domingo, 6 de fevereiro de 2005

A companhia das estrelas

E ali estavam elas de novo, distantes e discretas, as "minhas companheiras estrelas", após umas horas necessárias de chuva. Consegui ver algumas, não todas. Mas é sempre tão reconfortante olhar o céu e vê-las brilhar, lá longe, a proteger-nos, dando-nos a sensação de estarmos acompanhados por uma presença familiar.

A tradição já não é o que era

Considerações sobre uma ida ao cinema (ou OH TEMPO, VOLTA PARA TRÁS)

Os rituais também se transformam, mudam, alteram-se com o passar do tempo. É pena que, nem sempre, se consiga conciliar a modernidade com a tradição. E ir ao cinema já não é o que era, e é pena! Para mim, ir ao cinema é um ritual: a sala cheia de gente que decide sair do conforto da sua casa, mesmo nos dias de frio e temporal, para se sentar numa sala grande, escura, com um écran imenso onde são projectadas imagens que relatam uma história, que não é a nossa mas que, enquanto a presenciamos, temos a sensação que é. Pelo menos um bocadinho. É fantástico chegarmos a horas ao cinema e termos o privilégio de assistir a excertos de outros filmes, que estão ou estarão em breve disponíveis para os vivermos, e para os quais a nossa sensibilidade de aproxima mais ou menos, em função dos temas. E depois, o filme começa com a apresentação, acompanhado de música normalmente adequada ao que vamos ver, e recomeçamos a viver situações protagonizadas por certos actores. Vibramos, sentimos, sofremos, rimos, apaixonamo-nos e desiludimo-nos com eles, e sem nos darmos conta encaixamo-nos na história com uma grande facilidade. Ou costumávamos fazer isso quando a ida ao cinema era um ritual vivido e sentido.
Depois chegaram as pipocas, as coca-colas e outros consumíveis, permitidos e incentivados, por serem uma nova forma de rentabilizar a sessão. A tradicional tablete de chocolate, saborosa e silenciosa, foi substituída por barulhos incessantes, mastigados e sorvidos, acompanhados por mexidelas no balde. É verdade. Como se o cheiro nauseabundo não fosse, só por si, suficiente. Mas a modernice (não modernidade) fez com que o desrespeito aumentasse e passou a comentar-se o filme em voz alta, trocando-se impressões acerca dos actores e até da própria história, como se o realizador nos tivesse pedido. A nós não, a eles! Porque eu sou daquelas para quem o cinema é ainda um ritual, dou comigo, durante uma boa parte do filme, a fazer “shiuuuuuuu” para os vizinhos do lado e de trás. Pior um pouco, a banalização da troca de mensagens por telemóvel imperou e é comum sermos desconcentrados da história por um vizinho que recebe ou envia sms, fazendo emitir uma luz verde, laranja ou amarela, realçada pelo escuro. E ainda, para agravar, há quem já não se contente com o envio das tais mensagens, supostamente rápidas e eficazes, falando mesmo, conversando sobre o que se está a ver e onde se vai logo após o filme.
Parece inacreditável mas é verdade. Uma ida ao cinema pode chegar mesmo a ser uma aventura quando, no meio da excitação provocada por um sms recebido ou até por uma cena do filme, recebemos pontapés nas costas porque o espaço entre filas nunca chega a ser suficiente para que não sejamos incomodados e possamos integrar-nos no que estamos e queremos ver. Ir ao cinema não é fácil...

Viajar

Há poucas coisas que dão tanto prazer como viajar - o sonho da viagem, o ritual dos preparativos, a expectativa de um local nunca antes visto, das histórias que, um dia mais tarde, teremos para contar. Em "A viagem.1" (ver Chuinga) as memórias da infância reavivam-se e os sonhos relacionados com as viagens, em e por África, emergem, deixando-nos a sensação de também termos vivido um pouco daqueles momentos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

Carnaval

Não gosto do Carnaval. Tenho sempre a sensação que, nesta época, toda a gente pensa que tem de se divertir à força, para compensar os momentos pouco animados que tem o ano inteiro. Só que é uma diversão por obrigação, porque é convencional, para não quebrar a tradição. Não é sentido.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Arte e artesanato

