sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Prazo de Validade

Hoje as relações afectivas são criadas a prazo - logo desde o início, o fim é previsível. São efémeras e fugazes. Daqui a uns tempos estarão expostas nas grandes superfícies com o prazo de validade bem visível para que, no caso de já terem passado a data, se poderem devolver ao produtor.
A sabedoria radica na capacidade de nos prepararmos para o seu carácter temporário, de forma a reduzirmos e controlarmos o sofrimento do pós.
Mas... porquê????

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

O Juízo

E o último dente do siso está a nascer.
Se o ditado estiver certo, a paz vai por fim chegar, com o juízo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Resolução

Shine já pode dizer a Smile que resolveu "aquela merda", como ele chamava à história que ela vivera uns anos antes dele aparecer, mas que ele achava que ainda estava pendurada.

A escolha

Numa terra em guerra, havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os a uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas por sangue. Nesta sala ele os fazia enfileirar-se em círculo e dizia-lhes, então: "Vocês podem escolher entre morrerem flechados por meus arqueiros ou passarem por aquela porta e por mim serem lá trancados". Todos escolhiam serem mortos pelos arqueiros. Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo servira ao rei dirigiu-se ao soberano:
-Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
-Diga, soldado.
-O que havia por detrás da assustadora porta?
-Vá e veja você mesmo.
O soldado, então, abre vagarosamente a porta e, à medida em que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente... E, finalmente, ele descobre, surpreso, que... a porta se abria sobre um caminho que conduzia à LIBERDADE !!! O soldado, admirado, apenas olha seu rei, que diz:
-Eu dava-lhes a escolha, mas preferiram morrer a arriscar-se a abrir esta porta.
Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar? Quantas vezes perdemos a liberdade e morremos por dentro, apenas por sentirmos medo de abrir a porta de nossos sonhos?

terça-feira, 7 de setembro de 2004

O erro de Shine - Bad Guy

O Maior erro de Shine foram as confidências feitas a Bad Guy, em dias maus. Contou-lhe os medos que sentia, as angústias que lhe passavam pela alma, os desejos mais profundos e os sentimentos que nutria por uma ou outra pessoa. Falou-lhe das noites de desespero, chorou na sua presença em noites de tristeza ou de incompreensão, riu muito com os disparates que ele lhe dizia, aparentemente sentidos, sabendo o efeito que provocava: incredulidade e choque.
Shine quis acreditar na simpatia e amizade aparente que Bad Guy demonstrava sentir por ela e, por isso, confiou-lhe uma parte de si, sem receio das reacções dele ou que viesse a utilizar o que ia ouvindo, em tom de confissão, que só se tem com os amigos verdadeiros. E esquecia-se de quanto aquela terra era pequena. Afinal, a amizade só se consegue com o tempo e, se ela fosse uma pessoa desconfiada como diziam, nunca teria permitido que Bad Guy e outros que tais se tivessem aproximado dela, fazendo-se passar por seus amigos. De repente, a vida de Shine, que a considerava desinteressante, foi transformada numa telenovela passada em horário nobre.
Mas, na verdade, Bad Guy não era exactamente o que aparentava a Shine. Por ser um homem emocionalmente frustrado e sexualmente insatisfeito, fazia da vida dos outros o principal tema que ocupava os seus pensamentos, o argumento predilecto para uma conversa de café ou um serão, acabando por arranjar estrategemas, com os quais se divertia, sempre que o alvo caía.
Bad Guy era amigo de Smile e não gostava da maioria das pessoas que por lá passavam, referindo-se a elas como “aquele/a inteligente”. Isso deixava-a profundamente irritada.
- Como se Bad Guy fosse muito inteligente e todos os outros não fossem ninguém – pensava ela – afinal se fosse tão perfeito não magoava os outros, seria sensível, delicado, bem educado, respeitador, e sobretudo feliz. Mas não... os defeitos que vê nos outros são o reflexo do que ele é.
E como ele era naturalmente maldizente, ela procurava dar-lhe o desconto e não ligar. Desde que o conhecia, Bad Guy contava histórias acerca de toda a gente, cheias de pormenores realistas, não esquecendo as ligações que se podiam estabelecer. O que Shine não contava era que ele fizesse isso com ela também.
Ele era uma das pessoas mais conhecida na ilha e, no início, Shine olhou para ele como sendo bem relacionado, disponível e pronto a ajudar, amável, se bem que um pouco estranho. Havia algumas reacções nele que inexplicavelmente não lhe transmitiam muita confiança, mas Shine pensou que a sua maneira de ser estava a actuar de novo. Afinal ele estava a ser tão simpático com ela, porque haveria de estar a ser desconfiada? Convidava-a para um café, almoçar e jantar, ia ter com ela para a levar à praia ou à discoteca local, era um óptimo conversador e tinha uma forma de estar que a fazia rir muitas vezes.
Ele não era minimamente atraente e ela nunca notara qualquer indício que a fizesse pensar que ele queria algo dela, além de uma boa conversa e de um pouco de companhia. Blu sempre achara que Bad Guy se apaixonara, sem sucesso, por Shine, que o tratava como um simples amigo, rindo-se do que ele dizia, fazendo-lhe confidências ou pedindo opiniões sobre os seus casos amorosos, e não podia sequer compreender como ela se continuava a dar com ele, depois das coisas que lhe dizia e da forma como reagia, sobretudo em círculos sociais. Quanto mais gente estivesse presente mais agressivas eram as reacções dele para com ela, sem motivo aparente.
Bad Guy era um solitário, apesar de ter tido casamentos mal sucedidos, que assim resultaram pelo seu egoísmo galopante associado à tendência reconhecida para o perfeccionismo. Ninguém o satisfazia plenamente: ele próprio era uma imperfeição, física, psicológica e emocional e vasculhava os defeitos dos outros como forma de expiar os seus.
- A melhor arma é o ataque – dizia-lhe Blu sempre que Shine se queixava das estranhas reacções de Bad Guy quando os via juntos. Ele não geria facilmente a solidão em que vivia e refugiava-se nos enredos alheios, que lhe davam o entusiasmo e a vida que ele não tinha por impossibilidade e incapacidade.

TT em STP

Vejam em http://www.latitudezero.net/
Há mais ou menos 2 anos comecei a receber mails de um tal João Brito e Faro, falando-me de uma expedição de TT (LZEC) que estava a organizar em STP. Não estranhei o contacto dele, afinal recebia muitos mails com pedidos de informação sobre STP, a melhor altura para viajar, o que fazer, onde se alojar, onde comer, principais precauções e se possível alguns contactos. Mas, à medida que fui falando com ele por msn, fui percebendo que ele queria um pouco mais do que as simples informações - precisava de apoio no estabelecimento de contactos em STP e de um pouco de assessoria.
E, mais uma vez, eu ajudei-o, em troca da possibilidade de integrar também o LZEC na minha investigação para o doutoramento. O LZEC estava longe do meu conceito de turismo ecológico - ou que eu explorava e defendia - no sentido de promover a preservação ambiental, a protecção de espécies e de divulgaçõ dos hábitos culturais das comunidades locais. Mas eles diziam que sim...
Bem, não querendo, para já, tecer avaliações, posso dizer que o LZEC - edição zero - se realizou em 2003. Foi um sucesso para os participantes, convidados/jornalistas e observadores. Como não é de espantar, todos adoraram STP, nunca lá tinha estado antes e ficaram fãs. Por lá, o evento foi alvo de diferentes avaliações e comentários acerca dos procedimentos e dos efeitos para o país - uns mais construtivos do que outros. Mas a verdade é que o evento se vai realizar por mais uns anos e está quase. De 16 a 28 de Setembro, lá vão eles, desta vez com mais nomes conhecidos, alguns do meio automobilístico (Elisabete Jacinto, por exemplo), do mundo da moda (Diana Pereira, que repete), do meio jornalístico (Sic, Público, Lusa), entre outros.
Estarei atenta por cá, para ler os comentários, as apreciações, mas desta não poderei escrever muito mais do que isto, nem para a piá nem em defesa da organização ou participantes... Não participarei, nem como no ano passado em que fui observadora externa. Mas, estarei atenta para ver as imagens na tv, ler os mails que, já estou a imaginar que me chegarão com diferentes conteúdos acerca de tudo e de todos, e pensar que STP está tão perto, apesar da distância.

Li e reli

Ontem, li e reli os mails que trocámos, os textos, frases e pensamentos que escrevi sobre ti. Para quê? Nem eu sei. Talvez para não mais me esquecer a forma como tudo começou, a rapidez com que avançámos um no outro e a brusquidão do fim, que me levou a mais uma travessia pelo deserto. Longa, longuíssima, duríssima e angustiante porque voluntariamente solitária.
Sim, guardei tudo desde há um bom número de anos e algumas folhas estão amarelecidas. Já pensaste que foi há muito tempo? E às vezes parece-me que foi há tão pouco... Mas o tempo ajudou-me a definir sentimentos, a distinguir as emoções dos impulsos, apesar de andarem tão naturalmente ligados.
Como é difícil por vezes distinguir o amor da paixão, esta da atracção e, por sua vez, do entusiasmo. Porque temos sempre tendência a misturar sentimentos, a confundi-los numa amálgama? Porquê? Porque tentamos sempre intelectualizar o que não tem razão para ser elaborado? Mais uma vez pergunto... porquê??? E a resposta é sempre uma: procuramos eternizar os momentos de prazer e de satisfação e se pensarmos muito sobre eles, teorizando e encontrando justificações fazemos com que se perpetuem na nossa memória.

