quinta-feira, 24 de março de 2005

Vegetariano

Não sou particularmente adepta dos restaurantes vegetarianos porque gosto muito de um bom prato de carne e de peixe, apesar do meu "anisakis" me deixar cada vez menos opções. As alergias alimentares são terríveis, sobretudo quando adquiridas em idade adulta porque como conhecemos os paladares sabemos bem do que gostamos, o que faz das restrições um verdadeiro suplício. Quando o risco do bem estar e sobretudo da sobrevivência aumenta, e o preço a pagar pelo consumo se torna excessivamente elevado, fazemos as nossas opções. É o meu caso com o delicioso peixe, principalmente quando mal passado, saboroso e suculento.
Mas isto tudo à conta de um restaurante vegetariano onde fui com uma amiga há uns dias. Eu, que não sou adepta e devo confessar que fujo sempre que posso, fiquei rendida ao espaço e à comida. É um buffet muito agradável para um dia em que a disposição apontar para as saladas, frutas e legumes. Claro que também têm os tradicionais vegetarianos, mas em relação a esses não me manifesto.
Chama-se TERRA, Restaurante Natural e fica muito perto do Príncipe Real, na Rua da Palmeira, 15. Para reservas, 707108108. O ambiente é muito acolhedor e intimista, janta-se à luz das velas, podendo ainda usufruir do jardim e das tochas.

Lua Cheia

A lua está cheia de novo, redonda, luminosa, brilhante, inspiradora. Faz-me sentir bem quando, da janela do escritório, olho para ela. Faz lembrar uma noite de feliz inspiração, de reencontro de emoções e de unificação de formas de sentir. Uma noite, algures em Maio, quando julgava ter perdido tudo, ganhei a vida, ali, na Boca do Inferno, bem perto de Água Izé, onde o mar bate forte nas rochas, fazendo-nos crer que a vontade permite alcançar a felicidade. Uma noite de lua cheia como a de hoje, mas em que o calor terno dos trópicos nos deu tudo, para sempre.

Arrumações

Hoje é dia de arrumações. Uma tarefa cansativa, mas necessária, de selecção de documentos, reorganização de dossiers, definição de prioridades e sistematização temática. A arrumação tem uma parte absolutamente fantástica, quando após a selecção começamos a rasgar papeis que já não nos fazem falta e encontramos sempre qualquer coisa que julgávamos ter perdido: uma fotografia, um texto ou um pensamento, uma frase que alguém nos escreveu ou até uma carta. E depois, olhamos para as prateleiras e os livros e as pastas estão direitos, arranjados, prontos a desarrumar outra vez, catalogados com o tema, o país e a data. Nas minhas prateleiras predominam os dossiers de São Tomé e da Guiné, os temas ambientais, do turismo e do desenvolvimento participativo. Depois há os outros, das aulas e dos projectos: Desenvolvimento, Migrações, Crianças em Risco, Estados Insulares, Animação Sociocultural, Lazer.
Mas se é bom arrumarmos e darmos uma ordem aos papeis e à vida, também há a parte menos simpática: o meu nariz é muito complicado, bem mais do que eu. Detesta pó e não suporta os produtos de limpeza, mesmo que sejam anti-alergénicos, por isso, desde o momento em que decido pôr mãos à obra, espirra incessantemente.

Ainda sobre os afectos

Afinal só é mesmo fácil conversar sobre afectos em África, e quem sabe em qualquer local do Mundo, com quem os partilha connosco. É que, quando os olhares se cruzam, a compreensão fica de imediato estabelecida e o entendimento ultrapassa as palavras, criando-se um clima de doce harmonia. A conversa torna-se fluída e o tema aligeira com a ternura de um olhar, eternizando momentos e fazendo eternas as lembranças.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Conversas sobre afectos em África

