domingo, 12 de setembro de 2004

Homens são de Marte, Mulheres são de Vénus

Na altura em que Bad Guy se fazia amigo e confidente de Shine nos negócios amorosos mal resolvidos - ou seja, há algum tempo... - ofereceu-lhe um livro, como prenda de Natal, dizendo-lhe:
- Leia com atenção. Vai ver como os seus problemas de comunicação com o seu Amor se solucionam rapidamente.
Curiosa como era abriu o embrulho rapidamente, à espera de encontrar uma receita milagrosa. O título era sugestivo: "Homens são de Marte, Mulheres são de Vénus". Quando o jantar com Bad Guy, Smile e uma amiga de todos terminou, Shine e Smile continuaram pela movida lisboeta e concluiram aquilo que poderia ter sido uma noite natalícia muito agradável, numa terrível discussão. Estava comprovado, Bad Guy poderia ter razão - era melhor ler o livro.
E assim fez, leu. Mas as respostas que encontrou não foram assim tão prodigiosas. Falava-se basicamente de diferenças entre sexos, com as quais é muito difícil lidar. Na verdade, não foi a ler aquele livro que Shine aprendeu a gerir as diferenças entre os sexos porque essas estavam longe de ser apenas fisionómicas.

sábado, 11 de setembro de 2004

Nunca são as coisas simples

Nuno Júdice dixit: www.astormentas.com/judice.htm
"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios."

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Um dia...

Um dia ela iria ter o imenso prazer de ver a cara dele depois de ter lido tudo o que ela escrevera sobre ele. Talvez nesse dia percebesse um pouco melhor quem ela era e o que, na verdade, tinha sentido por ele. Nunca tinha percebido o sentido da palavra - amar - e por ele sentia um amor tão grande que optara sempre por partir quando ele demonstrava interesse por outras mulheres, o que a magoava de uma forma que ela própria não conseguia explicar.
Afinal, ela percebeu como ele era desde o início. E aceitou-o assim. Volúvel e inconstante, mas de uma ternura impossível de descrever.

Sonho

Quando estava triste, gostava de pensar nele porque tinha a reconfortante, mas falsa, sensação de estar acompanhada. Parecia-lhe que ele ainda ali estava, fechava os olhos e via-o a sorrir. O pior era quando abria os olhos e voltava à realidade. Ele não estava ali e, no fundo, ela não queria que ele estivesse. Tudo era ilusório e irreal, portanto para quê manter essa sensação? Antes assim, era melhor que se fosse de vez...

BUÁÁÁÁÁÁ

Sempre gostei dos livros de banda desenhada do "Tio Patinhas, Donald, Pateta e Super, entre outros" - traduziam fielmente a imagem do bom, do mau, do mesquinho, do invejoso, do engatatão, do espertalhuço, dos enamorados, do rico e do pobre. Mas, sobretudo porque quando eles estão tristes utiliza simplesmente a magnífica expressão:
BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ
E todos ficamos a perceber o que se passa, sem ser preciso questionar muito.

Diz-me...

Diz-me:
Porque é que eu acreditei em ti? Foste tu que me fizeste acreditar ou terei sido eu que quis acreditar em cada palavra, em cada olhar, em cada gesto? Na verdade... tu não prestas, tal como todos os outros de quem sempre me queixei. Apesar dessa aparência doce, terna, educada, segura, confiável... afinal, tu não prestas!

Prazo de Validade

Hoje as relações afectivas são criadas a prazo - logo desde o início, o fim é previsível. São efémeras e fugazes. Daqui a uns tempos estarão expostas nas grandes superfícies com o prazo de validade bem visível para que, no caso de já terem passado a data, se poderem devolver ao produtor.
A sabedoria radica na capacidade de nos prepararmos para o seu carácter temporário, de forma a reduzirmos e controlarmos o sofrimento do pós.
Mas... porquê????

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

O Juízo

E o último dente do siso está a nascer.
Se o ditado estiver certo, a paz vai por fim chegar, com o juízo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Resolução

Shine já pode dizer a Smile que resolveu "aquela merda", como ele chamava à história que ela vivera uns anos antes dele aparecer, mas que ele achava que ainda estava pendurada.