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

O fim de Smile

Naquela noite, Shine provou a si mesma que Smile não correspondia à imagem que ela criara e que alimentara, durante tanto tempo, sobre ele. E por isso, só por isso, aquela noite foi importante. Sentiu-se mal consigo mesma, por ela e pela confusão de sentimentos que emergiam. Saiu de casa de Smile pela manhã com a plena noção de nunca ter tido vontade de lá entrar. Foi um erro. Mais um. Mas desta vez útil para perceber que ele não passara de uma imagem recriada por ela, pela solidão em que vivia.
Culpou-se mal entrou no elevador e até encontrar o carro. Só queria sair dali, fugir e apagar aquela noite da sua memória. Parecia-lhe um “Reviver o passado num qualquer local, mais imaginário do que real”. Enquanto regressava a casa ia pensando “Mais um excesso, Shine... mais um que te fez chegar onde? Mais uma proximidade do abismo, daquilo que não te é útil e que não queres”. Já amanhecera e o trânsito aumentava de forma inacreditável, ela tinha a cabeça esgotada de tanto pensar sem chegar a justificações razoáveis para aquela noite.
E culpou-se porque teve consciência que Smile fora apenas mais um que entrara no jogo das inconfidências sobre a sua intimidade com ele partilhada. Apenas mais um? Foi um dos mais importantes porque no fundo ela continuava a falar dele como um gajo porreiro, cheio de qualidades.
E ele o que fizera? Com o ar de porreirismo militante abriu o jogo da vida dela, dos segredos sofridos tantas e tantas vezes em silêncio, dos excessos inconsequentes, que tinha necessidade de cometer para sentir que a vida pulsava nela. Falara sobre o que fizeram, as expectativas, o desenrolar e o terminar dos acontecimentos, os jogos de sedução utilizados, as palavras e os gestos utilizados, as caricaturas, as venturas e as desventuras de uma, cinco ou dez noites em conjunto. Algumas coisas que lhe contaram sobre ela... só podiam ter partido dele... Era ironicamente revoltante.
E pior um pouco, foi Smile que aconselhou e recomendou Shine a Blu, com uma sordidez pormenorizada, pensada, estudada, com o objectivo de, em determinada altura, poder ficar livre e tranquilo no romance desinteressante e condenado com Sad Face. Na certeza da sua masculinidade não equacionou a possibilidade de já não estar sequer no campo de atracção de Shine. Ela era afectivamente instável porque a vida a marcara pela ausência e pelo abandono, encontrava refúgios e seguranças aparentes, fundamentadas nos excessos que ia cometendo, que Blu detestava e todos os outros adoravam. Afinal, é socialmente estimulante ver um circo a arder...
E também foi Smile que provocou aquela noite com convites quase forçados para uma dança ao ritmo africano, sussurrando elogios sensuais sobre as suas capacidades de dançarina, o que a excitava, à medida que ele se roçava, a apertava e a envolvia. Sabia que, depois dos excessos cometidos umas horas antes, ela não resistia à sensualidade do abraço e do toque, tentando provar a Shine que ninguém se comparava a ele na arte da sedução. E ela foi-se deixando ir - Que raiva... o que fui eu fazer? Não quero nada dele nem com ele - pensava.
E, pela cabeça de Shine as ligações foram-se estabelecendo nas duas horas e meia de caminho até casa e culpou-se infinitamente por não ter percebido tudo, de forma clara. Não só naquela noite, porque afinal essa tinha sido a que menos a preocupava. Percebeu tudo o que acontecera entre ela, Smile e Blu. O próprio Smile falou-lhe nisso - Sentiste que foi uma aproximação trabalhada, não foi...?
Mais uma vez deixou-se ir, envolvida na emoção do momento, na expressividade dos gestos, no toque das palavras. E a única coisa de que se orgulhou foi ter sido ela a sair, a não querer ficar. Apenas porque aquilo não lhe servia. Smile não era sapato para o seu pé.

O Tubarão de STP – I Parte

Depois de ter regressado a Lisboa, após a minha última incursão a São Tomé, não há dia em que não me lembre das maravilhas do arquipélago, das suas particularidades, as mais apelativas e as outras... que representam riscos, mas que, por essa mesma razão, têm também o seu “quê” de sedução.
O tubarão de São Tomé é uma dessas particularidades, à volta do qual se tecem considerações, se contam histórias e se criam mitos, a maioria sem certezas. Sempre ouvi falar muito acerca do tubarão e nem sei porquê, talvez por ser um animal pouco simpático, que não permite grandes contactos com o Homem e que, apesar de tudo, existe em grande quantidade por aquelas águas. A maioria revelava desconhecimento sobre tipos e quantidade, principais riscos e ameaças, número de ataques e praias onde aparecem mais frequentemente. Mas as conversas evidenciavam sobretudo medo e desconforto. Havia quem: tivesse terror de o encontrar; dissesse já o ter avistado numa passagem de ano no pontão do Marlin, que era inofensivo, pequeno e da areia; não acreditasse que podia aparecer nas praias; relatasse (es)histórias, com um pormenor realista, mas sem grandes certezas... Na verdade, contava-se o que já se tinha ouvido, e “como quem conta um conto acrescenta um ponto”, fiquei sempre na dúvida.
De todas as conversas que fui tendo com as mais variadas pessoas - umas com conhecimento mais directo e outras apenas especulativas - percebi que ninguém duvidava que esta espécie habitava nas águas santomenses, e todos preferiam não ter, com o animal, um encontro imediato. A fama da espécie não é naturalmente positiva.
Os relatos que ouvi foram coincidentes – há tubarão em STP, mas os ataques a pessoas, sobretudo nas praias e a turistas, não são comuns – não gosta do Homem. As situações de ataque foram relacionados com a pesca artesanal, tendo ocorrido com pescadores locais, quando apanhavam “peixinho” ou quando puxavam as redes cheias de peixe, principalmente na foz dos rios, na zona de confluência com o mar. Em STP, não é comum o tubarão atacar o Homem, por atacar.
A minha curiosidade foi mais além, e ao encontro das minhas preocupações. Uma vez em STP, os meus tempos livres foram repartidos entre a praia e a floresta, e o meu sentimento em relação a estes bichos ultrapassa, desde que me lembro de existir, o receio e o medo. Confesso que resulta mesmo num pânico irracional. Dada a minha natural curiosidade, a busca de informação relacionada com as situações possíveis não cessou após o meu regresso.
Tenho ainda de confessar que a minha preocupação aumentou num dos inúmeros dias em que fui à Praia das 7 Ondas, com um amigo e a minha irmã, que estava a conhecer o país numa visita de uma semana.
Enquanto conversávamos animadamente ia mergulhando naquela magnífica praia, desfrutando do enquadramento paisagístico, digno do paraíso, e das águas mornas do equador, desfrutrando a deliciosa sensação de estar num jacuzzi natural, cheio de bolhinhas e a receber uma massagem permanente. De repente, sem dar conta e sem que os outros percebessem como, fui puxada para o largo, tendo dificuldades em regressar a terra, após sucessivas tentativas. Foi inexplicável, não só por ser uma das minhas praias preferidas, onde antes fiz “carreirinhas”, muitas e muitas vezes, mas principalmente por ter a água pelo joelho.
A minha angústia aumentou rapidamente, apesar de saber nadar desde os 5 anos, quando percebi que a minha resistência não era infinita, que a força e as correntes eram bem mais fortes do que eu, mas principalmente por olhar para a água e a ver escura e indecifrável. Não conseguia ver nada. A agravar, naquelas fracções de segundo, só me lembrava que aquela praia tem fama de ser "mal" habitada... ao largo.
Nesse dia pensei que o meu fim poderia estar próximo, logo na presença da minha irmã e do meu amigo, que não conseguiriam fazer nada... E, quando desisti de oferecer resistência ao mar, simplesmente porque já não tinha mais forças, o Deus do Mar e Todos Os Outros perceberam que eu não estava ali para guerrear e permitiram-me regressar à praia, com a ajuda final de duas crianças que entretanto se tinham aventurado água dentro, nadando com uma descontração só possível em STP. Quando cheguei à areia, completamente exausta “ouvi das boas”... à conta da corrente, das ondas e... dos tubarões... não bastasse já o susto e o desespero!!! Mas, como se a experiência não fosse suficiente, sempre que pude, tal como a maioria das pessoas que passam pelo arquipélago, lá ia eu parar à praia, de dia, com um sol estrondoso ou a chover e a trovejar, ou de noite e principalmente em noites de luar. Acompanhada ou sozinha. Poucas situações me transmitiram, alguma vez, igual sensação de paz e de plenitude. Foram momentos magníficos, os que vivi naquelas praias. Mas, a bem dizer da verdade... não nadava muito, ou melhor... nadava mesmo muito pouco porque o “fantasma” tubarão pairou sempre no meu in-sub-consciente. A realidade é que, se ele me aparecesse à frente, eu morreria de susto antes dele ter oportunidade de me atacar. Por isso, evitei conhecê-lo, pelo menos vivo...

II Parte

Mortos vi alguns, na praia ou no mercado, após terem sido pescados - especialidade gastronómica muito apreciada por aquelas paragens, mas que nunca experimentei. Vi um em Neves, na praia, e fotografei-o, após o almoço nas Santolas. Outro, no decurso de uma viagem à Baía de S. Miguel, na inesquecível canoa “Tantan 3”, que ficou eternizada na memória de todos quantos participaram... foram sessões de susto contínuas, que hoje nos fazem sorrir.
No fundo, éramos um grupo de 10 pessoas, uma canoa e 1 colete. A partir deste contexto, quase tudo foi possível e pouco faltou acontecer. Com a excitação da partida e a emoção da situação – a portadora do colete não sabia nadar e ficou aterrada perante a possibilidade da canoa virar. No caminho perguntei a um dos rapazes, que nos levava e que ia tranquilamente semi-deitado, se havia muito tubarão no mar com aquela profundidade e a resposta dele, naturalmente para não nos assustar, foi - “Não, aqui não há tubarão”. Eis senão quando, o que ia a conduzir a canoa, e que não ouvira o comentário, grita entusiasmado, como que a referenciar uma atracção turística, “Olha, Tubarão...”. E fez-se um silêncio indescritível seguido de uma risada geral que evidenciava o nervosismo que todos sentíamos...
Depois o mar começou a encher de tal forma que a canoa levantava com a ondulação e a água entrava. Lá houve mudança de lugares para acertos de peso e sentimo-nos todos equilibristas de circo. Mas conseguimos não virar a canoa e não foi ninguém parar àquela água escura, densa e habitada sabe-se lá por que tipo de espécies. A cerca de meia hora de chegarmos ao destino, e com cerca de 3 horas de percurso já realizado, estávamos cansados, stressados, desgastados e a moça do colete aterrada, sem que ninguém a conseguisse tranquilizar. O mar continuava a crescer, ou parecia-nos que sim. E pensávamos, meios calados, como seria o regresso. Decidirmos regressar.
Na viagem de regresso, o medo passou ao choro e ao lamento de uns e à perplexidade de outros. Sim, os nossos “guias” estavam prestes a entrar dentro de uma gruta, com a canoa e todos a vermos o mar a bater nas paredes da gruta, sem percebermos ao certo como sairiamos dali, sãos e salvos. Eu apostei com o meu amigo, com o qual partilhava o banco e as emoções do momento, que não era uma boa ideia, mas ele achou que era brincadeira e que não passariamos por lá. Passámos... e foi uma benesse do Júpiter ter-nos permitido quase voar para fora da gruta, com uma onda a elevar-se atrás de nós e cuspindo-nos para fora.
O susto passou e a chegada à praia das Conchas para um banho tranquilizador foi feita num silêncio apenas quebrado pelo choro da portadora do colete. O banho foi merecido e interrompido por um grito – Tufão no mar, vamos embora depressa para chegarmos a Morro Peixe antes dele passar. Ninguém questionou a decisão e provámos a nós mesmos que a psicologia de grupo é uma coisa complicada e que deveria ser mais estudada por especialistas...
No caminho o tufão passou a cerca de 5 metros da canoa e eu, comprovando as chamadas de atenção da minha mãe para a minha inconsciência, saquei da minha máquina fotográfica e apesar da chuva comecei a clicar para mais tarde recordar. Claro que a minha máquina digital, nunca mais foi a mesma, mas fotografou o tufão – e apesar de algumas terem ficado tremidas – posso dizer que o fotografei enrolado e passando por nós... Como senão bastasse os nossos amigos condutores da canoa, ao verem o tufão a aproximar-se, gritam “põe mochila”, e mais uma vez, nunguém questionou. Para quê? Afinal eles eram os nossos guias. E pusemos as mochilas nas costas, bem sentadinhos no chão da canoa e encharcados que nem uns pintos, pela chuva e pelo embate da canoa na ondulação. Nem pensámos que, se a canoa virasse, iriamos mais depressa ao fundo. Mas, naquela altura, quem é que conseguiria pensar?
Foi reconfortante chegar a Morro Peixe e perceber a preocupação dos pescadores, rezavam por nós, com razão, e as preces deles surtiram efeito!
Já em Lisboa, assisti, como de costume a um programa de televisão sobre fauna, que naquele dia privilegiou o tubarão, destacando o famoso de São Tomé. A informação disponibilizada foi interessante e esclarecedora. Este bicho tem, no mundo inteiro, “má fama”, mas, desde há 25 anos, só existe conhecimento de 3 ataques, sem serem a turistas. A zona onde aparecem mais animais é em Neves e são maioritariamente fêmeas. Porquê? Pois essa questão o programa não esclarecia, apesar de dizer que, com certeza, haverá um bom motivo...
O tubarão procura habitats com águas calmas, escuras e profundas e, para respirar, precisa de movimento, que lhe permite aumentar os níveis de oxigenação. Esta é a razão porque normalmente nada de um lado para o outro, sem parar, podendo atingir velocidades elevadas. Nada, para receber maior quantidade de oxigénio.
Curiosamente, contrariando a regra do que é, em princípio, normal nesta espécie, o tubarão que circula pelo mar de São Tomé, nomeadamente na região de Neves (podendo ser encontrado na zona da Lagoa Azul e a sul da Praia Melão), foi denominado no programa como “preguiçoso”, dado que, para não se movimentar muito, aproveita a zona da rebentação, onde a água é mais mexida, fazendo com que as guelras sejam naturalmente oxigenadas. É afinal um tubarão migrante e “leve-leve”, bem enquadrável no espírito santomense. Irónico, no mínimo, mas não deixa de ser muito engraçado.