A arte santomense é, talvez de todas as africanas, uma das menos divulgadas, pelo que também uma das menos conhecidas no Mundo inteiro. Há uns tempos debateu-se longamente, no e-Grupo de São Tomé e Príncipe, se a produção era artística ou simplesmente artesã. Na altura defendi a minha opinião, o artesanato pode ser uma forma de arte, e em STP há diferentes situações:
- artesanato puro e simples, que diga-se, a bem da verdade, sem grande qualidade ou perfeccionismo;
- a produção artística existe e começa a ser divulgada em Cabo Verde e em Portugal, principalmente, e em grande medida, graças à persistência e ao apoio do João Carlos Silva, na génese artista plástico ("Na Roça com os Tachos", programa culinário da RTPÁfrica e RTP2), actualmente promotor do projecto Agro-Turístico "Roça de S. João" e incentivador dos artistas santomenses através da escola de ensino informal da Roça de S. João e das formações com exposições na galeria Teia d'@rte, na cidade de São Tomé;
- o artesanato pode revestir uma forma de arte.
A minha opinião mantem-se, pelo que apresento alguns exemplos - pinturas, esculturas e trabalhos diversos para o deleite de alguns - muitos, espero.
NEZÓ - a expressiva simplicidade

Posted by Hello
A fantástica arte do MACHIDO

Posted by Hello
Pintor santomense - WALSON - imagem que, a cada vez que a olho, me faz pensar

Posted by Hello
Mais uma do NEZÓ - é fantástico como podemos identificar, sem parar, rostos na sua pintura

Posted by Hello
Pintor Santomense, nunca é de mais vê-lo e revê-lo - NEZÓ

Posted by Hello
Tela exposta na "Teia d'@arte" - São Tomé e Príncipe

Posted by Hello
As famosas, em STP, "catorzinhas" - escultura da Associação PICA PAU

Posted by Hello
Escultura em Madeira - MACHIDO

Posted by Hello
Pintor Santomense - NEZO

Posted by Hello

Dúvida

O que é preferível:
1. aceitarmos um trabalho, mesmo interessante, sabendo que não temos condições para o cumprir com perfeição e seriedade?
ou
2. recusarmos?
Eu optei pela segunda hipótese.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

O que dava por um sonho?

Imagine o sonho da sua vida. Imagine que, à partida, é irrealizável, inatingível, algo com que sonhou durante toda a sua vida e que hoje quando pensa nisso, sente que está a anos luz de o conseguir realizar. Já está? Então agora pense no que estaria disposta a fazer para o realizar e sentir a felicidade invadi-la, nem que fosse por 5 segundos.
Este foi o tema de uma reunião de grupo que nos permitiu analisar... bancos! Mas só o percebemos no final: primeiro discutimos bancos, características, imagem e publicidade, e apenas no final analisámos os sonhos e os projectos. Foi engraçado e interessante porque nos permitiu repensar o que está por detrás da frase - Mil sonhos.

Ao Meu Anjo da Guarda

Meu caro Anjo da Guarda,
Se existes, como se diz, e a verdade é que já senti por mais do que uma vez a acção da tua presença protectora, peço-te que veles por mim nestes dias. Relembro-te apenas que decisões importantes estão a ser tomadas no que respeita ao meu futuro próximo, pelo que a tua colaboração é fundamental, preciosa, imprescindível.
Assina: A Tua Protegida

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

E...

E... a dúvida surgiu de forma implícita e sem ser aprofundada, atirada, no meio de uma conversa, através de uma troca engenhosa de palavras, que ele tanto gostava de utilizar, como meio de a confundir e levando-a a dizer a verdade. Ela emendou-o e ele sorriu. Mas não referiram mais o assunto, aliás como era habitual entre os dois.
Agora, que ele já não está ao pé si, ela escreve a resposta às dúvidas dele porque um dia deixá-lo-á ler, fazendo-o ver que se enganara com o julgamento que fizera a seu respeito:
"Não, o passado não voltou, nem poderia voltar. Há países que ficam para sempre na nossa memória pelos maus momentos e pelas más experiências que vivemos. Há pessoas que nos marcaram de tal forma que jamais as poderemos voltar a amar. E ao contrário, há países aos quais nos sentimos ligados para sempre pelos dias felizes que tivemos. Há pessoas por quem sentiremos sempre um carinho muito especial. Tu fazes parte destes últimos. Ficou claro?"