A escolha

Numa terra em guerra, havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os a uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas por sangue. Nesta sala ele os fazia enfileirar-se em círculo e dizia-lhes, então: "Vocês podem escolher entre morrerem flechados por meus arqueiros ou passarem por aquela porta e por mim serem lá trancados". Todos escolhiam serem mortos pelos arqueiros. Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo servira ao rei dirigiu-se ao soberano:
-Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
-Diga, soldado.
-O que havia por detrás da assustadora porta?
-Vá e veja você mesmo.
O soldado, então, abre vagarosamente a porta e, à medida em que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente... E, finalmente, ele descobre, surpreso, que... a porta se abria sobre um caminho que conduzia à LIBERDADE !!! O soldado, admirado, apenas olha seu rei, que diz:
-Eu dava-lhes a escolha, mas preferiram morrer a arriscar-se a abrir esta porta.
Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar? Quantas vezes perdemos a liberdade e morremos por dentro, apenas por sentirmos medo de abrir a porta de nossos sonhos?

terça-feira, 7 de setembro de 2004

O erro de Shine - Bad Guy

O Maior erro de Shine foram as confidências feitas a Bad Guy, em dias maus. Contou-lhe os medos que sentia, as angústias que lhe passavam pela alma, os desejos mais profundos e os sentimentos que nutria por uma ou outra pessoa. Falou-lhe das noites de desespero, chorou na sua presença em noites de tristeza ou de incompreensão, riu muito com os disparates que ele lhe dizia, aparentemente sentidos, sabendo o efeito que provocava: incredulidade e choque.
Shine quis acreditar na simpatia e amizade aparente que Bad Guy demonstrava sentir por ela e, por isso, confiou-lhe uma parte de si, sem receio das reacções dele ou que viesse a utilizar o que ia ouvindo, em tom de confissão, que só se tem com os amigos verdadeiros. E esquecia-se de quanto aquela terra era pequena. Afinal, a amizade só se consegue com o tempo e, se ela fosse uma pessoa desconfiada como diziam, nunca teria permitido que Bad Guy e outros que tais se tivessem aproximado dela, fazendo-se passar por seus amigos. De repente, a vida de Shine, que a considerava desinteressante, foi transformada numa telenovela passada em horário nobre.
Mas, na verdade, Bad Guy não era exactamente o que aparentava a Shine. Por ser um homem emocionalmente frustrado e sexualmente insatisfeito, fazia da vida dos outros o principal tema que ocupava os seus pensamentos, o argumento predilecto para uma conversa de café ou um serão, acabando por arranjar estrategemas, com os quais se divertia, sempre que o alvo caía.
Bad Guy era amigo de Smile e não gostava da maioria das pessoas que por lá passavam, referindo-se a elas como “aquele/a inteligente”. Isso deixava-a profundamente irritada.
- Como se Bad Guy fosse muito inteligente e todos os outros não fossem ninguém – pensava ela – afinal se fosse tão perfeito não magoava os outros, seria sensível, delicado, bem educado, respeitador, e sobretudo feliz. Mas não... os defeitos que vê nos outros são o reflexo do que ele é.
E como ele era naturalmente maldizente, ela procurava dar-lhe o desconto e não ligar. Desde que o conhecia, Bad Guy contava histórias acerca de toda a gente, cheias de pormenores realistas, não esquecendo as ligações que se podiam estabelecer. O que Shine não contava era que ele fizesse isso com ela também.
Ele era uma das pessoas mais conhecida na ilha e, no início, Shine olhou para ele como sendo bem relacionado, disponível e pronto a ajudar, amável, se bem que um pouco estranho. Havia algumas reacções nele que inexplicavelmente não lhe transmitiam muita confiança, mas Shine pensou que a sua maneira de ser estava a actuar de novo. Afinal ele estava a ser tão simpático com ela, porque haveria de estar a ser desconfiada? Convidava-a para um café, almoçar e jantar, ia ter com ela para a levar à praia ou à discoteca local, era um óptimo conversador e tinha uma forma de estar que a fazia rir muitas vezes.
Ele não era minimamente atraente e ela nunca notara qualquer indício que a fizesse pensar que ele queria algo dela, além de uma boa conversa e de um pouco de companhia. Blu sempre achara que Bad Guy se apaixonara, sem sucesso, por Shine, que o tratava como um simples amigo, rindo-se do que ele dizia, fazendo-lhe confidências ou pedindo opiniões sobre os seus casos amorosos, e não podia sequer compreender como ela se continuava a dar com ele, depois das coisas que lhe dizia e da forma como reagia, sobretudo em círculos sociais. Quanto mais gente estivesse presente mais agressivas eram as reacções dele para com ela, sem motivo aparente.
Bad Guy era um solitário, apesar de ter tido casamentos mal sucedidos, que assim resultaram pelo seu egoísmo galopante associado à tendência reconhecida para o perfeccionismo. Ninguém o satisfazia plenamente: ele próprio era uma imperfeição, física, psicológica e emocional e vasculhava os defeitos dos outros como forma de expiar os seus.
- A melhor arma é o ataque – dizia-lhe Blu sempre que Shine se queixava das estranhas reacções de Bad Guy quando os via juntos. Ele não geria facilmente a solidão em que vivia e refugiava-se nos enredos alheios, que lhe davam o entusiasmo e a vida que ele não tinha por impossibilidade e incapacidade.

