sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Desabafo de um homem com coração de manteiga

Diz-me, como se pode gostar tanto de alguém, infinitamente, até à exaustão, como eu gosto de ti? Porque é, por vezes, o amor um investimento pouco rentável, não tendo retorno? Porque será que quanto mais gostamos e nos entregamos, menos somos apreciados? Porque terão os sentimentos de ser um jogo?
Estou farto, cansado de ser um dos teus brinquedos preferidos, um pião que vai rolando ao sabor dos teus desejos. Estou fora, out, indisponível, a partir de agora para os teus anseios, vontades e caprichos. Vai pedir a outro que te escute os lamentos e te aconselhe nas inseguranças. Para ti, saí!

Lágrimas

Hoje é o dia das lágrimas, longas e grossas, gordas e corridas, seguidas umas às outras, térmicas pelas diferenças de temperatura que emitem, transformando-se segundo após segundo. Umas quentes e outras frias, transmitindo sentimentos fortes de raiva e desilusão, de melancolia e tristeza. Quero chorar até nada mais sentir e me passar toda a ebulição sentimental que vive dentro de mim.

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces. Estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem: "vem por aqui!". Eu olho-os com olhos lassos, (há, nos olhos meus, ironias e cansaços) e cruzo os braços, e nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...Se ao que busco saber nenhum de vós responde. Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos, a ir por aí... Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens, e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós que me dareis impulsos, ferramentas e coragem para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, e vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, amo os abismos, as torrentes, os desertos...Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tendes tetos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; mas eu, que nunca principio nem acabo, nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, é uma onda que se alevantou, é um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí!

JOSÉ RÉGIO


Sábio Pedido

"Senhor, Ajuda-me:
A mudar o que pode ser mudado;
A aceitar o que não pode ser mudado;
A aprender a distinguir uma coisa da outra
(...)
Sem a arrogância das certezas absolutas..."

Selecção

- Se fica sempre chateada com algumas atitudes, porque insiste em dar-se tanto?- perguntou-lhe o conhecido que, com o tempo, adquiriu o estatuto de Amigo.
- Porque... - respondeu Clara desorientada - pois... para ser franca, também não sei bem.
- Você dá-se às pessoas que não a merecem e que não reconhecem as suas qualidades, aproveitam-se de si e ainda se divertem à sua custa. Tem de aprender a seleccionar e, antes de se entregar a quem e de que forma seja, a saber distinguir as boas pessoas, que lhe interessam, e as outras, que não interessam a ninguém - afirmou ele com sabedoria.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Cansaço

Fui invadida por uma onda de cansaço e desalento, e nem sei explicar porquê. Talvez saiba mas não queira dizer ou pensar nos motivos reais que me causam tamanha sensação de desconforto físico e psicológico. Pensar dá agora trabalho, demasiado, e desgasta só de imaginar as conclusões a que poderia chegar. Não sei sequer se o esforço tem retorno, por isso... dou comigo apenas a tomar consciência do cansaço, num crescendo imparável, até me sentir tão esgotada que ter os olhos abertos já é uma prova quase sobrehumana da minha boa vontade e persistência.

A melhor defesa é o ataque

É espantoso como algumas pessoas manifestam o medo: de perder estatuto e reconhecimento; da competição profissional e científica; da troca de ideias e da valorização de áreas temáticas diferentes das que defendem. É curioso, tenho de dar o braço a torcer e reconhecer que um amigo tinha razão quando me dizia há uns tempos, a propósito de outros negócios (é que a expressão adequa-se e muito bem): "A melhor defesa é o ataque".

Ódios de Estimação

Os ódios de estimação são fundamentais para que possamos levar uma vida tranquila e equilibrada qb e, se não existissem com certeza tudo seria muito mais difícil de suportar. Afinal são eles que nos dão alento, nos dias em que tudo nos está a correr menos bem, e quando a Lei de Murphy se revela como verdadeira. É neles que descarregamos a nossa raiva e os sentimentos menos edificantes, a maioria das vezes de forma indirecta. Falamos acerca das suas vidas, comentamos criticamente as atitudes que consideramos socialmente desadequadas, a vida amorosa e o percurso profissional, sabemos tudo ao pormenor e, quando não sabemos, procuramos manter-nos informados, porque só assim continuamos a alimentar e a estimar o nosso adorável ódiozinho. Na verdade, revelam-se excelentes elementos motivacionais para nos tornarmos melhores, dia após dia, sobretudo diferenciando-nos do que eles são.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Amendoeira em flor

À porta da minha casa vive uma amendoeira brava/selvagem. Ninguém a plantou, pelo menos que se saiba, e ninguém se ocupa a cuidar dela. Todos os anos em Janeiro floresce e, de ano para ano, com maior robustez e vigor. Creio que este ano está no seu auge: cheia e de tal forma carregada de flores brancas que não caberia nem mais uma. Todos os dias, pela manhã e à noitinha cruzamo-nos e troco duas ou três palavras com ela. Pouco percebo de flores mas dizem que gostem que se converse com elas, mas percebo de pessoas e tenho a certeza que a conversa nos faz bem, temos a sensação que nos ouve e que partilha connosco as alegrias e as tristezas, as angústias e as preocupações, os desejos mais profundos. Quando está vento, como hoje, os ramos baloiçam, as flores e as folhas, que as acompanham, mexem-se, fazendo-nos acreditar que têm a sua própria capacidade de comunicar, concordando connosco, ou pelo contrário fazendo-nos ver que não estamos certos e que devemos ouvir a voz da razão. E hoje, apesar do vento, que soprava com intensidade, a amendoeira em flor estava acompanhada de uma lua, meia cheia meia vazia, mas muito luminosa. Foi uma imagem absolutamente inspiradora e tranquilizante.

Página sobre STP

Mais uma página sobre STP - Além de fotografias antigas contem referências históricas, de enquadramento, referências ao Parque Obô e sugestão de percursos a efectuar, com indicação do tempo necessário, entre outras. Vale a pena fazer uma incursão por lá, porque apesar de não estar muito aprofundado em relação a algumas temáticas, é mais uma referência, e essas nunca são demais.

Testes

A minha perplexidade foi total. Fui fazer testes de selecção que contemplavam três dimensões: prova escrita de português, conhecimentos de inglês e aptidões de matemática e estatística. É verdade, eu tive 18 valores, em 20, na disciplina de Estatística na faculdade, mas foi no 1º ano da licenciatura em Sociologia, ou seja em 1987, e estudei que me fartei. Ouvi falar em muitas coisas e aprendi os rudimentos, mas nunca ouvi falar no teste Kolmogorov-smirnoff. Se as duas partes dos testes correram de forma ligeirinha, para o último simplesmenre não há palavras. Foi indescritível!!!!
Vim para casa e pesquisei - já percebi que é um dos testes não paramétricos, tal como o qui quadrado. Mas, para que serve e como se chega lá... pois isso não!

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Os Meus Queridos ex-Alunos

Tenho de confessar que me agrada muito receber notícias dos meus ex-alunos, sejam eles portugueses ou africanos, vivam no continente ou nas ilhas (Portugal), em África ou noutro qualquer local do Mundo. É verdade, muitos estão hoje espalhados por outros locais - Cuba, Brasil, Argélia, Espanha, França. E, quando abro o mail e vejo que me escreveram - para saber como estou, para contar os sucessos que têm tido e para pedirem conselhos que possam acalmar, de alguma forma, as angústias que sentem - não posso deixar de sentir orgulho e alegria. Lembraram-se de mim e, de uma maneira ou de outra, entendem-me como uma referência, gostaram de mim e, depois de ter passado a fase formativa na qual intervi, procuram manter o contacto, sem esperar nada em troca, a não ser algumas palavras de incentivo que revelem interesse pelo seu percurso e pelas suas vidas. Na verdade, tratam-me de forma carinhosa e afectiva, reclamando um pouco de atenção. O que me agrada verdadeiramente é sentir que gostam de mim.
Este post é dedicado aos meus Queridos ex-Alunos, esperando que continuem como até aqui, a progredir, a amadurecer, a crescer, a ultrapassar dificuldades com sabedoria e muita preserverança, sem desanimarem, com a consciência de que podem fazer mais e melhor. Sempre, porque estão no caminho certo.

Maxim.net

O Maxim.net é um site interessante, tradicionalmente vocacionado para STP, mas onde se encontram muitas referências a outros países africanos. Vale a pena consultar, de vez em quando, pelas notícias culturais, pelas fotografias, pela possibilidade de se trocar impressões e ouvir opiniões diversas.

