terça-feira, 16 de novembro de 2004

Os Afectos e Eu

"Afinal havia Outra, e Eu sem nada saber sorria". As histórias repetem-se, umas atrás das outras, com uma cadência ritmíca e um sentido kármico. Por mais que tente alterar o rumo dos acontecimentos, o ritmo e a ideologia reinante reforçam o mau karma da minha existência. O destino marca a hora e não há como evitar.
Acredito sempre, quase sempre, nos afectos, nas palavras e nos gestos que me parecem sinceros e genuínos. Mas quase nunca o são. E a tristeza decorrente da incerteza, da incompreensão, da frustração, do desencontro, da desilusão e da mágoa, regressa até mim para me fazer companhia por mais uma temporada. Também longa, longuíssima, como quase sempre. E eu estou sempre pronta a recebâ-la e a aceitá-la, porque já faz parte de mim.
Normalmente, aquilo que mais desejamos é o que mais dificuldade temos em conseguir. E a minha vida tem sido sempre marcada pela fatalidade da ausência, da frustração do desencontro, da paixão criada e alimentada sem continuidade, pela busca permanente e incessante de um afecto correspondido, que não seja a curto prazo, não tenha prazo de validade nem fim anunciado.
Tenho de admitir que, nesse ponto, serei feliz. Afinal, a filosofia da felicidade, segundo dizem, reside na busca, naquele "não sei quê" que nos faz continuar a tentar, a procurar, a desejar e por fim a sonhar. E o que mais tenho feito, desde que me lembro de existir, é procurar, sonhar, idealizar, desejar. Nem por isso tenho sido feliz nas escolhas que tenho feito. Talvez "mea culpa", ou talvez quem me tem escolhido me tenha interpretado mal. Talvez as duas coisas.
Se desejamos ardentemente ser felizes nos afectos e nos amores, com satisfação plena e contínua, num dar e receber, que gostaríamos de acreditar que fosse eterno, de forma a ser possível construir um projecto comum com "esse alguém" especial, que para nós seria único no mundo, porque o sentimento também era recíproco.
Mas temos de lutar muito, muito mesmo, de forma permanente para que o afecto não se vá, o fogo do sentir não se esmoreça e a compreensão, em relação ao inexplicável e incompreensível, possa vencer.
Porquê? Porque há sempre "Outra(s)" no caminho. Ou sou eu que apareço no caminho delas, sem saber ou sem acreditar, porque também me fazem crer que os caminhos e as vidas não se cruzam porque já nem existem mais. E afinal, existem... No caso, se tenho tentado ser resistente e vencer obstáculos intransponíveis, hoje sinto-me cansada... Tão cansada que nada mais faz sentido. Pelo menos, para já.
Um dia voltarei a sonhar, a idealizar, a desejar e a lutar. Não por um alguém mas por um afecto, por um sentimento, uma ligação, um projecto de vida.
Em S. Tomé, Janeiro 2004