TT em STP

Vejam em http://www.latitudezero.net/
Há mais ou menos 2 anos comecei a receber mails de um tal João Brito e Faro, falando-me de uma expedição de TT (LZEC) que estava a organizar em STP. Não estranhei o contacto dele, afinal recebia muitos mails com pedidos de informação sobre STP, a melhor altura para viajar, o que fazer, onde se alojar, onde comer, principais precauções e se possível alguns contactos. Mas, à medida que fui falando com ele por msn, fui percebendo que ele queria um pouco mais do que as simples informações - precisava de apoio no estabelecimento de contactos em STP e de um pouco de assessoria.
E, mais uma vez, eu ajudei-o, em troca da possibilidade de integrar também o LZEC na minha investigação para o doutoramento. O LZEC estava longe do meu conceito de turismo ecológico - ou que eu explorava e defendia - no sentido de promover a preservação ambiental, a protecção de espécies e de divulgaçõ dos hábitos culturais das comunidades locais. Mas eles diziam que sim...
Bem, não querendo, para já, tecer avaliações, posso dizer que o LZEC - edição zero - se realizou em 2003. Foi um sucesso para os participantes, convidados/jornalistas e observadores. Como não é de espantar, todos adoraram STP, nunca lá tinha estado antes e ficaram fãs. Por lá, o evento foi alvo de diferentes avaliações e comentários acerca dos procedimentos e dos efeitos para o país - uns mais construtivos do que outros. Mas a verdade é que o evento se vai realizar por mais uns anos e está quase. De 16 a 28 de Setembro, lá vão eles, desta vez com mais nomes conhecidos, alguns do meio automobilístico (Elisabete Jacinto, por exemplo), do mundo da moda (Diana Pereira, que repete), do meio jornalístico (Sic, Público, Lusa), entre outros.
Estarei atenta por cá, para ler os comentários, as apreciações, mas desta não poderei escrever muito mais do que isto, nem para a piá nem em defesa da organização ou participantes... Não participarei, nem como no ano passado em que fui observadora externa. Mas, estarei atenta para ver as imagens na tv, ler os mails que, já estou a imaginar que me chegarão com diferentes conteúdos acerca de tudo e de todos, e pensar que STP está tão perto, apesar da distância.

Li e reli

Ontem, li e reli os mails que trocámos, os textos, frases e pensamentos que escrevi sobre ti. Para quê? Nem eu sei. Talvez para não mais me esquecer a forma como tudo começou, a rapidez com que avançámos um no outro e a brusquidão do fim, que me levou a mais uma travessia pelo deserto. Longa, longuíssima, duríssima e angustiante porque voluntariamente solitária.
Sim, guardei tudo desde há um bom número de anos e algumas folhas estão amarelecidas. Já pensaste que foi há muito tempo? E às vezes parece-me que foi há tão pouco... Mas o tempo ajudou-me a definir sentimentos, a distinguir as emoções dos impulsos, apesar de andarem tão naturalmente ligados.
Como é difícil por vezes distinguir o amor da paixão, esta da atracção e, por sua vez, do entusiasmo. Porque temos sempre tendência a misturar sentimentos, a confundi-los numa amálgama? Porquê? Porque tentamos sempre intelectualizar o que não tem razão para ser elaborado? Mais uma vez pergunto... porquê??? E a resposta é sempre uma: procuramos eternizar os momentos de prazer e de satisfação e se pensarmos muito sobre eles, teorizando e encontrando justificações fazemos com que se perpetuem na nossa memória.