Moçambique III

Nem sempre a vida nos sorri - pensava Lai, sempre que recordava Mi e tudo o que viveu em Moçambique – Muitas vezes, sem nós percebermos de imediato como ou porquê, não nos é simplesmente permitido realizar afectos de forma contínua, nem sonhos. Tudo fica tão aquém do que idealizámos, pelo menos na altura em que desejámos. Não compreendemos atitudes nem comportamentos. Nem podemos, pela simples razão que desconhecemos as motivações e as razões. Mas isso, a bem dizer da verdade, pode ser uma grande sorte. Afinal, mesmo que, na altura devida, tivéssemos conhecimento de tudo o que se passava por trás do inexplicável, com certeza não teríamos aceite a “balbúrdia africana vivida à europeu”. Não, não era isso que queria ou que quero.
Lai pensava e, sempre que a conversa podia surgir, procurava esclarecer Mi acerca da sua forma de entender a vida, as relações interpessoais, o passado e o presente. O que foi já não pode ser e basicamente ela não quer que venha a ser. Mi não aceitava, ou dizia não aceitar por não acreditar nas palavras de Lai. Para ele, tudo se resumia a uma visão simples, porquê complicar? Uma conversa simples e um café derivavam necessariamente em envolvimento carnal, não necessariamente afectivo e, preferencialmente não sentimental. Mi tentava levá-la, uma vez mais, a seguir as palavras doces e ternas, que tanto a cativaram quando as ouviu, pela primeira vez, na envolvência do ambiente tropical de uma África longínqua, misteriosa e promissora que a levaria à realização dos desejos mais profundos. Naquela altura, algures nos finais do século XX, Lai era uma jovem senhora, que procurava preservar a inocência dos contos e histórias de príncipes, princesas, lugares paradisíacos e vidas felizes, de preferência para sempre. E procurava viver situações típicas de argumento de filme, esquecendo que essas não se transpõem para além do écran.
Mi não foi propriamente um príncipe e de encanto teve pouco ou quase nada. Não queria nem o poderia ser algum dia. Por isso, porquê a insistência? - pensava Lai. E, aos olhos dela, caía nas incongruências típicas de uma pessoa como ele, só que agora já não lhe passavam despercebidas. Tanto dizia que a amava e que queria casar com ela, construir uma vida em comum e ter filhos, como no minuto seguinte relatava, com pormenor, as mulheres que faziam parte da sua vida. Se há um bom par de anos Lai pensou em casar com Mi, mesmo que por pouco tempo, hoje, ao ouvi-lo falar nisso, nem que fosse uma única vez, soava-lhe a brincadeira de mau gosto, a tema pouco credível.
Lai passou a olhar Mi com dúvida e incerteza e essa era, na verdade, a única e possível forma de o entender.

Invariavelmente

os acontecimentos repetiam-se, os pensamentos sucediam-se e as dúvidas surgiam. Já não podia dizer com certezas se a realidade que vivia era mesmo pintada com aquelas tonalidades ou se tudo não passava de era mera ficção.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

In

É costume conotar o prefixo "in" com a moda e as tendências actuais - todos desejam ser e estar, conhecer os locais mais "in" e frequentá-los, ter amigos "in", jantar e passar férias em locais "in". Porquê? Por ser vulgarmente entendido como um sinal de boa integração social (económica, política, cultural e...). Basta pensar na palavra original anglosaxónica, mas esta, normalmente, bem utilizada.
Mas todos se esquecem que o prefixo, só por si é uma contrariedade, o oposto da afirmação. Peguemos, como exemplos, nas palavras indecisão, indiferença, intolerância. São de tal forma negativas que geram maus sentimentos (e pensamentos). A decisão é positiva, bem como a diferença associada à tolerância, tanto na esfera pessoal como na vida profissional. Mas parece que muitos se esqueceram e alguns não sabem mais o que querem. É desestruturante tornando-se confuso, como eu diria hoje aos meus interlocutores, a meio de uma reunião marcada pela indefinição, pela incerteza de vontades, resultando em indecisões.

Sunrise

Sunrise Sunrise
Looks like morning in your eyes
...
Surprise Surprise
Couldn't find it in your eyes
But I'm sure it's written all over my face
Surprise Surprise
Never something I could hide
When I see we made it through another day

Norah Jones

domingo, 16 de janeiro de 2005

Equador, uma vez mais

Após quase 2 anos do "Equador" ter sido editado e lido por uma grande parte dos portugueses - a confirmar pelo número de edições - a irmã era das poucas resistentes que ainda não lhe pegara, apesar dos comentários repetidos, das referências e citações que ouvia, por parte de todos. O livro era fantástico, descritivo qb, um romance apaixonante e viciante, que se tinha pena de deixar quando se chegava à última linha, tendo de se aceitar que terminara. Apetecia relê-lo, uma e outra vez. E mais, falava de STP, aquele magnífico país, permitindo ao leitor uma viagem sem deslocação efectiva.
Um dia perguntou-lhe - Onde está o Equador? Quero lê-lo. - e, após as primeiras impressões, ficou também ela rendida, seduzida pela escrita e pela forma ímpar de relatar, descrever a paisagem, as praias, os momentos de lazer, as angústias e as paixões, os sentimentos mais acesos e intensamente vividos, as relações sociais e a forma como os estrangeiros por lá viviam (e continuam a viver).
A história passa-se há muito muito muito tempo, na altura em que havia governadores, não circulavam carros e as pessoas se deslocavam a cavalo, quando a chegada ao arquipélago era invariavelmente feita de barco, após uma longuíssima e interminável viagem, a terra era trabalhada, por escravos e a economia, de base agrária, era rentável. Mas apesar de tudo se passar numa altura em que ainda havia reis, rainhas, príncipes e princesas em Portugal, o livro é de uma actualidade impressionante, traduzindo uma observação, uma reflexão e uma análise precisas e rigorosas. Apesar dos erros históricos que alguns apontam, mas que são desculpáveis por se tratar de um romance, histórico é verdade, mas romance.
"Na sexta-feira, véspera do baile, a cidade de S. Tomé fervilhava já com os comentários e as histórias do novo governador, passadas de boca em boca, de loja em loja. Nos seus primeiros dias de governo, o novo governador ainda não subira lá acima, às roças (...). Em vez disso, passeara-se de trás para a frente na cidade, entrara nas lojas, cumprimentara os comerciantes e conversara com os fregueses (...)"
Brilhante!

Pôr do Sol

Não se cansava de observar o céu que lhe transmitia boas sensações, principalmente à medida que o final do dia se aproximava. Naquela tarde estava pintado por uma mistura de tonalidades fortes, apesar do frio que fazia, alternando entre o rosa forte e o azul intenso. Cores tão diferentes do pôr do sol africano, pensou, mas igualmente belas, sedutoras, inspiradoras, reconfortantes.
Adivinhava-se um céu estrelado, iluminado por uma lua tímida, em quarto crescente, que apelava à ternura e envolvência de um toque, uma carícia, um abraço, um beijo. Também de um pensamento, de um desejo esperado e de um encontro aguardado. Sonhado.

Gastronomia de STP

Nos últimos dias têm-me pedido receitas de pratos típicos santomenses. Claro que não poderia deixar de pensar no calulu e no angu de banana, no polvo e no pudim de coco. Para já fica a contribuição de uma receita possível de calulu (há formas muito diferentes de o preparar, podendo utilizar-se diferentes folhas, ervas e condimentos, difíceis de encontrar em Lisboa - folha de mosquito, folha de ocá, loba, mambleblê, libo, folha de tartaruga, otáge). O da Inácia - uma das melhores cozinheiras de STP - é inesquecível e incomparável, mas não cheguei a pedir a receita...

Calulu de Frango/Galinha:1 frango (1,200 kg), 250 g de mussua (couve), 1 molho de agriões, 40 g de farinha de trigo, 1 dl de óleo de palma, 2 tomates, 2 cebolas, 6 quiabos, 2 dentes de alho, 3 beringelas, 1 folha de louro, 1 ossame, 1 raminho de manjerona, Água, pau-pimenta, sal e malagueta.
Corta-se o frango aos bocados. Deita-se num tacho, com a couve cortada como para caldo verde, o óleo de palma, as cebolas e os dentes de alho picados, os tomates, sem peles nem sementes, os quiabos, cortados aos bocados, as beringelas, sem peles e cortadas às rodelas grossas, o louro, o ossame e o pau-pimenta, pisados, a manjerona, o sal e a malagueta. Leva-se ao lume e refoga, adicionando uns golinhos de água. Juntam-se os agriões. Cobre-se tudo com água e deixa-se cozer. Na altura de servir, mistura-se a farinha, desfeita num pouco de água, que ferve para o molho engrossar. Serve-se com arroz ou angu às bolas. Nota: Mussua é uma qualidade de couve que há em S. Tomé. Pode substituir-se por couve portuguesa.
O Angu de Banana: 10 bananas cozidas com casca, que se descascam, esmagam e amassam, criando uma massa compacta.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