domingo, 14 de novembro de 2004

Liberalização dos afectos

Há uns dias fui ao Nicola do Rossio petiscar um croissant com queijo e um sumo de laranja natural, enquanto aguardava a minha vez para ser atendida na Loja do Cidadão, e dediquei-me a uma das tarefas preferidas, ouvir a conversa da mesa ao lado. Já sei que não é bonito mas é deliciosamente sedutor partilharmos a vida dos outros e compreendermos as diferentes formas de vida, de ser e de pensar. Além do mais, as três protagonistas não demonstraram qualquer preocupação pelo facto de poderem ser escutadas e eu procurei ser discreta.
Qualquer uma não tinha mais de 25 anos, vestiam-se informalmente, misturando cores e padrões, de calças justas, que lhes marcavam as formas, nem por isso ficando bem, e "suficientemente" pintadas de cara e de cabelo para chamarem a atenção dos mais distraídos.
- O teu namorado é urbano-paranóico. Ontem ligou-me a perguntar por ti - afirmou a mais comunicativa para a mais bonita.
- Namorado? Não, já não é - respondeu a segunda.
- Acabaste? Quando? - perguntou a primeira a arder de uma curiosidade sorridente não disfarçada.
- Logo a seguir a ter-te ligado. Apanhei-o e ouvi tudo. Não podia continuar assim, expliquei-lhe como as coisas são comigo. Até vou viajar contigo, disse-lhe, e jantar, e sair, e de vez em quando até pode rolar mais alguma coisa. Mas sem compromissos e obrigações. Este controle todo não dá. Estou com quem quero e saio com quem quero. E até lhe disse, és queridinho mas contigo nada de compromissos. Era um esquema muito paranóico, quase obsessivo. Queria estar sempre comigo e a toda a hora. Não dava. Ele não é o único na terra, tás a ver?
- Fizeste bem, isso já nem se usa - respondeu a primeira deliciada com a decisão da amiga.
A terceira continuou a sorrir, sem abrir a boca para opiniar o que quer que fosse durante toda a conversa. Dito isto, levantaram-se, pagaram ao balcão e sairam, continuando a falar alto, gesticulando e rindo.

E eu fiquei a pensar cá para comigo - a juventude feminina virou liberal, estou a ficar velha. Onde paira o mito do "foram felizes para sempre" e o sonho de estar com alguém de quem se gosta e que só gosta de nós, terá sido trocado pela liberalização dos afectos? E os afectos existirão verdadeiramente ou as pessoas querem estar juntas só para não estarem sózinhas? É um bom tema a explorar com os meus alunos numa próxima aula de Sociologia quando lhes falar nas infinitas questões da vida quotidiana.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Confissões de um Pescador...

- "Bem... Nem imaginas o resto da pescaria. Pesquei mais um peixe aranha. Depois mais um Sargo enorme, para aí umas 3 vezes maior do que o 1º que tu viste. Um espectáculo de peixe... E depois... Bem nem imaginas o que me aconteceu... Pesquei um corvo marinho... Daqueles pretos sabes...? Trazia no anzol um peixe pequeno. O corvo comeu-o e ficou preso no anzol... Era ver eu a puxar o carreto da cana a apontar para o ar e o corvo a voar na minha direcção. Nunca me tinha acontecido pescar um pássaro..."
- "Como assim??? Pescaste um corvo marinho??? Safa... isso é que é diversidade... mas espero que não o tenhas levado e depenado... porque isso não se come..."
- "Eheheheh... Bom... Espero que tenhas percebido que esta do corvo era mentira... afinal todo o pescador é um pouquinho mentiroso..."
Moral da história: Mas serei eu completamente loura???? Ou só burra mesmo? Crédula? Ou tansa? Bem... a ti até perdoo...

Lazer e espectáculos em Londres

E nem só de chás, scones, almoços e jantares vive Londres, cidade multicultural por excelência onde a diversidade de origens é uma realidade. Não se anda uma rua que não se vejam africanos, chineses e outros asiáticos, árabes, ocidentais de todo o lado do mundo. Ouve-se falar línguas estranhas, sendo de destacar o inglês (claro), o francês e o espanhol.
Mas por falar em cultura, o verdadeiro espectáculo é a diversidade de oferta de serviços culturais - teatros, concertos, óperas, musicais, estreia de filmes com actores como Pierce Brosnan, a fazer as delícias de todos.
A não perder, os ballets da Royal Opera House (eu assisti a Sylvia, lindo lindo de fazer sonhar sem parar) e os musicais em cartaz - são tantos que a dificuldade é escolher (eu assisti a Les Misérables). E ficamos com pena de não podermos assistir a todos porque os olhos ficam regalados, os ouvidos consolados e é uma benção para a alma e para o coração.