As conversas que passam pelos afectos em África são muito mais do que interessantes mas terminam invariavelmente em discussão. Esta constatação é tanto mais verdade quando partilho opiniões, pensamentos e recordações com quem nunca passou pela experiência, de viver a afectividade no continente onde os afectos são naturalmente sentidos. Os desencontros das palavras e os desentendimentos adquirem tamanha projecção que sinto que cometi um erro em falar. Se não tivesse exteriorizado o que sinto e a forma como penso, a conversa não iria tão longe: em mim ficava a magia, que não desaparece apenas pela forma como os outros falam e que se perpetua porque assim o desejo; nos que não entendem a beleza das emoções, ficariam as concepções fechadas e cinzentas. Não que eu seja muito colorida nos afectos e nos sentires, mas não condeno a vida alheia e muito menos as opções conscientemente tomadas por cada um.
Mas quando falo com quem já viveu os afectos intensamente, com a dureza do calor e da humidade que apelam aos sentidos e às emoções, fazendo emergir o desejo de prazer, a discussão surge também porque os meus comportamentos são vistos como excessivamente contidos e castradores das vontades alheias. Não por falta de aceitação no que respeita aos comportamentos de quem quer que seja, mas sim por não estar disponível para todos os afectos. As demonstrações de carinho, de ternura ou as mais acesas de paixão e de desejo são sentidas e naturais e por isso não podem ser tidas com qualquer pessoa. Apenas com quem desperta e mantem aceso o fogo dos sentidos.

Bairro Alto

Há uns bons anos atrás, um dos meus restaurantes preferidos no Bairro Alto era o Cantinho do Bem Estar. O dono tinha dias de boa disposição para variar um pouco o sentimento de desconforto com a vida, que a cara evidenciava todos os dias. A comida não era do outro mundo mas tinha uma boa relação qualidade preço, procurando o espaço recriar a imagem bairrista, pequeno e acolhedor, compensando em grande medida o mau feitio do proprietário Tiago. Um dia discutimos porque, pensava eu, ele tinha obrigação de servir bem todos os cliente e eu, que lá ia muitas vezes na semana com amigos e familiares, escolhi o que ele me aconselhou e mal. Ele não admitiu e não se desculpou, antes pelo contrário, gritou que se fartou com um ar de dama ofendida e eu não voltei lá durante uns 4 ou 5 anos. Fui lá ontem e voltei a jurar para nunca mais, pelo menos até me lembrar. Ele continua ofendido, com a cara de sempre ou talvez um pouco pior, zangadíssimo comigo e mantendo a mesma má vontade em relação ao mundo em geral, que deve cultivar nas horas vagas. Pior, serviu-me de novo mal - o que valeu foi o arroz de tomate que continua magnífico, mas é imperdoável o peixe que serve.
Na véspera fui ao Caracol (Rua da Barroca, 14, telf. 213427094) que continua mais do que recomendável, ano após ano. Os donos cultivam a arte da simpatia e do saber servir, sugerindo o que de bom têm, o ambiente continua animado qb e muito acolhedor, a comida é excelente. Vale a pena ir uma e outra vez e voltar sempre.

Maturidade

Relendo "O Rei, o sábio e o bobo", livro magnífico sobre o sentido da vida e a importância das diferentes religiões e credos para cada povo, dou comigo a reflectir sobre a maturidade, ou melhor no quanto faz falta a algumas pessoas que, pelas atitudes e comportamentos, revelam ora desorientação, ora incongruência, ora má formação.
"Na sua vida, juventude debatera-se com inúmeras dificuldades. Apesar disso, ou talvez graças a isso, conseguira formar uma personalidade forte e maleável que lhe permitia enfrentar todas as situações da vida, mesmo as mais complexas"
Shafique Keshavjee in "O Rei, o sábio e o bobo", pg. 15

Sabedoria

"A sabedoria, repetia a si próprio, é deixar crescer o que nasce, saborear o que está maduro e abandonar o que está morto"
Shafique Keshavjee in "O Rei, o sábio e o bobo", pg. 15

O Rei, o Sábio e o Bobo

"Entre todas as qualidades do rei, a mais importante era a capacidade de reconhecer as suas limitações. Face a qualquer circunstância delicada, não hesitava em consultar aquele a quem todos chamavam sábio, uma personagem ponderada cujos conselhos valiam ouro. Como o rei era suficientemente prudente para reconhecer os seus limites, também gostava de consultar aquele a quem nomeava com afecto o bobo."
Shafique Keshavjee in O Rei, o Sábio e o Bobo, pg. 13

O que mudou na tua vida?

- E afinal, o que mudou na tua vida com o doutoramento? - perguntou-me alguém que conheci em tempos, de quem me afastei, mas com quem de vez em quando converso
- Pois, para já não mudou nada mas espero que mude em breve - respondi-lhe sorridente. E pensei, sem o dizer: sinto que uma imensa felicidade chegou até mim e espero que não se vá embora tão cedo porque me faz falta...