domingo, 5 de setembro de 2004

Diário de um "Bom Malandro"

A minha vida mais parece uma rede rodoviária com estradas paralelas, que não se cruzam por não as poder viver todas ao mesmo tempo. Uma amiga chamava-lhes vidas paralelas, mas eu prefiro pensar que são estradas, avenidas ou caminhos que me levam – ou podem levar – a algum lado. Pensando bem, eu próprio sou dividido e não gostaria de ser de outra forma.
Não minto mas, às vezes, não posso dizer toda a verdade. Não digo, não falo, calo-me ou não respondo! Mas a culpa não é minha, é delas que querem sempre saber mais do que devem, do que desejariam saber... quando sabem... ou do que posso contar. Na verdade, se lhes contasse, ficariam a saber tanto quanto eu e isso não pode ser. Nunca se contentam com o que têm e com o que eu lhes dou. E se dou... dou-lhes mais do que posso... O problema é esperarem demais e pedirem sempre mais. Querem, querem, querem... não páram de querer e de pedir - mais amor, mais afecto, mais atenção, mais tempo juntos, mais...
Um homem tem de manter a descrição e a compostura, mas não é de ferro e fica sensibilizado com a beleza feminina e isso não é fácil de esconder. Poucas são as que não me despertam atenção. Sou um homem sensível e, bem vistas as coisas, toda a mulher tem a sua beleza, apesar delas não a verem, umas nas outras. Ou vêm mas não dizem.
A sensibilidade masculina é apurada, apesar delas nos chamarem insensíveis com muita facilidade, o que revela que, na verdade, não nos compreendem. Há qualquer coisa no corpo de uma mulher que faz com que a minha atenção e energia se concentrem – o balancear das coxas acentuado pelos tecidos colantes, os olhos meigos e a voz doce e arrastada que lhes dá uma enorme sensualidade, o fogo da pele ou a delicadeza dos gestos quando nos tocam no braço chamando-nos a atenção para o óbvio como se de uma maravilha se tratasse. As mulheres são encantadoras é é muito fácil para um homem apaixonar-se - pelos olhos de uma, a boca de outra, os seios fartos e redondos de outra, o quadrante firme de outra, as pernas longas e bem desenhadas de outra, pela cintura estreita, o sorriso ou... Apaixonamo-nos, por nada em particular mas o nada pode ser tudo e somos levados à loucura e ao delírio.
E quem lhes consegue explicar que quando dançam, coladas corpo a corpo... alteram a estrutura de um homem, mesmo que antes não tenham tido nada com ele... As danças quentes e as batidas ritmadas mexem com a masculinidade de qualquer um. Elas balançam-se, colam-se, enroscam-se, envolvendo-nos numa rapidez de sentires que não se consegue explicar porque apenas se sente. Não há como aguentar, por mais que um homem tente. Mas para quê forçar a natureza e ir contra os impulsos e as vontades? Não é por mal, é assim, mas elas não percebem. Falam logo em traição e em troca, desencadeando confusões e discussões sem razão e sem motivo.
Afinal, sou um homem comprometido e responsável do meu dever, mas quando as sinto a oferecerem uma entrega passageira mas intensa, deixo de ser eu quem ali está. Mas querida... é só por um bocadinho, isso não altera a ternura que sinto por ti, o quanto te quero e te desejo. São pulsões, entendes? São momentos, minha linda, porque tu és para sempre.
Não te vás, por favor, que sem ti não sou ninguém...

IV. O soldado que marchava com o passo certo – A História

E a vida de Shine lá ia continuando, com altos e baixos, com capacidade de se dar aos outros, porque acreditava nas diferenças, e uma avidez infinita de conhecimento – de pessoas, de paisagens, de experiências, de formas de sentir, suas e dos outros, de culturas e de modos de ser e de estar. Shine ia brilhando como o sol, muitas vezes nublada, outras luminosa e outras ainda com as cores fortes do entardecer.
E sempre que as coisas não corriam como esperava, sobretudo com Blu, que por sua vez se desiludia com ela, a cada desatino, pensava:
- Desde o início das minhas viagens, aqui e a outros pontos de África, dei-me às pessoas, nas conversas e nos encontros sociais. Nos afectos entreguei-me, amei, quis conhecer e fazer amigos, quis apaixonar-me e construir uma vida assente em sentimentos e em relações fortes, em histórias de contos de fada e argumentos de filme. Acreditei na amizade e no amor. E onde cheguei? Onde é que a minha forma de vida me levou? Sempre acreditei que os paraísos só o são quando socialmente temos oportunidades e procuramos concretizá-las e pensei que na minha África - com a qual sonhava, aquela que eu gostava de dizer que era a de todos os encantos e sonhos - seria por fim feliz. Mas afinal, as coisas não me correram sempre bem ou como eu queria. A receptividade que tive para com todos, esperando recebê-la em troca, não foi correspondida e até foi mal compreendida. A vida social revelou-se mais um calabouço, marcado pelo preconceito, do que um mundo de oportunidades. E parece que a história que o Blu me contava, fazendo-me ver que era eu que estava errada, e quanto..., não me sai da cabeça e me matraca a toda a hora os ouvidos.
- Já ouviste a história do soldado que marchava com o passo certo?
- O quê? - dizia-lhe Shine em tom exasperante e angustiado, sentindo a frase, mais uma vez, como uma crítica injusta.
- Não sabes o que é? Nunca te falaram nisso?
E Shine olhava-o com a profundidade do olhar que a caracterizava, respirando fundo, enquanto entretida fazia um pouco de purgueira com a vela amarela que ardia derrentendo-se pelas paredes da garrafa de sumo, que comprara na semana anterior e que reciclara para candelabro. Essa sim, fazia sucesso quando alguém entrava pela porta de sua casa. E pensava – o que virá agora? Mas que mal fiz eu desta vez?
E ele começava a falar, bebericando chá de menta bem apurado, inspirando o aroma e tentando não a magoar ainda mais do que já estava:
- Sabes que os soldados na formatura e na parada têm de marchar todos com o passo certo, em sintonia, de forma compassada. Pois um deles teimava em marchar com o pé esquerdo quando toda a formatura marchava com o pé direito. Quando o chamaram à atenção e o corrigiram, ele respondeu um pouco indignado – mas eu estou a marchar com o passo certo, eles é que estão a marchar ao contrário. Entendes o que quero dizer? A culpa é tua que te dás dessa forma, sempre a pensares que as pessoas estão disponíveis para ti e que o mundo gira à tua volta. Tens de ser mais contida...
- Simmmmm... já percebi... para ti também eu sou o soldado que está errado no passo e todos os outros estão certinhos, mesmo que marchem mal. O que queres que te diga?
- Que tens de repensar a tua forma de ser, como te dás, como conheces
toda a gente, porque estás sempre a desatinar com toda a gente. Não vês que não estás a agir bem? Dás muita confiança...
- Ahhhh... já percebi... mas qual é o mal de gostar de conhecer, de falar, de trocar ideias com as pessoas? Não achas que é mais errado estar sempre a dizer mal de toda a gente, a arranjar intriga, a comentar, a contar histórias? Vês-me a fazer isso? Mas as pessoas que fazem isso, tu gostas delas, não é? E se disserem mal de mim...
- Não tens razão. Tu sabes o que penso. Depois ficas assim, triste... mas quem é diferente és tu, não entendes? Se alguém tem de mudar, és tu!
E Blu abraçava-a, tentando reduzir a infelicidade que ela sentia, mas certo que ela estava errada. Desejava-a, queria-a mais do que devia ou podia, mas preferiria que ela fosse um pouco mais discreta na forma de ser, de se dar aos outros e de despertar as atenções das mulheres, mas sobretudo dos outros homens. Queria-a para si e irritava-se que despertasse desejo noutros homens, sendo o centro das atenções, fossem eles o seu amigo Smile, que continuava a achar-lhe graça e se pudesse aproveitaria uma vez mais... não fossem os ciúmes de Sad Face, nunca se teria afastado dela. Ou fossem outros quaisquer que a olhavam com olhar guloso, cumprimentavam efusivamente, fazendo-a sorrir. Não gostava disso e ela parecia não entender ou não querer fazer caso. Às vezes parecia-lhe que ela fazia de propósito e ficava tão irritado que se decidia a desfazer-se em atenções com as outras, aquelas de quem ela não gostava, e ignorava-a para que ela aprendesse. Ela não aprendia, retomava os excessos por incompreensão e desilusão, o que o irritava mais ainda e a relação deles era movida pelo efeito de bola de neve, agravando situações de insustentabilidade.
Não gostava que a comentassem porque quando o faziam à sua frente, ele não podia deixar de lhes dar razão e isso custava-lhe. Não a conseguia defender, ao contrário, reforçava que Shine tinha atitudes desadequadas para a idade, a posição e o meio, algumas desconfortáveis para ele próprio e com as quais não sabia lidar. E também já não tinha idade para aprender a lidar com elas.
Homem que é homem gosta de uma mulher tranquila, quieta, calma e discreta, bonita qb, mas não excessivamente dada aos outros. E Shine não tinha feitio para ser de ninguém. Era de si própria e não era fácil domá-la. Porque haveria de ser assim?

