terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Avaliações

A pior tarefa da actividade docente é, em minha opinião, a correcção de testes/trabalhos/exames, seguida da obrigatória avaliação quantitativa. É terrível atribuir uma nota, entre 0 e 20, à prestação de alguém e, além de tudo o mais, é uma tarefa muito cansativa, por vezes exasperante...

domingo, 12 de dezembro de 2004

Saudades de África

De tempos a tempos sinto saudades de África, pela ausência de um conjunto de coisas que se vivem lá e que cá não se têm, sobretudo quando o frio me enregela os movimentos e me esfria os sentidos.
Tenho saudades do calor intenso salpicado por uma densa humidade, do cheiro misturado a terra molhada com frutas frescas, da sensação que por lá o tempo pára, permitindo-nos vivências redobradas, da ilusória receptiva disponibilidade que se procura ter entre todos, sem na verdade se ter.
Tenho saudades das praias de águas tépidas e transparentes habitadas por uma infinidade de espécies, das areias finas e dos coqueiros que, de vez em quando, libertam de forma natural um fruto, emitindo um som inigualável.
Tenho saudades da vegetação e dos animais, da vida ao ar livre e em contacto com a natureza, onde se aprende por observação directa, escutando as explicações de quem nos parece ter nascido ensinado, com dons e conhecimentos próprios, só possíveis naquelas terras, que vão sendo transmitidos de pais para filhos, sem paragens.
Tenho saudades de rir sem parar, de me sentir criativa quando procuro conchas ou cocos para decorar interiores, depois de os tratar e envernizar, de ouvir músicas ternas e envolventes, de inventar receitas para partilhar com um alguém que sinto como especial.
Tenho saudades dos mercados e das palaiês, das frutas e de tudo quanto se pode fazer com elas, dos peixes com nomes estranhos e do marisco com os mesmo nomes e aparências diferentes.
Tenho saudades de sentir saudades da civilização e do desenvolvimento, do cinema e do frio, dos livros e de vinhos caros, do conforto e de um centro comercial onde se possa gastar dinheiro a comprar coisas que nunca nos farão falta.
Tenho saudades até um dia voltar.

sábado, 11 de dezembro de 2004

Guardar o Encantamento

(Para o BLU)
Há momentos na nossa vida - dias, semanas, meses e anos - que, por terem sido tão felizes, queremos guardar para sempre, com a ternura das primeiras impressões, o entusiasmo dos primeiros olhares, os sorrisos abertos permitidos pelas primeiras trocas de palavras, as primeiras gargalhadas francas, seguidas de todas as outras, e o arrepiar dos sentidos com os toques iniciais. Quando pensamos no que veio depois questionamo-nos com frequência se terá valido a pena tanta entrega e desejo alimentado. E o balanço é: SIM!!!! - pela certeza de termos vivido momentos únicos de encantamento que nunca nos poderão ser retirados, por mais ou menos que venhamos a viver com um outro alguém.
O que é verdadeiramente maravilhoso numa relação amorosa é sentirmo-nos encantados com o Mundo que o Outro nos ensina a descobrir, as coisas que sempre estiveram à nossa frente e que antes não víamos, pela simples razão que Ele não estava connosco. É fantástica a possibilidade consciente de partilharmos ideias, pensamentos, visões, situações que jamais se repetirão porque cada momento só se vive uma vez. É magnífica a perspectiva de nos entregarmos e de alguém se entregar a nós, num sentimento recíproco e vivido na mesma altura, com intensidade e dedicação, com uma vontade espontânea e natural.
E tudo isto, continuo a querer acreditar que, vivi contigo, por isso quero guardar comigo o encantamento do primeiro entusiasmo, que sei que não se poderá repetir, o desejo criado com o primeiro toque, a descoberta partilhada de um Mundo que se nos apresentava como novo, apesar de não o ser. O balanço foi positivo. A ternura com que te olhei uma, e outra e tantas vezes, a compreensão com que escutei as tuas palavras, das mais meigas e doces às mais duras, o desejo que despertaste em mim, até sentir por ti um sentimento que até hoje ninguém me despertara, tudo isto e tanto mais procuro guardar dentro de mim, para sempre. Terna e docemente, com encanto.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Quadrante, CCB