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

O fim de Smile

Naquela noite, Shine provou a si mesma que Smile não correspondia à imagem que ela criara e que alimentara, durante tanto tempo, sobre ele. E por isso, só por isso, aquela noite foi importante. Sentiu-se mal consigo mesma, por ela e pela confusão de sentimentos que emergiam. Saiu de casa de Smile pela manhã com a plena noção de nunca ter tido vontade de lá entrar. Foi um erro. Mais um. Mas desta vez útil para perceber que ele não passara de uma imagem recriada por ela, pela solidão em que vivia.
Culpou-se mal entrou no elevador e até encontrar o carro. Só queria sair dali, fugir e apagar aquela noite da sua memória. Parecia-lhe um “Reviver o passado num qualquer local, mais imaginário do que real”. Enquanto regressava a casa ia pensando “Mais um excesso, Shine... mais um que te fez chegar onde? Mais uma proximidade do abismo, daquilo que não te é útil e que não queres”. Já amanhecera e o trânsito aumentava de forma inacreditável, ela tinha a cabeça esgotada de tanto pensar sem chegar a justificações razoáveis para aquela noite.
E culpou-se porque teve consciência que Smile fora apenas mais um que entrara no jogo das inconfidências sobre a sua intimidade com ele partilhada. Apenas mais um? Foi um dos mais importantes porque no fundo ela continuava a falar dele como um gajo porreiro, cheio de qualidades.
E ele o que fizera? Com o ar de porreirismo militante abriu o jogo da vida dela, dos segredos sofridos tantas e tantas vezes em silêncio, dos excessos inconsequentes, que tinha necessidade de cometer para sentir que a vida pulsava nela. Falara sobre o que fizeram, as expectativas, o desenrolar e o terminar dos acontecimentos, os jogos de sedução utilizados, as palavras e os gestos utilizados, as caricaturas, as venturas e as desventuras de uma, cinco ou dez noites em conjunto. Algumas coisas que lhe contaram sobre ela... só podiam ter partido dele... Era ironicamente revoltante.
E pior um pouco, foi Smile que aconselhou e recomendou Shine a Blu, com uma sordidez pormenorizada, pensada, estudada, com o objectivo de, em determinada altura, poder ficar livre e tranquilo no romance desinteressante e condenado com Sad Face. Na certeza da sua masculinidade não equacionou a possibilidade de já não estar sequer no campo de atracção de Shine. Ela era afectivamente instável porque a vida a marcara pela ausência e pelo abandono, encontrava refúgios e seguranças aparentes, fundamentadas nos excessos que ia cometendo, que Blu detestava e todos os outros adoravam. Afinal, é socialmente estimulante ver um circo a arder...
E também foi Smile que provocou aquela noite com convites quase forçados para uma dança ao ritmo africano, sussurrando elogios sensuais sobre as suas capacidades de dançarina, o que a excitava, à medida que ele se roçava, a apertava e a envolvia. Sabia que, depois dos excessos cometidos umas horas antes, ela não resistia à sensualidade do abraço e do toque, tentando provar a Shine que ninguém se comparava a ele na arte da sedução. E ela foi-se deixando ir - Que raiva... o que fui eu fazer? Não quero nada dele nem com ele - pensava.
E, pela cabeça de Shine as ligações foram-se estabelecendo nas duas horas e meia de caminho até casa e culpou-se infinitamente por não ter percebido tudo, de forma clara. Não só naquela noite, porque afinal essa tinha sido a que menos a preocupava. Percebeu tudo o que acontecera entre ela, Smile e Blu. O próprio Smile falou-lhe nisso - Sentiste que foi uma aproximação trabalhada, não foi...?
Mais uma vez deixou-se ir, envolvida na emoção do momento, na expressividade dos gestos, no toque das palavras. E a única coisa de que se orgulhou foi ter sido ela a sair, a não querer ficar. Apenas porque aquilo não lhe servia. Smile não era sapato para o seu pé.