III. O soldado que marchava com o passo certo – Ainda Shine

Shine foi um alvo demasiado fácil para a intriga porque agia sem medir o quanto estava a ser avaliada. Nunca se preocupou com isso. O importante era estar bem, pensava ela, desde que não prejudicasse ninguém. E por isso ia falando com todos com uma enorme facilidade. Foi sempre assim desde que pôs os pés pela primeira vez naquela ilha. Ela gostava de conhecer pessoas, saber o que estavam a fazer por lá, conversar alegremente e aprender com as experiências alheias. Não pensava em envolver-se de imediato com os homens que conhecia, e fazia-lhe alguma confusão que fosse a primeira coisa em que todos pensavam quando a conheciam. Isso podia vir a acontecer mas não de forma imediata ou como uma acção reflexa. Não equacionou sequer como possível a hipótese das mulheres se sentirem confrontadas e incomodadas com a sua presença.
Ela tinha uma mente aberta e receptiva às diferenças. Mas ficava possessa quando os homens se insinuavam de forma gratuita, lhe lançavam o isco a ver se ela o apanhava. Era tudo tão evidente que a enervavam só com as conversas da treta, os ditos e os contos, que no início a deixavam boquiaberta pelo non sense, mas que com a continuidade a cansavam. Além do mais conscientemente, ela não tinha a noção da atracção que lhes provocava, não só fisicamente mas também pela maneira de ser tão diferente. Só o veio a perceber muito mais tarde e nem vontade teve de retirar algum proveito desse encantamento. Mas muito mais possessa ficava quando as mulheres, por despeito, inveja e irritação, a comentavam, criando e difundindo intrigas à sua volta, inventando situações.
- Flexibilidade mas não tanto, pensava ela, afinal que mal fiz eu a esta gente, que se faz tão amiga e de repente muda do dia para a noite, deixando até de me falar?
E sofria com isso porque começavam a tornar-se profundamente desconfortáveis os sorrisos e os olhares maliciosos, revelando conversas infinitas e imparáveis, sem ser à sua frente e sem que tivesse a possibilidade de se defender. Mas ela acabava por saber – soube sempre o que se disse sobre ela e com que intensidade porque, sendo uma das pessoas mais populares da ilha, havia sempre uma “alma caridosa” que lhe contava, como se fosse amiga, passando-se de seguida para o outro lado e relatando às línguas viperinas a estupefacção patente nos olhos verdes abertos que se enchiam de lágrimas. As reacções de Shine eram uma delícia para as conversas de café que ocupavam uma parte do dia da elite estrangeira da terra de todos os encantos. E passava-se, é certo, mas como poderia não se sentir humilhada, desesperada, sózinha num contexto social tão negro? Lá vinha mais uma sessão de desatinos e de mau comportamento que tanto irritavam Blu.
Shine estava ali para conhecer, aprender e ter uma experiência de vida única. Será que ninguém entendia isso? O envolvimento com Smile acabou por ser precisamente isso: o que nunca se deve fazer com um homem, sobretudo quando ele é giro, divertido, interessante e objecto dos interesses femininos da terra. Há que dizer que na terra os homens interessantes escasseavam e os giros eram quase exemplares em vias de extinção, por isso os interesses recaíam sempre nos mesmos. Depois veio Blu, que não sendo giro, esbelto ou que se pudesse considerar um gajo bom, era muito divertido, atencioso, terno e encerrava qualquer coisa de misterioso e de muito envolvente. Quando as comparações entre Smile e Blu surgiram, feitas por línguas malévolas, Shine entrou quase em delírio.
- Mas será que uma pessoa tem sempre de viver marcada por uma história ou uma relação? dizia em tom angustiado, sempre que, nas discussões com Blu, lhe era referida a suposta paixão recalcada, sobre a qual toda a ilha falava. É verdade que Smile é um gajo muito porreiro e eu gosto dele, é divertido e alinha sempre em borgas, é uma boa companhia mas isso não faz dele o homem dos meus sonhos. Afinal estou contigo porquê? Achas que não gosto de ti? Também tu acreditas nisso?
E a discussão ia num crescendo de emoções que se transformavam rapidamente, deixando-a possessa e com vontade de desatinar com aquelas menininhas que não desistiam de lhe tornar a vida num inferno. Shine gostava de Blu, e estava disposta a mudar muita coisa na vida dela por ele. Talvez ele tivesse mais dificuldades em transformar a sua vida por ela e refugiava-se em acusações seguidas de desencontros, como forma de justificar as suas próprias angústias.
Blu era um homem naturalmente terno e carinhoso, amigo e presente, preocupado com ela e interessado no seguimento do seu trabalho, que passava por fases boas e más, em função da disponibilidade emocional e psicológica de Shine. E isso sabia-lhe muito bem, apesar dela ter consciência que aquela seria mais uma relação temporária e que as coisas iriam ficar por ali. Mas enquanto durasse ela queria viver feliz com ele.
Shine chamava-lhe Blu porque quando ela estava triste ele tocava-lhe na ponta do nariz, acarinhava-a e dizia-lhe, a pedir um sorriso, faz um blu para mim. E Blu ficou. Apesar das imensas qualidades que ela conseguia perceber, Blu era como a maioria dos homens – mulherengo, infiel, sedutor a tempo inteiro e em exclusividade. Não que isso alterasse em nada os sentimentos dele. Era com ela que ele queria estar e partilhar o espaço da sua casa, o tempo livre e todo o outro, dividir a sua cama e os afectos, as preocupações, as angústias e as alegrias, mas as outras mulheres atraiam-no, sobretudo quando percebia que lhes despertava atenção e interesse. Não lhe interessava se eram atenções reais ou marcadas pela falsidade e
ela não suportava a ideia de se sentir posta em causa, nem que fosse por um segundo, por aquele bando de abutres, “jagudis” imparáveis que atacavam mal a viam com alguém.
Naquela terra de ninguém, as conquistas dela funcionavam como isco para as outras. Um homem podia viver por lá há muito sem despertar qualquer interesse, mas se a viam com ele, passava a ser o objecto de desejo predilecto de todas. Shine não chegou a perceber se o faziam só para a chatear ou qual era a razão pela qual os homens que a atraíam passavam de desinteressantes a irresistíveis.

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

II. O soldado que marchava com o passo certo – Shine, Blu e Smile

Os dias marcados pelos desatinos de Shine sucediam-se, cada vez com maior frequência, e apesar das tentativas imparáveis de se acertar com Blu. Ela estava verdadeiramente apaixonada por ele, mas o “bom malandro” que vivia dentro dele estava também, de dia para dia, mais activo, e isso confundia-a. Afinal, se a queria tanto quanto dizia, porquê estas atitudes e reacções?
O trabalho que tinha que fazer por lá era “por conta própria”, não dependia de superiores e não tinha horários a cumprir. Ia fazendo, ao ritmo dela e dava-se ao luxo de estar semanas sem trabalhar porque tinha a habilidade suficiente de compensar nas semanas seguintes. Isso dava-lhe a possibilidade de gerir o tempo – passava dias na praia ou a desenvolver actividades de lazer que incluía no seu trabalho. Tudo naquela estadia tinha potencial para correr bem.
Antes de Blu, Shine apaixonara-se por Smile, o protótipo do sedutor por conta própria e por prazer. Smile era o que uma mulher pode considerar de “gajo bom” – giro, simpático, bem parecido e malandrão, óptimo conversador e disponível para excessos e momentos bem passados. Foi o que aconteceu, entre Shine e Smile – uns momentos bem passados que ela procurou prolongar mas que não tinham conteúdo para serem continuados.
Apesar de ser um “gajo bom”, não tinha grande reputação por lá – metia-se com tudo o que era mulher e não era preciso ser grande espingarda. Mas quando Shine o conheceu, após uma série de coincidências – faziam parte do mesmo grupo de discussão na net e encontraram-se, sem imaginarem quem eram, mal ela chegou ao país – a atracção foi instantânea.
Ela estava mais do que precisada de uma emoção forte e arrebatadora e ele já via as mulheres locais com uma conjugação impossível - louras, giras, divertidas e inteligentes, independentemente dos traços fisionómicos, tal era a aridez do mundo feminino. Smile pareceu-lhe caído do céu, sempre divertido e com vontade de uma boa risada. Uma garrafa de vinho ou uma cerveja, intercalada com mais qualquer coisa, faziam maravilhas para uma noite de conversa, que terminava sempre na praia, num banho longo a ver o nascer do sol. Shine era para Smile uma presença agradável e sobretudo uma cara nova, com interesses diferentes do da maioria das garotas que ali iam parar. Estavam um com o outro na maior das sintonias, desde que não houvesse compromissos.
Mas na vida de Smile havia uma Sad Face, sem que Shine tivesse percebido. E os problemas começaram a aparecer porque Shine intrometeu-se, sem querer ou imaginar, entre Smile e Sad Face e, além da relação que foi emergindo aos olhos de todos, Shine deixou-se apaixonar. Como o meio facilitava a intriga, todos souberam, comentaram e aumentaram aquele sentimento que estava contextualizado no tempo e no espaço. Entre essa altura e o dia em que Shine conheceu Blu passou um ano e até se ter apaixonado, e envolvido afectivamente com ele, muito mais tempo. Quando regressou, os sentimentos que nutrira por Smile já não existiam sequer. Ela passou a falar nele como um gajo porreiro, porque o era de facto. Continuava divertido mas nada mais do que isso. Já nem graça lhe achava.
Estava então disponível para novos afectos e emoções, não contando que, durante o tempo que se afastara daquela gente, a intriga continuara num crescendo alucinante e imparável. Conheceu Blu e até hoje, depois de muito pensar, não consegue dizer se a aproximação que ele fez foi combinada com Smile e Sad Face, como forma de a manter à distância suficiente, sem causar transtornos perante os ciúmes intensificados, mas infundados, da garota. Sad Face era insegura e Smile não lhe dava razões para ser de outra forma.
Quando a ideia lhe passava pela mente, ficava arrepiada de tanta irritação. Não querendo acreditar, pensava – Xô pensamentos negativos, tenho de me sentar ao sol a fazer Ioga para receber energias positivas. E lá ia para a pequena varanda do apartamento, umas vezes com uma vela acesa junto a si e outras concentrando-se na energia do sol, cruzava as pernas e tentava meditar, emitindo o som Ommmm.
Claro que essa prática não ajudou a refazer a imagem que todos tinham dela, mas ela não parecia particularmente preocupada com isso. Afinal, não devia nada a ninguém e não estava a prejudicar nenhum deles. Estava a fazer a vidinha dela, calma e tranquilamente, a encontrar-se e a tentar perceber ao certo o que queria. Ninguém tinha nada que ver com a vida dela e não havia demonstrações de amizade, sobretudo nas mulheres. Invejosas, pensava.
Além dos desatinos, dos excessos que cometia quando estava triste, também fazia Ioga na varanda, e até os jardineiros comentavam que a Dra. tinha uma religião esquisita, qual seria? Ela ria-se quando lhe vinham contar... afinal não era ela senhora de fazer mesmo o que lhe apetecia? Até o Ioga seria um excesso? Ou um sinal de se ser uma pessoa desestruturada, como lhe diziam, quando percebiam que não era casada, não tivera filhos, porque a vida assim não o quis, e fazia o que lhe apetecia mas não tinha namorados. Relações só lhe conheciam a de Smile, porque Blu ainda não fazia parte dos sonhos dela. Apareceu mais tarde, e foi um problema num dia só...
As mulheres odiavam-na, com uma ou outra excepção, porque ela tinha uma forma de estar singular, marcando pela diferença.
Os homens achavam-lhe graça, brincavam com ela, por tudo e por nada, tentavam meter-se, a ver se dava, e a resposta era conhecida e desencadeadora de risos, de sorrisos ou de olhares reprovadores em função das caras – Xê... Oh... tem juízo, tu não prestas! Arranjaram-lhe alcunhas e até lhe chamavam frígida, o que a enervava e desencadeava desatinos... porque ela dizia não gostar de dançar e não querer ter relações de uma noite, como todas as outras, ora com um ora com outro. Gostar... ela gostava mas não era com toda a gente, quem escolhia era ela. Na verdade, ela sabia muito melhor o que queria do que as outras e isso era visto como um problema.
Shine era das pessoas mais populares, conhecia toda a gente, o que não era tarefa difícil – as pessoas não eram muitas e ela era simpática, sorridente quando estava bem disposta, disponível com todos, desde que não a pisassem e não lhe fizessem mal. E mesmo nestes casos, dava, quase sempre, o benefício da dúvida, o que a fazia sofrer porque na sequência, quem não lhe queria bem, pisava de novo. Era uma referência, pediam-lhe informações e sugestões, chegavam lá dizendo que eram amigos dela e, de quando em vez, confrontavam-se com a própria, dizendo-lhe que eram seus amigos, mas quando se davam conta de quem ela era... constrangiam-se. Ela sorria, ria-se e começava logo a tratá-los por tu.