Burocracias

As burocracias desta vida tendem a ser hilariantes. É preciso é boa disposição...
Na sequência de um incêndio, por mais pequeno que tenha sido, é necessária alguma capacidade de organização para que o caos não se perpetue. A primeira acção é activar os seguros e solicitar com muito "savoir faire" que os peritos venham reconhecer os estragos do incidente. Ele vem, inspecciona tudo com um olhar atento e tira fotografias com uma máquina digital XPTO enorme e seguramente potente. Preenche um papel com os requisitos que temos de tratar a seguir para que ele possa dar o seu parecer - documento dos bombeiros, da polícia, caderneta predial e orçamentos pormenorizados de todas as intervenções.
E a loucura da burocracia começa. Os mais eficazes, pela rapidez, são os bombeiros que, apesar de avisarem que a demora seria de 3 dias, despacham as fotocópias na mesma tarde em que o pedido é entregue por escrito. O mais hilariante é mesmo o procedimento da polícia. Não queria ter ideias preconcebidas mas não é fácil alterar a imagem que tenho das forças policiais, no que respeita à dificuldade, inerente ao estatuto, de simplificar a vida aligeirando burocracias. No momento em que o incêndio ocorreu, e face à necessidade de eu ser assistida com oxigénio pela intoxicação, foram simpáticos, disponíveis, solicitos e muitíssimo atenciosos mas o processo sequente é irrelatável! Quem registou a ocorrência foram polícias da esquadra da Parede mas, apesar do processo estar nesta esquadra e do agente que atende nos serviços administrativos o ter à sua frente, mostrando-o ao utente, quem passa a declaração é o comando de Cascais que, também com as fotocópias na mão e mesmo à nossa frente, demoram 5 dias a entregá-las, cobrando 5,45€ pelo serviço prestado...
Mas a saga continua com orçamentos de alcativas e carpetes, pintura, restauro de madeiras e tecidos para cortinados, sofás e almofadas, estores eléctricos e torneiras. Ah, esquecia-me do ar condicionado, o culpado do sucedido. É uma alucinação porque conseguir reunir toda esta gente, mesmo que não em simultâneo, não é tarefa fácil sobretudo quando ainda não podem arranjar nada. Só nos visitam para passar um papel referente aos supostos custos que apresentaremos nas Companhias de Seguros e que está sujeito a aprovação. Até lá convivemos com: o cheiro a plástico queimado que tende a não nos abandonar; as paredes e tecto de madeira queimados; os cortinados rotos e os sofás com aspecto pouco convidativo; o pó que nasce, sabe-se lá de onde. Até quando...?! Sim, depois de vir tudo aprovado, é preciso que todos tenham disponibilidade para o trabalho...

Ainda me surpreendo

De vez em quando, e sobretudo quando estou mais cansada, ainda sou capaz de me surpreender com as atitudes e reacções de algumas pessoas. Só posso estar mais velha porque a minha paciência e tolerância para com as alterações repentinas de humores, de vontades e de agires está particularmente mais reduzida e apresenta mesmo fortes limitações. Não que eu queira entender tudo – já quis, é verdade, mas hoje sei que não o conseguiria, por isso espero apenas compreender o possível e aceitar com alguma tranquilidade o que me escapa aos sentidos. Mas continuo a ficar tremendamente estarrecida perante pessoas que, num momento de tristeza, ameaçam afogar-se ou ter uma outra atitude radical e, no quarto de hora seguinte, rejuvenescem e revitalizam com aquilo que não denominam indícios ou sinais mas sim certezas. É espantoso... mas muito pouco dignificante. E as minhas dúvidas, mais do que existenciais, têm apenas uma razão: onde fica o orgulho de algumas pessoas? Será que o têm? Ou acomodam-se a qualquer tipo de situação com medo, não de não serem amadas mas sim, de ficarem sozinhas? Não será mais a vergonha social de reconhecer ter sido trocada, abandonada e rejeitada? Pois é, neste caso estou confusa...
Ontem jantei com uma amiga, a tal que chorou, gritou e desesperou afirmando que a vida perdera o sentido, após o namorado, noivo, amante ou o que mais seja, lhe ter escrito um mail resolvendo a situação à distância de uns bons milhares de quilómetros. Pois é, ele voltou de uma África minha conhecida e pela qual nutro infinito afecto, traduzido em marcas de crescimento pessoal, evidenciadas por muitos bons momentos ali vividos e outros de uma dureza irrelatável. Ele voltou e conversaram, contou-lhe aquilo que ela nega ter conhecimento por nunca ter recebido tal mensagem, rejeitando a ideia, mesmo depois dele ter explicado o sucedido. Pior, ele reforçou o ponto final numa bela história de amor, que será eterno mas inviável, impossível por ela não o merecer. Afinal, ele é igual a todos os outros, ela não o merece e ele não quer continuar. Ela terá chorado lágrimas infinitas, mas que ontem estavam secas, o que foi motivo de satisfação para mim, que fui rindo, dizendo-lhe que já percebera – afinal ela estava a ver se me punha maluca...
Bem, até aqui nada de novo. Há milhentas histórias com estes contornos. O que me confundiu é a capacidade dela em se recusar a aceitar que nem sempre as histórias de amor têm um final cor de rosa de “foram felizes para sempre”, que os príncipes não fazem parte desta época e que não andam sequer de cavalo branco e de espada porque também não há dragões. No fundo, é a dependência por medo de ficar sozinha, porque o que ela sente por ele não é amor mas sim uma doença de tudo aceitar, esquecendo o orgulho, a determinação, a vontade própria que ele deveria valorizar antes de mais.
E olhando para eles com uma distância crescente dou comigo a pensar que tenho sorte de não ser assim, porque é muito importante sabermos estar sozinhos, desfrutarmos da nossa própria companhia, sabermos ocupar o tempo com actividades que nos dêem prazer e na companhia de pessoas que nos façam sentir bem, que gostem de nós e que sejam realmente importantes. É bom gostar, mas é fundamental que os sentimentos sejam recíprocos e retribuídos. E só assim saberemos amar e seremos amados. Porque o amor requer respeito, atenção, cuidado, admiração, ternura e tantas, tantas, tantas outras coisas. Se isto não existir, não vale a pena lutar por um sentimento que alguém não tem por nós. E ela deveria perceber isso, e aceitar...