O Tubarão de STP – I Parte

Depois de ter regressado a Lisboa, após a minha última incursão a São Tomé, não há dia em que não me lembre das maravilhas do arquipélago, das suas particularidades, as mais apelativas e as outras... que representam riscos, mas que, por essa mesma razão, têm também o seu “quê” de sedução.
O tubarão de São Tomé é uma dessas particularidades, à volta do qual se tecem considerações, se contam histórias e se criam mitos, a maioria sem certezas. Sempre ouvi falar muito acerca do tubarão e nem sei porquê, talvez por ser um animal pouco simpático, que não permite grandes contactos com o Homem e que, apesar de tudo, existe em grande quantidade por aquelas águas. A maioria revelava desconhecimento sobre tipos e quantidade, principais riscos e ameaças, número de ataques e praias onde aparecem mais frequentemente. Mas as conversas evidenciavam sobretudo medo e desconforto. Havia quem: tivesse terror de o encontrar; dissesse já o ter avistado numa passagem de ano no pontão do Marlin, que era inofensivo, pequeno e da areia; não acreditasse que podia aparecer nas praias; relatasse (es)histórias, com um pormenor realista, mas sem grandes certezas... Na verdade, contava-se o que já se tinha ouvido, e “como quem conta um conto acrescenta um ponto”, fiquei sempre na dúvida.
De todas as conversas que fui tendo com as mais variadas pessoas - umas com conhecimento mais directo e outras apenas especulativas - percebi que ninguém duvidava que esta espécie habitava nas águas santomenses, e todos preferiam não ter, com o animal, um encontro imediato. A fama da espécie não é naturalmente positiva.
Os relatos que ouvi foram coincidentes – há tubarão em STP, mas os ataques a pessoas, sobretudo nas praias e a turistas, não são comuns – não gosta do Homem. As situações de ataque foram relacionados com a pesca artesanal, tendo ocorrido com pescadores locais, quando apanhavam “peixinho” ou quando puxavam as redes cheias de peixe, principalmente na foz dos rios, na zona de confluência com o mar. Em STP, não é comum o tubarão atacar o Homem, por atacar.
A minha curiosidade foi mais além, e ao encontro das minhas preocupações. Uma vez em STP, os meus tempos livres foram repartidos entre a praia e a floresta, e o meu sentimento em relação a estes bichos ultrapassa, desde que me lembro de existir, o receio e o medo. Confesso que resulta mesmo num pânico irracional. Dada a minha natural curiosidade, a busca de informação relacionada com as situações possíveis não cessou após o meu regresso.
Tenho ainda de confessar que a minha preocupação aumentou num dos inúmeros dias em que fui à Praia das 7 Ondas, com um amigo e a minha irmã, que estava a conhecer o país numa visita de uma semana.
Enquanto conversávamos animadamente ia mergulhando naquela magnífica praia, desfrutando do enquadramento paisagístico, digno do paraíso, e das águas mornas do equador, desfrutrando a deliciosa sensação de estar num jacuzzi natural, cheio de bolhinhas e a receber uma massagem permanente. De repente, sem dar conta e sem que os outros percebessem como, fui puxada para o largo, tendo dificuldades em regressar a terra, após sucessivas tentativas. Foi inexplicável, não só por ser uma das minhas praias preferidas, onde antes fiz “carreirinhas”, muitas e muitas vezes, mas principalmente por ter a água pelo joelho.
A minha angústia aumentou rapidamente, apesar de saber nadar desde os 5 anos, quando percebi que a minha resistência não era infinita, que a força e as correntes eram bem mais fortes do que eu, mas principalmente por olhar para a água e a ver escura e indecifrável. Não conseguia ver nada. A agravar, naquelas fracções de segundo, só me lembrava que aquela praia tem fama de ser "mal" habitada... ao largo.
Nesse dia pensei que o meu fim poderia estar próximo, logo na presença da minha irmã e do meu amigo, que não conseguiriam fazer nada... E, quando desisti de oferecer resistência ao mar, simplesmente porque já não tinha mais forças, o Deus do Mar e Todos Os Outros perceberam que eu não estava ali para guerrear e permitiram-me regressar à praia, com a ajuda final de duas crianças que entretanto se tinham aventurado água dentro, nadando com uma descontração só possível em STP. Quando cheguei à areia, completamente exausta “ouvi das boas”... à conta da corrente, das ondas e... dos tubarões... não bastasse já o susto e o desespero!!! Mas, como se a experiência não fosse suficiente, sempre que pude, tal como a maioria das pessoas que passam pelo arquipélago, lá ia eu parar à praia, de dia, com um sol estrondoso ou a chover e a trovejar, ou de noite e principalmente em noites de luar. Acompanhada ou sozinha. Poucas situações me transmitiram, alguma vez, igual sensação de paz e de plenitude. Foram momentos magníficos, os que vivi naquelas praias. Mas, a bem dizer da verdade... não nadava muito, ou melhor... nadava mesmo muito pouco porque o “fantasma” tubarão pairou sempre no meu in-sub-consciente. A realidade é que, se ele me aparecesse à frente, eu morreria de susto antes dele ter oportunidade de me atacar. Por isso, evitei conhecê-lo, pelo menos vivo...