I. O soldado que marchava com o passo certo - prelúdio

Invariavelmente, Blu contava-lhe uma história sempre que lhe queria dar na cabeça, nos dias após ela ter feito uma asneira. E a asneira era para ele “portar-se mal”. Já passara a fase dos 30 há algum tempo, mas, nestes dias, ele agia como se ela tivesse apenas três.
Em boa verdade, fazia o que tantos fizeram, antes, durante e depois dela, mas ele não gostava de a ver assim. Bebia uns copos a mais e fumava umas joints com quem as tinha. Não com ele, que era contra excessos e adicções. E fazia-o sempre demais, porque não sabia parar e deixava-se ir na embalagem. Isto acontecia esporadicamente e sempre que estava chateada com ele. Era um refúgio, um porto, uma evasão, o esconderijo onde ninguém entrava porque não a encontravam. Ela estava ali mas era como se não estivesse, ausentava-se do que a incomodava e por isso sorria, a pensar -“Estes gajos não prestam para nada. Não têm o que fazer e, ou estão no engate ou a dizer mal de alguém”. Era no fundo o seu pequeno mundo onde flutuava acima das ondas, levada pelo vento. E sabia-lhe bem. Sobretudo por não ser dada a ressacas.
Ficava louca de riso e de desejo por ele, mas se lhe diziam alguma coisa que ela não gostava... o caldo entornava e a baiana dançava. E parecia que escolhiam os dias em que estava com um sorriso de idiota estampado nos lábios, um olhar vago e um passo dançarino para a virem chatear. E depois, era tudo tão previsível... diziam-lhe coisas mesquinhas, contavam pormenores sórdidos acerca da vida dele, comparavam-no ao outro que tanta paixão lhe tinha despertado um ano antes, mas para o qual ela já não tinha olhos porque se tinha revelado um estafermo.
Era um gajo porreiro, como ela estava sempre a dizer, mas apenas isso. Já não tinha graça porque já tinha passado o prazo de validade dele. Era engraçado porque o "estafermo" lhe dizia nos tempos aureos que as mulheres vêm normalmente sem prazo de validade e cartão de garantia, por isso era tão difícil o relacionamento com elas - não se podiam devolver ao produtor. Só que pensando bem, ele é que ficou fora do prazo quando Shine conheceu Blu.
Na verdade, Blu não viria a ser muito diferente mas Shine queria acreditar que sim, que o tinha eleito por ser diferente. Afinal eles eram amigos e talvez tivessem muitos pontos em comum - o facto de não prestarem, de serem uns incorrigíveis sedutores e uns "bons malandros", mas sobretudo por se terem interessado por ela e ela por eles, mas em momentos diferentes.
Já não havia paciência e como ela gostava de lhes dizer, consciente de que os chocava – “Não há cu que aguente esta conversa. Olha, desemerda-te e deixa-te disso” – virava costas e deixava-os a falar sózinhos, enquanto dizia a Blu – “Tou farta destes gajos. Vou-me embora. Tu se quiseres fica”.
Ele não gostava de a ver assim, nem de a ouvir a dizer isso porque era um homem certo, composto e muito respeitado. Umas vezes vinha com ela, iam para casa e ele recusava-se a fazer amor com ela assim – “Não estás em condições. Vai dormir! Falamos amanhã” – dizia-lhe, enfurecendo-a de morte.
Achava-se injustiçada e meia perdida, e quando isto acontecia tinha de andar pela cidade a pé, fossem 10 horas da noite ou quatro da manhã. Tinha de andar, senão sufocava naquele calor húmido a apelar aos sentidos, rejeitada e a sentir-se sózinha. E lá ia avenida fora até à marginal, ver o mar e ouvi-lo, para sentir que o mau momento era lavado pelas ondas. Ele ficava fulo, não suportava vê-la sair e perceber que, no dia seguinte, metade da ilha comentaria que ela estava de tal forma que andava pela cidade, muitas vezes a chorar e sem ver ninguém, depois de ter desatinado num lugar público. Até haver alguém que parava, para a ir buscar às escadas da Catedral onde estava sentada sózinha, de frente para a baía a chorar em silêncio.
Mas nas outras vezes em que ele achava que ela tinha ultrapassado o limite do possível, ou quando uma outra de quem ela não gostava, e que não gostava dela, chegava ao bar, ele decidia ficar e dizia-lhe, sabendo o transtorno que lhe causava “OK, vai andando para casa que eu ainda fico um bocado”. Sabia os ciúmes que lhe causava e ela, só lhe apetecia partir tudo. Mas em vez disso, saía e procurava quem tivesse umas folhinhas e as quisesse partilhar num final de noite, para uma troca de confidências, algumas lágrimas de incompreensão e solidão, e nada mais, apesar dele ficar sempre na dúvida. Ela sentia-se trocada. E havia de ser logo por aquelazinhas que não valiam um chavo. Mas ele também não, pensava ela, e sentia-se um pouco mais confortada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

O som das ondas

O som das ondas imita o sussurrar dos amantes que não o são, que tentam ser algo que não conseguem. Precisam de amor como de ar para respirar e vão, de tentativa em tentativa, na busca de uma entrega total, que nunca chega a ser porque não pode ser assim, não é esse o seu destino. Ao contrário dos amantes, a praia é e permanece numa conjugação perfeita de elementos que se entregam uns aos outros numa simbiose total, sem desafinações transmitindo a imagem da sintonia natural.

Estás confuso?

- Estás confuso? Como me podes dizer isso? Logo a mim?
- Tens de perceber que o mundo não gira à tua volta, tenho problemas que ultrapassam a relação que tenho contigo. Sinto-me confuso, percebes?
- Não. Não percebo porque não posso perceber. Tenho este aspecto, é verdade, mas burrinha burrinha não serei. Confusão foi a que me criaste, no final da primeira noite, quando chegámos à praia te disse que não queria mais, que queria parar e que para mim chegava porque quem ia ficar mal era eu. Lembras-te do que me disseste? Que querias continuar porque tudo podia acontecer. Agarraste-me, seduziste-me e amaste-me dentro de água como só tu sabes, sem problemas que alguém nos visse, fazendo-me acreditar que contigo tudo era possível. E lembras-te do que dizias na brincadeira depois de nos amarmos longamente numa troca de fluxos salgados? Que as peixas iam ficar grávidas de ti... E eu ria-me que nem uma perdida só de imaginar... Confusão foi onde me meti por te querer tanto, por te sentir, por te desejar, porque me davas prazer como nenhum até aqui. Porque contigo cheguei ao céu e visitei a lua quando estava cheia e luminosa. Porque contigo atingi níveis de prazer louco e quase alienado, ultrapassei os meus limites e quis ver todas as estrelas e constelações do hemisfério sul, que só tu me soubeste descrever. Porque só tu me possuíste sem barreiras ou negações, tal e como quiseste porque também eu queria. Quis ter tudo assim como tu. E agora vens-me falar em confusão??? Como? Como? COMO??
- Mas tens de perceber a minha situação, eu quero-te tanto... mas estou confuso, há muita coisa que pode ser posta em causa... quem te diz que eu não te quero?
- Importante? E eu? Qual é a importância que eu tenho? Hein? Queres-me? O que é que isso significa exactamente? Podes operacionalizar, por favor? Olha, estou cansada e nem consigo mais dizer o teu nome. Cansada de esperar, de querer, de te desejar e de me sentir só, ansiosa, angustiada, sempre a viver na incerteza do teu querer. Tás confuso? OK, quando te decidires avisa... mas até lá, deixa-me viver em paz! E reencontrar-me, depois de conseguir juntar os pedacinhos todos que ficaram partidos.

Tu não prestas...

Hoje estou contente comigo mesma. Resisti quando te vi. Eu valho muito mais do que tu. E mereço muito melhor. Tu não prestas, nunca prestaste, apesar de eu ter querido achar que sim. Resisti e vou resistir sempre a partir daqui, porque a primeira vez é a que custa mais. E olha, que com o calor que faz nos trópicos, resistir não é fácil. O desejo ultrapassa a vontade e tu tens a habilidade de mo criar. Mas hoje, demonstrei a mim mesma. Consigo ver-te, estar contigo e odiar-te, tanto que nem desejo sinto por ti. Tu não prestas...