Restaurantes em Londres

Em Londres come-se caro porque também tudo é caro. Mas vale a pena jantar num bom restaurante, de preferência com uma boa companhia.
Numa noite especial em Londres não deixem de visitar alguns restaurantes:
- Criterion (ver), Piccadilly Circus, fantástica decoração, serviço irrepreensível, pratos deliciosamente apresentados, doces fantásticos
- Al Duca (ver), 4-5 Duke Of York St., Tf: 0207839 3090 - um restaurante italiano magnífico, recomendadíssimo
- Fung Shing, 15 Lisle St., Tf: 020 7437 1539 - o melhor chinês a que já fui, imperdível


Do café "Laville" em Little Venice (Egware St), a vista é magnificamente tranquila. Vale a pena beber um café a 3 libras...

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quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Casas de Chá

Em Londres fui a várias casas de chá. De todas recomendo duas, absolutamente fantásticas, com um serviço irrepreensível, qualidade dos chás, dos scones e da pastelaria.
1. The Wolseley - 160 Piccadilly, London W1J 9EB, Tf: 02074996996 (vejam o menu)
2. Richoux - 86 Brompton Road, London, SW3 1EA, Tf: 02075848300

De volta

Estou de volta, depois de uns dias passados em Londres. Uma breve troca do sul pelo norte, do calor pelo frio, do sol pelo nevoeiro.
O nível de vida subiu muito desde a minha última incursão a solo britânico - por um café paga-se, nos locais mais apetecíveis, 3 libras. Foi uma noa altura para reduzir o meu vício de café porque, além de caro, era queimado e aguado.
Os parques continuam magníficos, as tonalidades contrastavam, apelando aos sentidos para a imagem de um Outono tão diferente do que se vive em Lisboa. Os esquilos multiplicaram-se e perderam a pouca vergonha que, há uns anos atrás, tinham dos humanos. Agora os parques são marcados por uma saudável convivência entre pássaros tipo pardal, corvo e uns azuis e brancos, grandes, que não sei o nome, patos, gansos e cisnes, esquilos e seres humanos. Como seres aparentemente tão diferentes se podem dar tão bem num convivência pacífica!

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Pausa

Por uns dias... Descanso, Reflexão, Mudança de Ares...

Fase "Moçambique"

A fase "Moçambique" que marcou a minha vida fica em stand by, para já com algumas fotos publicadas. Sobre a experiência de vida que resultou de breves estadias, muito emocionais, escreverei mais tarde. Ainda é cedo. Talvez não seja ainda cedo porque já passou muito tempo. Mas tudo tem um começo e, desta vez, comecei por partilhar imagens legendadas. O mais ficará para depois. Talvez um dia...

Moçambique do céu

Sobrevoando Moçambique na chegada a Maputo. Um mundo novo se avizinha, marcado pelo desconhecido, pela surpresa e pela esperança seguida de frustração. Tudo é possível no sul do Mundo, ali até o Equador está distante...



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O rio Limpopo

Num "cruzeiro" de fim de dia os cheiros são intensos, a luz cria contrastes evidenciando a cor do rio e as formas emergentes transformando-se.
Tudo parece calmo apesar de esconder uma ebulição de emoções em efercescência, que aproximam a atracção e a paixão, confundindo-as e confundindo-nos...



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A margem de "cá"

A margem de "cá" do Limpopo permite-nos contactar com a densidade de um rio que atravessa diferentes paragens, sendo navegado por tantos botes e canoas.
Tudo é igualmente denso por ali, dando-nos a ideia de uma falsa sintonia, transitória e momentânea, pelas emoções fortemente sentidas e exteriorizadas, que de tão fortes e intensas se transformam rapidamente, tornando-se efémeras...
O final de dia tem uma tonalidade mágica, ou somos nós que o queremos entender assim, permitindo-nos recriar sensações e acreditar em ternas emoções que nunca o hão-de ser...


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Criança, Maputo

Criança de colo (de costas???) nas costas da mãe.
A magnífica arte de transportar os filhos com conforto.
Maputo 1998



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Rio Limpopo em Zongoene

A magnífica margem de "lá" do rio Limpopo, quase no local onde desagua no mar.
O rio que anima Zongoene e lhe dá vida.
A passagem para a praia, essa de mar, com águas turbulentas mas fantásticas.
A revitalização e a esperança na diferença como uma possibilidade.



