segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

Há 1 ano

Há 1 ano que não vou a África. Lembrei-me disso, hoje por acaso, talvez pelo frio que sinto, pelo dia triste que esteve - o céu cinzento, a neblina, as temperaturas pouco confortáveis, que me fizeram ir a correr comprar lenha para a lareira. É verdade, neste ano ainda não tinha tido o prazer de a acender e de ficar a olhar as labaredas cor de fogo, de sentir o bafo quente que de lá sai e de ouvir a lenha a crepitar, à medida que vai ardendo. É uma magnífica sensação, esta que o inverno permite, transformando minutos de prazer num conforto infinito.
E fui pensando: tenho de preparar, para a festa de anos de logo à noite, a mousse de chocolate com bocadinhos de toblerone, que, em África, aprendi a fazer com um amigo, que primava pela criatividade gastronómica. A receita foi improvizada mas saiu tão bem que, por cá, já não querem a minha mousse de chocolate sem esse pequeno grande pormenor, que a torna tão diferente e tão especial.
Xê... há um ano, tinha eu acabado de chegar a Lisboa, vinda de STP e nem cheguei a fazer um doce para o jantar. Mas hoje tenho tempo para isso e muito mais. Engraçado como, num ano, tanta coisa pode acontecer.

Frio

A pele arrepia, os músculos contraem e os ossos enregelam até doer. A alma esfria e o coração congela. Está frio e as saudades de África aumentam. E de ti também.

sábado, 22 de janeiro de 2005

Porque é que as pessoas se casam?

- Porque é que pensa que as pessoas se casam? - perguntou a mulher ao detectiva quando o visitou para investigar o motivo das ausências e das chegadas tardias do marido.
- Por paixão... - respondeu o detective
- Não... - respondeu a mulher
E a chave está brilhantemente traduzida no filme "Shall we dance" com Richard Gere, Susan Sarandon e Jeniffer Lopez (péssima actriz, mas é de reconhecer que enche visulamente o écran). Um homem na casa dos 40s, casado vai de 19 para 20 anos, com 2 filhos adolescentes, um rapaz, que se supõe que esteja na universidade porque só está em casa no aniversário do pai, e uma rapariga de 14 anos. Ele é um advogado bem sucedido, ela uma produtora de moda também realizada, vivem numa casa magnífica e até têm um cão, são ambos bem parecidos e, apesar de terem horários desencontrados, não discutem e vivem seguros, em harmonia e felicidade aparente. Até ao dia em que ele reconhece que lhe falta qualquer coisa e decide inscrever-se numa escola de danças de salão, sem que ninguém na família saiba ou desconfie, e após ter vislumbrado uma linda mulher numas das janelas da escola. A atracção física é uma evidência e o filme decorre num crescendo de proximidades entre ele e a tal professora de dança. A mulher descobre, com ajuda do detective do diálogo, e os desconfortos emergem até ele tomar consciência do que é verdadeiramente importante para ele - a estabilidade e o afecto que foram sendo alimentados e construídos ao longo do tempo. Porque é que as pessoas se casam? Para compartilharem momentos bons e maus, para crescerem em conjunto, para se apoiarem, por terem a noção que pode haver situações em que ninguém nos observa, valoriza ou se preocupa connosco, a não ser aquele(a) ali, que optou por passar a eternidade ao nosso lado. E afinal havia romantismo!
Não é por paixão, é por... - vão ver o filme. É leve, ligeiro e sorridente, mas trata de um assunto IMPORTANTE! Curioso como, ao vê-lo, me lembrei de algumas pessoas...

O que é a ética?

- O que é a ética para ti? É um conceito subjectivo ou universal? - perguntou ela com um olhar insistente, a meio de uma troca de palavras menos cordial.
- Ora aí tens uma boa pergunta. Prometo que vou pensar... não é que não queira responder... é que na verdade, para já, não tenho a resposta - afirmou ele com um ar distraído, certo que essa era uma questão que jamais faria parte das suas preocupações.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Desabafo de um homem com coração de manteiga

Diz-me, como se pode gostar tanto de alguém, infinitamente, até à exaustão, como eu gosto de ti? Porque é, por vezes, o amor um investimento pouco rentável, não tendo retorno? Porque será que quanto mais gostamos e nos entregamos, menos somos apreciados? Porque terão os sentimentos de ser um jogo?
Estou farto, cansado de ser um dos teus brinquedos preferidos, um pião que vai rolando ao sabor dos teus desejos. Estou fora, out, indisponível, a partir de agora para os teus anseios, vontades e caprichos. Vai pedir a outro que te escute os lamentos e te aconselhe nas inseguranças. Para ti, saí!