Não me canso do CCB. Confesso que, no início, a aquitectura me chocou um pouco, mas com o tempo, por assistir a espectáculos e visitar exposições temáticas, de quando em vez, fui-me habituando ao espaço e hoje considero-o mesmo muito agradável. Principalmente porque o "Quadrante" permite longas conversas sem estarmos, a toda a hora, a ser confrontados com novos consumos. A filosofia é viver o espaço, tomar um café ou uma água, ler um livro, trabalhar descontraidamente ou conversar, sem a sensação dos vizinhos das mesas próximas estarem a sorver as nossas palavras. E a possibilidade de nos sentarmos na esplanada, virados para o rio, tendo como cenário o fantástico Padrão dos Descobrimentos, permite-nos viver sensações inigualáveis, porque maravilhosas. O "jardim das oliveiras", que não sei se é denominado mesmo assim ou se tem outro nome, é um espaço de referência, pela beleza e pela harmonia das formas, pela tranquilidade da fonte e pela presença dos pardais. Deslumbrante!

Pintura

Hoje o céu foi pintado por mãos sábias e inspiradas, criando um cenário digno dos eleitos. Permiti-me usufruir de um deslumbrante pôr-do-sol, de um céu pintalgado de tonalidades, intercalando o amarelado com o rosado num fundo azul claro, marcado por ligeiras nuvens brancas, colocadas em faixas paralelas e quase simétricas. Sózinha contemplei aquela imagem e senti-me invadida por uma inexplicável e irrelatável tranquilidade, um sentimento reconfortante de segurança e protecção celestial. Foi estranho mas muito agradável. E esta imagem só pode ter sido possibilitada por um pintor divino.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

África...

um magnífico continente de contrastes que se observam e que se vivem...



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Revista "piá" (São Tomé e Príncipe) de parabéns

A revista "piá" (São Tomé e Príncipe) faz dois anos este mês. De parabéns estão os dinamizadores da iniciativa que têm trabalhado de forma incansável, com persistência e determinação (em particular a Mena e o Nilton Dória), os colaboradores fixos ou pontuais, através das investigações e conhecimentos partilhados nos textos cedidos e publicados, e todos os leitores que têm permitido que este jovem projecto de comunicação social/informação santomense siga em frente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Ylang Ylang

O Ylang Ylang é uma planta muito conhecida e apreciada pelas propriedades que lhe são atribuídas e pela diversidade de utilizações possíveis: a cosmética, a aromoterapia e a medicina alternativa. É denominada por Cananga Odorata Genuína e dita "flor das flores", "flor das pétalas douradas", "rainha das flores", "árvore do perfume". É linda e o aroma que emana é fantástico e inesquecível. As primeiras que vi foram em São Tomé e Príncipe, um pouco espalhadas por todo o arquipélago. Mas a imagem mais fenomenal é a da varanda da Casa Azul na Roça Agostinho Neto, com chuva torrencial - o som forte da chuva e o aroma intenso e envolvente do ylang ylang ficarão para sempre retidos na minha memória. É esta flor que os fabricantes de perfume tanto procuram. Fantástica porque olhando para ela não é mais do que uma florzinha igual a 100.000 florzinhas. Mas quando nos habituamos, passa a ser a nossa florzinha...



Posted by Hello

Triste Lucidez

Percebera por fim, ou talvez desde sempre, que ele não chegara a amá-la. Nem a ela nem a nenhuma das mulheres que passaram pela vida dele. Amava-se principalmente a si próprio e, por tanto se amar, necessitava de ser amado por muitas mulheres, tantas quantas conhecesse, e o que o fazia viver era a perspectiva de haver um mundo por descobrir, um universo feminino infinito e cheio de potencialidades. Todas eram tão parecidas e, na verdade, tão diferentes. Essa ideia, apenas essa, seduzia-lhe os sentidos, fazendo com que se rendesse a um encanto, a outro e outro ainda. E ela tornou-se na mulher mais consciente que algum dia conhecera, triste mas consciente.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Real Café

