moçambique IV

A saga moçambicana causava angústia a Lai, sempre que se lembrava de cada minuto ali vivido, das histórias ouvidas em conversa de café e que, sem perceber porquê, acreditara, na forma como aquele romance, se é que algum dia o foi, se desenrolou. Aos tropeções, aos baldões, com incompreensão, muita violência e agressividade, nos gestos e nas palavras. E a verdade é que, mais tarde, tudo se confirmou, o que ela ouvira e do que desconfiava, mesmo sem razão. O pior acabou mesmo por acontecer e por marcar Lai da pior forma.
Já em Lisboa, após terem passado anos do regresso de Maputo, e sem lá ter regressado, mas com a certeza que um dia voltaria, Lai pensava: É fantástico como algumas pessoas nos enganam, uma e outra vez, sucessivamente, de forma voluntária e pensada, sem que nos demos conta disso. Pode ser até ingenuidade, mas não será bom acreditarmos sempre que todas as pessoas têm uma parte boa? Teremos de reconhecer e aceitar que há pessoas que, vá-se lá saber porquê, são desprovidas de bons sentimentos só porque são desestruturadas e por terem vivido experiências menos boas no passado? Mas isso todos vivemos... E a sua “história moçambicana”, como gostava de a referenciar, apesar de não o ser de facto, só por ter sido vivida naquele magnífico território, veio-lhe uma vez mais à memória como um flash, claro e nítido, fazendo-a arrepiar.
Quando regressou, Lai falou com uma amiga que conhecera MI e que dele tinha a melhor das impressões, e o comentário que ouviu foi: escreve isso e publica, essa é uma história que vale a pena ser escrita e lida. Mas Lai não gostava de falar sobre a sua intimidade e muito menos a desconhecidos. E o relato da história foi ficando para melhores dias. Um dia escrevo, dizia Lai a si mesma, um dia. Ela nunca chegou a ter coragem de a contar, palavra por palavra, porque sentia vergonha da humilhação por que passou com uma pessoa que não mereceu um centésimo de grama de afecto e de atenção, a quem mais tarde Lai tentou perdoar sem o conseguir porque as marcas deixadas por aquele indivíduo foram maiores do que qualquer outra coisa na vida.
Hoje sou eu a relatá-la.

H-Luso Africa

Quem se interessa por África deve passar por H-Luso Africa

Loucura

Sempre que me cruzo com alguém a falar e a gesticular sozinho no meio da rua, umas vezes de forma tranquila e outras muito acesa, roçando a agressividade, penso que a linha que separa a razoabilidade da loucura é extermamente ténue. Isso confunde-me um pouco, quase me amedronta porque realizo que, sem nos darmos conta, podemos falar, conversar e até gritar com fantasmas imaginários que vivem no inconsciente e que se aproximam do nosso pequeno mundo através dos sonhos. Um dia, os habitantes das nossas profundezas saltam e passam a fazer parte da nossa quotidianeidade. Estes são os loucos mais puros e mais inofensivos que nem nos vêem quando connosco se cruzam, apesar de nos serem desconfortáveis e de nos retrairmos sempre que os vimos naquela gesticulação enlouquecida, traduzindo um mundo tão próprio.
Mas mais estranho e mais assustador é quando nos cruzamos e convivemos, em algum momento da nossa vida com os loucos encobertos, aqueles que escondem a loucura com a normalidade. Estes só se dão a revelar nos seus piores momentos, através de acções perfidamente estudadas, encontrando um alvo e não o abandonando antes de o destruir. É com estes que temos de ter cuidado!

terça-feira, 5 de abril de 2005

ECO

O termo eco vulgarizou-se. E sou eu que o digo, uma apaixonada pelas questões ambientais, apesar de não me sentir uma ambientalista, pura e dura. Mas defendo os projectos ambientalmente integrados, o ecoturismo, a ecopedagogia, a própria ecologia. Mas há pouco fiquei absolutamente fascinada com uma outra denominação que ainda nunca tinha encontrado - um "eco-friend".

Just me...


Posted by Hello

Reflexões

São estranhas e confusas as minhas sensações porque muito contraditórias. Sei o que quero e tenho medo de querer, sei o que procuro e tenho medo de encontrar. Os dias passam numa sucessão de minutos, uns atrás dos outros, permitindo que a sensação de incompletude me invada. Dias vividos de forma rotineira, monótona e quase maquinal. Acho que é isso que procuro quando vou para África, a fuga à rotina e ao quotidiano... a procura e o reencontro com a diferença!
Algures no combóio entre Cascais e Lisboa, Janeiro de 2002

(In)definição de sentimentos

Tenho, com alguma frequência, dificuldade em definir sentimentos, particularmente os meus. Também tenho dificuldade em compreender, interpretar e explicar os sentimentos dos outros em relação a mim, em especial de algumas pessoas que, pela incongruência das atitudes, me confundem. E, apesar de tudo, faço um esforço sobre-humano para relacionar estas dificuldades, tentando ultrapassá-las...
São Tomé, Janeiro 2003

Sentimentos

Há sentimentos bons e maus, que ora nos fazem sentir bem, nos estimulam e funcionam como uma injecção de adrenalina no auge de uma overdose, ora nos põem a ressacar, fazendo-nos sentir os seres mais miseráveis à face da terra. E há pessoas que nos transmitem estas diferentes formas de sentir.
São Tomé, Janeiro 2003

O Grande Amor

"A maioria não aguenta que alguns escutem a voz do grande amor e a sigam até ao fim dos seus dias"
"Leia «Longtemps», romance do amor inesquecível, de Erik Orsenna, se não tiverem ainda alcançado os óculos crespusculares que vos permitirão ler a história do vosso próprio coração. O amor entre um homem que abandona tudo pela mulher que o amará a vida inteira sem abandonar nada por ele"
"Há quem morra sem saber quem amou. Há quem seja capaz de ver, aos vinte e poucos anos, que j+a encontrou a pessoa da sua vida, mas que só conseguirá entender-se com ela depois dos cinquenta - por excesso de fogo cruzado"
Inês Pedrosa in "O grande Amor", Revista Única, nº 1686 de 18 de Fevereiro de 2005

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Falta de paciência

A verdade é só uma: perdi a paciência com aqueles dois, um e uma, com as histórias inventadas e recriadas, com o entrelaçar de enredos.

ALQVIMIA

Porque há pequenos prazeres que se tornam grandes.
De lamentar que a ALQVIMIA não exista em Lisboa.

domingo, 3 de abril de 2005

Chega!

"Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel"

Gonzaguinha, "Grito de Alerta"

Capítulos

A vida dela era feita de capítulos, uns longos e outros curtos, uns que se tornavam reais, e até demasiado, enquanto que outros não passavam de sonhos. A vida dela em África foi marcada por episódios, uns que se transformaram em capítulos e outros que não passaram disso mesmo, um episódio sem importância. Mas ela conseguia identificá-los um por um, falar sobre eles, descrevê-los, explicar os sentimentos associados, as pessoas envolvidas, a importância dos efeitos decorrentes. Nada lhe escapava porque, para o bem e para o mal, a memória era um dos dons com que nascera.
E está na altura de regressar ao tema Moçambique. Muito em breve a história continuará, ponto por ponto.

Perfídia

Tinha uma infinita capacidade de se surpreender com as características de algumas pessoas. Costumava chamar-lhes qualidades por serem intrínsecas e estruturais e não pelo sentido positivo que normalmente se lhes atribui. A perfídia era uma das que a enervavam mais e para a qual ela se revelava completamente intolerante. E sem querer nomear ninguém porque não gostava de personalizar os sentimentos, a não ser os excepcionalmente bons, reconhecia que algumas pessoas que conhecia, outras que julgava conhecer e outras ainda que pensara que um dia viria a conhecer, mas que o tempo e as atitudes à distância eliminavam qualquer vontade, eram pérfidas.

Africanidades

Passem pelo Africanidades e não percam o post "João paulo II e África". Fantástico.

Margens

No Margens os textos e as imagens fazem-nos sonhar e viajar. Não perder o post "De Ouro e Prata"

Há coisas

Há, há coisas e há pancas, muito maiores do que as minhas, que são inocentes, ingénuas, passageiras, previsíveis, lineares, inócuas, entre outros tantos adjectivos de qualificação. Mas há quem tenha pancas grandes, imensas, infinitas, intoleráveis, arquitectadas, permanentes, imprevisíveis, complexas. Para estas, como uma ex-colega minha diria, "Já não há..." paciência que aguente (eu termino a frase dela porque não me parece bem publicar a original no blog!!!! Mas imaginem o que viria no lugar das reticências).