Lágrimas

Hoje é o dia das lágrimas, longas e grossas, gordas e corridas, seguidas umas às outras, térmicas pelas diferenças de temperatura que emitem, transformando-se segundo após segundo. Umas quentes e outras frias, transmitindo sentimentos fortes de raiva e desilusão, de melancolia e tristeza. Quero chorar até nada mais sentir e me passar toda a ebulição sentimental que vive dentro de mim.

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces. Estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem: "vem por aqui!". Eu olho-os com olhos lassos, (há, nos olhos meus, ironias e cansaços) e cruzo os braços, e nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...Se ao que busco saber nenhum de vós responde. Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos, a ir por aí... Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens, e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós que me dareis impulsos, ferramentas e coragem para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, e vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, amo os abismos, as torrentes, os desertos...Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tendes tetos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; mas eu, que nunca principio nem acabo, nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, é uma onda que se alevantou, é um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí!

JOSÉ RÉGIO


Sábio Pedido

"Senhor, Ajuda-me:
A mudar o que pode ser mudado;
A aceitar o que não pode ser mudado;
A aprender a distinguir uma coisa da outra
(...)
Sem a arrogância das certezas absolutas..."

Selecção

- Se fica sempre chateada com algumas atitudes, porque insiste em dar-se tanto?- perguntou-lhe o conhecido que, com o tempo, adquiriu o estatuto de Amigo.
- Porque... - respondeu Clara desorientada - pois... para ser franca, também não sei bem.
- Você dá-se às pessoas que não a merecem e que não reconhecem as suas qualidades, aproveitam-se de si e ainda se divertem à sua custa. Tem de aprender a seleccionar e, antes de se entregar a quem e de que forma seja, a saber distinguir as boas pessoas, que lhe interessam, e as outras, que não interessam a ninguém - afirmou ele com sabedoria.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Cansaço

Fui invadida por uma onda de cansaço e desalento, e nem sei explicar porquê. Talvez saiba mas não queira dizer ou pensar nos motivos reais que me causam tamanha sensação de desconforto físico e psicológico. Pensar dá agora trabalho, demasiado, e desgasta só de imaginar as conclusões a que poderia chegar. Não sei sequer se o esforço tem retorno, por isso... dou comigo apenas a tomar consciência do cansaço, num crescendo imparável, até me sentir tão esgotada que ter os olhos abertos já é uma prova quase sobrehumana da minha boa vontade e persistência.

A melhor defesa é o ataque

É espantoso como algumas pessoas manifestam o medo: de perder estatuto e reconhecimento; da competição profissional e científica; da troca de ideias e da valorização de áreas temáticas diferentes das que defendem. É curioso, tenho de dar o braço a torcer e reconhecer que um amigo tinha razão quando me dizia há uns tempos, a propósito de outros negócios (é que a expressão adequa-se e muito bem): "A melhor defesa é o ataque".

Ódios de Estimação

Os ódios de estimação são fundamentais para que possamos levar uma vida tranquila e equilibrada qb e, se não existissem com certeza tudo seria muito mais difícil de suportar. Afinal são eles que nos dão alento, nos dias em que tudo nos está a correr menos bem, e quando a Lei de Murphy se revela como verdadeira. É neles que descarregamos a nossa raiva e os sentimentos menos edificantes, a maioria das vezes de forma indirecta. Falamos acerca das suas vidas, comentamos criticamente as atitudes que consideramos socialmente desadequadas, a vida amorosa e o percurso profissional, sabemos tudo ao pormenor e, quando não sabemos, procuramos manter-nos informados, porque só assim continuamos a alimentar e a estimar o nosso adorável ódiozinho. Na verdade, revelam-se excelentes elementos motivacionais para nos tornarmos melhores, dia após dia, sobretudo diferenciando-nos do que eles são.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Amendoeira em flor