quarta-feira, 16 de março de 2005

Recompensa merecida

- Então, conta-me, que tal é a sensação de te sentires Doutora?
Eu ri com vontade ao ler aquele mail tão rápido e directo. A verdade é que não me sinto Doutora, tal como não me senti Mestre, quando isso aconteceu. Sinto-me leve, reconhecida pelo meu trabalho, recompensada pelo esforço, e muito muito muito feliz pelas avaliações e comentários. E foi muito bom de ouvir um dos membros do júri qualificar o meu trabalho de cinco anos como "brilhante" e com "mérito"!!! Nem tenho palavras para tamanha felicidade!

Podia ter sido...

As dificuldades fazem-nos crescer. Não é a melhor forma de crescermos e de nos melhorarmos, mas é certamente uma das melhores formas de nos tornarmos mais fortes e resistentes.
Andava eu a preparar-me para um dos grandes marcos da minha vida, um daqueles momentos inesquecíveis que podem contribuir para que grandes e boas mudanças venham a ocorrer quando, três dias antes da grande data, o ar condicionado da minha sala se incendeia enquanto eu falava para as paredes do escritório, que me escutavam cheias de atenção e interesse, sobre experiências agro-turísticas integradas, roças, participação e envolvimento comunitário, preservação abiental, protecção de espécies e estratégias de desenvolvimento. Limitei-me a realizar que tinha de actuar rapidamente com um encadeado de acções: correr pelo corredor, olhar para a zona onde o ar condicionado estava - já não está - desligar o quadro da electricidade, ir buscar um cobertor e gritar que me trouxessem água. E ali estive eu numa função de bombeira para a qual nunca julguei ter capacidades. A verdade é que, quando os bombeiros chegaram, não se via um dedo à frente dos olhos, mas o fogo já estava extinto.
Eu não estava assim lá muito bem disposta e quando me obrigaram a beber água, senti que ia morrer ali mesmo. Mas não, o bombeiro avaliou os meus pulmões pressionando a zona da mão entre o polegar e o indicador e o diagnóstico foi: estão dilatados, tem de levar oxigénio. Outro bombeiro veio e obrigou-me a descer as escadas, meio contrafeita, a entrar na ambulância e a respirar enquanto aquela maquineta fazia o resto. E eu só pensava que tudo não poderia estar a acontecer desta forma, quando eu tinha o computador ligado, com todo o meu trabalho, a minha tese, a minha vida... pior, quando a defesa pública seria dali a escassos dias.
Foi mau, mas hoje tenho de reconhecer que poderia ter sido muito pior. E serviu para uma coisa, certificar-me que estes contratempos, negativos e que nos parecem ser o fim do mundo, fortalecem-nos, permitindo-nos crescer interiormente.

Voltei!