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domingo, 31 de outubro de 2004

Pôr do Sol

Pôr do Sol sobre a Baía de Maputo.
Vista do Hotel Cardoso.
Palavras para quê...



Maputo, 1998

Posted by Hello

Maputo

Vista parcial e semi-aérea de Maputo.
Parcial porque mostra uma das partes mais bonitas (em minha opinião).
Semi-aérea porque resultou da varanda de um 8º andar, se não estou em erro.
Cidade bonita e estranhamente indesejada. País onde vivi momentos e experiências contraditórias, marcadas pela oposição permanente entre o desejo e o abandono, como se fossem faces necessárias da mesma moeda.



Maputo, 1998

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Os preferidos

Os meus chás e infusões preferidas dependem do estado de espírito, mas os que me são normalmente indispensáveis são:
- Verde (de folhas pequenas porque não abre tanto quanto o de folha grande);
- Jasmim (muito aromático e perfumado, é particularmente reconfortante para a alma e o coração);
- Cidreira (saboroso e tradicional);
- Camomila (tem um paladar adocicado e é mais tranquilizante do que o de tília, que não faz as minhas preferências);
- Menta (para momentos especiais porque pouco calmante, deve-se beber a dois porque é muito aromático e consequentemente inspirador...);
- Lúcia Lima (óptimo para beber à tarde);
- Príncipe (excelente para o estômago, apesar dos santomenses dizerem que é uma bebida só para homens, pelas propriedades e efeitos que neles desencadeiam... e que supostamente serão opostos nas mulheres, que o devem evitar - bem... eu nunca senti nada em especial...).

Chás

Beber chá é uma prática magnífica que, se assim o desejarmos, podemos transformar num ritual. Aprendi isto em São Tomé. É verdade que já era uma adepta da bebida, desde que me lembro de existir e em minha casa todos sempre brincaram acerca disso - afinal era mais um aspecto que me marcava pela diferença.
Sempre gostei de chá, até do preto bebia, mas as infusões fazem as minhas preferências. Os pacotinhos só me serviam mesmo quando não havia genuínos, com folhas, daqueles que somos nós que doseamos a quantidade, em função de o querermos mais forte e aberto ou mais suave, e que depois temos de coar para que as flores ou as folhas não passem, apesar de, no fundo da chávena, ficar sempre um depósito.
É magnífica a dedicação que o chá exige para ficar no ponto - nem demasiado escuro nem demasiado águado. Primeiro aquece-se a água e deixa-se que ferva, colocam-se as folhas desejadas, eventualmente com flor, dependendo do tipo de chá que estejamos a preparar, desliga-se o lume porque a temperatura só por si é suficiente e não necessita de mais fervura. E podemos ali ficar, a olhar, a perceber a mudança de cor decorrente da troca de componentes entre a água e a planta, a sentir o aroma perfumado, absolutamente inspirador e reconfortante.
Coar o chá para uma chávena, de preferência de porcelana e pintada à mão (o que não havia em São Tomé...) e ouvir o som musical do chá a encher a chávena. Bebê-lo sem açúcar, quentinho transmite uma sensação de conforto inigualável. E estando sózinhos, podermos envolver a chávena com as mãos e sentir o calor que chega, fecharmos os olhos e recostarmo-nos num sofá confortável, perto de uma janela, e ver a chuva cair, forte e batida pelo vento, quando atrás de nós uma lareira crepita...
O chá e as suas familiares tisanas são elementos indispensáveis na minha vida, sem as quais não me imagino a terminar um dia, sobretudo se estiver frio...