À porta da minha casa vive uma amendoeira brava/selvagem. Ninguém a plantou, pelo menos que se saiba, e ninguém se ocupa a cuidar dela. Todos os anos em Janeiro floresce e, de ano para ano, com maior robustez e vigor. Creio que este ano está no seu auge: cheia e de tal forma carregada de flores brancas que não caberia nem mais uma. Todos os dias, pela manhã e à noitinha cruzamo-nos e troco duas ou três palavras com ela. Pouco percebo de flores mas dizem que gostem que se converse com elas, mas percebo de pessoas e tenho a certeza que a conversa nos faz bem, temos a sensação que nos ouve e que partilha connosco as alegrias e as tristezas, as angústias e as preocupações, os desejos mais profundos. Quando está vento, como hoje, os ramos baloiçam, as flores e as folhas, que as acompanham, mexem-se, fazendo-nos acreditar que têm a sua própria capacidade de comunicar, concordando connosco, ou pelo contrário fazendo-nos ver que não estamos certos e que devemos ouvir a voz da razão. E hoje, apesar do vento, que soprava com intensidade, a amendoeira em flor estava acompanhada de uma lua, meia cheia meia vazia, mas muito luminosa. Foi uma imagem absolutamente inspiradora e tranquilizante.

Página sobre STP

Mais uma página sobre STP - Além de fotografias antigas contem referências históricas, de enquadramento, referências ao Parque Obô e sugestão de percursos a efectuar, com indicação do tempo necessário, entre outras. Vale a pena fazer uma incursão por lá, porque apesar de não estar muito aprofundado em relação a algumas temáticas, é mais uma referência, e essas nunca são demais.

Testes

A minha perplexidade foi total. Fui fazer testes de selecção que contemplavam três dimensões: prova escrita de português, conhecimentos de inglês e aptidões de matemática e estatística. É verdade, eu tive 18 valores, em 20, na disciplina de Estatística na faculdade, mas foi no 1º ano da licenciatura em Sociologia, ou seja em 1987, e estudei que me fartei. Ouvi falar em muitas coisas e aprendi os rudimentos, mas nunca ouvi falar no teste Kolmogorov-smirnoff. Se as duas partes dos testes correram de forma ligeirinha, para o último simplesmenre não há palavras. Foi indescritível!!!!
Vim para casa e pesquisei - já percebi que é um dos testes não paramétricos, tal como o qui quadrado. Mas, para que serve e como se chega lá... pois isso não!

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Os Meus Queridos ex-Alunos

Tenho de confessar que me agrada muito receber notícias dos meus ex-alunos, sejam eles portugueses ou africanos, vivam no continente ou nas ilhas (Portugal), em África ou noutro qualquer local do Mundo. É verdade, muitos estão hoje espalhados por outros locais - Cuba, Brasil, Argélia, Espanha, França. E, quando abro o mail e vejo que me escreveram - para saber como estou, para contar os sucessos que têm tido e para pedirem conselhos que possam acalmar, de alguma forma, as angústias que sentem - não posso deixar de sentir orgulho e alegria. Lembraram-se de mim e, de uma maneira ou de outra, entendem-me como uma referência, gostaram de mim e, depois de ter passado a fase formativa na qual intervi, procuram manter o contacto, sem esperar nada em troca, a não ser algumas palavras de incentivo que revelem interesse pelo seu percurso e pelas suas vidas. Na verdade, tratam-me de forma carinhosa e afectiva, reclamando um pouco de atenção. O que me agrada verdadeiramente é sentir que gostam de mim.
Este post é dedicado aos meus Queridos ex-Alunos, esperando que continuem como até aqui, a progredir, a amadurecer, a crescer, a ultrapassar dificuldades com sabedoria e muita preserverança, sem desanimarem, com a consciência de que podem fazer mais e melhor. Sempre, porque estão no caminho certo.

Maxim.net

O Maxim.net é um site interessante, tradicionalmente vocacionado para STP, mas onde se encontram muitas referências a outros países africanos. Vale a pena consultar, de vez em quando, pelas notícias culturais, pelas fotografias, pela possibilidade de se trocar impressões e ouvir opiniões diversas.