A Primeira Pedra

De forma inexplicável aquele local permanece num calmo ponto de encontro, onde se acertam negócios, se discutem estratégias partidárias e se arranjam encontros amorosos, onde se vai para se ser visto, onde se “pica o ponto”, onde se passa uma boa tarde a ler, a ouvir o som do mar, a conversar ou a cuscar. Para tudo serve.
Todos se cumprimentam porque todos se conhecem, num sinal de cordialidade aparente mas, na verdade, profundamente falso. Parece ser um ritual, um hábito enraizado mas não sentido. São afáveis, sorridentes e aparentemente agradáveis, até para os que não conhecem e nunca viram. Mas após o primeiro contacto percebemos que a realidade é outra. Procuram tirar-nos a ficha, o mais completa possivel – origem, ligações familiares, estatuto socioeconómico, filiação partidária, actividade profissional, percurso académico, local, duração e objectivos da estadia, gostos e hobbies, conhecidos, amigos e principais inimigos... Como se tivessem alguma coisa que ver com isso. Mas a vida interior da maioria deles é tão pobre... para não dizer completamente vazia e desprovida de conteúdo. Não tem interesse e fazem da vida dos outros a causa das suas próprias existências.
Assustador, não?
Com base no que ficam a saber e nas fragilidades encontradas, tecem uma rede de estórias, com ditos e contos, relatos impossíveis de alguma vez terem acontecido. Contam e recontam, perguntam o que não sabem e passam a nossa primeira semana de estadia em investigações por conta própria, procurando saber um pouco mais, nem que seja um adjectivo que nos qualifique – preferencialmente pela negativa – para que o conteúdo das conversas, por mais simples que seja, sobre cada um de nós, ganhe forma e se torne em qualquer coisa de interessante, pela sordidez. Quem não tem muito para contar, ou sobre o que se falar, passa a ter.
Não é preciso muito, não é preciso quase nada. É preciso apenas chegar e ter qualquer coisa que se evidencie e marque pela diferença – a simplicidade, a beleza, a inteligência, a sedução, a simpatia, o à vontade, a postura aberta, a franqueza, a disponibilidade ou apenas por procurarmos ser nós próprios, sem camuflagens e refúgios. E, por não ser comum, torna-se interessante como tema de conversa e, nos subconscientes destas pobres almas, a diferença representa um risco.
Passamos a ser o alvo principal, o mais frágil, o mais fácil e o mais apetecível, pela simples razão que queremos conhecer, sem pensar na preversidade da mente humana fechada em ambientes pequenos, desenvolvendo-se em pensamentos circulares. Estrategicamente, há que aniquilar os novos para que se evidenciem apenas pelos traços negativos e condenáveis.
E estão todos de olhos postos em nós. Para quê? Para nos ver cair a primeira vez, pisar o risco, fazer a primeira asneira, mesmo que inócua. A partir daí, a fama está adquirida e é tudo muito mais fácil. Nem nos precisamos de esforçar para asneirar mais e mais. Não vale a pena, está tudo feito à partida. Por mais que façamos bem aos outros, haveremos sempre de ouvir a primeira história como se fosse regra. Ficamos marcados por um evento e se, por algum motivo, que só a nós diz respeito, reincidirmos... a “salvação” é impossível. Somos condenados torturados e queimados vivos, trucidados, destruídos, esquartejados. Não há nada a fazer, é assim e pronto.
A vontade que me deu foi transformar a asneira em banalidade e não liguei puto. Ou melhor, liguei, mas continuei na minha vidinha, nos meus disparates que só a mim diziam respeito, nas minhas loucuras pessoais, que não prejudicaram ninguém, e que me souberam como a Vida.
Foi uma experiência irrepetível, única, magnífica. Cresci como pessoa e percebi que não quero nunca ser como eles. Básicos, mentirosos, lineares, pobres de espírito, sem interesse, sem vida própria. Não vivem, limitam-se a vegetar por ali porque foi ali que foram parar e acomodaram-se por não conseguirem ser melhores. Mas se os pusessemos noutro lado, a postura seria a mesma porque ali só vão mesmo parar os que não prestam, aqueles que não conseguiram ir para outro lado, os falhados profissional, económica, social e afectivamente falando.
Esta é uma África que não é bem África, é uma mistura politicamente correcta e socialmente aceitável, onde todos representam um papel pré-definido. Mas, quem não cometeu erros? Quem é inimputável? Quem não se arrapende de nada? Esse seria o único com direito efectivo de atirar a primeira pedra. E por lá... não conheci nenhum com estas características. Mas todos falavam... do que era, do que não era, do que nunca tinha sido e até... do que viria a ser. Todos tiveram capacidades adivinhatórias brilhantes. Só por isso, valeu a pena. Leram-me o futuro e, como em tudo nesta vida, acertaram numas coisas e falharam outras.
Mas a terra não tem culpa, essa é magnificamente deslumbrante, misteriosa, sedutora, aliciante e acolhedora. A terra não teve culpa de seduzir os piores e de os reunir, criando o micro-cosmos da maledicência.

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

O tempo

Depois da tempestade vem a bonança. Hoje estou com o tempo. Acordei "nublada", passei a céu cinzento no final na manhã, mas depois do almoço fiquei "solarenga". O céu está agora azul claro com nuvens espaçadas, contrastando com o azul do mar, mais forte e definido. Assim estou eu, mais definida e determinada. Só chove para limpar o céu.

terça-feira, 31 de agosto de 2004

O passado reencontrado

Olá, "tu do meu passado", ainda bem que te encontro hoje e espero que por mais um pouco. Acompanha-me nos momentos de tristeza e de solidão. Diz-me que sim, que não partes ou desapareces uma vez mais, como se nunca tivesses existido e fosses apenas mais um dos meus fantasmas, dos meus receios imaginários ou dos meus sonhos.
Sim, fica, apenas por um instante, mas fica. Até eu já não chorar... E hoje, eu choro. Muito.

Aprender

O que é viver senão aprender a sermos melhores? No dia-a-dia, num contínuo e sem paragens, quando nem tempo, capacidade ou vontade temos para aprender a crescer devagar devagarinho. As vontades ficam-se por outros ritmos e gestos que não chegam a ser mais do que simples intenções. Não vale a pena, não é suficientemente importante para... Vontades sem capacidades, insuficientes, inacabadas porque não chegam a sê-lo nunca.

Grito de cansaço

Hoje apetece-me gritar. E para não o fazer, escrevo e repesco o que escrevi em momentos de tristeza, de angústia e de desilusão.
Quem não os teve? Todos já tiveram com certeza. Mas cada vez mais sinto que esses momentos são pesados, angustiantes e prolongados.
Estou cansada... mas por favor, não me perguntem porquê...

Renovação

A renovação é um processo profundamente assustador e intimidatório.
Alguém que conheci em tempos disse-me um dia – a mudança é telúrica – não me soou nada bem, mas tenho de admitir que ele tinha razão. Terá ele mudado? Ou terá ficado assustado com a perspectiva de mudar, intimidado com os resultados possíveis e conformado ao que sempre foi?
A propósito, será possível um adulto mudar?

Agosto 2004, Lisboa

Momentos de dúvida

Se me queres e se te quero, como te quero,
Porque não podemos
Querer,
Ficar,
Estar,
Amar,
Partilhar?
Porque temos de optar pela ausência
Intolerável,
Impenetrável,
Tão dolorosa?
A resposta é uma só – não me queres!

Iniciado em STP, 9 Maio 2003 e terminado hoje...

Angustiada

Sinto a pele a queimar de novo. Não de desejo mas de angústia. Acabei de te ouvir e percebi. Uma vez mais avanças e recuas. Estou cansada, desgastada, saturada. Algum dia te vais definir e perceber o que queres? Se queres...?!

Que ele esteja bem

E, de quando em vez, tinha necessidade de ter notícias dele.
Nunca mais o quis ver ou falar-lhe directamente.
Afinal ele tinha sido o causador de um longuíssimo sofrimento,
uma ferida que, ao fim de um bom par de anos, continuava por sarar.
Mas, apesar de orgulhosamente não reconhecer,
no seu intímo gostava de saber que ele estava bem ou que ia indo.
Isso era um bom sinal.
Significava que estava vivo e que a vida se encarregava de o ir transportando,
sabe-se lá por que caminhos.
Mas ele sobrevivia às intempéries e às tempestades, aos verões tórridos,
às emoções e às desilusões desta vida.
Tal como ela. Mas à distância.
Porque em proximidade, ela nem sequer pensava.
Bastava-lhe saber que a vida continuava.
E assim inconscientemente sentia-se mais confortada.
Ela não era má pessoa, muito pelo contrário.
Apesar do transtorno afectivo que ele lhe causara, desestruturando-a, não lhe desejava mal.
Ele que seguisse o seu caminho em paz e que lhe permitisse, de quando em vez, saber dele.
Que estava bem. E ela sentia-se confortada com isso.

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

À Noite no Passante

O Passante permanece placidamente sereno e tropical, enquanto como uma tosta mista e bebo uma coca cola, fugindo às recomendações, de que fosse sem gelo e sem limão. Mas com este calor uma coca cola sem gelo e limão saberia simplesmente a água choca açucarada, por isso que seja o que Deus quiser.
A minha frugal refeição é alegrada pela música que se vai fazendo ouvir, crioula e bem ritmada, misturando-se com o som das ondas a bater no paredão ao rebentarem.
“Yoyoyoyoyoyoyo... yoyoyááááááááá” vai-se ouvindo, intercalado por batidas quentes e apelativas, convidando para um kizomba bem colado. Mas àquela hora – do mosquito – não há pares que queiram dançar e mesmo que os houvesse, eu não dançaria. Não por não gostar mas... sei lá eu... A minha fraca experiência de vida diz-me para ser cautelosa nas escolhas e nas danças. Há quem diga que a dança é uma frustração sexual - uma tentativa de sexo com quem nunca se terá. E as danças africanas são exímias. Por isso... mesmo que me aparecesse à frente o maior dançarino do Mundo a ensinar passos novos, o sedutor mais irresistível com uma conversa desconhecida ou o amante mais prodigioso a propor-me o que mais me agrada... naquela altura, eu resistiria. Não por falta de vontade mas por medo de voltar a viver tudo outra vez. Tudo o que não foi bom...
As músicas que vou ouvindo falam da saudade sentida pelos amantes, apelando ao retorno, tal como as ondas, levando e trazendo água nova misturada com a velha, limpa e suja, sem que seja possível distingui-las, criando um mesclado de sentimentos e de colorações.
E eu... penso em ti, na forma como me entreguei, sem que o merecesses, sem que tivesses a capacidade de apreciar; na incompletude do que senti, nas emoções que ficaram por realizar; numa África tão diferente desta que se me apresenta ligeirinha, suave e adocicada, aquela que eu queria e não esta onde vim parar, por vontade própria, por medo de voltar à outra, onde tu estavas, e de te reencontrar. Vens-me ao pensamento a toda a hora. Que é de ti?
E eu, que nem gosto de coca cola, dou comigo a pensar no quanto esta bebida me soube bem – fresca e borbulhante – permitindo-me novas sensações, fazendo-me pensar na possibiliadde de renovação. Afinal já lá vai tanto tempo... e eu continuei presa a uma imagem, que já não sei mais se é real ou fictícia, mas tão negativa, que me fez tanto mal... E porquê???