Tinha dias assim

Tinha dias assim, em que gostava de se sentir uma diva, bonita e observada, comentada e apreciada, causadora de inveja feminina perante os olhares intensos dos homens. Não que fosse bonita de facto, mas havia qualquer coisa nela que cativava, chamando a atenção e prendendo-a. Não era naturalmente sedutora mas seduzia, sem fazer por isso. Nem ela sabia explicar como ou porquê e isso fazia-a sentir bem. Tinha dias. E tinha outros em que fazia por parecer feia, sentindo a irritação crescer no seu interior sempre que via alguém olhá-la, fixando-a, ficando preso a sabe-se lá o quê. Porquê? Porque tinha dias em que, olhando o espelho, não gostava do que via e queria que todos fizessem também essa avaliação. Mas havia qualquer coisa nela que cativava, estando bonita ou feia.

Porque gostava de João Paulo II

Gostava deste Papa porque ele reunia um conjunto de requisitos que considerava importantes. Ao olhar para a sua figura reconhecia um olhar terno, atento e compreensivo, a sua figura inspirava bons sentimentos, de bondade e de perdão. O seu Papado caracterizou-se pelo conservadorismo em questões que eu própria considero fundamentais e que requerem capacidade de acompanhamento das mudanças, tais como o uso de preservativo ou o reconhecimento e o respeito das opções e das diferenças sexuais e do foro mais íntimo, desde que não se prejudique ninguém, como é óbvio. Mas a sua actuação marcou pela diferença na abordagem de temáticas importantíssimas. Foi um Papa aberto às diferenças culturais e à aproximação de povos, reconhecendo as diferentes religiões e crenças, procurou conhecer todos os cantos do Mundo e a civilização no sentido mais abrangente, na procura incessante da Paz. Representou a personificação do sofrimento resignado, e sendo um Homem de comunicação morreu sem falar.
Apesar das dúvidas existenciais e de contornos religiosos que me assolam de quando em vez, este foi um Papa que admirei pela convicção e pela força, pela capacidade de lutar e por nunca desistir. Fiquei triste com a sua morte, porque ao fim de mais de 20 anos a vê-lo, sei que terei dificuldade em gostar tanto do próximo, mesmo sem saber quem ele é. Levarei tempo a afeiçoar-me de novo, porque precisarei de sorrir com as atitudes pouco protocolares e de aproximação aos fiéis, com a determinação que transmite confiança e com a fé inabalável. Que João Paulo II descanse em Paz e que o novo Papa, que não terá por certo um trabalho fácil, faça um bom trabalho.

sábado, 2 de abril de 2005

Hoje

Hoje, tal como todos os dias do ano, é dia de aniversário para alguém.
Hoje é, para mim, um dia especial porque um amigo faz anos. Tem nome de flor e cheiro natural, cativa como um jardim e talvez também por isso lhe tenha oferecido, em tempos, um dos meus livros preferidos, emblemático mas que para alguns pode parecer um "fait divers": O Principezinho do Saint Exupéry.
Ele mereceu-o porque era um amigo especial, diferente de todos os outros, por todas as razões e mais algumas. Mas a principal era ter-me cativado. E o que é cativar, perguntou-me ele numa das longas conversas que tinhamos, iluminados pela luz das velas enquanto bebericávamos um chá, acompanhados pela música de um dos 80 cds que eu levara comigo. A resposta para estas e outras dúvidas, pensei, estava naquele pequeno livro que nos fala de amizade, da importância dos pormenores e de tantas outras coisas. Ele já o tinha mas, segundo confessou, nunca lhe dera a devida atenção. Foi em África que o leu, depois de eu o ter oferecido. Nada mais adequado.
Aqui fica um beijinho de Parabéns:
" - O que é um ritual? - perguntou o Principezinho
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora diferentes das outras horas(...)"

Leve leve

Sabe bem viver um dia atrás do outro, devagar devagarinho, como diria um qualquer santomense com um grande sorriso na face e um olhar tranquilo: "leve leve só". Nem sei porquê mas é bom ouvir a chuva cair e vê-la escorregar pelos vidros, sentir o cheiro da terra molhada e olhar o mar, cheio e escuro num dia de temporal. É bom deixar o tempo passar calmamente e perceber a infinidade de coisas que se pode fazer em 60 segundos, quanto mais numa hora.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

O Papa

Gosto deste Papa, apesar de nem sempre ter estado de acordo com as ideias por ele defendidas e professadas. Mas gosto dele e lamento muitíssimo o sofrimento que tem tido ao longo da sua vida. Este Homem vai ficar para a História porque, acima de qualquer outra coisa, tem sido um exemplo de fé, de resignação perante a dor e o sofrimento, de confiança e de determinação, de luta e de força de vontade. A Ele presto a minha homenagem enquanto está vivo. E aqui fica expressa a minha admiração pela forma como viveu.

quinta-feira, 31 de março de 2005

A gula e o Anisakis

Já aqui falei do Anisakis que me acompanha e que nunca me abandona, dia e noite. A minha alergia alimentar, ao peixe e mariscos, mas que pode activar com qualquer elemento alergénico e libertador de estamina. Pois é, foi detectado em idade adulta depois de me provocar angioedema, vulgo inchaço na cara e garganta associado a manifestações dérmicas e gástricas.
O meu mal é ser completamente louca por peixe mal passado, aquele que fica bem agarrado à espinha, depois de grelhado, com os lombos suculentos e deliciosos. E marisco... qualquer um, desde percebes a lagostins, passando pelas gambas, de todos os tamanhos e cores, e pelas ameijoas.
Como sei os riscos que corro, normalmente porto-me bem e ando em pé à conta de carne, massas e legumes. Mas, de quando em vez, decido comer e pronto, tenho momentos de prazer gastronómico acrescidos pelo aguçar do paladar e da expectativa de que um dia não sentirei os terríveis e assustadores efeitos. Como e delicio-me, saboreio lentamente como se fosse um dos últimos prazeres desta vida e que por isso tem de ser bem aproveitado. E é quase imediato. O meu sofrimento recomeça uma vez mais para que nunca mais me esqueça da apreensão que me causam a rouquidão e a grossura na garganta, a dormência no lado esquerdo do corpo e os enjoos seguidos de maratonas para a casa de banho. E tudo por causa da "gula"...

Ao "velho conhecido"

A propósito de um dos meus últimos posts sobre afectos, tema da minha predilecção, recebi um mail que foi ao encontro do que quis transmitir, talvez de forma menos clara. O ciúme, o sentimento de posse e a dor também se sentem nas "amizades sexuadas", como um "velho conhecido" lhes chama. Ele tenta convencer o universo feminino que este tipo de relacionamento é imune aos afectos comprometidos e que permitem exigências e cobranças.
Acho mesmo que ele se tenta convencer sobretudo a ele próprio, defendendo-se de quem quer que seja que lhe venha pedir explicações. Mas não é bem assim, e a verdade é que se nos enciumamos com a falta de atenção de um amigo de infância ou de uma outra qualquer pessoa a quem nos afeiçoámos, mais sentimos quando o contacto físico se torna constante e a condição por excelência desse relacionamento. Porquê? Porque temos medo de perder o afecto, que ele se ausente, uma ou outra vez, e quem sabe para sempre.
O meu "velho conhecido" anda baralhado, ou sempre terá andado, com a palavra afecto e com todas as derivantes - afeição, afeiçoar, afectividade, afectivo. Será que não entende que tudo tem que ver com afectar - "dizer respeito a"? E agora lembrei-me de "O Principezinho" e do A. Saint-Exupéry, um dos meus gurus espirituais, pela coerência e pela beleza do que escreveu, e que está cada vez mais actual. Provavelmente, nem ele nunca pensou que viria a ser tão importante na vida de alguém que não conheceu como é na minha!!!

quarta-feira, 30 de março de 2005

Inspiração

É fantástico como algumas pessoas têm capacidade de nos inspirar: pensamentos, sensações, sentimentos, reacções. Até a escrita. Essas não são sempre as pessoas com quem nos damos melhor, de quem mais gostamos ou que nos fazem bem. Antes pelo contrário, são muitas vezes aquelas que nos provocam sensações desagradáveis e que nos fizeram mal em algum momento da nossa vida, de forma voluntária e consciente ou talvez não... fica a dúvida. Também, muitas vezes, as vivências mais marcantes, e que recordamos diariamente, que nos dão a ideia de termos um post-it amarelo colado à memória, são as que nos fizeram sofrer mais.