Moçambique III

Nem sempre a vida nos sorri - pensava Lai, sempre que recordava Mi e tudo o que viveu em Moçambique – Muitas vezes, sem nós percebermos de imediato como ou porquê, não nos é simplesmente permitido realizar afectos de forma contínua, nem sonhos. Tudo fica tão aquém do que idealizámos, pelo menos na altura em que desejámos. Não compreendemos atitudes nem comportamentos. Nem podemos, pela simples razão que desconhecemos as motivações e as razões. Mas isso, a bem dizer da verdade, pode ser uma grande sorte. Afinal, mesmo que, na altura devida, tivéssemos conhecimento de tudo o que se passava por trás do inexplicável, com certeza não teríamos aceite a “balbúrdia africana vivida à europeu”. Não, não era isso que queria ou que quero.
Lai pensava e, sempre que a conversa podia surgir, procurava esclarecer Mi acerca da sua forma de entender a vida, as relações interpessoais, o passado e o presente. O que foi já não pode ser e basicamente ela não quer que venha a ser. Mi não aceitava, ou dizia não aceitar por não acreditar nas palavras de Lai. Para ele, tudo se resumia a uma visão simples, porquê complicar? Uma conversa simples e um café derivavam necessariamente em envolvimento carnal, não necessariamente afectivo e, preferencialmente não sentimental. Mi tentava levá-la, uma vez mais, a seguir as palavras doces e ternas, que tanto a cativaram quando as ouviu, pela primeira vez, na envolvência do ambiente tropical de uma África longínqua, misteriosa e promissora que a levaria à realização dos desejos mais profundos. Naquela altura, algures nos finais do século XX, Lai era uma jovem senhora, que procurava preservar a inocência dos contos e histórias de príncipes, princesas, lugares paradisíacos e vidas felizes, de preferência para sempre. E procurava viver situações típicas de argumento de filme, esquecendo que essas não se transpõem para além do écran.
Mi não foi propriamente um príncipe e de encanto teve pouco ou quase nada. Não queria nem o poderia ser algum dia. Por isso, porquê a insistência? - pensava Lai. E, aos olhos dela, caía nas incongruências típicas de uma pessoa como ele, só que agora já não lhe passavam despercebidas. Tanto dizia que a amava e que queria casar com ela, construir uma vida em comum e ter filhos, como no minuto seguinte relatava, com pormenor, as mulheres que faziam parte da sua vida. Se há um bom par de anos Lai pensou em casar com Mi, mesmo que por pouco tempo, hoje, ao ouvi-lo falar nisso, nem que fosse uma única vez, soava-lhe a brincadeira de mau gosto, a tema pouco credível.
Lai passou a olhar Mi com dúvida e incerteza e essa era, na verdade, a única e possível forma de o entender.

Invariavelmente

os acontecimentos repetiam-se, os pensamentos sucediam-se e as dúvidas surgiam. Já não podia dizer com certezas se a realidade que vivia era mesmo pintada com aquelas tonalidades ou se tudo não passava de era mera ficção.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

In

É costume conotar o prefixo "in" com a moda e as tendências actuais - todos desejam ser e estar, conhecer os locais mais "in" e frequentá-los, ter amigos "in", jantar e passar férias em locais "in". Porquê? Por ser vulgarmente entendido como um sinal de boa integração social (económica, política, cultural e...). Basta pensar na palavra original anglosaxónica, mas esta, normalmente, bem utilizada.
Mas todos se esquecem que o prefixo, só por si é uma contrariedade, o oposto da afirmação. Peguemos, como exemplos, nas palavras indecisão, indiferença, intolerância. São de tal forma negativas que geram maus sentimentos (e pensamentos). A decisão é positiva, bem como a diferença associada à tolerância, tanto na esfera pessoal como na vida profissional. Mas parece que muitos se esqueceram e alguns não sabem mais o que querem. É desestruturante tornando-se confuso, como eu diria hoje aos meus interlocutores, a meio de uma reunião marcada pela indefinição, pela incerteza de vontades, resultando em indecisões.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...