Uma surpresa agradável

Um dia recebi um mail de um membro de um e-grupo de debates sobre STP, ao qual pertenço desde o início da sua constituição, dizendo apenas "preciso de falar consigo". Pensei cá para comigo "quem será este e o que é que quererá?". Respondi-lhe. Ele queria essencialmente ouvir as minhas impressões acerca do projecto que estava a implementar no arquipélago, uma iniciativa de TT, inédita e com particularidades. Afinal eu trabalhava sobre países africanos há algum tempo, conhecia muito bem STP e estava a preparar a pesquisa para o doutoramento, sobre turismo ecológico, o que implicava uma deslocação longa com estadia por lá.
Não fiquei imediatamente seduzida pela ideia, devo confessar, e adoptei uma atitude crítica em relação a muitos aspectos, entre os quais a organização, o planeamento, a preservação ambiental e os cuidados a ter nessa matéria, a forma como os contactos interculturais iriam ser estabelecidos e por aí fora, os cuidados de saúde pública a ter. Fiz recomendações sem fim e alertei-o para os principais riscos - às tantas parecia um corvo agoirento. Mas eu conhecia bem o país, as comunidades locais e principalmente os estrangeiros residentes, estes aparentemente sempre disponíveis mas na realidade apenas à espera do primeiro precalço para darem início à sessão de crítica e maledicência. Eu não queria que isso acontecesse.
A minha ideia era - e é ainda - que o projecto tinha de ser bem sucedido a todos os níveis, e assim muitas mentes supostamente pensantes e influentes iriam ficar sem fala com os resultados. Não poderia haver por onde pegar e para isso tudo tinha de estar perfeito.
Começámos a trocar impressões através de mail e do msn, comigo sempre de pé atrás, representando para ele uma medida de aferição da receptividade e da exequibilidade do projecto. Passou muito tempo, desde as conversas iniciais até ele me convencer que era uma iniciativa de cooperação, ambientalmente integrada e promotora de intercâmbio cultural assente no respeito e na valorização das diferenças.
Acabei por o conhecer em STP, passado um bom par de meses. Encontrámo-nos por lá poucas vezes e, quase sempre de raspão, jantámos em casa de um amigo meu uma vez e a minha atitude crítica manteve-se sempre presente.
Aquando da realização da primeira edição, apoiei-o em STP, escrevendo, mais do que uma vez, para a "revista piá", estabelecendo alguns contactos instituicionais e resolvendo questões pontuais. A minha visão crítica foi-se mantendo em certa medida até hoje. Mas ganhei carinho pela iniciativa e fiz um amigo, que se preocupa comigo e me apoia quando necessário. Ele pode bem dizer o mesmo em relação a mim. Na verdade, os contactos por mail diminuiram e pelo msn terminaram simplesmente, mas, de quando em vez, escrevemos a saber notícias e vamo-nos mantendo informados sobre as evoluções pelas quais vamos passando. O projecto, esse, contiuou e continuará, apesar da minha perspectiva mais cautelosa e das apreensões que me caracterizam naturalmente, vai sendo aperfeiçoado com o tempo. Quem sabe se não radica na preserverança tranquila do João Brito e Faro o sucesso da iniciativa.
Mas, quando penso naquele mail inicial, devo reconhecer que resultou num conjunto de agradáveis surpresas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Segredo Estatístico

Teve lugar hoje no Hotel Altis o Seminário Princípio do Segredo Estatístico, iniciativa conjunta do INE, Conselho Superior de Estatística e GPLP (Ministério da Justiça), onde foram tecnicamente debatidos temas muito pertinentes no contexto actual e muitíssimo interessantes. Despertou-me particular interesse a relação entre a protecção de dados estatísticos e a investigação científica. No início fiquei apreensiva, dado que um dos intervenientes proferiu afirmações pouco simpáticas a este respeito, mas a honra dos investigadores foi salva pelas restantes comunicações. A investigação científica deve ser considerada uma excepção. Faz sentido, afinal o que é de nós investigadores se não tivermos acesso aos dados produzidos por fontes oficiais e credíveis? E há ética na investigação científica. Deve haver, pelo menos!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Um Mundo diferente aqui tão perto

Há locais magníficos em Lisboa. A Estufa Fria é um deles. Talvez por me lembrar África, no geral, e São Tomé, em particular. Talvez por ter um sentido pedagógico implícito e estar associado ao lazer. Talvez pela companhia. Talvez por ter a sensação de não estar em Lisboa: é calmo e transmite tranquilidade à medida que vamos avançando pelos caminhos. Talvez pela densidade de vegetação e pela coloração da paisagem nos transmitir uma sensação mágica.
Tem uma diversidade imensa de flores e de plantas, incluindo cactos, muitas delas tropicais. Intercalado com a densidade de vegetação, estando a maioria das plantas catalogada, surgem cursos de água, pequenas fontes, lagos e caminhos feitos com pedras no meio da água. É magnífico.
Pena é que não se vejam rãs, nem sapos, nem pássaros em quatidade. Mas é boa a possibilidade de vermos patos (reais, mudos e tantos outros) e gansos, em plena actividade, no lago externo à Estufa, mesmo ali, no Parque Eduardo VII.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Não, não é!

Não, não é uma fuga, apesar de alguns estarem a pensar que sim. Nem uma ausência voluntária por motivos menos claros, ou que eu não queira clarificar. Trata-se apenas de problemas informáticos, para os quais não tenho soluções. Este é um mundo que não domino de todo. Esta pequena caixa com quem partilho os meus dias, os meus segredos e anseios, o meu trabalho e as minhas pesquisas, de quando em vez, decide pôr-me à prova. A mim, à minha paciência e à minha resistência. Um dia passo-me e atiro-o pela janela fora! Ele ainda não percebeu que não é insubstituível e, apesar de termos uma relação que já vai em 6 anos, o que faz de nós bons conhecedores dos mútuos defeitos e que por isso nos deveria tornar mais tolerantes, começa a irritar-me profundamente. Um dia troco-o, por outro com uma melhor performance. Mas só depois de defender a bendita tese que fez com que o conhecesse. Não é utilitarismo... é sentimentalismo, apesar de tudo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Motivos para sonhar

É bom termos motivos para sonhar e andar nas nuvens. É como se os maus momentos ficassem esquecidos para dar lugar à esperança, que renasce. É sentirmos que temos as condições reunidas para encarar um novo dia com um sorriso.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

A Saga do LZEC em São Tomé e Príncipe

O LZEC, evento de Todo-o-Terreno que tenho referido mais do que uma vez, está a ser contado com pormenor no Mosquitto, conforme indiquei em 31/12/2004 no post "Histórias que passam por África".
Mas tenho de reforçar que está a ser actualizado e a 4ª parte da saga já pode ser lida. Melhor... é mais do que recomendável - é que, modéstia à parte, fala de mim e bem. E uma coisa destas tem de ser divulgada... Ops...

Golfinhos e outros mamíferos

O "Projecto Delfim", do Centro Português de Estudo dos Mamiferos Marinhos, abrange STP e outras regiões insulares africanas - Bijagós e Ilha de S. Vicente em Cabo Verde. A seguir...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