Conversas desencontradas

E, em conversa com um velho conhecido de uma África inesquecível, onde não fui feliz, velho não pela idade que o acompanha mas pelo tempo em que nos conhecemos, ele disse-me:
- É um problema essa tua mania insistente de quereres ver amor em tudo, sem perceberes que esse é um imenso abismo que separa a tua vida do prazer. Pior, é um interminável labirinto do qual tens dificuldade em sair para veres o quão bela e feliz pode ser a vida. O amor só pode ser bom quando recíproco, igual, equiparado, e isso é tão raro... quando não é um sentimento chato porque frustrante... as amizades sexuadas são muito mais vantajosas.
Eu ri e ele continuou: - repara requerem respeito e acima de tudo verdade, ninguém engana ninguém, há reciprocidade e troca de afecto e de prazer, conversa-se sobre tudo e os intervenientes aprendem um com o outro. Mas não há o compromisso, a obrigação, o ciúme e a posse que se tornam tão irritantes e que desgastam a relação, fazendo com que o amor se vá...
- Mas sempre me conheceste assim, a acreditar no amor, não? Posso ser muito tradicional mas esse tipo de relação de que falas não é para mim, não me interessa sequer, está longe dos meus parâmetros e dos meus objectivos. Não é isso que quero para mim...
- Sim, sempre te conheci assim mas gostava que mudasses a forma como vês a vida. És demasiado sonhadora...
- Pois desilude-te meu caro, continuo a acreditar que o amor não só é possível como existe. E até te digo mais, quero continuar a acreditar porque sei que um dia vai ser recíproco. Não contigo porque não faz sentido, porque eu não gosto de ti nem tu de mim. Já gostei, mas não agora e tu nunca sentiste esse tipo de sentimentos por mim. Mas também não quero deixar de sonhar. Gostava sim que não insistisses...
- Não podes dizer isso com tanta certeza. Eu gostei, naquela altura gostei muito de ti e até há bem pouco tempo também. Mas agora já não. Não quero e não posso gostar de alguém que não me quer.
- Ah... ok... - disse eu para terminar a conversa. Na verdade não acredito numa palavra do que ele teima em repetir cada vez que fala comigo, de tempos a tempos. Mas também não vale a pena contrariá-lo porque senão, a conversa passa a discussão. E essa nunca quis ter. Muito menos agora.

segunda-feira, 28 de março de 2005

Os ventos da mudança

Bem ao ritmo leve-leve só, STP começa a sentir os efeitos da globalização. Nos primeiros anos em que visitei em trabalho o arquipélago nem luz havia nas ruas da cidade. Hoje STP já não é o que era, sobretudo na capital, e já se sentem os ventos da mudança. Há luz, água corrente e potável nas habitações (desde que não se trate de casas tradicionais, em madeira e sobre estacas), telefones e tv numa grande parte das residências da cidade e a internet está vulgarizada. A verdade é que, quando conheci STP, tudo se tratava através de um contacto personalizado e o "face to face" era imprescindível. Hoje já se pode consultar muita documentação oficial na net, desde dados estatísticos até legislação. Vale a pena consultar a Juristep.

O tempo

Um dia quis parar o tempo porque tinha a sensação que ele corria à minha frente, numa fuga sem fim. Nunca consegui fazer com que ele parasse e talvez também por isso gostasse tanto de África. Ali o tempo não pára mas abranda. Um dia vale por dois. O ritmo é vagaroso, lento e saboroso. Ali a sensação é do tempo estar do meu lado, disponível para a realização de todos os meus sonhos. Mas contudo ele passa também mais depressa do que eu gostaria ou quereria, desliza ao meu lado, voa por cima da minha cabeça numa provocação sem fim, sabendo que nunca teria a possibilidade de o agarrar, prender, fechar...

sábado, 26 de março de 2005

Tempestade

Esta noite de vendaval faz-me lembrar um final de tarde vivido em São Tomé. O dia tinha estado calmo e tranquilo, apesar do céu estar carregado do cinzento que já me parecia vulgar. Eu estava em casa com a perna em gesso em cima de uma cadeira, em frente do computador a trabalhar o capítulo da metodologia da minha tese. Parti o pé esquerdo, o que me frustrou a pesquisa, atrasando-a por algum tempo mas recriando momentos únicos e permitindo vivências intensas daí para a frente. Por infinitas razões, partir um pé em África não é o mesmo que o partir em Portugal ou na Europa. O calor torna quase insuportável o peso do gesso e o pé parece-nos um trambolho, os meios são particularmente menores pelo que a disponibilidade de recorrer aos materiais recentes, leves e mais frescos em substituição do gesso, não é possível. Aceitei, com as lágrimas nos olhos, o meu karma e conformei-me à ideia de não haver sequer canadianas que me ajudassem a andar. Depois lá me arranjaram umas muletas de madeira, à moda antiga, que se colocam debaixo dos braços e que são um verdadeiro suplício, mas ao ver o meu desespero, e perante a hipótese de regressar a Lisboa, um amigo sacrificou um tapete de ginástica para acolchoar as benditas muletas, agrafando-as. Resolveu, de facto, e lá andei de muletas de madeira adornadas a verde. Fiquei, portanto, e não me arrependi. Foi um período engraçado, cheio de ternura, fazendo emergir sentimentos fortes.
Durante a fase-gesso houve uma tempestade, daquelas à maneira tropical, que já tinha vivido nas Caraíbas mas que julgava impossível em São Tomé. Afinal este é o país da não amplitude térmica, onde as temperaturas simplesmente não variam e se caracterizam pela constância e o vento é quase impensável, apesar de chover muito. Naquele final de tarde estava sozinha, aguardando a hora do jantar em casa do meu amigo, e trabalhava. De repente ouvi um estrondo, a portada de uma das janelas bateu com tanta força que ficou presa até à minha partida, e com o susto, mesmo com o pé em gesso entre os dedos e o joelho, com 300.000 recomendações para nunca o apoiar no chão, dei um pulo da cadeira e fiquei em pé. Nesse dia, os deuses estavam de tal forma zangados, vá-se lá saber com quem ou porquê, que caíram árvores na cidade, voaram galhos, telhados foram levantados e tudo voou pelos ares. Foi um problema dramático e os resultados de gravidade, já que 11 pescadores desapareceram nas suas frágeis canoas utilizadas na pesca artesanal. Tempestade do mar, disseram alguns, e eu fiquei a pensar: numa ilha tão pequena, a tempestade poderá vir de terra?
E hoje como naquele dia, o vento bate nas janelas levando tudo pelo ar...

sexta-feira, 25 de março de 2005

Hussel

O chocolate Hussel é fantástico porque aromático, com uma coloração apelativa e artisticamente bem feito, doce no paladar e encorpado. Para satisfazer os pequenos prazeres do meu dia-a-dia não é muito adequado porque tem preços incomportáveis, mas nas épocas festivas gosto de passar por lá, entrar e comprar alguns exemplares para oferecer às pessoas de quem mais gosto. Hoje andei, de Hussel em Hussel, à procura de ovos que, mesmo caros, estavam esgotadíssimos. Não havia um único, nem para comprar nem para ver. Rendi-me aos coelhos de chocolate, também magníficos e que cumprem bem a sua função. Mas quando se entra no site da Hussel percebe-se logo porque é que fabricam chocolates desde 1949.

Sanhá no Africanidades

O post sobre Sanhá no Africanidades está fantástico. Vale a pena ler e relembrar a Guiné Bissau, apesar da história se poder passar numa qualquer África.

quinta-feira, 24 de março de 2005

Vegetariano

Não sou particularmente adepta dos restaurantes vegetarianos porque gosto muito de um bom prato de carne e de peixe, apesar do meu "anisakis" me deixar cada vez menos opções. As alergias alimentares são terríveis, sobretudo quando adquiridas em idade adulta porque como conhecemos os paladares sabemos bem do que gostamos, o que faz das restrições um verdadeiro suplício. Quando o risco do bem estar e sobretudo da sobrevivência aumenta, e o preço a pagar pelo consumo se torna excessivamente elevado, fazemos as nossas opções. É o meu caso com o delicioso peixe, principalmente quando mal passado, saboroso e suculento.
Mas isto tudo à conta de um restaurante vegetariano onde fui com uma amiga há uns dias. Eu, que não sou adepta e devo confessar que fujo sempre que posso, fiquei rendida ao espaço e à comida. É um buffet muito agradável para um dia em que a disposição apontar para as saladas, frutas e legumes. Claro que também têm os tradicionais vegetarianos, mas em relação a esses não me manifesto.
Chama-se TERRA, Restaurante Natural e fica muito perto do Príncipe Real, na Rua da Palmeira, 15. Para reservas, 707108108. O ambiente é muito acolhedor e intimista, janta-se à luz das velas, podendo ainda usufruir do jardim e das tochas.

Lua Cheia

A lua está cheia de novo, redonda, luminosa, brilhante, inspiradora. Faz-me sentir bem quando, da janela do escritório, olho para ela. Faz lembrar uma noite de feliz inspiração, de reencontro de emoções e de unificação de formas de sentir. Uma noite, algures em Maio, quando julgava ter perdido tudo, ganhei a vida, ali, na Boca do Inferno, bem perto de Água Izé, onde o mar bate forte nas rochas, fazendo-nos crer que a vontade permite alcançar a felicidade. Uma noite de lua cheia como a de hoje, mas em que o calor terno dos trópicos nos deu tudo, para sempre.