II Parte

Mortos vi alguns, na praia ou no mercado, após terem sido pescados - especialidade gastronómica muito apreciada por aquelas paragens, mas que nunca experimentei. Vi um em Neves, na praia, e fotografei-o, após o almoço nas Santolas. Outro, no decurso de uma viagem à Baía de S. Miguel, na inesquecível canoa “Tantan 3”, que ficou eternizada na memória de todos quantos participaram... foram sessões de susto contínuas, que hoje nos fazem sorrir.
No fundo, éramos um grupo de 10 pessoas, uma canoa e 1 colete. A partir deste contexto, quase tudo foi possível e pouco faltou acontecer. Com a excitação da partida e a emoção da situação – a portadora do colete não sabia nadar e ficou aterrada perante a possibilidade da canoa virar. No caminho perguntei a um dos rapazes, que nos levava e que ia tranquilamente semi-deitado, se havia muito tubarão no mar com aquela profundidade e a resposta dele, naturalmente para não nos assustar, foi - “Não, aqui não há tubarão”. Eis senão quando, o que ia a conduzir a canoa, e que não ouvira o comentário, grita entusiasmado, como que a referenciar uma atracção turística, “Olha, Tubarão...”. E fez-se um silêncio indescritível seguido de uma risada geral que evidenciava o nervosismo que todos sentíamos...
Depois o mar começou a encher de tal forma que a canoa levantava com a ondulação e a água entrava. Lá houve mudança de lugares para acertos de peso e sentimo-nos todos equilibristas de circo. Mas conseguimos não virar a canoa e não foi ninguém parar àquela água escura, densa e habitada sabe-se lá por que tipo de espécies. A cerca de meia hora de chegarmos ao destino, e com cerca de 3 horas de percurso já realizado, estávamos cansados, stressados, desgastados e a moça do colete aterrada, sem que ninguém a conseguisse tranquilizar. O mar continuava a crescer, ou parecia-nos que sim. E pensávamos, meios calados, como seria o regresso. Decidirmos regressar.
Na viagem de regresso, o medo passou ao choro e ao lamento de uns e à perplexidade de outros. Sim, os nossos “guias” estavam prestes a entrar dentro de uma gruta, com a canoa e todos a vermos o mar a bater nas paredes da gruta, sem percebermos ao certo como sairiamos dali, sãos e salvos. Eu apostei com o meu amigo, com o qual partilhava o banco e as emoções do momento, que não era uma boa ideia, mas ele achou que era brincadeira e que não passariamos por lá. Passámos... e foi uma benesse do Júpiter ter-nos permitido quase voar para fora da gruta, com uma onda a elevar-se atrás de nós e cuspindo-nos para fora.
O susto passou e a chegada à praia das Conchas para um banho tranquilizador foi feita num silêncio apenas quebrado pelo choro da portadora do colete. O banho foi merecido e interrompido por um grito – Tufão no mar, vamos embora depressa para chegarmos a Morro Peixe antes dele passar. Ninguém questionou a decisão e provámos a nós mesmos que a psicologia de grupo é uma coisa complicada e que deveria ser mais estudada por especialistas...
No caminho o tufão passou a cerca de 5 metros da canoa e eu, comprovando as chamadas de atenção da minha mãe para a minha inconsciência, saquei da minha máquina fotográfica e apesar da chuva comecei a clicar para mais tarde recordar. Claro que a minha máquina digital, nunca mais foi a mesma, mas fotografou o tufão – e apesar de algumas terem ficado tremidas – posso dizer que o fotografei enrolado e passando por nós... Como senão bastasse os nossos amigos condutores da canoa, ao verem o tufão a aproximar-se, gritam “põe mochila”, e mais uma vez, nunguém questionou. Para quê? Afinal eles eram os nossos guias. E pusemos as mochilas nas costas, bem sentadinhos no chão da canoa e encharcados que nem uns pintos, pela chuva e pelo embate da canoa na ondulação. Nem pensámos que, se a canoa virasse, iriamos mais depressa ao fundo. Mas, naquela altura, quem é que conseguiria pensar?
Foi reconfortante chegar a Morro Peixe e perceber a preocupação dos pescadores, rezavam por nós, com razão, e as preces deles surtiram efeito!
Já em Lisboa, assisti, como de costume a um programa de televisão sobre fauna, que naquele dia privilegiou o tubarão, destacando o famoso de São Tomé. A informação disponibilizada foi interessante e esclarecedora. Este bicho tem, no mundo inteiro, “má fama”, mas, desde há 25 anos, só existe conhecimento de 3 ataques, sem serem a turistas. A zona onde aparecem mais animais é em Neves e são maioritariamente fêmeas. Porquê? Pois essa questão o programa não esclarecia, apesar de dizer que, com certeza, haverá um bom motivo...
O tubarão procura habitats com águas calmas, escuras e profundas e, para respirar, precisa de movimento, que lhe permite aumentar os níveis de oxigenação. Esta é a razão porque normalmente nada de um lado para o outro, sem parar, podendo atingir velocidades elevadas. Nada, para receber maior quantidade de oxigénio.
Curiosamente, contrariando a regra do que é, em princípio, normal nesta espécie, o tubarão que circula pelo mar de São Tomé, nomeadamente na região de Neves (podendo ser encontrado na zona da Lagoa Azul e a sul da Praia Melão), foi denominado no programa como “preguiçoso”, dado que, para não se movimentar muito, aproveita a zona da rebentação, onde a água é mais mexida, fazendo com que as guelras sejam naturalmente oxigenadas. É afinal um tubarão migrante e “leve-leve”, bem enquadrável no espírito santomense. Irónico, no mínimo, mas não deixa de ser muito engraçado.