A personalidade e o Forte Velho

- Gosta de escrever? - perguntou-lhe aquele homem com ar sério, olhar fixo e expressão fria.
- Sim - respondeu ela com o entusiasmo habitual e o sorriso tímido sempre presente quando lhe era proposto um novo desafio.
E assim começou um diálogo de desencontros de objectivos e de entendimentos. Marta aceitou o convite do "homem com ar sério" para um novo trabalho, que iria exigir algum esforço dela mas, por ter esperança de ser bem sucedida, entendeu a proposta como uma oportunidade. Ele tinha por principal finalidade resolver as mágoas de um amigo, a quem ela não tinha dado 1 segundo de atenção afectiva, e nem sequer lhe passou pela cabeça que algum dia viesse a publicar qualquer trabalho dela, por mais qualidade que tivesse. Isto não passava de um jogo para que ela aprendesse a valorizar o que eles entendiam que realmente era importante.
A proposta era interessante - escrever um livro baseado em histórias de vida de africanos em Portugal, por categorias, o exilado, o político, o estudante, o empresário, e por aí fora. Ele ofereceu-lhe um livro, que ela mais tarde devolveu, que serviria de modelo e que a editora que ele representava havia publicado em França, histórias de vida de portugueses emigrados. Marta conhecia bem África e contactos de africanos em Portugal, que tinham vindo por 1 mês, 1 ano ou 1 vida, não lhe faltavam. Sentia-se à vontade e apesar de ser trabalhoso, era mais do que aliciante. Associado ao projecto-livro, estaria a criação de um centro de investigação que ele também pretendia dinamizar e, como ela tinha experiência suficiente nas funções mas estava à procura de emprego, seria ouro sobre azul.
Acertaram pormenores e no final da reunião, ele convidou-a para um café. Ela achou estranho mas não ousou duvidar do "homem com ar sério" que lhe tinha sido apresentado como o ex-assessor de um político importante, ex-jornalista de um semanário famoso e suposto historiador com curriculum na área editorial.
O café não poderia ter corrido pior. A ingenuidade de Marta não a fez acreditar na má fé do homem e ele deixou de imediato transparecer o que lhe ia na alma. Não a poderia ter tratado pior, com insinuações desgastantemente ordinárias, com abordagens fúteis e directas, com avanços que as pessoas menos instruídas não ousariam ter com qualquer mulher. Marta não acreditaria na conversa se não estivesse a ouvi-la e só pensava "tirem-me daqui...", mas não havia ninguém a quem o pudesse pedir naquela altura.
Finalmente foi para casa a pensar nas motivações daquele homem, que sem a conhecer, após a oferta de trabalho, a tinha tentado seduzir sem subtilezas, tratando-a mal. Por certo estava a confundi-la. Foi a situação de assédio mais directo que teve, em trinta e tal anos de vida. Inacreditável, inqualificável, inconcebível.
Ele deu-se mal porque ela não cedeu um milímetro e ganhou-lhe tamanha aversão que, no dia seguinte, lhe foi devolver o livro, sem o ver, deixando o envelope no porteiro do prédio onde a editora funcionava. Acabou por cortar de vez com qualquer tipo de contacto, mesmo o cordial com o amigo do "homem com ar sério", após ter compreendido a arquitectura montada.
E durante quase um ano não ouviu mais falar de tal peça. Mas hoje, a frase por ele utilizada "podemos ir ao Forte Velho", bar de fama duvidosa, ali para os lados de S. João, repetiu-se uma vez mais na cabeça dela, sobretudo porque na sequência vieram outras menos agradáveis e mais directas à mensagem que ele procurou transmitir, a comparação entre Marta e uma moça com modos de vida nocturnos.
Mas ela não gostou da comparação, o que só a valorizou perante tamanha perversão. Afinal, por quem a tomava ele, quando nem a conhecia? A verdade é que o amigo do "homem com ar sério" tinha tido um interesse por Marta, que nunca o valorizou, apaixonando-se por um outro. Ele nunca lhe perdoou a falta de interesse e fez tudo por se vingar com esta e outras brincadeiras de mau gosto, prejudicando-a e fazendo-a sentir-se mal.
Marta nunca mais quis ouvir falar deles, até ao dia em que nas notícias ouviu que o "homem com ar sério" era um dos elegíveis de uma lista que se candidatava às eleições. "Vai virar figura pública e vou ter de o ver algumas vezes a entrar pela minha casa dentro" pensou com ar entediado. "Falta ver se será figura pública no país ou de um outro reino, o do Forte Velho".

Lembranças

E todas aquelas fotografias tinham um efeito melancolicamente positivo sobre ela, faziam-na reviver momentos únicos, de alegria e de esperança, alguns menos bons, maus até, mas que foram sempre sucedidos de novas alegrias e que, por isso, ela relativizava. Procurava, a todo o instante, valorizar o tempo bem passado, com companhias agradáveis, rodeada de natureza, fosse praia ou floresta. O que contava para ela era que as paisagens intensas lhe transmitiam paz e tranquilidade, revitalizavam-na e permitiam que os melhores sentimentos emergissem. Ela procurou, tanto para trabalho como para ocupar os tempos livres, ambientes de tal forma preservados que se revelavam inspiradores. Acabou por associar os dois tipos de actividades, no trabalho fazer o que gostava, junto dos animais e das plantas.

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Acreditar nas diferenças

Não queria acreditar nos gestos, nas palavras e nos olhares, mas os reencontros contradiziam a sua vontade. Apesar das diferenças mais do que evidentes, o sentimento ressurgia, uma e outra vez. Na verdade, nunca deixou de estar presente, apesar das ausências...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

domingo, 2 de janeiro de 2005

Não gosto de anos bi-sextos

Não gosto de anos bi-sextos, pode ser superstição mas a verdade é que me correm mal em quase tudo: na família, no amor, na saúde, no dinheiro, no trabalho e nas realizações. E para grande pena minha, 2004 não foi excepção, as coisas não me correram nada bem e, para ser franca, estava desejosa que terminasse e que desse lugar a um novo período, quem sabe a um novo ciclo.
Não precisaria de confirmação porque a minha experiência - não é que seja assim tão longa mas a suficiente para me conferir alguma autoridade para falar acerca da matéria - já me dava essa indicação. Mas como meio de certificação das minhas desconfianças e má vontades, muitos foram os acontecimentos que, em 2004, comprovaram que os bi-sextos são anos azarentos, que auspiciam calamidades, infortúnios e desgraças.
Mas finalmente ele terminou e é uma sorte só termos outro daqui a 4 anos... Até lá esperemos (e façamos para) que a paz possa reinar, acompanhada de esperança, de bem estar e de felicidade. Onde quer que estejamos, vivamos o 2005, ano melodioso e com uma sonoridade alegre quando o referimos, com um sorriso. E, segundo os entendidos na matéria, 2005 será um ano de realizações para a maioria dos signos e o meu é altamente bafejado pelas conjugações astrais, já que os planetas estão todos de feição. E com esta notícia até me sinto mais revigorada para ultrapassar alguns obstáculos que possam surgir.

Eduardo Malé - pintor poeta

Quadro apresentado na exposição "Permissão para Sonhar" (Batalha, Dezembro 2004)



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UM TEMPO DE ESPERA
Um tempo de espera
Um tempo de escolha
Um tempo que nunca chega
Um tempo que desespera

Um tempo que dá tempo
Um tempo que não tem tempo
Um tempo que transporta sons e batuques
Um tempo para sonhar
Um tempo de alegria

Um tempo que anima e desanima
Mas um tempo que não é tempo
Um tempo que é todo tempo

sábado, 1 de janeiro de 2005

Esperança renovada

Parecia que estava difícil mas 2005 chegou, trazendo consigo a esperança da renovação e a alegria de viver. Mais uma vez a sensação é de ter deixado os maus momentos para trás, não esquecidos porque isso nunca se consegue, guardados e bem fechados para que não regressem. É boa a sensação de renovação, de acreditarmos que merecemos ser felizes e que termos a oportunidade de concretizar sonhos, quaisquer que eles sejam. E eu acredito que é possível!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

Kitanda

No Kitanda, a frase de entrada é enigmática mas tão bonita... e há mais do apenas esta. Vale a pena ver. "Das poucas lembranças que trago da vida, África é a saudade que mais gosto de ter"


Histórias que passam por África

O promotor do LZEC relata a história do evento por partes/capítulos. A 1ª parte, a 2ª parte e a 3ª parte já estão disponíveis. Referências a Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe claro, com fotografias. Aguarda-se o desenrolar da história com a publicação dos novos capítulos e quem sabe de mais fotografias.
Outras histórias e outros autores podem ser lidos em O Mosquitto, todas relacionadas com TT e muitas passando por África.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

Desejos e palavras

Palavras, leva-as o vento - pensou - deve ser por isso que guardamos os desejos no fundo de nós mesmos. Assim, como não os expressamos em palavras, o vento não os pode levar e nem sequer a tempestade mais forte. E se não os conseguirmos realizar da forma que planeámos, podemos atribuir as causas a muitas coisas, mas nunca à materialização em palavras. Desta vez vou guardar bem, muito bem mesmo, os meus desejos para que ninguém os adivinhe e para que as tempestades não se atrevam a roubá-los. Fazem-me falta...

FELIZ 2005





Mais um ano termina e mais um se avizinha: a esperança que renasce, na expectativa de alterarmos o que não gostamos nas nossas vidas e de melhorarmos o que somos. Período de reflexão positiva, por excelência...
Um FELIZ 2005 PARA TODOS!!!


Comemorações: 4/11/2004

Comemorações da abertura da fronteira entre Moçambique e a Swazilândia


Fonte: Panapress
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

Panapress, Agência Panafricana de Notícias

Vale a pena navegar pela PANAPRESS que, além de ter notícias actualizadas do magnífico continente, tem uma excelente base de dados temática e por país.

E ainda...

um outro blog sobre África que é imperdível, pelo conteúdo que ns faz reflectir e pelas fotografias.
O Bazonga da kilumba foi-me recomendado e com razão.

África em poemas

Se o Fazendo Caminho já nos permitia sonhar um pouco, o Fazendo Caminho II faz-nos rever paisagens através da poesia e reviver sentimentos nos versos. Simplesmente lindo!!!