Arrumações

Hoje é dia de arrumações. Uma tarefa cansativa, mas necessária, de selecção de documentos, reorganização de dossiers, definição de prioridades e sistematização temática. A arrumação tem uma parte absolutamente fantástica, quando após a selecção começamos a rasgar papeis que já não nos fazem falta e encontramos sempre qualquer coisa que julgávamos ter perdido: uma fotografia, um texto ou um pensamento, uma frase que alguém nos escreveu ou até uma carta. E depois, olhamos para as prateleiras e os livros e as pastas estão direitos, arranjados, prontos a desarrumar outra vez, catalogados com o tema, o país e a data. Nas minhas prateleiras predominam os dossiers de São Tomé e da Guiné, os temas ambientais, do turismo e do desenvolvimento participativo. Depois há os outros, das aulas e dos projectos: Desenvolvimento, Migrações, Crianças em Risco, Estados Insulares, Animação Sociocultural, Lazer.
Mas se é bom arrumarmos e darmos uma ordem aos papeis e à vida, também há a parte menos simpática: o meu nariz é muito complicado, bem mais do que eu. Detesta pó e não suporta os produtos de limpeza, mesmo que sejam anti-alergénicos, por isso, desde o momento em que decido pôr mãos à obra, espirra incessantemente.

Ainda sobre os afectos

Afinal só é mesmo fácil conversar sobre afectos em África, e quem sabe em qualquer local do Mundo, com quem os partilha connosco. É que, quando os olhares se cruzam, a compreensão fica de imediato estabelecida e o entendimento ultrapassa as palavras, criando-se um clima de doce harmonia. A conversa torna-se fluída e o tema aligeira com a ternura de um olhar, eternizando momentos e fazendo eternas as lembranças.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Conversas sobre afectos em África

As conversas que passam pelos afectos em África são muito mais do que interessantes mas terminam invariavelmente em discussão. Esta constatação é tanto mais verdade quando partilho opiniões, pensamentos e recordações com quem nunca passou pela experiência, de viver a afectividade no continente onde os afectos são naturalmente sentidos. Os desencontros das palavras e os desentendimentos adquirem tamanha projecção que sinto que cometi um erro em falar. Se não tivesse exteriorizado o que sinto e a forma como penso, a conversa não iria tão longe: em mim ficava a magia, que não desaparece apenas pela forma como os outros falam e que se perpetua porque assim o desejo; nos que não entendem a beleza das emoções, ficariam as concepções fechadas e cinzentas. Não que eu seja muito colorida nos afectos e nos sentires, mas não condeno a vida alheia e muito menos as opções conscientemente tomadas por cada um.
Mas quando falo com quem já viveu os afectos intensamente, com a dureza do calor e da humidade que apelam aos sentidos e às emoções, fazendo emergir o desejo de prazer, a discussão surge também porque os meus comportamentos são vistos como excessivamente contidos e castradores das vontades alheias. Não por falta de aceitação no que respeita aos comportamentos de quem quer que seja, mas sim por não estar disponível para todos os afectos. As demonstrações de carinho, de ternura ou as mais acesas de paixão e de desejo são sentidas e naturais e por isso não podem ser tidas com qualquer pessoa. Apenas com quem desperta e mantem aceso o fogo dos sentidos.

Bairro Alto

Há uns bons anos atrás, um dos meus restaurantes preferidos no Bairro Alto era o Cantinho do Bem Estar. O dono tinha dias de boa disposição para variar um pouco o sentimento de desconforto com a vida, que a cara evidenciava todos os dias. A comida não era do outro mundo mas tinha uma boa relação qualidade preço, procurando o espaço recriar a imagem bairrista, pequeno e acolhedor, compensando em grande medida o mau feitio do proprietário Tiago. Um dia discutimos porque, pensava eu, ele tinha obrigação de servir bem todos os cliente e eu, que lá ia muitas vezes na semana com amigos e familiares, escolhi o que ele me aconselhou e mal. Ele não admitiu e não se desculpou, antes pelo contrário, gritou que se fartou com um ar de dama ofendida e eu não voltei lá durante uns 4 ou 5 anos. Fui lá ontem e voltei a jurar para nunca mais, pelo menos até me lembrar. Ele continua ofendido, com a cara de sempre ou talvez um pouco pior, zangadíssimo comigo e mantendo a mesma má vontade em relação ao mundo em geral, que deve cultivar nas horas vagas. Pior, serviu-me de novo mal - o que valeu foi o arroz de tomate que continua magnífico, mas é imperdoável o peixe que serve.
Na véspera fui ao Caracol (Rua da Barroca, 14, telf. 213427094) que continua mais do que recomendável, ano após ano. Os donos cultivam a arte da simpatia e do saber servir, sugerindo o que de bom têm, o ambiente continua animado qb e muito acolhedor, a comida é excelente. Vale a pena ir uma e outra vez e voltar sempre.

Maturidade

Relendo "O Rei, o sábio e o bobo", livro magnífico sobre o sentido da vida e a importância das diferentes religiões e credos para cada povo, dou comigo a reflectir sobre a maturidade, ou melhor no quanto faz falta a algumas pessoas que, pelas atitudes e comportamentos, revelam ora desorientação, ora incongruência, ora má formação.
"Na sua vida, juventude debatera-se com inúmeras dificuldades. Apesar disso, ou talvez graças a isso, conseguira formar uma personalidade forte e maleável que lhe permitia enfrentar todas as situações da vida, mesmo as mais complexas"
Shafique Keshavjee in "O Rei, o sábio e o bobo", pg. 15

Sabedoria

"A sabedoria, repetia a si próprio, é deixar crescer o que nasce, saborear o que está maduro e abandonar o que está morto"
Shafique Keshavjee in "O Rei, o sábio e o bobo", pg. 15

O Rei, o Sábio e o Bobo

"Entre todas as qualidades do rei, a mais importante era a capacidade de reconhecer as suas limitações. Face a qualquer circunstância delicada, não hesitava em consultar aquele a quem todos chamavam sábio, uma personagem ponderada cujos conselhos valiam ouro. Como o rei era suficientemente prudente para reconhecer os seus limites, também gostava de consultar aquele a quem nomeava com afecto o bobo."
Shafique Keshavjee in O Rei, o Sábio e o Bobo, pg. 13

O que mudou na tua vida?

- E afinal, o que mudou na tua vida com o doutoramento? - perguntou-me alguém que conheci em tempos, de quem me afastei, mas com quem de vez em quando converso
- Pois, para já não mudou nada mas espero que mude em breve - respondi-lhe sorridente. E pensei, sem o dizer: sinto que uma imensa felicidade chegou até mim e espero que não se vá embora tão cedo porque me faz falta...

Burocracias

As burocracias desta vida tendem a ser hilariantes. É preciso é boa disposição...
Na sequência de um incêndio, por mais pequeno que tenha sido, é necessária alguma capacidade de organização para que o caos não se perpetue. A primeira acção é activar os seguros e solicitar com muito "savoir faire" que os peritos venham reconhecer os estragos do incidente. Ele vem, inspecciona tudo com um olhar atento e tira fotografias com uma máquina digital XPTO enorme e seguramente potente. Preenche um papel com os requisitos que temos de tratar a seguir para que ele possa dar o seu parecer - documento dos bombeiros, da polícia, caderneta predial e orçamentos pormenorizados de todas as intervenções.
E a loucura da burocracia começa. Os mais eficazes, pela rapidez, são os bombeiros que, apesar de avisarem que a demora seria de 3 dias, despacham as fotocópias na mesma tarde em que o pedido é entregue por escrito. O mais hilariante é mesmo o procedimento da polícia. Não queria ter ideias preconcebidas mas não é fácil alterar a imagem que tenho das forças policiais, no que respeita à dificuldade, inerente ao estatuto, de simplificar a vida aligeirando burocracias. No momento em que o incêndio ocorreu, e face à necessidade de eu ser assistida com oxigénio pela intoxicação, foram simpáticos, disponíveis, solicitos e muitíssimo atenciosos mas o processo sequente é irrelatável! Quem registou a ocorrência foram polícias da esquadra da Parede mas, apesar do processo estar nesta esquadra e do agente que atende nos serviços administrativos o ter à sua frente, mostrando-o ao utente, quem passa a declaração é o comando de Cascais que, também com as fotocópias na mão e mesmo à nossa frente, demoram 5 dias a entregá-las, cobrando 5,45€ pelo serviço prestado...
Mas a saga continua com orçamentos de alcativas e carpetes, pintura, restauro de madeiras e tecidos para cortinados, sofás e almofadas, estores eléctricos e torneiras. Ah, esquecia-me do ar condicionado, o culpado do sucedido. É uma alucinação porque conseguir reunir toda esta gente, mesmo que não em simultâneo, não é tarefa fácil sobretudo quando ainda não podem arranjar nada. Só nos visitam para passar um papel referente aos supostos custos que apresentaremos nas Companhias de Seguros e que está sujeito a aprovação. Até lá convivemos com: o cheiro a plástico queimado que tende a não nos abandonar; as paredes e tecto de madeira queimados; os cortinados rotos e os sofás com aspecto pouco convidativo; o pó que nasce, sabe-se lá de onde. Até quando...?! Sim, depois de vir tudo aprovado, é preciso que todos tenham disponibilidade para o trabalho...