domingo, 5 de setembro de 2004

Diário de um "Bom Malandro"

A minha vida mais parece uma rede rodoviária com estradas paralelas, que não se cruzam por não as poder viver todas ao mesmo tempo. Uma amiga chamava-lhes vidas paralelas, mas eu prefiro pensar que são estradas, avenidas ou caminhos que me levam – ou podem levar – a algum lado. Pensando bem, eu próprio sou dividido e não gostaria de ser de outra forma.
Não minto mas, às vezes, não posso dizer toda a verdade. Não digo, não falo, calo-me ou não respondo! Mas a culpa não é minha, é delas que querem sempre saber mais do que devem, do que desejariam saber... quando sabem... ou do que posso contar. Na verdade, se lhes contasse, ficariam a saber tanto quanto eu e isso não pode ser. Nunca se contentam com o que têm e com o que eu lhes dou. E se dou... dou-lhes mais do que posso... O problema é esperarem demais e pedirem sempre mais. Querem, querem, querem... não páram de querer e de pedir - mais amor, mais afecto, mais atenção, mais tempo juntos, mais...
Um homem tem de manter a descrição e a compostura, mas não é de ferro e fica sensibilizado com a beleza feminina e isso não é fácil de esconder. Poucas são as que não me despertam atenção. Sou um homem sensível e, bem vistas as coisas, toda a mulher tem a sua beleza, apesar delas não a verem, umas nas outras. Ou vêm mas não dizem.
A sensibilidade masculina é apurada, apesar delas nos chamarem insensíveis com muita facilidade, o que revela que, na verdade, não nos compreendem. Há qualquer coisa no corpo de uma mulher que faz com que a minha atenção e energia se concentrem – o balancear das coxas acentuado pelos tecidos colantes, os olhos meigos e a voz doce e arrastada que lhes dá uma enorme sensualidade, o fogo da pele ou a delicadeza dos gestos quando nos tocam no braço chamando-nos a atenção para o óbvio como se de uma maravilha se tratasse. As mulheres são encantadoras é é muito fácil para um homem apaixonar-se - pelos olhos de uma, a boca de outra, os seios fartos e redondos de outra, o quadrante firme de outra, as pernas longas e bem desenhadas de outra, pela cintura estreita, o sorriso ou... Apaixonamo-nos, por nada em particular mas o nada pode ser tudo e somos levados à loucura e ao delírio.
E quem lhes consegue explicar que quando dançam, coladas corpo a corpo... alteram a estrutura de um homem, mesmo que antes não tenham tido nada com ele... As danças quentes e as batidas ritmadas mexem com a masculinidade de qualquer um. Elas balançam-se, colam-se, enroscam-se, envolvendo-nos numa rapidez de sentires que não se consegue explicar porque apenas se sente. Não há como aguentar, por mais que um homem tente. Mas para quê forçar a natureza e ir contra os impulsos e as vontades? Não é por mal, é assim, mas elas não percebem. Falam logo em traição e em troca, desencadeando confusões e discussões sem razão e sem motivo.
Afinal, sou um homem comprometido e responsável do meu dever, mas quando as sinto a oferecerem uma entrega passageira mas intensa, deixo de ser eu quem ali está. Mas querida... é só por um bocadinho, isso não altera a ternura que sinto por ti, o quanto te quero e te desejo. São pulsões, entendes? São momentos, minha linda, porque tu és para sempre.
Não te vás, por favor, que sem ti não sou ninguém...