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Confissões de curta vida africana

E no meio da conversa, ela optou pelo monólogo. Tinha de falar, de contar - não tudo, apenas uma pequena parte do que foi e viveu. Ele não ia ficar a saber nada, pelo menos dos factos mais importantes, para o bem e para o mal. Mas precisava de partilhar alguma coisa do que já vivera. E com um desconhecido, as palavras fluíam melhor. Ele escutava-a com atenção redobrada, tentando encontrar pontos de ligação, apesar de não o conseguir. Talvez um dia, quando a conhecesse melhor e partilhasse algo mais do que apenas um café e duas horas da sua companhia. Se o destino o quisesse e assim o entendesse, teriam oportunidade de falar, de partilhar o passado, o presente e de construir um futuro. Se não pudesse ser, já ficava contente, afinal ela confiara-lhe algo que tinha dificuldade em relatar aos mais próximos. Por isso, escutava-a:
"A que Áfricas vou? Para já às que falam português - não sei se é bem dizê-lo desta forma, mas é a verdade. Olhe, hoje apetece-me conversar. E já que me perguntou, vou explicar um pouco o que me fez ir até África, contra tudo e contra quase todos os que fazem parte da minha vida.
Fui à Guiné, em tempos, e a Moçambique. Ultimamente tenho ido a S. Tomé, sem Príncipe porque inacreditavelmente... em 5 anos de idas e vindas nunca fui ao Príncipe, fui sempre adiando. Passei por Annobon, Guiné Equatorial, mas foi apenas uma passagem e não uma estadia. Quem sabe se poderei passar a outras Áfricas que não falem português. Penso voltar aos 3 "eleitos" e associar mais alguns no próximo ano e por mais uma temporada.
O que fiz por lá? Coisas diferentes em todos eles e, em STP, muitas. Na Guiné colaborei com uma ONG local, financiada, claro está, por instituições internacionais, na avaliação de micro-projectos de desenvolvimento local, comunitário e participativo. Foi a minha primeira incursão por África, não conhecia ninguém e resultou, na altura, numa vivência fortíssima, marcada por um sentimento de isolamento muito grande, onde senti inúmeras dificuldades pelas características sociopolíticas e económicas. Era a época do Nino Vieira e aquilo não era fácil. Apesar de ter sido muito bem acolhida e de todos terem sido muito afáveis comigo, estive todo o tempo desejosa de regressar à base e à minha normalidade, rotineira, segura e muito programada, com horários encadeados, relações pouco fortes mas seguras, uma vidinha pouco emocionante mas confortável qb. Hoje gostava de lá regressar e espero consegui-lo nos próximos anos. Penso muito naquele país, nas tradições e nas formas de vida, nas coisas que me fizeram confusão mas que hoje entendo muito melhor.
A verdade é que, se a experiência foi dura na altura em que lá estive, o "bichinho" por África ficou e a minha vontade de conhecer mais sítios, confrontar culturas e ter novas vivências foi aumentando à medida que a rotina se instalava. A vida que tinha aqui podia ser confortável, mas no fundo... era uma chatice! Sempre igual e repleta de obrigações. Profissionalmente estava bem, com uma posição também confortável, cada vez com mais responsabilidades e mais estatuto, mas... havia qualquer coisa que me deixava insatisfeita. E assim... aparece Moçambique, onde estive de passagem, em viagens de curta duração, nada de muito importante, mas tenho de reconhecer que foi um país que me marcou, principalmente a nível pessoal e do qual gostei tanto que espero também voltar.
Como já tinha o "embate" da Guiné, não me senti tão estranhamente confrontada com a cultura africana, com os modos de vida e com as posturas dos africanos. Mas, mais uma vez, não regressei igual ao que fui. Muitas coisas mudaram em mim naquelas curtíssimas estadias e creio que cresci, talvez não da melhor forma, uma vez mais. Mas amadureci, com certeza. Tal como na Guiné, mas por motivos diferentes, senti solidão, ausência, angústia e sentimentos pouco claros com os quais não estava habituada a lidar. E de novo regressei à minha rotina, com horários, estabilidade, pouca emoção mas era o que se arranjava.
De repente, meio caído do céu, aparece-me uma hipótese de começar a colaborar, pontualmente no tempo com STP. E fui. Era um país novo, que me apetecia conhecer, pequeno, muito seguro já que é conhecido como o país com menos criminalidade do mundo, com pessoas novas, que poderia conhecer e num trabalho aliciante. Destes trabalhos surgiram outras propostas e passei assim 3 anos, a ir e a vir, o que culminou com a minha mudança para lá, onde vivi durante 1 ano. Fiz investigação, colaborei com organismos públicos, fiz conferências e comecei a colaborar com uma revista local.
A partida foi muito dura, bem como o regresso porque, misturado com o facto de me ter apaixonado pelo país e pelas pessoas logo na primeira ida, deixei-me apaixonar por lá, pela pessoa errada. O regresso foi necessário, por muitasrazões. Mas não deixei de lá ir, de tempos a tempos. E espero um dia regressar, quem sabe para ficar uma longa temporada, ou quem sabe uns dias apenas. O futuro o dirá e não faz bem tentar adivinhar o futuro.
Esta é a minha história africana, resumida ao possível. Se me perguntar se gosto de África... Do que conheço, sim! Gosto muito. Da disponibilidade, da facilidade dos contactos que se estabelecem, de forma natural, das paisagens, dos sorrisos, da comida, do clima, da forma como se sente por lá. De... de... de... são tantas as razões que é difícil explicar. E posso dizer-lhe que nunca tive estadias fáceis."

Conversa, Viagens e África

- Viagens é um tema tão interessante, independentemente do destino - disse ela com ar sonhador - Os destinos das nossas viagens dizem algo a nosso respeito, não acha? Eu, ultimamente, tenho viajado mais para África, por necessidade e por gosto, por trabalho e por paixão.
- Eu também viajei por África durante muito tempo - respondeu ele com gravidade - A minha África tem vários tempos, vários destinos e várias razões... Mas hoje os meus destinos são mais "tradicionais" - respondeu com uma expressão séria - Acabei por criar raízes e espero não voltar a África. Já não consigo viver num local onde, salvo raras excepções, amanhã será certamente pior do que hoje e melhor do que depois de amanhã.
- Os destinos tradicionais são muito agradáveis, depende do momento que se vive, não é? - respondeu ela - E sabe uma coisa? Faz bem em ter criado raízes. Algum dia isso acaba por acontecer a todos.

The Polar Express

Muito recomendável para Todos os que:
1. NÃO acreditam que o Pai Natal existe;
2. Acreditam na magia do Natal;
3. São crianças;
4. São adultos (com ou sem crianças).
Vão ver The Polar Express - de preferência na versão original. É fantástico em tudo: imaginação, interpretação, efeitos, música, imagem/fotografia e... o final é fabuloso!

domingo, 26 de dezembro de 2004

Pensamentos sobre a Vida

"Não lamentes nem sintas pesar pelo que jamais pode acontecer... Em vez disso, celebra o que virá"
" (dirigia a sua vida) Com um estilo nascido do puro instinto, transmitia claramente a sua satisfação pessoal. Era uma mulher de negócios competente, que gostava de lucros e de levar a melhor. Sempre. Porém, dentro dos seus próprios termos. O que a aborrecia, ela ignorava. O que a intrigava, porém, ela perseguia, buscando respostas."
Nora Roberts, "A Ilhas das Três Irmãs"

Viver o Natal

Ao contrário da maioria dos adultos que conheço, para quem o Natal é uma obrigação apenas minimizada pelas prendas, para mim, é uma época fantástica, em que sinto que a mistura da fase infantil com o estado adulto é possível. É delicioso sentir a magia do Natal e sonhar uma, e outra, e outra vez ainda.
Gosto das luzes e de ver as iluminações nas ruas da baixa lisboeta, do cheiro, do frio e do bolo rei, de preparar os doces, o perú e o recheio, de me certificar se a mesa ficou pronta, com a vela acesa, à espera do Pai Natal, que está muito velhinho e cansado, porque vem do Pólo Norte e faz uma viagem longa só para nos fazer felizes.
Há muito que não vivia o Natal de forma tão intensa como neste ano porque tenho chegado a casa nas vésperas, vinda do calor africano onde a imagem e a vivência natalícias são bem diferentes, com a cabeça confusa de tanta mudança e sem tempo para me preparar interiormente. Mas este ano foi diferente e soube-me como a vida. Bem, muito bem mesmo!
Tive tempo para tudo o que há tanto tempo planeava - fazer a lista de Natal e pedir as dos outros, falar com o Pai Natal e acertar os presentes, comprar o perú e todos os ingredientes necessários, a abóbora e os ovos para os doces, fazer a árvore de Natal e o presépio, com a alegria da companhia dos mais novos, ouvir músicas de Natal e cantá-las baixinho porque alto não pode ser, fazer os doces no dia 24 de manhã, amassando os ingredientes numa massa que se vai transformando ao longo da manhã, ter o privilégio de provar o primeiro exemplar de cada doce, temperar o perú na véspera como manda a tradição, preparar o recheio de castanhas e assá-lo devagar, ao longo da tarde...
E no final de tudo isto e mais algumas coisas, senti-me feliz!