Ainda me surpreendo

De vez em quando, e sobretudo quando estou mais cansada, ainda sou capaz de me surpreender com as atitudes e reacções de algumas pessoas. Só posso estar mais velha porque a minha paciência e tolerância para com as alterações repentinas de humores, de vontades e de agires está particularmente mais reduzida e apresenta mesmo fortes limitações. Não que eu queira entender tudo – já quis, é verdade, mas hoje sei que não o conseguiria, por isso espero apenas compreender o possível e aceitar com alguma tranquilidade o que me escapa aos sentidos. Mas continuo a ficar tremendamente estarrecida perante pessoas que, num momento de tristeza, ameaçam afogar-se ou ter uma outra atitude radical e, no quarto de hora seguinte, rejuvenescem e revitalizam com aquilo que não denominam indícios ou sinais mas sim certezas. É espantoso... mas muito pouco dignificante. E as minhas dúvidas, mais do que existenciais, têm apenas uma razão: onde fica o orgulho de algumas pessoas? Será que o têm? Ou acomodam-se a qualquer tipo de situação com medo, não de não serem amadas mas sim, de ficarem sozinhas? Não será mais a vergonha social de reconhecer ter sido trocada, abandonada e rejeitada? Pois é, neste caso estou confusa...
Ontem jantei com uma amiga, a tal que chorou, gritou e desesperou afirmando que a vida perdera o sentido, após o namorado, noivo, amante ou o que mais seja, lhe ter escrito um mail resolvendo a situação à distância de uns bons milhares de quilómetros. Pois é, ele voltou de uma África minha conhecida e pela qual nutro infinito afecto, traduzido em marcas de crescimento pessoal, evidenciadas por muitos bons momentos ali vividos e outros de uma dureza irrelatável. Ele voltou e conversaram, contou-lhe aquilo que ela nega ter conhecimento por nunca ter recebido tal mensagem, rejeitando a ideia, mesmo depois dele ter explicado o sucedido. Pior, ele reforçou o ponto final numa bela história de amor, que será eterno mas inviável, impossível por ela não o merecer. Afinal, ele é igual a todos os outros, ela não o merece e ele não quer continuar. Ela terá chorado lágrimas infinitas, mas que ontem estavam secas, o que foi motivo de satisfação para mim, que fui rindo, dizendo-lhe que já percebera – afinal ela estava a ver se me punha maluca...
Bem, até aqui nada de novo. Há milhentas histórias com estes contornos. O que me confundiu é a capacidade dela em se recusar a aceitar que nem sempre as histórias de amor têm um final cor de rosa de “foram felizes para sempre”, que os príncipes não fazem parte desta época e que não andam sequer de cavalo branco e de espada porque também não há dragões. No fundo, é a dependência por medo de ficar sozinha, porque o que ela sente por ele não é amor mas sim uma doença de tudo aceitar, esquecendo o orgulho, a determinação, a vontade própria que ele deveria valorizar antes de mais.
E olhando para eles com uma distância crescente dou comigo a pensar que tenho sorte de não ser assim, porque é muito importante sabermos estar sozinhos, desfrutarmos da nossa própria companhia, sabermos ocupar o tempo com actividades que nos dêem prazer e na companhia de pessoas que nos façam sentir bem, que gostem de nós e que sejam realmente importantes. É bom gostar, mas é fundamental que os sentimentos sejam recíprocos e retribuídos. E só assim saberemos amar e seremos amados. Porque o amor requer respeito, atenção, cuidado, admiração, ternura e tantas, tantas, tantas outras coisas. Se isto não existir, não vale a pena lutar por um sentimento que alguém não tem por nós. E ela deveria perceber isso, e aceitar...

quarta-feira, 16 de março de 2005

Recompensa merecida

- Então, conta-me, que tal é a sensação de te sentires Doutora?
Eu ri com vontade ao ler aquele mail tão rápido e directo. A verdade é que não me sinto Doutora, tal como não me senti Mestre, quando isso aconteceu. Sinto-me leve, reconhecida pelo meu trabalho, recompensada pelo esforço, e muito muito muito feliz pelas avaliações e comentários. E foi muito bom de ouvir um dos membros do júri qualificar o meu trabalho de cinco anos como "brilhante" e com "mérito"!!! Nem tenho palavras para tamanha felicidade!

Podia ter sido...

As dificuldades fazem-nos crescer. Não é a melhor forma de crescermos e de nos melhorarmos, mas é certamente uma das melhores formas de nos tornarmos mais fortes e resistentes.
Andava eu a preparar-me para um dos grandes marcos da minha vida, um daqueles momentos inesquecíveis que podem contribuir para que grandes e boas mudanças venham a ocorrer quando, três dias antes da grande data, o ar condicionado da minha sala se incendeia enquanto eu falava para as paredes do escritório, que me escutavam cheias de atenção e interesse, sobre experiências agro-turísticas integradas, roças, participação e envolvimento comunitário, preservação abiental, protecção de espécies e estratégias de desenvolvimento. Limitei-me a realizar que tinha de actuar rapidamente com um encadeado de acções: correr pelo corredor, olhar para a zona onde o ar condicionado estava - já não está - desligar o quadro da electricidade, ir buscar um cobertor e gritar que me trouxessem água. E ali estive eu numa função de bombeira para a qual nunca julguei ter capacidades. A verdade é que, quando os bombeiros chegaram, não se via um dedo à frente dos olhos, mas o fogo já estava extinto.
Eu não estava assim lá muito bem disposta e quando me obrigaram a beber água, senti que ia morrer ali mesmo. Mas não, o bombeiro avaliou os meus pulmões pressionando a zona da mão entre o polegar e o indicador e o diagnóstico foi: estão dilatados, tem de levar oxigénio. Outro bombeiro veio e obrigou-me a descer as escadas, meio contrafeita, a entrar na ambulância e a respirar enquanto aquela maquineta fazia o resto. E eu só pensava que tudo não poderia estar a acontecer desta forma, quando eu tinha o computador ligado, com todo o meu trabalho, a minha tese, a minha vida... pior, quando a defesa pública seria dali a escassos dias.
Foi mau, mas hoje tenho de reconhecer que poderia ter sido muito pior. E serviu para uma coisa, certificar-me que estes contratempos, negativos e que nos parecem ser o fim do mundo, fortalecem-nos, permitindo-nos crescer interiormente.

Voltei!

Olá a Todos. Um grande OLÁ! Voltei, é verdade. O meu interregno foi justificado e mais do que proveitoso. Passo a explicar. As minhas incursões por África têm tido, na maioria das vezes, uma razão científica e profissional. E as últimas, por STP, relacionaram-se com o trabalho de campo no âmbito do meu doutoramento, em Estudos Africanos do ISCTE.
Os prazos foram integralmente cumpridos, o trabalho desenvolvido dentro da normalidade destas coisas, com alguns precalços, muitas dúvidas existenciais, muitas mais angústias e desesperos. E a tese entregue antes do final do prazo oficial. Depois veio um longo período de espera, longuíssimo, que me pareceu infinito. 9 meses entra a entrega e a defesa que teve lugar ontem, no ISCTE, mais precisamente no auditório Afonso de Barros, entre as 10 e as 13 horas.
Correu muitíssimo bem e a minha felicidade é imensa. Não poderia ter corrido melhor! Nota máxima por unanimidade. Todos a avaliaram com "Louvor e Distinção".
Uma nova fase que começa e como um dos arguentes dizia logo de início - mais do que pensarmos que chegámos ao topo, ao fim de um percurso, devemos pensar que o percurso começa aqui e agora.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Já lá estou

Já lá estou, sinto-me como se estivesse em STP, não fosse o frio que por cá faz e a ausência de algumas pessoas, que teimam em me lembrar que estou cá de corpo e lá de espírito. Sinto-me a fazer caminhadas, a andar no meio da floresta, a ouvir os pássaros cantar e a água correr por entre as pedras, abrindo caminho onde nunca se pensou possível. Sinto a humidade colar-se à roupa reduzindo os espaços entre a pele e a camisola, sinto os pés escorregarem na lama e o bater do corpo no chão. Rio de novo das quedas e da minha figura enlameada. Sinto-me a chegar à Roça de S. João e a Bombaim, pela primeira vez, e a sensação contraditória que tive - pobre e belo, básico e deslumbrante. Apeteceu-me ficar ali um minuto e uma eternidade, estar acompanhada e sózinha. Foi tão agradável essa oposição de sentires que se perpetuaram em mim e hoje sinto-me lá de novo, no quarto do fundo a acordar às 5 horas com o grito dos morcegos que estavam em período de acasalamento, levantar-me e ver o nascer do sol mais lindo que algum dia pensei ser possível, ali à frente dos meus olhos.

quarta-feira, 2 de março de 2005

Estou a regressar

E nesta altura não penso em mais nada senão em África, apenas em São Tomé e não no Príncipe. Estou concentrada, dedicada quase em exclusividade, em sintonia total com o ambiente: a floresta, o Obô, as caminhadas e as roças, os percursos e as espécies; as praias na sua diversidade, o snorkeling e a observação de espécies, em particular a tartaruga; a aventura possível. Os momentos por lá passados, as emoções vividas, as experiências partilhadas. As pessoas e os sorrisos, as suas expectativas de atingir uma felicidade suprema com tão pouco, a palavra sábia sem cultura letrada, o olhar meigo e conhecedor dos perigos naturais, humanos e dos afectos. Estou a regressar ao paraíso uma vez mais, mas desta vez em pensamento, pelas memórias e pelas lembranças, pela imensa aprendizagem de que beneficiei, pela possibilidade que me foi permitida de crescer através de uma experiência de vida única, memorável, inesquecível.