sábado, 30 de outubro de 2004

Annobón, a alucinação do grupo

Annobón foi um passeio magnífico mas, a dada altura, alguns dos participantes decidiram, vá-se lá perceber porquê, tentar convencer-me a alterar o campo de estudo da minha tese de doutoramento. Turismo ecológico em São Tomé e Príncipe? Que ideia, o potencial turístico estava ali mesmo.
Eu sei, era a mais nova do grupo, cuja média etária rondava os 50 anos (excluindo-me, claro), era dos poucos que tinha decidido ir sózinha (sem par), ou que não o tinha de forma oficial (o que não quer dizer que não tivesse e que os outros não soubessem). Além disso, era tida como tendo mau feitio (leia-se, refilona), mas na verdade ria-me sempre mais do que respondia, sobretudo quando tinha vontade de o fazer, e por isso todos tendiam a abusar com as brincadeiras, para ver até onde podiam mesmo esticar a corda. Ou seja, os mais velhos do grupo - um médico e um alto responsável pela cooperação no arquipélago - decidiram que eu deveria manter-me por Annobón, mesmo contra a minha vontade.
O estratagema estava montado - eu tinha decidido ir até APOT, fazer uma caminhada, mas o ritmo do militar sorridente não me permitiu chegar ao destino, pelo que, depois de muitas vezes me sentar no chão para comer uma manga, apelando aos deuses das florestas para que as cobras não tivessem curiosidade acerca da minha pessoa, decidi retornar. E foi a única altura em que andei sem vigilante - a descida de APOT até ao centro da terra, para me reencontrar com os outros. Mas quando cá cheguei abaixo, já tinha uma moça à minha espera. Pois como é que ela comunicou com o outro, numa ilha que nem telefone tem, isso não sei.
A moça encarregou-se de me levar até à pista, onde os outros tinha abancado a comer lagosta, presunto pata negra, queijo da serra e outras delícias importadas, que o Lima tinha preparado para o nosso repasto, com toda a atenção. É verdade, eles estavam todos dentro do avião porque em Annobón só havia um café que não tinha água, cerveja ou qualquer refrigerante. Nem percebi porque é que estava aberto e com gente sentada nas mesas. Por isso, não valia a pena ficarem no café à espera dos mais destemidos e resistentes que chegaram a APOT, quando dentro do avião tinham tudo para passar um bom bocado.
Cheguei ao avião e a festa foi total - eles tinha estado a combinar a melhor forma de me deixarem lá, até porque havia a praia dos amores e assim eles teriam de regressar a Annobón de 15 em 15 dias pata me levarem alimentos, jornais e qualquer coisa que eu pedisse. O argumento era simples - eu queria estudar a implementação do turismo ecológico, num país onde o segmento se estivesse a implementar, não tinha nada que me prendesse fora de Annobón (pensavam eles... ou se calhar esperavam apenas a confirmação, mas eu não a dei), as potencialidades ali eram infinitas e a população muito afável.
Foi um estrafego o meu final de dia, o retorno a São Tomé e os dias que se seguiram. Não havia condições, nem ouvidos que aguentassem. E os músculos da minha face já se queixava, de tanto sorrir para não lhes responder. A um deles, o médico, não podia responder torto, afinal ele era uma das minhas referências, eu simpatizava muito com ele e era uma pessoa super disponível, apesar de ter entrado naquela brincadeirinha chata e que me parecia não ter fim. O outro era um fulano enigmático, que nunca cheguei a compreender, nem a função dele por lá, nem o grau de influência que tem sobre as diferentes comunidades. Além do mais, eles testavam a minha capacidade de reacção e eu não lhes dei o prazer de me ver desatinada, desorientada, enfurecida com a vida e o mundo.
Mas às vezes as brincadeiras não têm fim e as pessoas não sabem parar nos limites porque não os reconhecem, isso é verdade... E Annobón foi uma excelente experiência de conhecimento, de percepção de uma realidade tão diferente, onde o presidente regional se vem despedir dos passageiros e vê-los embarcar, porque é uma honra ter 12 turistas na ilha, e uma garantia de não intrusão. O estrangeiro é bem vindo, desde que parta e que não permaneça, mesmo que tenha dinheiro para gastar. Afinal por ali não há simplesmente nada para comprar porque ninguém vende nada. É a economia mais primária que conheci - produz-se e consome-se, não há trocas.
Foi engraçado mas muito estranho... e vim com a certeza que um dia, aquilo que poderia ser um paraíso vai ter de mudar...

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...