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

Triste História - Em Moçambique 2

Lai recorda-se da curta estadia em Zongoene como se tivesse acabado de viver aqueles momentos. Tudo foi novo para ela, sobretudo as atenções e os cuidados que Mi revelava com ela, por tudo e por nada. Viveram-se momentos intensos num clima tranquilo, entre colegas e um desconhecido, de quem ela desconfiara tanto, mas que se ia revelando, minuto após minuto, um homem interessante. Falava com à vontade e conhecimento de qualquer tema e demonstrava estar bem informado sobre a ciência no geral, as questões sociais em particular, a literatura e a filosofia, o ambiente, a economia e a política. Conhecia todos por lá e todos o tratavam com cordialidade, o que não era estranho dado ser este o seu trabalho, mas era absolutamente reconfortante porque fazia dele uma pessoa confiável. Numa palavra era um cavalheiro.
Durante aqueles dias, Zen e Los não largaram Lai com piadas e sorrisos que a iam deixando desconfotável e sem graça, corando e revelando, de forma inconsciente, que ele não lhe era indiferente. À conta de tanto o repetirem, Lai começou a perceber algum interesse manifesto de Mi, mais do que seria habitual, e sabia-lhe bem tanta procura e atenção, sobretudo porque acreditava que esta era uma situação passageira, sem outras consequências além do conforto para o ego. A ideia de se envolver afectivamente com Mi estava longe da cabeça de Lai para quem os afectos não surgiam de forma repentina.
A generosidade dele confundia-a e por isso procurou abordar a questão em conversa privada com a amiga, com quem partilhava o quarto, como preocupação – era bom mas estranho. Ela estava habituada a viajar pelo Mundo inteiro, desde que se conhecia como gente, e nunca tinha assistido a tamanha oferta por parte do dono de uma agência de viagens. Afinal este era o seu trabalho, como poderia oferecer sem parar? Mas para Zen tudo era demasiado simples. Mi queria envolver-se com Lai e era uma forma de se aproximar dela, insinuando-se e com demonstrações de afecto. Mas Lai não queria acreditar nesta hipótese porque tudo lhe parecia demasiado básico e linear, ela nunca tinha vivido uma história assim e não seria esta a primeira, argumentava cheia de certezas.
Quando a hora da despedida surgiu, ficaram as promessas de Mi de uma visita e de um reencontro com todos, passado pouco tempo, para um prometido bacalhau à brás, que fazia as suas delícias, segundo dizia.
A viagem Maputo-Lisboa foi feita sob o efeito anestésico de uma série de evidências que Lai se recusava a reconhecer, sobretudo para os dois colegas, mas que a deixavam nas nuvens. Mi não era bonito, era um homem com um físico banal, dotado de uma proeminência estomacal que revelava alguma tendência para a bebida, aliás confirmada com a estadia em Zongoene. Mas era muito simpático, atencioso e cativante para trocar dois dedos de conversa.
O regresso ao trabalho foi penoso depois daquela temporada passada nos trópicos e o tema de conversa rolava à volta das fotografias e de lembranças alegres, descontraídas e promissoras. A troca de mails iniciou-se de imediato, tornando-se mais do que diária, quase horária e daí às conversas em tempo real através do messenger foi um passo. A ansiedade do reencontro cresceu e Lai respondia aos mails de Mi, que não escrevia a mais nenhum dos colegas, com gosto de dedicação, esperando nova mensagem, ou melhor novo texto, extenso, longo, traduzindo vontades que ficaram por satisfazer.
E o final de Setembro daquele ano, já lá vão 6, chegou e Mi aterrou em Lisboa com vontade de ver e rever Lai. Ligou-lhe numa manhã de domingo e combinaram um almoço, em casa de uns amigos dele, de sempre. Foi estranho aquele dia e auspiciou a melhor e a pior sucessão de acontecimentos que ela viveu até hoje.
Depois de um arroz de pato na casa do casal amigo, que olhava para ela com desconfiança, onde existiam duas adolescentes e uma criança, duas iguanas enormes num aquário gigante na cozinha e um hiper cão preto no pátio exterior, Lai e Mi sairam e foram passear até Sintra. Falaram durante horas, que passaram num ápice enquanto tomavam um café prolongado no Moinho, de tudo e de nada, do passado e do presente e quando chegaram às Azenhas do Mar, como se de cena de filme se tratasse, Mi agarrou-a e beijou-a, lenta e ternamente com as ondas a rebentarem mesmo atrás deles.
E lá começou mais uma história que poderia ter tido muitos finais diferentes, mas aquele que estava destinado foi infeliz, marcado por desencontros, ausências e incompreensões.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

Imaturo desagrado

Há um tempo atrás ter-te-ia perguntado, com o ar ofendido que só as crianças sabem expressar quando as fazem desacreditar por fim que as estrelas não são estrelas, porque me continuas a chamar imatura. Hoje percebi que devo ter crescido de repente porque não consegui traduzir-te numa expressão o meu desencantamento e também não tive vontade de fazer a pergunta. Mas desiludiste-me... sobretudo porque não percebi a razão!

domingo, 19 de dezembro de 2004

Triste História: Em Moçambique I

Numa das Áfricas por onde passou, e numa das viagens de curta duração, Lai conheceu um homem misterioso, para quem a vida era um fardo, as acções e os comportamentos dos outros um enfado. Era um homem estranho e que, pela diferente forma de ser e de estar, lhe foi despertando curiosidade.
Conheceram-se, sem que ela o procurasse ou desse, de imediato, com a sua presença. Na verdade, nem sequer simpatizara com ele de início, pela forma directa e incisiva com que a abordou, opinando sobre as melhores opções que ela deveria tomar para ocupar os tempos livres, sem que ela lhe tivesse pedido qualquer indicação.
Lai recorda-se com exactidão desse dia. Estava com uma colega, que, com o tempo, se tornou amiga, e trocavam impressões acerca de uns dias livres que tinham e que queriam aproveitar. Zen queria ir para Bazaruto, um arquipélago lá para o norte, que se revelou incomportável, pelo preço e pela distância, mas o desejo era praia, pelo que qualquer outro local, que fosse dotado de extensos e desertos areais e de um mar a perder de vista, era o ideal. Lai, por sua vez, tinha o fascínio dos animais e ver elefantes e outras espécies em habitat natural era o seu sonho. Conversavam animadamente com uma loura que as atendia, de quem Zen tinha conseguido o contacto através de uma das inúmeras primas que tinha. A loura estava impávida e quase serena a escutar os argumentos de Lai, que vestia uns calções tipo macaco, brancos, encarnados e azuis, justos que realçavam o corpo, então torneado.
De repente, aparece um homem, alto, forte e alourado que, com a propriedade do conhecedor, propõe uma alternativa que poderia servir às duas - uns dias num lodge junto à foz do rio Limpopo onde a praia seria a tónica dominante mas com possibilidade de observar espécies. Lai olhou-o de relance e pensou quem seria este a opinar sem que lhe fosse pedido. Desconfiou de imediato e não sentiu empatia. Zen gostou dele, como quase sempre acontecia, por ser uma mulher crédula, apesar de mais velha e supostamente mais experiente.
Aceitaram a proposta e acertaram os pormenores e no dia combinado, para espanto das duas e de Los, o único colega do sexo masculino que as acompanhava, quem apareceu para os levar foi o patrão, nada mais do que Mi. Lai procurou dormitar os cerca de 300 km que efectuaram até ao destino, porque não se sentia confortável com a presença de Mi, que se tornava permanente, e enquanto os outros conversavam alegramente acerca de tudo o que iam encontrando.
A chegada foi fantástica e a imagem que Lai teve foi de se sentir num paraíso onde reinava a tranquilidade e a beleza da paisagem. Os quartos eram cabanas com telhado de colmo, enquadradas por vegetação pouco densa e um rio, o Limpopo, grande, extenso, pouco límpido. Mi foi-se aproximando de Lai, criando oportunidades de maior contacto e procurando o conhecimento. A estadia foi passada em conjunto e as actividades realizadas a quatro - Lai, Zen, Los e Mi. Foi divertido e tiveram momentos inesquecíveis que, apesar de tudo o que veio depois, Lai não apagará da memória, pelo encantamento reencontrado.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

Natal em África

Há algum tempo que não vivia a época natalícia de forma intensa. Nos últimos anos tenho estado em África, no caso em São Tomé, chegando a Lisboa nas vésperas de Natal. As compras estão sempre feitas, o que não me obriga a recorrer aos centros comerciais apinhados de gente à procura da compra ideal no dia 24. A verdade é que tenho chegado e a sensação é estranhíssima: ver as ruas iluminadas, as pessoas num movimento imparável, o cheiro a castanhas assadas por quase todos os sítios por onde se passa, o trânsito pior do que é hábito.
Tenho-me poupado a algum stress mas tenho também perdido a parte boa: programar as festas, pedir as listas de desejos, para "falar com o Pai Natal", ver os ajudantes de Pai Natal nas ruas e relembrar a infância, quando o mistério nos fazia ficar acordados só para o ouvirmos, sem termos autorização de ir até à lareira. A verdade é que nem sequer tenho tido coragem de fazer os doces, pelo que os tenho comprado feitos e nas reuniões familiares sinto-me alheada das conversas e dos risos. E a sensação que tenho tido é muito estranha, de desenquadramento e de necessidade de ter mais tempo, sem ter o direito do pedir, para me adaptar à "movida" natalícia.
Em África, o Natal é vivido de forma muito diferente: não há frio e as folhas não caem das árvores; não há homens a vender castanhas e as ruas estão pouco iluminadas; não há pinheiros para enfeitar, nem musgo para o presépio; a "loucura" das compras não se coloca porque há pouco para comprar. É, para mim, a época mais difícil de viver em África, sobretudo por não ter a minha família por perto.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Dia de Sol