Entre eles

Entre eles tudo ficava subentendido: o que havia para explicar e esclarecer era subtilmente referido sem aprofundamento; o que era sentido, levemente demonstrado sem continuidade nas acções e nas palavras. Entendiam-se qb, não permitindo comprometimentos. Tudo era e não era ao mesmo tempo, numa rede de contradições, porque para bom entendedor meia palavra basta.
Setembro 2003, STP

terça-feira, 1 de março de 2005

Coisas do coração

"Estranho, como são as coisas do coração! Era possível passar anos e anos habituada à perda, reconciliada com ela e, depois, num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como a de uma ferida aberta"
Donna Woolfolk Cross in "A Papisa Joana", Ed. Presença, pg. 308
VERDADE... VERDADE... VERDADE!!!! É a mais pura das verdades...

Preço

"Parecia ser seu destino deixar sempre para trás aqueles que amava. Era o preço a pagar pela vida estranha que tinha escolhido, mas ela sabia o que fazia, pelo que não valia a pena lamentar-se"
Donna Woolfolk Cross in "A Papisa Joana", Ed. Presença, pg. 265
Como me reconheço nestas palavras... nem eu sei bem como...

domingo, 27 de fevereiro de 2005

Abrandamento

Não parando por completo, o ritmo da escrita vai abrandar por duas semanas, mais coisa menos coisa. Motivo: África...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Ver, rever e sonhar

Novas fotos de São Tomé, em particular do Príncipe, em Caminhadas e Descoberta
A ver e rever, nunca cansa porque nunca é demais sonhar com o que não se conhece, viver e reviver momentos a partir de imagens, de fotografias e de palavras.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

YESSSSS

YESS! YESS! YESS!
Hoje foi um dia muiiiiiiito importante!!!

Estou farta, cansada, saturada!

Estou farta, cansada, saturada de gente que vem e vai ao sabor do seu próprio egoísmo. Que chega de rompante, invadindo o tempo e o espaço como se tivesse esse direito, e que parte com a maior das facilidades porque... vá-se lá saber porquê, quando muitas vezes o próprio desconhece as razões. Porque já chorou, estrabuchou e gritou contra alguma coisa ou alguém, aliviou o desespero e quando se sente melhor, bem e feliz, decide partir porque a função de ombro foi cumprida.
Estou farta, cansada, saturada de gente que usa, põe e dispõe, sem cuidado de recolocar no mesmo local onde encontrou a atenção, o carinho e o afecto, a compreensão e a palavra amiga, que não se preocupa com mais nada a não ser consigo próprio.
Estou farta, cansada, saturada de gente que está sempre acima de qualquer outra coisa, que se sente acima dos outros, que se reconhece o direito de recolher cuidados e preocupações, sem olhar para trás e para o lado só para se certificar que não estragou o caminho por onde passou, e que não se reconhece o dever de perguntar aos outros - como estás?

Sherlock Holmes da vida alheia

Algumas histórias faziam-me lembrar historietas e historinhas mal contadas e mal elaboradas. Havia sempre uma pontinha que não encaixava, um pormenor solto que não fazia ali falta, uma relação de factos que não fazia sentido. Sentia-me um Sherlock Holmes de trazer por casa, a tentar encontrar as ligações e a coerência possível. Mas infelizmente o sentido perdia-se facilmente e ficava apenas com vontade de perguntar, sabe-se lá a quem:
- Não te esforces tanto com os pormenores, simplesmente porque não fazem sentido. Estás a tentar dizer-me alguma coisa de forma indirecta? Ou a querer confirmar algo que estejas na dúvida? OK, se é isso então, vai directa ao assunto. Torna-se mais simples, menos desgastante e mais honesto do que estar a inventar enredos que rapidamente e com a maior das facilidades são desmontados... não achas? É que o trabalho que me dá ser o Sherlock Holmes da vida alheia, a milhares de km de distância, é uma função chata e pouco compensadora, sobretudo porque não me sinto habilitada para tal... E se o querem fazer comigo, é mais fácil perguntarem directamente. Não há muito para saber, e ninguém, a bem dizer da verdade, tem que ver com isso, mas enfim, quem não tem mais com o que se ocupar, preocupa-se com a vida alheia...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Grandes pancas

- Há pessoas com grandes pancas e que são capazes de fazer coisas que tu nem consegues imaginar - afirmou ele com ar certo.
- Pois não sei. O que não entendo é a razão que move as pessoas a inventarem situações, a marcarem encontros simplesmente para chatear a cabeça a alguém, apresentando propostas supostamente consistentes, criando expectativas e alimentando futuros que nunca chegaram a ser, a...
- Ouve o que te digo, há pessoas que têm cada panca... e cabe-te a ti saberes identificá-las para não caires uma e outra vez - reforçou ele com ar entendido.
- Pois... grandes pancas... uns tentam curar as suas, criando nóias na cabeça dos outros. Isso é que é. Má formação, mesquinhez, pequenez, falta de vida própria. Estou farta de gente assim - respondi-lhe irritada.

Na minha vida

Na minha vida e nas minhas passagens por África agradeço:
1. Aos meus verdadeiros amigos (onde se destaca a minha família), que estão presentes sempre que deles preciso, com os quais tenho prazer em estar e que sei que, independentemente do que fizer ou do que acontecer, estão ali prontos para me ouvir, secar as lágrimas que os meus olhos deixem escapar e rir em conjunto de tudo e de nada;
2. Aos meus amigos contextuais, que é sempre bom rever, com quem passei momentos de alegria, de dúvida e de tristeza, na procura de uma relação mais forte e que tem vindo a crescer e a sedimentar-se;
3. Aos meus conhecidos prazeirosos, com os quais é bom trocar duas ou três palavras e um sorriso, partilhar o tempo de um café, um jantar de quando em vez, mas que o tempo e as contingências da vida não permitiram que a amizade fosse construída;
4. Aos meus conhecidos, com os quais não tenho empatia nem antipatia;
Mas principalmente:
5. Aos meus "não amigos", por me terem permitido crescer, melhorando-me a mim mesma na tentativa de ser diferente deles, recusando a mesquinhez e a pobreza de espírito que os caracteriza;
6. Aos equívocos que, com o tempo, me ensinaram a distinguir o verdadeiro do falso, o amigo verdadeiro e leal do dissimulado e enganador, a prioridade do supérfluo. Estes foram os que na realidade me enganaram porque, em algum momento, confiei na bondade aparente, na simpatia forjada, na simplicidade demonstrada, na confiança facilmente oferecida. Estes foram os que, da pior forma, me ensinaram mais, aqueles que jamais me voltarão a enganar e, de todos, os que ignoro e sobre os quais não quero nunca mais ouvir falar. Apesar de tudo, são os que insistem em se manter nas proximidades da minha vida, tentando prejudicar. Dá vontade de lhes dizer - desistam porque já não conseguem - mas nem vale a pena, um dia hão-de cansar-se!!!!

Soluções

- E quando África está no horizonte dos teus sonhos e fica a um passo de o alcançares?
- Fico triste porque sonhei com o que não realizei
- E o que fazes a seguir?
- Penso nas razões porque não consegui realizar o sonho, choro um pouco, tenho de confessar. Mas como não posso chorar eternamente, delimito uma estratégia para recuperar o tempo perdido. Se vejo que não vale o esforço, penso que Deus quando fecha uma porta, abre sempre uma janela. Sorrio e, de repente, percebo que a vida sorri também para mim, com ou sem África.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Perdão

E a capacidade de uma mulher em perdoar, fazendo desaparecer os piores momentos que algum dia pensou viver, é infinita. Muitas vezes basta um sorriso, um olhar, um toque, uma palavra doce ou ver as lágrimas correr pela face de quem lhe fez mal. Primeiro lamenta-se, chora, grita. Parece que lhe estão a tirar a vida célula a célula. Quem se preocupa com ela corre, muda a vida e desfaz os planos só para a acompanhar, para lhe dar força e ajudar a passar aqueles segundos dificeis. Mas de repente o discurso muda, altera-se e quem a ouve subentende nas palavras o perdão que há-de vir muito mais depressa do que se poderia imaginar quando se ouviu as primeiras frases envoltas por lágrimas sofridas. E, quase a seguir, vem um sinal de boa disposição e de reconcilização - a ausência de notícias, de mensagens tristes ou contentes, tanto faz. E nós ficamos simplesmente sem perceber o que pode causar tamanha mudança em tão curto espaço de tempo. Mas ainda bem, sei lá eu, que se entendam!