Dependências

Há dependências de todas e cores e feitios, das mais diversas formas e dimensões, que se adaptam melhor ou pior ao estilo de cada um. É uma tarefa difícil fazer com que algumas pessoas as reconheçam como suas, sobretudo quando toca a temas sensíveis. As mais comuns são já corriqueiras de tão banais - o tabaco, o café, as pastilhas elásticas, os chocolates. Depois aparecem outras, que também estão vulgarizadas, como o álcool e as drogas - por todos os cantinhos se vende e se consome. Principalmente no que respeita as estas últimas, os riscos são infinitos e as consequências devastadoras. Não é fácil reconhecê-las como nossas, pelo estigma que carregam, mas todos conhecemos alguém que já passou ou está a passar por uma delas, ou até pelas duas, e tendencialmente escondemos o facto. Há a dependência do trabalho, que nos retira qualidade de vida, começando por ser um refúgio.
Mas há outro tipo de dependências, que chegam a ser doença, e que representam um tabu, do ponto de vista social - pouco se fala delas e quando se fala, é com 30.000 cuidados. Nesta categoria inclui-se o sexo, puro e duro, sem ligação, sem sentimentos e sem afecto. E normalmente não pensamos desta forma, mas há quem seja sexodependente, quem necessite de sexo para viver como outros precisam de água, de alimento ou de um sono descansado. Há pessoas que fazem do prazer físico, de natureza sexual, a sua forma de vida. Não, não falo de quem faz disso profissão, porque esses são casos de necessidade e não de dependência. Falo dos que vêem a vida exclusivamente com base na dimensão hedonista ligada ao prazer físico-sexual, os que não conseguem entender que os outros tenham outra forma de o encarar, aqueles que concebem o acto sexual com um sentido meramente utilitarista. Estes que, sem sexo, se sentem absoluta e profundamente derreados, ultrapassados, menosprezados e infelizes.
Mas se para as outras dependências existe cura, com certeza que para esta também haverá, só que para isso, será com certeza necessário um reconhecimento prévio, pelo próprio. E isso não é, de facto, fácil de conseguir.

Olhe que já está na altura...

E lá estava eu no Vitor em Alcabideche, restaurante que faz parte das memórias da minha infância, a conversar com um dos empregados, que conheço desde que me lembro de existir.
- Então... e já se casou? - perguntava-me ele meio receoso de me ofender, à medida que se ia informando acerca da vida de cada membro da família.
- Não, ainda não - respondi sorridente e certa que, desde que as oportunidades afectivas tinham surgido na minha vida, a opção de me manter fiel aos meus princípios tinha sido a melhor de todas.
- Mas olhe que já está na altura... uma rapariga assim, sem marido...
E eu ri com vontade, pois o que havia eu de fazer mais perante tal perspectiva.
- Há tempo, se tiver de ser - respondi-lhe para o tranquilizar.
- Mas os filhos deviam vir - continuava ele, cheio de boa vontade, numa tentativa de me convencer da importância do casamento na vida de uma jovem senhora.
- Pois deviam, mas ainda não houve oportunidade para pensar nisso...
- Mas nem tem pretendentes? - continuou ele com incredulidade.
- Sim, pretendentes há, mas não são convincentes. Sabe que os homens dão muito trabalho... e ainda não tive coragem para aceitar esse emprego. Às vezes, a melhor opção, quando não há certezas, ou quando as há sem vontade, é mesmo não criar confusões na nossa e na vida dos outros.
- Ah... mas desde que seja a pessoa certa...
- Pois é essa é a grande dificuldade, encontrar a pessoa certa. Vai na volta e tenho andado nos locais errados - respondi a rir.
E com este argumento ele ficou mais conformado, deu-me uma palmadinha no ombro, piscou-me o olho, sorriu e concluiu:
- Deixe lá, há-de aparecer...
Eu sorri e pensei - mas afinal todos pensam que por não se ser casado é-se menos pessoa. Pois é, a altura certa... e esta, será que deve acontecer quando os outros assim o consideram, ou quando a sentimos verdadeiramente?

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...