Gosto: dos dias de sol, sempre que as nuvens e a chuva vão de férias para outro qualquer local e o vento está de greve; de sentir a energia dos raios solares que progressivamente me aquecem a alma e os sentidos; de me esperguiçar em frente ao mar, azul, denso e calmo; dos pores do sol em céu límpido, quando as tonalidades fortes, rosadas, amareladas e azuladas me inundam a visão. Sinto-me feliz quando, mesmo no inverno, olho o céu e sinto que os Deuses se lembraram de me transmitir paz e tranquilidade. E, se tenho esta agradável sensação quando estou sózinha, mais feliz fico quando posso partilhar a alegria do bem estar com pessoas de quem gosto, amigos de sempre e outros mais recentes, que conheci pelas mais diferentes paragens, sobretudo por essas Áfricas, tão densas e ricas em emoções e formas de sentir, onde reaprendi a apreciar uma paisagem e um pôr do sol.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Avaliações

A pior tarefa da actividade docente é, em minha opinião, a correcção de testes/trabalhos/exames, seguida da obrigatória avaliação quantitativa. É terrível atribuir uma nota, entre 0 e 20, à prestação de alguém e, além de tudo o mais, é uma tarefa muito cansativa, por vezes exasperante...

domingo, 12 de dezembro de 2004

Saudades de África

De tempos a tempos sinto saudades de África, pela ausência de um conjunto de coisas que se vivem lá e que cá não se têm, sobretudo quando o frio me enregela os movimentos e me esfria os sentidos.
Tenho saudades do calor intenso salpicado por uma densa humidade, do cheiro misturado a terra molhada com frutas frescas, da sensação que por lá o tempo pára, permitindo-nos vivências redobradas, da ilusória receptiva disponibilidade que se procura ter entre todos, sem na verdade se ter.
Tenho saudades das praias de águas tépidas e transparentes habitadas por uma infinidade de espécies, das areias finas e dos coqueiros que, de vez em quando, libertam de forma natural um fruto, emitindo um som inigualável.
Tenho saudades da vegetação e dos animais, da vida ao ar livre e em contacto com a natureza, onde se aprende por observação directa, escutando as explicações de quem nos parece ter nascido ensinado, com dons e conhecimentos próprios, só possíveis naquelas terras, que vão sendo transmitidos de pais para filhos, sem paragens.
Tenho saudades de rir sem parar, de me sentir criativa quando procuro conchas ou cocos para decorar interiores, depois de os tratar e envernizar, de ouvir músicas ternas e envolventes, de inventar receitas para partilhar com um alguém que sinto como especial.
Tenho saudades dos mercados e das palaiês, das frutas e de tudo quanto se pode fazer com elas, dos peixes com nomes estranhos e do marisco com os mesmo nomes e aparências diferentes.
Tenho saudades de sentir saudades da civilização e do desenvolvimento, do cinema e do frio, dos livros e de vinhos caros, do conforto e de um centro comercial onde se possa gastar dinheiro a comprar coisas que nunca nos farão falta.
Tenho saudades até um dia voltar.

sábado, 11 de dezembro de 2004

Guardar o Encantamento

(Para o BLU)
Há momentos na nossa vida - dias, semanas, meses e anos - que, por terem sido tão felizes, queremos guardar para sempre, com a ternura das primeiras impressões, o entusiasmo dos primeiros olhares, os sorrisos abertos permitidos pelas primeiras trocas de palavras, as primeiras gargalhadas francas, seguidas de todas as outras, e o arrepiar dos sentidos com os toques iniciais. Quando pensamos no que veio depois questionamo-nos com frequência se terá valido a pena tanta entrega e desejo alimentado. E o balanço é: SIM!!!! - pela certeza de termos vivido momentos únicos de encantamento que nunca nos poderão ser retirados, por mais ou menos que venhamos a viver com um outro alguém.
O que é verdadeiramente maravilhoso numa relação amorosa é sentirmo-nos encantados com o Mundo que o Outro nos ensina a descobrir, as coisas que sempre estiveram à nossa frente e que antes não víamos, pela simples razão que Ele não estava connosco. É fantástica a possibilidade consciente de partilharmos ideias, pensamentos, visões, situações que jamais se repetirão porque cada momento só se vive uma vez. É magnífica a perspectiva de nos entregarmos e de alguém se entregar a nós, num sentimento recíproco e vivido na mesma altura, com intensidade e dedicação, com uma vontade espontânea e natural.
E tudo isto, continuo a querer acreditar que, vivi contigo, por isso quero guardar comigo o encantamento do primeiro entusiasmo, que sei que não se poderá repetir, o desejo criado com o primeiro toque, a descoberta partilhada de um Mundo que se nos apresentava como novo, apesar de não o ser. O balanço foi positivo. A ternura com que te olhei uma, e outra e tantas vezes, a compreensão com que escutei as tuas palavras, das mais meigas e doces às mais duras, o desejo que despertaste em mim, até sentir por ti um sentimento que até hoje ninguém me despertara, tudo isto e tanto mais procuro guardar dentro de mim, para sempre. Terna e docemente, com encanto.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Quadrante, CCB

Não me canso do CCB. Confesso que, no início, a aquitectura me chocou um pouco, mas com o tempo, por assistir a espectáculos e visitar exposições temáticas, de quando em vez, fui-me habituando ao espaço e hoje considero-o mesmo muito agradável. Principalmente porque o "Quadrante" permite longas conversas sem estarmos, a toda a hora, a ser confrontados com novos consumos. A filosofia é viver o espaço, tomar um café ou uma água, ler um livro, trabalhar descontraidamente ou conversar, sem a sensação dos vizinhos das mesas próximas estarem a sorver as nossas palavras. E a possibilidade de nos sentarmos na esplanada, virados para o rio, tendo como cenário o fantástico Padrão dos Descobrimentos, permite-nos viver sensações inigualáveis, porque maravilhosas. O "jardim das oliveiras", que não sei se é denominado mesmo assim ou se tem outro nome, é um espaço de referência, pela beleza e pela harmonia das formas, pela tranquilidade da fonte e pela presença dos pardais. Deslumbrante!

Pintura

Hoje o céu foi pintado por mãos sábias e inspiradas, criando um cenário digno dos eleitos. Permiti-me usufruir de um deslumbrante pôr-do-sol, de um céu pintalgado de tonalidades, intercalando o amarelado com o rosado num fundo azul claro, marcado por ligeiras nuvens brancas, colocadas em faixas paralelas e quase simétricas. Sózinha contemplei aquela imagem e senti-me invadida por uma inexplicável e irrelatável tranquilidade, um sentimento reconfortante de segurança e protecção celestial. Foi estranho mas muito agradável. E esta imagem só pode ter sido possibilitada por um pintor divino.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

África...

um magnífico continente de contrastes que se observam e que se vivem...



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Revista "piá" (São Tomé e Príncipe) de parabéns

A revista "piá" (São Tomé e Príncipe) faz dois anos este mês. De parabéns estão os dinamizadores da iniciativa que têm trabalhado de forma incansável, com persistência e determinação (em particular a Mena e o Nilton Dória), os colaboradores fixos ou pontuais, através das investigações e conhecimentos partilhados nos textos cedidos e publicados, e todos os leitores que têm permitido que este jovem projecto de comunicação social/informação santomense siga em frente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Ylang Ylang

O Ylang Ylang é uma planta muito conhecida e apreciada pelas propriedades que lhe são atribuídas e pela diversidade de utilizações possíveis: a cosmética, a aromoterapia e a medicina alternativa. É denominada por Cananga Odorata Genuína e dita "flor das flores", "flor das pétalas douradas", "rainha das flores", "árvore do perfume". É linda e o aroma que emana é fantástico e inesquecível. As primeiras que vi foram em São Tomé e Príncipe, um pouco espalhadas por todo o arquipélago. Mas a imagem mais fenomenal é a da varanda da Casa Azul na Roça Agostinho Neto, com chuva torrencial - o som forte da chuva e o aroma intenso e envolvente do ylang ylang ficarão para sempre retidos na minha memória. É esta flor que os fabricantes de perfume tanto procuram. Fantástica porque olhando para ela não é mais do que uma florzinha igual a 100.000 florzinhas. Mas quando nos habituamos, passa a ser a nossa florzinha...