Tem de haver...

"There's always a way to save the day", é verdade. Tem de haver uma forma. Não sei qual mas tem de haver.

E agora...?! Perguntam alguns

Agora, vamos pôr mãos à obra e trabalhar com esperança numa mudança que se faça de coerência e competências, de esperança e de vontades, de apoios e de equilíbrios, de parcerias e de objectivos definidos e reconhecidos como comuns, de capacidades comprovadas, sem arrogância e com a humildade própria dos sábios, sem atender a boatos e difamações gratuitas, mas antes fundamentada nas certezas que permitem andar em frente, com brio e confiança!

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Já fui

Portei-me bem e lá fui, pela manhã, cumprir o meu dever e exercer um dos direitos que, enquanto cidadã portuguesa, me assistem. Fui contente e consciente do que ia fazer e estou tranquila.
E vocês, já lá foram? Já passa das quatro e meia e só podem passar por lá até às sete da tarde!!!

sábado, 19 de fevereiro de 2005

Visão Rodoviária

Que as relações podem ser vistas como estradas todos sabemos. Mas o que é curioso é a cada tipo de estrada, um tipo de relação:
1. a relação autoestrada - segue direita, sem precalços e a alta velocidade, requerendo uma taxa, relativamente à qual se reclama sempre de ser excessiva
2. a relação estrada nacional - congestionada mas mais barata que a autoestrada, chegando invariavelmente ao mesmo destino, se bem que requer mais tempo
3. a relação estrada de montanha - cheia de curvas e acidentes de terreno, com muitos riscos mas envolvendo grande emoção
4. a relação rua de cidade - sem interesse, monótona e com muito trânsito, um pára-arranca permanente
5. a relação rua sem saída - sem comentários...

O problema

O problema não radica na impossibilidade, mas na incapacidade associada à falta de vontade de aceitar que não pode ser.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

Hakuna Matata

E, sem saber cantar, esta noite ao jantar vou dar o meu melhor por incutir na minha amiga o espírito Hakuna Matata brilhantemente expresso em "O Rei Leão"!!!

Hakuna Matata! What a wonderful phrase
Hakuna Matata! Ain't no passing craze
It means no worries for the rest of your days
It's our problem-free philosophy
Hakuna Matata!
Hakuna Matata?
Those two words will solve all your problems
I'm a sensitive soul though I seem thick-skinned
And it hurt that my friends never stood downwind
And oh, the shame He was ashamed
Thought of changin' my name What's in a name?
And I got downhearted How did ya feel?
Hakuna Matata! What a wonderful phrase
Hakuna Matata! Ain't no passing craze
It means no worries for the rest of your days
It's our problem-free philosophy
Hakuna Matata!
Hakuna Matata! Hakuna matata!
Hakuna Matata! Hakuna matata!
Hakuna Matata! Hakuna matata!
Hakuna Matata! Hakuna--
It means no worries for the rest of your days
It's our problem-free philosophy
Hakuna Matata!
(Repeats)
I say "Hakuna"
I say "Matata"

Amor ou doença?

Teoricamente, quando vimos uma amiga a sentir o desespero do abandono e da rejeição, devemos chamá-la à razão e dizer-lhe:
- "Esquece! Para ter tido esta atitude, ele não te merece. Segue a tua vida para a frente. Já viste como és gira, esperta, inteligente, conversadora, uma mulher interessante e que desperta as atenções masculinas. Porque ficas nesse sufoco? Gostas dele mas tens de ver que ele só te está a prejudicar com este chove não molha, quero-te, amo-te e desejo-te mas depois... passa-se e trata-te mal. Só não te bate porque a violência que ele utiliza nas palavras e a forma como te destrata é inqualificável. Tens de aprender a gostar de ti primeiro e só depois terás uma relação equilibrada, com alguém que te faça feliz, que te queira bem, que se preocupe contigo, que te ame de verdade."
Mas antes de conseguirmos dizer o que quer que seja, ao vê-la num desespero tal que nem mais vontade de viver demonstra, ficamos sem palavras. Impotentes, simplesmente porque nem mais acreditávamos que ainda houvesse amores assim. Aquela mulher, bonita de cara, corpo e alma, está num sofrimento indescritível porque tinha um sentimento, por aquele moço com alma de pássaro, grande, imenso, infinito. Não se vê sem ele porque criou uma dependência excessiva, acreditou piamente nas palavras, não pôs em causa 1 milésimo de segundo que fosse.
E agora eu dou comigo a pensar - mas afinal tinham razão quando me diziam que o amor se podia transformar numa doença, e eu não acreditava...

Dúvidas sobre a dignidade afectiva

1. Será que a resolução dos desgostos amorosos e dos equívocos emocionais requer sempre um afastamento, uma rutpura, um "adeus para sempre que nunca mais te quero ver" ou um "sai, sai da minha vida"?
2. Ajudará o distanciamento a sarar as feridas, deixando-nos menos magoados?
3. Quando fomos infinitamente magoados, serão os retornos possíveis?
4. Ao ouvirmos um "não me escrevas nunca mais" ou um "esquece-me" sentimos a nossa dignidade profundamente ameaçada. Será algum dia possível eliminar estas frases da nossa memória?
5. Haverá um limite padronizado para dizermos conscientemente a nós mesmos "Chega! Este gajo não me faz mais mal porque eu não deixo!"?
6. Porque será que, quando uma mulher é rejeitada, tenta arranjar biliões de justificações para consiguir ler na rejeição precisamente o contrário?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Amigos

Tenho vontade de abraçar a minha amiga que está a passar por maus momentos, confortá-la e dizer-lhe, como se diz a uma criança, que tudo vai passar rapidinho e que ela se vai recompor rapidamente. Mas estaria a mentir-lhe e ela não o merece. E creio até que não conseguisse aguentar mais uma série de "não verdades".
E tenho vontade de ir ter com o meu amigo, que está a uma distância incomportável para que me predispusesse a tal viagem, para falar com ele, ou melhor ouvir as razões dele. Mas creio que nesta altura, ele também não as tem e estará a viver momentos de dúvida, de incerteza, de confusão mental e afectiva.
É terrível, nestas alturas, sentirmos afeição pelos dois porque se torna muito mais difícil confortar um, esquecendo o outro. Mas eu só lhe queria dizer, a ele, tudo o que, de acordo com o que conheço dele, ele sabe e sente. Ela não merecia nada do que está a viver. Não assim, não desta forma, não à distância de uns simples 5.000 km - coisa pouca - não sem uma conversa, não apenas com um mail. Não, quando se viveram momentos difíceis há tão pouco tempo por situações idênticas. Não quando as expectativas são demasiado altas, tendo sido ele a criá-las, a alimentá-las e ela a recebê-las. Não assim, amigo.

Desconforto

É que, apesar de não ser nada directamente comigo, fiquei com uma sensação desconfortável para o resto da tarde. A vida de um europeu em África tem destas coisas. É por vezes, algumas... muitas mesmo, uma vivência repleta de contradições.

Atropelo Emocional

Como se pode definir um homem que:
1. pede a namorada em casamento, cheio de certezas, após uma fase conturbada de avanços, recuos e indecisões,
2. define planos para mobilarem em conjunto uma casa, combinam datas e fazem projectos para o futuro próximo,
3. passados dois meses de tudo ficar combinado, ele escreve-lhe dizendo que ela é tudo para ele – a mais terna das companheiras, a mais atenciosa das amigas e confidentes e a melhor das amantes – mas trocou-a porque, como qualquer homem, não consegue resistir a um bom par de pernas e mais alguns atributos complementares,pede-lhe que o esqueça, ficando tudo arrumado, via mail.
A esta simplicidade poder-se-ia dar o nome de “atropelo emocional”. Ela ficou destroçada, e assim continua, só chora e ameaça matar-se. Mas afinal, ainda haverá homens que mereçam tamanha abnegação depois de tal desfaçatez? Pois eu não creio que haja!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Conversas entre mulheres... solteiras