Magnífico, brilhante, a repetir e a recomendar!
Fui convidada para jantar num restaurante chamado Real Café, por cima da Real Fábrica, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa (213870648). Nem queria acreditar porque eu conhecia bem aquela casa - viveu lá uma amiga minha de infância/adolescência e muitas vezes, quando ia ou vinha do Britânico, subi aquelas escadas para conversar um pouco.
Subimos as escadas e, para meu maior espanto e surpresa, se era possível..., dou de caras com um dos gerentes, o Sr. Rogério do Luar da Boavista, da Hatari e da Confeitaria do Marquês. Era verdade, muitas vezes almocei e jantei no Luar da Boavista com colegas, quando estava na UAL. A festa foi recíproca já que era cliente habitual antes de ir para S. Tomé viver, e sempre fui muito bem tratada. Desde o meu regresso e porque estou um pouco "longe" da Boavista, não os visitara, pelo que este reencontro foi marcado por grande contentamento.
A comida é excelente, bem confeccionada e com gosto, com uma boa selecção de vinhos, o atendimento magnífico e o espaço simples mas de requinte agradável.

Anomalias

Por falar e pensar tanto em África, fui ter, vá-se lá saber como, ao Anomalias. Simplesmente magnífico nas fotos que apresenta, nas informações disponibilizadas e nas pistas de reflexão. Faz pensar...

domingo, 5 de dezembro de 2004

Guiné, uma vez mais

Um amigo parte amanhã para a Guiné, um amigo que conheci em São Tomé, já nem sei há quanto tempo. Homem da agricultura, do café e das plantações, das longas caminhadas pela floresta, dos jardins e das flores, das explicações detalhadas e das conversas respeitadoras. Um homem como há poucos, sempre com uma palavra amiga e um olhar mais do que compreensivo, sem segundas intenções.
Hoje escrevi-lhe para lhe desejar boa sorte nesta nova fase africana - ele não conhece a Guiné - porque tudo vai ser novo para ele. A Guiné é uma África bem diferente de S. Tomé, é mesmo África, pela dureza das vivências, pela densidade da paisagem, pela complexidade das culturas, pela diversidade étnica. E quando lhe escrevi lembrei-me do que por lá vivi. Foi de tal forma marcante que ainda hoje, passados quase 10 anos, penso naqueles sorrisos e naqueles olhares, que se me pedissem para descrever numa palavra, diria que o sorriso é terno, o olhar intenso e as faces meigas.
Espero que ele se dê bem, que tenha cuidado com as aventuras em meio natural - as cobras, os jacarés nos rios e as formigas, são os principais riscos. Além do paludismo, mas esse ele já conhece.
E espero que coma muitas mangas, das que abrem, das fibrosas, das verdes, das vermelhas, das amarelas e das laranja, de todas porque são sumarentas e magníficas; ostras; camarão; ananás; banana; coco; mancarra (o amendoim); caju, fresco e seco; e tudo e tudo. E que não olhe muito para o céu para não se confrontar a toda a hora com os jagudis (abutres) que pairam sem parar. Que aproveite e se divirta, com cuidado e cautelas, que dance muito e passeie mais.

Olhar

"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"

Mário Quintana

Conversa profunda...

- Casas comigo? - perguntou a jovem rapariga apaixonada
- Agora não tenho tempo - respondeu o namorado enquanto a abraçava e beijava, procurando dar andamento aos afectos
Ela afastou-se e com tom aborrecido respondeu:
- Não percebo. Afinal, porque é que os homens se dão ao trabalho de andar a correr atrás das mulheres durante tanto tempo, com dedicação e promessas infinitas, se depois não querem casar com elas...?!
- Mas olha lá, já viste que os cães também correm atrás dos carros, às vezes durante muito tempo e por distâncias longas, ficando cansados, mas na verdade... não os querem conduzir!!! - respondeu ele prontamente