Sabes o que te diria se te visse? Que venha o futuro, um futuro diferente do presente e do passado, pelo qual eu tanto anseio e que me dou ao luxo de pensar que mereço. Que me permita renascer numa nova África, esquecendo a antiga...
Na minha primeira viagem a São Tomé, 2000

O nosso ritual

Começou por ser nas noites de domingo, quando todos se recolhiam, cansados do dia de praia ou porque a moleza invadia os movimentos e o espírito não contrariava a vontade, após uma longa caminhada, que sózinhos cumpríamos o “nosso” ritual.
Sentiamo-nos bem assim. Ouviamos música, normalmente dos meus CDs, que com a minha partida herdaste, sendo as nossas faixas preferidas o She e o Honesty. E ouviamos repetidamente, sem nos cansarmos, porque qualquer uma tinha que ver connosco.
E ao som da música, nas noites quentes de domingo e para terminar o fim de semana em beleza, o ritual repetia-se - bebiamos chá e conversávamos.
Beber chá em África é uma prática magnífica. “Muito magífica mesmo”, como eu te diria acerca das coisas inesquecíveis. O chá que alimentou a ternura que surgia com um olhar, um desabafo e um sorriso. E de domingo, o ritual passou para outros dias da semana, em função da necessidade que sentiamos de uma carícia, de um abraço, de um segredo partilhado, de um miminho, de uma noite intensamente bem passada.
O ritual foi ganhando importância e fomos variando os chás em função do dia, do estado de espírito e da vontade, porque fomos também apurando os sentidos e entregando-nos, chá a chá, momento a momento, noite a noite. E assim aqueciamos as emoções.
Já era, só por si um ritual, a pergunta que, dependendo dos dias, eu ou tu faziamos – “Ofereces-me um chá?”. E o que queriamos era a voz, o reencontro do olhar quando nos sentiamos distantes, o toque intenso dos nossos dedos procurando-nos, fazendo-nos sentir presentes, o sabor quente das nossas bocas numa troca terna e envolvente, directa e profunda, doce e picante, tornando-nos únicos no Mundo.
E hoje, passadas tantas noites sem chá, sinto-te ainda presente. E tudo, por causa do ritual...

domingo, 29 de agosto de 2004

Amante experiente

Era com certezas de amante experiente que me dizias
- Sabemos como isto começou mas não sabemos como vai terminar... tudo é possível, tudo pode acontecer. Tudo, percebes?
Nunca medi bem as tuas palavras, mas hoje recordo-as sem parar. Só te posso dar razão e, se já te admirava, passei admirar-te ainda mais. O que me dizias revelava uma sabedoria adquirida pela experiência de vida que quase só os homens têm. E tu tinhas...
Agosto 2004

Lembranças da Lua Cheia

Lembras-te do luar na boca do inferno? E de como a lua estava cheia e redondinha, brilhante e colorida? Lembras-te da grande inspiração que nos levou a um ponto no céu, que só os eleitos conseguem alcançar? Lembras-te de termos dançado, ao som de uma música imaginária, passos por nós inventados, num jogo de sedução?
Atingimos um estado pleno de felicidade suprema, que nos chegou através do vento e protegida por fadas, duendes e gnomos...
Lembras-te do que sentimos e do que ouvimos? Todos os anjos, arcanjos e querubins estavam reunidos a brindar ao nosso amor e cantavam cânticos que só nós podíamos escutar.
A conjugação astral foi favorável e, depois de tantos encontros anteriores, vimo-nos com olhos de paixão desenfreada. Tão louca e tão dada... e os deuses festejaram connosco num eterno momento de felicidade conseguida. Para sempre, meu amor. E hoje, a ver a lua cheia, tão diferente daquela noite, lembro-me de ti, para sempre.
Lisboa, Agosto 2004

Quem és?

Quem és tu, que me apareces e me foges, que me queres, me recusas e te ausentas?

O Tempo em África

Enquanto lá estamos, temos a sensação que o tempo tende a parar – é quase um fait divers, mas eu senti-o, não foi ninguém que me contou. E apesar de tudo, hoje, que já lá não estou, mas tenho esperança de voltar logo que possa, parece-me que o tempo, que por lá passei, voou.
Os sentidos quedam-se na contemplação, porque tudo é um estímulo, quente, terno, doce, acolhedor e envolvente. A humidade colante reflecte-se nos corpos despidos e nas peles tórridas. O vento procura arrefecer o ambiente, “parece que vai chover... pode ser que alivie” – alguém diz, numa estranha combinação de conforto e de afrontamento e continua com um tom conhecedor e conformado, perante o desconforto dos novatos – “Faz parte, é o clima...”. E tudo a partir desta frase é explicado pelo clima. Boa justificação para qualquer manifestação dos sentidos, da mais pura à mais... extravagante.
As chuvas africanas, caracteristicamente tropicais – intensas e fugazes, como quase tudo o que se vive por lá – dão-nos a estranha sensação de quanto tudo pode ser contraditório, contrastante e temporário. Jà me tinham falado disto e já o sentira, mas noutros contextos, noutras Áfricas tão diferentes desta, e por outras razões. Mais dramáticas, confesso.
A verdade é que, nada permanece, apesar da mudança nos parecer sempre tão lenta. O tempo não passa... às vezes custa a passar... e nos dias maus então... sentimos o “leve-leve”, de forma pesada, e agravada pela dureza do clima. “A vida aqui não é fácil. Não há condições...”, acabo por constatar, com a sensação que o meu mundo não é aqui, que não pertenço a esta terra, mas que também não me sinto bem no sítio de onde vim. É estranho e contraditório. Sinto-me desenquadrada e preciso que me ajudem. Peço mas... todos parecem sorrir com o meu desacerto. Sinto a vida num rompante, a passar passando, devagar devagarinho.
À minha frente, no Passante – local de grande inspiração para a escrita – o mar verde, azul, cinzento, em função do tempo e dos estados de alma de quem o vê, denso e intenso, permanente na passagem, num ir e vir constante e renovado. Talvez por isso goste tanto deste sítio. O mar é como os meus olhos, muda de cor mas a intensidade permanece.
Esta é a melhor imagem que, algum dia, consegui ter, do ser, do estar e do ficar, saindo e passando.
STP, Dezembro 2001

sábado, 28 de agosto de 2004

Querer

Deixa ir, deixa estar, deixa ser... DEIXA!
Ficar e permancer, esquecer por querer. O princípio e o fim num só, como forças desiguais e desigualmente semelhantes.
Amo-te, quero-te, desejo-te. O teu corpo, a tua pele, o teu ser, tudo num só.
Angustias-me. Não te quero mais. Fazes-me mal. Sai. Quero ser eu sem ti, porque tu não me deixas ser como eu quero.
Quem se ama deixa-se ir, quando não nos quer. Não se prende e não se força.
Se um dia voltares a querer e, se eu ainda te quiser, voltaremos de novo a querer-nos.
Agosto 2004

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Mais um romance em África

Mais uma vez os envolvimentos rápidos e fugidios, as paixões desiguais, os sentidos à flor da pele e as emoções a despertar. Mais uma história de encantar que vai terminar em desencanto pela inconsequência dos actos, inconstância das vontades e inconsistência do argumento.
Mais incertezas e dúvidas, medos e inseguranças que se confundem com a vontade de não falhar uma vez mais e de perder. Medo de ouvir e de falar. Estou exausta de tentar, cansada de amar sem partilhar, de dar sem ter entrega. Valerá a pena?
Sinto, uma vez mais, as contradições infinitas do romance em África, numa terra de ninguém, que não é minha hoje, nem será nunca. Tal como os amores que aqui vivo, numa tentativa imparável de me acertar.
Dezembro 2001

Protecções

Um dia, na praia dos Tamarinos, praia levemente tropical, fazendo lembrar ambientes desertos, onde se pode andar nu sem nos darmos conta de estarmos a ser observados, e apesar de obviamente estarmos, dei comigo a pensar. As roupas não são mais do que protecções convencionais, que nos tornam menos vulneráveis e expostos e mais seguros. As variações das roupas que usamos, a forma como combinamos as peças, as cores, os tecidos e os padrões levam-nos a criar nos outros sensações e emoções, mantendo-nos protegidos dos impulsos alheios. E eu que gosto de fazer nudismo, apenas em praias desertas e sem assistência, cheguei naquele dia a uma conclusão - as roupas são absolutamente magníficas, porque sendo escudos protectores, funcionam ao mesmo tempo como instrumentos de sedução infalíveis. Sem qualquer peça de vestuário, algumas pessoas não seriam nada, porque quando as vemos nuas, perdem qualquer graça que lhes poderiamos ter encontrado quando as vimos compostas e arranjadas.

Moça dos olhos tristes

- Moça dos olhos tristes e profundos, encantaste-me e seduziste-me só com o teu olhar. Um olhar: contido, terno e doce, a oferecer-me infinitos mundos que eu quero descobrir; reservado e indiciador de sofrimentos, que nunca conseguiste ultrapassar e sobre os quais tens tanto receio em falar; tão sedutor que consigo ver a amante fogoza que és por trás da tua timidez.
- Porque me chamas moça, quando tenho nome? Diz o meu nome ou nem o sabes sequer? Tens medo de te enganar...?
- Que mágoas passadas, presentes e futuras esconde esse tom indefinido. Que mistérios têm a revelar o verde distante, o cinzento tristonho e o meigo acastanhado? Porque mudam de cor os teus olhos que me seduzem por serem tão diferentes mas tão belos? Porque és tão insegura de ti, se és tão doce e tens uns olhos para os quais tenho até medo de olhar, porque me posso afundar neles e não voltar a aprender a nadar?
- Porque... olha, por não me tratares pelo nome e me continuares a chamar moça, como a uma outra qualquer que passou pela tua vida antes de mim ou que venha a seguir. Porque são tantas que não sabes o nome de nenhuma, mas isso também nem é importante. Não é mais possível acreditar no que me dizes. Porque também eu tenho medo de me perder, nas tuas palavras doces e no teu toque macio, nos teus braços fortes quando me abraças e na tua envolvência, e não me conseguir encontrar. Porque não posso e porque não quero. Porque o sofrimento que vem será com certeza maior do que o imenso prazer que me dás.
- Mas o que é mais importante? Ser fiel ou ser leal? Já pensaste que fiéis são os cães? Os homens são leais. A si, a sentimentos, a valores e aos outros. A vida é uma aprendizagem feita de momentos e a inteligência está em vivê-los bem, na busca da felicidade.
-
Sim, eu tenho um cão e gosto de pensar que um homem tem mais qualidades do que o meu cão, que é, como dizes, apenas fiel. O homem com quem eu quero estar tem de ser leal e fiel. Aos sentimentos que tem por mim".
- "Não olhes para mim com esses olhos...

- Porquê? O que têm os meus olhos?
- Tu sabes... não lhes resito.

E assim ficaram, olhos nos olhos, dentro da água morna dos trópicos, e com a intensidade do pôr do sol ao longe, no horizonte, pensando ele no que fazer para continuar a seduzi-la e ela na tristeza que se avizinhava após a deliciosa sedução.

Agosto 2004

She, cantaria Elvis Costello

She may be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
Maybe my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things Within the measure of a day
She may be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a Heaven or a Hell
She may be the mirror of my dreams
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem Inside her shell....
She, who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She maybe the love that cannot hope to last
May come to me from shadows in the past
That I remember 'till the day I die
She maybe the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I care for through the rough and ready years Me,
I'll take the laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is She



quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Sentimentos

Sentimentos ligeiros que se avolumam e que ganham consistência, solidificando-se. Sentimentos bons, ternos, escaldantes. Ligações que fluem e que se aprofundam. Vontade de querer, de ter, de pertencer, de ser. Medo de te perder. Angústia da incerteza.
Sentimentos difusos, numa teia confusa e de difícil leitura. Ligações complexas e impenetráveis.
Gostar infinitamente, amar com infinitas certezas. Uma busca de certezas no meio de dúvidas permanentes e constantes. Sentimentos entrelaçados numa rede indecifrável...
Março 2003

Amei

Amei a terra e as pessoas, mas sobretudo amei-te a ti, como nunca tinha amado.
Hoje não te podendo continuar a amar, contento-me a amar as tuas ternas recordações. Doces de desejo e de vontade. Do companheiro que quiseste e soubeste ser, do amante incansável e insaciável, do amigo em quem quis confiar os meus segredos e uma grande parte de mim.