- Já pensaste porque é que combinas encontros e programas e, no fim, desmarcas? – perguntou, em tom de crítica, Alice a Beatriz quando esta lhe dissera que, mais uma vez, tinha desmarcado uma ida ao cinema porque estava frio e não lhe apetecia sair.
- Não, simplesmente não estava com disposição. Está frio, será isso assim tão estranho?
- O que é estranho é que ultimamente fazes isso repetidamente, sempre que tens alguma coisa combinada com um fulano. Isso só pode ter uma explicação... e fazia-te bem saires, ver gente, conversar e ser um bocadinho bajulada. Faz bem, não achas?
- Ah, não me venhas com as tretas das psicoterapias que tudo explicam, Alice. Está frio e simplesmente há dias em que não apetece sair da toca. Já pensaste que a maioria dos animais, que não efectuam migrações, hibernam? É como eu, já que não posso ir para o calor, refugio-me no conforto de casa. Olha, e já que falamos nisso, como tem passado a tua ausência de relação com o sexo masculino? Há quanto tempo não sais com ninguém?
- Não é disso que estamos a falar...
- É sim, é de mulheres solteiras que após os 35 anos não sentem, por uma infinidade de razões, a urgência de um encontro. Desiludiram-se algures, perderam a expectativa excessiva, a não ser quando estão verdadeiramente apaixonadas. E eu não estou. Mas principalmente não saem simplesmente porque tinham combinado. Desmarcam, quando não têm feeling. Não saem por obrigação, fazem-no quando querem e lhes apetece. E há dias em que apetece estar em casa, sentada sem fazer nada, a ver um suposto programa humorístico da treta, mas que faz rir, a ouvir a lenha a crepitar na lareira, a ler ou simplesmente a terminar um trabalho que ficou pendente. E fazer isso sem dar pelas horas passarem. Entendes o que sinto? Afinal, tu também sentes o mesmo...
- Hum... fez-te mal estar tanto tempo em África. Achas que lá viveste tanto que te desinteressaste da vida daqui, nada te serve e ninguém é adequado, já pensaste? Afinal África foi um engano para ti, iludiste-te e agora sentes-te frustrada porque não conseguiste chegar onde querias...
Beatriz sentiu uma súbita irritação pelo que acabara de ouvir. Alice era sua amiga há mais de uma década, mas desde que fora para África afastara-se e, cheia das certezas que temos sempre acerca da vida dos outros mas que em relação à nossa própria existência não fazem regra, achava-se no direito de fazer avaliações gratuitas. Como é que podia dizer aquilo daquela forma? Não querendo discutir com a amiga limitou-se a concluir:
- É verdade, em África vivi muito, coisas frustrantes mas outras muito compensadoras. Essa vida, por muitas mais que venha a viver, ninguém me tira. Acredita que se hoje sinto algum desconsolo, as vivências de África fizeram-me muito feliz. E hoje, tenho muito que recordar e as lembranças fazem-me sorrir, transmitem-me bons sentimentos. Se não tivesse lá estado não tinha sofrido, mas também não tinha amado e não tinha sido tão feliz quanto fui, em certa altura. Muitos são os que não se deram a ninguém e que também nunca sentiram a entrega. Eu senti as duas. Agora, desculpa Alice, mas esso é outro tema que nada tem que ver com a minha hibernação.

Línguas de STP

Para quem se interessar pelas línguas de STP (lungwa santome, lung'ie e lungwa ngola), foi criado um novo e-Grupo dedicado exclusivamente às questões linguísticas:http://uk.groups.yahoo.com/group/linguasstp/
O moderador é o especialista Tjerk Hagemeijer que, progressivamente, disponibilizará informações, documentos sob a forma de ficheiros, links para outros sites com interesse.

Definição

- Vês - dizia o meu Eu mais racional ao outro mais emocional - para que te angustias tanto? Por fim, as coisas começam a resolver-se. Era uma questão de tempo. Estão encaminhadas e a resolução desta fase está a seguir o seu caminho, com algum atraso, é verdade, mas já faltou mais para veres a vida organizar-se.
- É verdade - respondeu-lhe o meu Eu emocional - mas o que queres, sabes que sou mesmo assim, que sofro e me angustio, que desespero ao ver o tempo passar e a vida ficar. E que também quando as coisas correm bem, vibro, sinto, emociono-me, congratulo-me, seria difícil ficar mais feliz. Mas és capaz de ter razão, a que está no meio de nós os dois é quem mais sofre com as nossas contradições.
- E agora, deixa-te de tretas, concentra-te e deixa-me terminar o artigo sobre Turismo Rural em STP, senão não vai a tempo da publicação. E lembra-te que ainda tens de me ajudar a ler, a corrigir e a escolher as fotos a integrar no texto. Temos muito trabalho pela frente. Tu ficas para aí a sonhar alto e não me deixas avançar. Devias ajudar-me. Se queres sonhar só por veres a cor do mar, que hoje está azul e tranquilo, pelo menos cala-te para que eu possa terminar o texto - arrematou o meu Eu racional.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Caminante...

"Se hace el camino al andar
Caminante,
son tus huellas el camino y nada más;
Caminante,

no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás se ve la senda
que nunca se ha de volver a pisar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
Caminante no hay camino sino estelas en la mar."


António Machado, poeta espanhol (1875-1939)

A noite da Lua

E em noite de Dia de Namorados, a Lua não estava sózinha no céu. Havia Estrelas à sua volta, muitas a namoriscá-la. Mas ela estava em fase de crescimento, incompleta, não tinha sequer chegado a quarto, e não lhes ligou meia. Sentia-se apenas acompanhada, mas não era as estrelas que ela ansiava. Essas eram companheiras de vida, sempre que as nuvens não se intrometiam à contemplação dos olhares terrenos. Apesar de estarem quase sempre juntas, a Lua sentia-se distante das Estrelas, noutra dimensão, noutro plano. O que ela procurava era a companhia quente e terna do Sol, mas por causa do destino, limitavam a cruzar-se ao nascer do dia e da noite.

Exposição fotográfica sobre a Guiné-Bissau

"Recados da minha terra", de 3 a 31 de Março, no espaço QUADRANTE, CCB, Lisboa.
É uma iniciativa promovida pela Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa (AEGB-L), reúne 35 fotografias inéditas de quatro regiões do país – Bafatá, Biombo, Bolama e Óio – e ainda de Bissau, captadas entre Julho-Setembro de 2004, por um grupo de amadores, estudantes guineenses em Portugal.

É uma iniciativa patrocinado pelo Instituto Marquês Valle Flôr (IMVF) e visa promover a cultura guineense em Portugal: a interculturalidade como motor da cumplicidade entre os povos; dar a conhecer as realidades e dinâmicas de um país do Sul; procura retratar a Guiné-Bissau e o seu povo, não pelas ideias construídas à sua volta, mas pela imagem de um país que merece ser observado pela diáspora e pelo mundo num espaço alternativo, através das objectivas dos seus jovens que, não só anseiam por um futuro melhor, como também se mobilizam para a construção desse futuro.

O projecto “Recados da Minha Terra” é composto por 3 momentos:- Exposição orientada para a comunidade imigrada da Guiné-Bissau e o grande público em Lisboa; - Aos estudantes, nas Universidades de Lisboa em parceria com Associações de Estudantes locais, durante o mês de África em Lisboa (Maio); - Resto do País (Porto, Braga, Coimbra, Faro), durante o segundo semestre de 2005.

Para mais informações, contactar:Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa, Travessa do Possolo N. 11, 3 Dtº1351 - 250 Lisboa, TM: 961144110/965711429, e-mail: aegblisboa@hotmail.com

Quem foi Valentim, o Santo que hoje comemoramos?

E ouvindo rádio ou passeando nas ruas consegue perceber-se a hipervalorização do dia de São Valentim. Está presente na vida de todos, os que são namorados, há pouco, há muito tempo, ou há uma eternidade, mas também dos que não são.
Poucos são os que saberão, ao certo, porque a data se festeja hoje, dia 14 de Fevereiro, e não noutro dia qualquer, mas o que interessa não é tanto saber, conhecer a história ou compreender as motivações que, certo dia, o Santo teve, e que lhe custaram a própria vida.
O que conta, e é importante, para a maioria é vender ou comprar a imagem dos coraçõezinhos vermelhos, do romantismo, até do que não se sente, dos presentes que se compram, e não dos que se fazem artesanalmente com um sentido de personalização. Neste caso, o que conta é o consumo, puro e duro, porque quanto ao Santo, esse fica esquecido, afinal há tantos que uma pessoa não pode saber quem são e o que fizeram todos...
Valia a pena pensar um pouco nisto, portanto aqui fica a dica - o Dia dos Namorados comemora-se mesmo hoje porque foi a 14 de Fevereiro que ele morreu e porque, durante a sua vida, lutou por ideais, e um deles era fazer com que os jovens apaixonados se sentissem mais felizes, através da união dos sentimentos.

Dia de São Valentim

Reza a história que, no século III d.C., um padre de nome Valentim casava, em segredo, os jovens namorados, sendo um acto oficialmente proibido. O Imperador Cláudio II queria formar o maior e mais poderoso exército da História, criando uma força de defesa e de ataque imbatível, o exército romano. O problema era não ter receptividade, por parte dos romanos, já que o número de homens que se alistava era insuficiente. Cláudio II justificou o facto com a resistência dos homens em abandonarem as famílias e decidiu a proibição dos casamentos, porque os melhores soldados seriam os homens que se mantivesse solteiros. Valentim, ajudado por S. Mário, não respeitou a decisão do imperador e continuou a efectuar os casamentos religiosos dos jovens que assim o desejassem. Certo dia, Valentim foi descoberto por contrariar o estabelecido, oficializando uniões, pelo que foi preso, torturado e condenado à morte por decapitação. Morreu a 14 de Fevereiro do ano 270. Actualmente, uma Igreja em Roma, Igreja de Santa Praxedes, guarda as relíquias do santo.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...