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Kho Sante



Posted by Hello

O que é um Amigo

Em África há uma enormíssima contradição, a maior de todas, para os portugueses que procuram (con)viver uns com os outros - todos são "grandes amigos" mas em nenhum se pode confiar verdadeiramente. Fui jantar com uma amiga, que conheci numa das Áfricas pelas quais passei, e falámos sobre as amizades. Dizia-me ela que era estranho que no nosso grupo de amigos houvesse tanto maldizer, comentários sobre a vida alheia, mas sem que os próprios tivessem conhecimento directo, não se podendo portanto defender. Eu já sabia, até porque fui, entre outras pessoas, um dos alvos dessas conversas. E, a dada altura, tudo passou a ser demasiado óbvio.
Amigos por lá fiz poucos, tal como toda a gente. Mas no que toca a conhecidos... fiz muitos, conhecia toda a gente e toda a gente me conhecia. Ela estava desagradada porque não compreendia como, pessoas que estavam permanentemente juntas, que não faziam nada umas sem as outras, que partilhavam momentos - bons e maus - vivências e tudo o que fosse, podiam criticar-se tanto, sem frontalidade, sem abertura, sem sinceridade. Parecia-lhe uma atitude desonesta, por parte desses "amigos".
Vim para casa a pensar que a vida é muitas vezes injusta e severa, que as provas pelas quais temos de passar não nos facilitam os maus momentos, agravando-os e que as pessoas em quem procuramos confiar, em certos contextos, não merecem um minuto do nosso pensamento, quanto mais dias, semanas e meses de convívio. Pensei no que ela teve necessidade de me contar ao fim de tanto tempo, e falei pouco, como seria de esperar dado o tema da conversa ser sensível. E lá fui reler um dos livrinhos de bolso, temáticos.
"Um amigo é alguém que pensa em ti e te ouve e te ajuda a saber o que tu és. Alguém que te ajuda a descobrir as coisas, alguém que está contigo e não tem pressas. Alguém em quem tu podes acreditar".
in Um Amigo, Editorial Presença

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Silêncios, palavras e gestos

E no silêncio olhaste-me, procurando transmitir-me a ternura que me roubaste há uns tempos, como se o olhar fosse suficiente para apagar actos antigos, inqualificáveis e injustificáveis. Mas olhando-me, e revendo os minutos de infelicidade, não conseguiste proferir uma única palavra. Os encontros eram marcados pela cobrança retardada, pelos gestos desencontrados, pelas vontades incompletas e fugidias, pelas palavras desejadas mas não ditas, pelos gestos de afeição que nunca chegaram a ser expressados. Na impossibilidade de nos fazermos entender e aceitar, ficámos a ouvir os Toranja que cantavam na rádio:
"Não falei contigo com medo que os montes e vales
que me achas caíssem a teus pés...
Acredito e entendo que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir faça bem ao escudo que és...
Saudade é o ar que vou sugando
e aceitando como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede a pairar
sobre o mundo e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua numa chama minha e tua.
Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos cujos vidros vais pisando...
Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números raízes quadradas
de somas subtraídas sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado e à palma da tua mão..."
E tentaste tocar-me, uma vez mais, e beijar-me, apesar da minha resistência, quando as palavras relatavam o que sentias e que não conseguias expressar:
"Desculpa se te fiz fogo e noite sem pedir autorização
por escrito ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos que voltei a encontrar em ti..."
E olhando-te, agora eu, percebi que fui apenas o refúgio dos teus sentidos, um pedaço de silêncios perdidos que tentastes voltar a encontrar em mim... apenas...

Projectos, novos projectos

De repente, os projectos apareceram e, como de costume nestas coisas, todos ao mesmo tempo. Ao princípio temos a sensação que não conseguiremos dar conta de tudo, mas com o tempo, com uns bons exercícios de sistematização e de relaxamento mental, percebemos que somos muito polivalentes e que as nossas capacidades são infinitas. E sentimo-nos vivos de novo, revitalizados, felizes.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

Aprendi

Em África aprendi a ouvir mais do que falar. Saber ouvir o que os outros arranjam para nos dizer, apesar de não haver nada de novo, só porque não sabem lidar com o silêncio, é uma grande virtude. E, além do mais, protegemo-nos muitíssimo, o que é magnífico. Basta sorrir para darmos a entender que, sem o sentirmos, partilhamos da mesma preocupação - falar, comentar, criticar e destruir a vida alheia. É o savoir vivre africano...

Paz

Na verdade, uma das coisas que mais procuro é viver em paz, comigo e com os outros, não causar estragos e não me intrometer na vida e nos relacionamentos de quem quer que seja. Quero viver tranquilamente, depois de me ter reconciliado com a minha consciência. Estou em paz e é assim que quero estar.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...