E lembro-me do resto, o menos bom. O desacerto e o afastamento. Sem razão, pelo menos para mim, que nunca percebi o porquê.
Junho 2003

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Como?

Lembrando-me de ti, pergunto-te - Como poderia esquecer e perdoar?

Rosa Louca

A diversidade florística do arquipélago de São Tomé e Príncipe sempre me fascinou. Encontrei plantas com dimensões e formas como nunca tinha visto antes, flores exóticas de uma beleza infinita, que conferem à paisagem particularidades únicas, permitindo desfrutar de uma visão multicolorida. Pela beleza exótica, as flores de São Tomé são verdadeiros “cartões de visita” para o turista estrangeiro.
Dadas as características climatéricas e geográficas, a flora santomense é abundante e rica em biodiversidade, tendo as flores formas diferenciadas, cores apelativas e nomes que traduzem a sua especificidade: rosas de porcelana, vermelha e rosa; bordão macaco; bicos de papagaio, macho e fêmea; hibiscus; begónias; orquídeas,... Algumas foram-se tornando conhecidas, por existirem noutras regiões, porque chegavam à Europa pelas mais variadas formas, mas sobretudo por terem adquirido, com o tempo, estatuto de símbolo nacional.
Após várias viagens ao arquipélago, fui-me familiarizando com as mais conhecidas e, sempre que me foi possível, comprei ramos para alegrar a casa onde vivi em São Tomé, para oferecer aos amigos ou para trazer para a minha família. Flores de uma beleza impossível de descrever e que iam deslumbrando todos os que as tinham a possibilidade de as ver.
Mas a verdade é que, enquanto socióloga, sempre me preocupei mais com as questões sociais e humanas em África e, devo confessar que, os meus conhecimentos sobre a flora sempre foram muito limitados. Gosto de flores - de as ver, de as ter e de as receber, aliás como qualquer outra mulher, porque são um sinal de dedicação, de sensibilidade e de fragilidade. Mas os nomes científicos, as particularidades de cada uma, o significado das cores, as doenças que podem ter, a melhor altura para serem plantadas ou a época de florescerem... são noções que nunca fizeram parte das minhas preocupações mais imediatas.
A minha curiosidade aumentou quando, numa das inúmeras noites de longa e deliciosa conversa, na envolvência do calor santomense, e enquanto cumpríamos o ritual do chá de menta, um amigo me perguntou se já tinha visto as “rosas loucas”, tornadas famosas no “Equador” pelo Miguel Sousa Tavares (2003, Lisboa, Oficina do Livro). A minha perplexidade foi total. Tantas e tantas vezes já tinha estado em São Tomé e nunca tinha ouvido falar em tal planta.
Na altura, o meu amigo, que estava a ler o livro, falou-me com algum pormenor sobre essas plantas tão diferentes, espicaçando a minha infinita curiosidade, e sabendo que o fazia. Como ele, de quando em vez falava, meio em tom de brincadeira sobre alguns efeitos ambientais e climatéricos nos estados de alma humanos, honestamente duvidei e ri, aliás como quase sempre fazia.
Aparentemente não levei a história muito a sério. Mas, tenho de confessar que fui ler o livro a correr e lá estavam elas descritas, mais do que uma vez, de forma aliciante e sedutora, apelando, com sucesso, para os sentidos do leitor - flores diferentes, que mudam de cor ao longo do dia e, que emanam um cheiro intenso.
Aquando do lançamento, o “Equador” passou a ser um ponto de referência, nas conversas de todos os que estavam em São Tomé ou que por lá tinham passado, pela cativante e leve forma de escrita, pelo enredo, pela envolvência que o romance permite ao leitor, pela actualidade das situações descritas, apesar da época histórica ser já distante. Mas também porque foram poucos os que disseram, na altura, conhecer a famosa “rosa louca” e, na verdade, todos ficaram com curiosidade de a ver e de confirmar o seu carácter inconstante porque mutante.
As “rosas loucas” não são conhecidas por esta denominação. O nome científico é Hibiscus Mutabilis, podendo também ser referidas por Dixie Rosemallow, Cotton Rose ou Confederate Rose. É uma flor originária do sul da China, que pertence à família das Malvaceæ, ao género dos Hibiscus e à espécie Mutabilis (esta saiu-me bem... mas é um dado conhecido).
É uma planta arbustiva, de natureza perene, que pode adquirir dimensões de uma pequena árvore (até 2,5 metros). As flores têm entre 10 e 15 cm de diâmetro, e têm a particularidade das pétalas mudarem três vezes de coloração ao longo do dia – nascem brancas ou rosa claro, passam a rosa aberto à tarde, tornando-se à noite vermelhas escuras ou de cor púrpura. A característica mais notável e particular é o facto das três cores poderem aparecer em simultâneo, e do ciclo das flores da mesma ramificação poder ser diferenciado.
Estas são plantas procuradas internacionalmente por requererem poucos cuidados, adaptando-se à maioria dos solos e das condições climatéricas, o que lhes confere uma característica de “tolerância”.
Apesar de não serem as flores mais conhecidas de São Tomé, e de até poderem ser encontradas noutros locais, a descrição das “rosas loucas” apela para o imaginário construído e para a sedução dos sentidos, tão bem traduzida pelo “Equador”. São diferentes das outras flores e distinguem-se pela característica da mutabilidade da coloração das pétalas, o que transmite uma imagem de invulgaridade. São flores de uma beleza única. A mudança de cor, num curto período de tempo, é um fenómeno absolutamente fabuloso para os sentidos do observador e para quem tem a possibilidade de registar fotograficamente as diferenças e a evolução do fenómeno.
Apesar de ser um processo natural neste tipo de flores, a qualificação que lhe foi atribuída remete para a loucura, relacionando a mudança de cor com a fragilidade e a sensibilidade extremas face a factores contextuais, tais como a luminosidade, a humidade ou a temperatura. Por analogia ao feitio de algumas pessoas que varia, marcado pela incerteza e pela instabilidade, também a alteração na coloração das “rosas loucas” confere um traço de mutação permanente ao seu aspecto.

Partes

Desta vez, és tu quem parte e partindo levas um pouco de mim. Sem te dares conta, sem perceberes e sem quereres.
Partes porque queres e precisas. Deixas-me, querendo-te e desejando-te. Criaste o desejo em mim, sem o esgotares. Sinto que me queres e que desejas sem quereres.
ST Dezembro 2003

Tu

Sinto-te perdido em mim,
esgotado, ausente.
Entregue sem quereres,
consciente de não poderes.
Queres-me e quero-te,
desejamo-nos longa e ternamente,
sem sabermos como ou explicar o porquê.
Não podes e não devo,
mas,
vamo-nos perdendo, encontrando e recriando
momentos partilhados.
Queres-me e negas-me,
negando a ti próprio os sentimentos fortes e inabaláveis.
Recusas a entrega já feita,
foges e evitas-me, resolvendo com a incerteza e a dúvida o mais certo do teu sentir.
E reduzes o risco. Não de te dares a alguém.
Mas de te entregares a mim, sentindo-me entregue também.
Como tantas e tantas vezes aconteceu...
E tu ficas em mim, para sempre. O que não sei se é bom...
ST, Outubro 2003

Encontros em África

A África dos encontros e dos desencontros; das semelhanças e das diferenças; das buscas que nunca se chegam a encontrar e dos desencontros que nunca se chegam a cruzar; do que encontramos sem termos procurado e do que procuramos sem nunca chegarmos a encontrar.
Em Maputo 1999, retomado em ST 2003

MEDO

de avançar e de parar; de partir e de ficar.
Sentimentos e sensações que se opõem, contradizendo-nos. O que dizemos, o que fazemos, o que queremos e o que não podemos.
É do clima, pensamos, ou será de nós mesmos, não admitimos. Porque não podemos e não queremos.
A dúvida e a incerteza traduzem a contradição do que somos. E de como vivemos. Do que fomos e de como seremos, num futuro tão incerto.
Maputo, Janeiro de 1999

Chove

Chove como nunca até aqui. Tenho a sensação que a terra está triste com a minha partida, teimando em não me deixar sair do mesmo sítio. E eu adapto-me ao tempo: vou-me deixando ficar, sem oferecer resistência. Porque também eu não quero partir de um local tão diferente, onde me sinto tão bem...
ST, 25/09/2000

Intimidades

Marcaste-me por uma presença inconstante, mas deliciosamente presente.
Pelo gosto partilhado de estarmos juntos, ternamente aquecidos por um olhar apenas, por um toque de pele e pela fricção dos sentidos.
Marcámo-nos e distinguimo-nos, pela diferença da presença, pela companhia terna, doce, reconfortante e inexplicavelmente calmante.
Foi tudo e nada mais será.
Fomos tudo num breve momento de eternidade.
De tudo tivemos porque tudo merecemos... e porque tudo procurámos.
O prazer reencontrado e partilhado, a angústia da despedida e da perda, da ausência necessária e obrigatoriamente vivida porque forçada.
Contra o desejo. Contra a vontade.
Quis-te e quero-te ainda. Sempre te quererei, sabendo que não posso querer-te. Nem que fosse apenas por mais um milésimo de segundo. Só para aspirar de novo o teu perfume, sentir a maciez aveludada da tua pele e o teu sabor, ao mesmo tempo, doce e picante.
Nunca mais...
ST, 16/05/2003

Licor de Jaca

- Lembras-te do magnífico licor de jaca? - perguntavas-me com um sorriso matreiro.
- Hmmm... só de pensar... - e as lembranças de mais uma noite inesquecível inundavam-me o pensamento.
- Aquele que, inexplicavelmente, tinha poderes amnsésicos... fazia com que acordássemos na manhã seguinte com a sensação de nos ter acontecido algo de muito maravilhoso, apesar de não sabermos dizer exactamente o que foi... - rematavas com uma risada aberta
E como eu me lembro ainda. Aquela varanda tranquila e absolutamente inspiradora sobre a baía de Angolares e a floresta do Obô, permitindo que os sentimentos mais puros e verdadeiros fossem exteriorizados e consentidos.
Porque as emoções essas ficam eternizadas na memória de quem as viveu, num mundo onde tudo de bom foi possível. O impossível seria viver com mais intensidade e entrega.
Lisboa, Agosto 2004

terça-feira, 24 de agosto de 2004

África

África:
dos encontros, dos desencontros e dos reencontros;
dos sentidos e das emoções;
das paixões e das contradições.
África:
dos amantes ardentes e dos amores fugazes;
dos sonhos vágos e por realizar;
da esperança tornada impossibilidade.
África:
do desejo recriado;
da vontade alimentada;
das recordações revividas... dia após dia.
(A Ti) ST, Janeiro 2004

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...