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Triste Lucidez

Percebera por fim, ou talvez desde sempre, que ele não chegara a amá-la. Nem a ela nem a nenhuma das mulheres que passaram pela vida dele. Amava-se principalmente a si próprio e, por tanto se amar, necessitava de ser amado por muitas mulheres, tantas quantas conhecesse, e o que o fazia viver era a perspectiva de haver um mundo por descobrir, um universo feminino infinito e cheio de potencialidades. Todas eram tão parecidas e, na verdade, tão diferentes. Essa ideia, apenas essa, seduzia-lhe os sentidos, fazendo com que se rendesse a um encanto, a outro e outro ainda. E ela tornou-se na mulher mais consciente que algum dia conhecera, triste mas consciente.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Real Café

Magnífico, brilhante, a repetir e a recomendar!
Fui convidada para jantar num restaurante chamado Real Café, por cima da Real Fábrica, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa (213870648). Nem queria acreditar porque eu conhecia bem aquela casa - viveu lá uma amiga minha de infância/adolescência e muitas vezes, quando ia ou vinha do Britânico, subi aquelas escadas para conversar um pouco.
Subimos as escadas e, para meu maior espanto e surpresa, se era possível..., dou de caras com um dos gerentes, o Sr. Rogério do Luar da Boavista, da Hatari e da Confeitaria do Marquês. Era verdade, muitas vezes almocei e jantei no Luar da Boavista com colegas, quando estava na UAL. A festa foi recíproca já que era cliente habitual antes de ir para S. Tomé viver, e sempre fui muito bem tratada. Desde o meu regresso e porque estou um pouco "longe" da Boavista, não os visitara, pelo que este reencontro foi marcado por grande contentamento.
A comida é excelente, bem confeccionada e com gosto, com uma boa selecção de vinhos, o atendimento magnífico e o espaço simples mas de requinte agradável.

Anomalias

Por falar e pensar tanto em África, fui ter, vá-se lá saber como, ao Anomalias. Simplesmente magnífico nas fotos que apresenta, nas informações disponibilizadas e nas pistas de reflexão. Faz pensar...

domingo, 5 de dezembro de 2004

Guiné, uma vez mais

Um amigo parte amanhã para a Guiné, um amigo que conheci em São Tomé, já nem sei há quanto tempo. Homem da agricultura, do café e das plantações, das longas caminhadas pela floresta, dos jardins e das flores, das explicações detalhadas e das conversas respeitadoras. Um homem como há poucos, sempre com uma palavra amiga e um olhar mais do que compreensivo, sem segundas intenções.
Hoje escrevi-lhe para lhe desejar boa sorte nesta nova fase africana - ele não conhece a Guiné - porque tudo vai ser novo para ele. A Guiné é uma África bem diferente de S. Tomé, é mesmo África, pela dureza das vivências, pela densidade da paisagem, pela complexidade das culturas, pela diversidade étnica. E quando lhe escrevi lembrei-me do que por lá vivi. Foi de tal forma marcante que ainda hoje, passados quase 10 anos, penso naqueles sorrisos e naqueles olhares, que se me pedissem para descrever numa palavra, diria que o sorriso é terno, o olhar intenso e as faces meigas.
Espero que ele se dê bem, que tenha cuidado com as aventuras em meio natural - as cobras, os jacarés nos rios e as formigas, são os principais riscos. Além do paludismo, mas esse ele já conhece.
E espero que coma muitas mangas, das que abrem, das fibrosas, das verdes, das vermelhas, das amarelas e das laranja, de todas porque são sumarentas e magníficas; ostras; camarão; ananás; banana; coco; mancarra (o amendoim); caju, fresco e seco; e tudo e tudo. E que não olhe muito para o céu para não se confrontar a toda a hora com os jagudis (abutres) que pairam sem parar. Que aproveite e se divirta, com cuidado e cautelas, que dance muito e passeie mais.

Olhar

"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"

Mário Quintana

Conversa profunda...

- Casas comigo? - perguntou a jovem rapariga apaixonada
- Agora não tenho tempo - respondeu o namorado enquanto a abraçava e beijava, procurando dar andamento aos afectos
Ela afastou-se e com tom aborrecido respondeu:
- Não percebo. Afinal, porque é que os homens se dão ao trabalho de andar a correr atrás das mulheres durante tanto tempo, com dedicação e promessas infinitas, se depois não querem casar com elas...?!
- Mas olha lá, já viste que os cães também correm atrás dos carros, às vezes durante muito tempo e por distâncias longas, ficando cansados, mas na verdade... não os querem conduzir!!! - respondeu ele prontamente

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Kho Sante



Posted by Hello

O que é um Amigo

Em África há uma enormíssima contradição, a maior de todas, para os portugueses que procuram (con)viver uns com os outros - todos são "grandes amigos" mas em nenhum se pode confiar verdadeiramente. Fui jantar com uma amiga, que conheci numa das Áfricas pelas quais passei, e falámos sobre as amizades. Dizia-me ela que era estranho que no nosso grupo de amigos houvesse tanto maldizer, comentários sobre a vida alheia, mas sem que os próprios tivessem conhecimento directo, não se podendo portanto defender. Eu já sabia, até porque fui, entre outras pessoas, um dos alvos dessas conversas. E, a dada altura, tudo passou a ser demasiado óbvio.
Amigos por lá fiz poucos, tal como toda a gente. Mas no que toca a conhecidos... fiz muitos, conhecia toda a gente e toda a gente me conhecia. Ela estava desagradada porque não compreendia como, pessoas que estavam permanentemente juntas, que não faziam nada umas sem as outras, que partilhavam momentos - bons e maus - vivências e tudo o que fosse, podiam criticar-se tanto, sem frontalidade, sem abertura, sem sinceridade. Parecia-lhe uma atitude desonesta, por parte desses "amigos".
Vim para casa a pensar que a vida é muitas vezes injusta e severa, que as provas pelas quais temos de passar não nos facilitam os maus momentos, agravando-os e que as pessoas em quem procuramos confiar, em certos contextos, não merecem um minuto do nosso pensamento, quanto mais dias, semanas e meses de convívio. Pensei no que ela teve necessidade de me contar ao fim de tanto tempo, e falei pouco, como seria de esperar dado o tema da conversa ser sensível. E lá fui reler um dos livrinhos de bolso, temáticos.
"Um amigo é alguém que pensa em ti e te ouve e te ajuda a saber o que tu és. Alguém que te ajuda a descobrir as coisas, alguém que está contigo e não tem pressas. Alguém em quem tu podes acreditar".
in Um Amigo, Editorial Presença

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Silêncios, palavras e gestos

E no silêncio olhaste-me, procurando transmitir-me a ternura que me roubaste há uns tempos, como se o olhar fosse suficiente para apagar actos antigos, inqualificáveis e injustificáveis. Mas olhando-me, e revendo os minutos de infelicidade, não conseguiste proferir uma única palavra. Os encontros eram marcados pela cobrança retardada, pelos gestos desencontrados, pelas vontades incompletas e fugidias, pelas palavras desejadas mas não ditas, pelos gestos de afeição que nunca chegaram a ser expressados. Na impossibilidade de nos fazermos entender e aceitar, ficámos a ouvir os Toranja que cantavam na rádio:
"Não falei contigo com medo que os montes e vales
que me achas caíssem a teus pés...
Acredito e entendo que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir faça bem ao escudo que és...
Saudade é o ar que vou sugando
e aceitando como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede a pairar
sobre o mundo e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua numa chama minha e tua.
Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos cujos vidros vais pisando...
Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números raízes quadradas
de somas subtraídas sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado e à palma da tua mão..."
E tentaste tocar-me, uma vez mais, e beijar-me, apesar da minha resistência, quando as palavras relatavam o que sentias e que não conseguias expressar:
"Desculpa se te fiz fogo e noite sem pedir autorização
por escrito ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos que voltei a encontrar em ti..."
E olhando-te, agora eu, percebi que fui apenas o refúgio dos teus sentidos, um pedaço de silêncios perdidos que tentastes voltar a encontrar em mim... apenas...

Projectos, novos projectos

De repente, os projectos apareceram e, como de costume nestas coisas, todos ao mesmo tempo. Ao princípio temos a sensação que não conseguiremos dar conta de tudo, mas com o tempo, com uns bons exercícios de sistematização e de relaxamento mental, percebemos que somos muito polivalentes e que as nossas capacidades são infinitas. E sentimo-nos vivos de novo, revitalizados, felizes.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

Aprendi

Em África aprendi a ouvir mais do que falar. Saber ouvir o que os outros arranjam para nos dizer, apesar de não haver nada de novo, só porque não sabem lidar com o silêncio, é uma grande virtude. E, além do mais, protegemo-nos muitíssimo, o que é magnífico. Basta sorrir para darmos a entender que, sem o sentirmos, partilhamos da mesma preocupação - falar, comentar, criticar e destruir a vida alheia. É o savoir vivre africano...

Paz

Na verdade, uma das coisas que mais procuro é viver em paz, comigo e com os outros, não causar estragos e não me intrometer na vida e nos relacionamentos de quem quer que seja. Quero viver tranquilamente, depois de me ter reconciliado com a minha consciência. Estou em paz e é assim que quero estar.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...