Olá a Todos. Um grande OLÁ! Voltei, é verdade. O meu interregno foi justificado e mais do que proveitoso. Passo a explicar. As minhas incursões por África têm tido, na maioria das vezes, uma razão científica e profissional. E as últimas, por STP, relacionaram-se com o trabalho de campo no âmbito do meu doutoramento, em Estudos Africanos do ISCTE.
Os prazos foram integralmente cumpridos, o trabalho desenvolvido dentro da normalidade destas coisas, com alguns precalços, muitas dúvidas existenciais, muitas mais angústias e desesperos. E a tese entregue antes do final do prazo oficial. Depois veio um longo período de espera, longuíssimo, que me pareceu infinito. 9 meses entra a entrega e a defesa que teve lugar ontem, no ISCTE, mais precisamente no auditório Afonso de Barros, entre as 10 e as 13 horas.
Correu muitíssimo bem e a minha felicidade é imensa. Não poderia ter corrido melhor! Nota máxima por unanimidade. Todos a avaliaram com "Louvor e Distinção".
Uma nova fase que começa e como um dos arguentes dizia logo de início - mais do que pensarmos que chegámos ao topo, ao fim de um percurso, devemos pensar que o percurso começa aqui e agora.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Já lá estou

Já lá estou, sinto-me como se estivesse em STP, não fosse o frio que por cá faz e a ausência de algumas pessoas, que teimam em me lembrar que estou cá de corpo e lá de espírito. Sinto-me a fazer caminhadas, a andar no meio da floresta, a ouvir os pássaros cantar e a água correr por entre as pedras, abrindo caminho onde nunca se pensou possível. Sinto a humidade colar-se à roupa reduzindo os espaços entre a pele e a camisola, sinto os pés escorregarem na lama e o bater do corpo no chão. Rio de novo das quedas e da minha figura enlameada. Sinto-me a chegar à Roça de S. João e a Bombaim, pela primeira vez, e a sensação contraditória que tive - pobre e belo, básico e deslumbrante. Apeteceu-me ficar ali um minuto e uma eternidade, estar acompanhada e sózinha. Foi tão agradável essa oposição de sentires que se perpetuaram em mim e hoje sinto-me lá de novo, no quarto do fundo a acordar às 5 horas com o grito dos morcegos que estavam em período de acasalamento, levantar-me e ver o nascer do sol mais lindo que algum dia pensei ser possível, ali à frente dos meus olhos.

quarta-feira, 2 de março de 2005

Estou a regressar

E nesta altura não penso em mais nada senão em África, apenas em São Tomé e não no Príncipe. Estou concentrada, dedicada quase em exclusividade, em sintonia total com o ambiente: a floresta, o Obô, as caminhadas e as roças, os percursos e as espécies; as praias na sua diversidade, o snorkeling e a observação de espécies, em particular a tartaruga; a aventura possível. Os momentos por lá passados, as emoções vividas, as experiências partilhadas. As pessoas e os sorrisos, as suas expectativas de atingir uma felicidade suprema com tão pouco, a palavra sábia sem cultura letrada, o olhar meigo e conhecedor dos perigos naturais, humanos e dos afectos. Estou a regressar ao paraíso uma vez mais, mas desta vez em pensamento, pelas memórias e pelas lembranças, pela imensa aprendizagem de que beneficiei, pela possibilidade que me foi permitida de crescer através de uma experiência de vida única, memorável, inesquecível.

Entre eles

Entre eles tudo ficava subentendido: o que havia para explicar e esclarecer era subtilmente referido sem aprofundamento; o que era sentido, levemente demonstrado sem continuidade nas acções e nas palavras. Entendiam-se qb, não permitindo comprometimentos. Tudo era e não era ao mesmo tempo, numa rede de contradições, porque para bom entendedor meia palavra basta.
Setembro 2003, STP

terça-feira, 1 de março de 2005

Coisas do coração

"Estranho, como são as coisas do coração! Era possível passar anos e anos habituada à perda, reconciliada com ela e, depois, num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como a de uma ferida aberta"
Donna Woolfolk Cross in "A Papisa Joana", Ed. Presença, pg. 308
VERDADE... VERDADE... VERDADE!!!! É a mais pura das verdades...

Preço

"Parecia ser seu destino deixar sempre para trás aqueles que amava. Era o preço a pagar pela vida estranha que tinha escolhido, mas ela sabia o que fazia, pelo que não valia a pena lamentar-se"
Donna Woolfolk Cross in "A Papisa Joana", Ed. Presença, pg. 265
Como me reconheço nestas palavras... nem eu sei bem como...

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...