IV. O soldado que marchava com o passo certo – A História

E a vida de Shine lá ia continuando, com altos e baixos, com capacidade de se dar aos outros, porque acreditava nas diferenças, e uma avidez infinita de conhecimento – de pessoas, de paisagens, de experiências, de formas de sentir, suas e dos outros, de culturas e de modos de ser e de estar. Shine ia brilhando como o sol, muitas vezes nublada, outras luminosa e outras ainda com as cores fortes do entardecer.
E sempre que as coisas não corriam como esperava, sobretudo com Blu, que por sua vez se desiludia com ela, a cada desatino, pensava:
- Desde o início das minhas viagens, aqui e a outros pontos de África, dei-me às pessoas, nas conversas e nos encontros sociais. Nos afectos entreguei-me, amei, quis conhecer e fazer amigos, quis apaixonar-me e construir uma vida assente em sentimentos e em relações fortes, em histórias de contos de fada e argumentos de filme. Acreditei na amizade e no amor. E onde cheguei? Onde é que a minha forma de vida me levou? Sempre acreditei que os paraísos só o são quando socialmente temos oportunidades e procuramos concretizá-las e pensei que na minha África - com a qual sonhava, aquela que eu gostava de dizer que era a de todos os encantos e sonhos - seria por fim feliz. Mas afinal, as coisas não me correram sempre bem ou como eu queria. A receptividade que tive para com todos, esperando recebê-la em troca, não foi correspondida e até foi mal compreendida. A vida social revelou-se mais um calabouço, marcado pelo preconceito, do que um mundo de oportunidades. E parece que a história que o Blu me contava, fazendo-me ver que era eu que estava errada, e quanto..., não me sai da cabeça e me matraca a toda a hora os ouvidos.
- Já ouviste a história do soldado que marchava com o passo certo?
- O quê? - dizia-lhe Shine em tom exasperante e angustiado, sentindo a frase, mais uma vez, como uma crítica injusta.
- Não sabes o que é? Nunca te falaram nisso?
E Shine olhava-o com a profundidade do olhar que a caracterizava, respirando fundo, enquanto entretida fazia um pouco de purgueira com a vela amarela que ardia derrentendo-se pelas paredes da garrafa de sumo, que comprara na semana anterior e que reciclara para candelabro. Essa sim, fazia sucesso quando alguém entrava pela porta de sua casa. E pensava – o que virá agora? Mas que mal fiz eu desta vez?
E ele começava a falar, bebericando chá de menta bem apurado, inspirando o aroma e tentando não a magoar ainda mais do que já estava:
- Sabes que os soldados na formatura e na parada têm de marchar todos com o passo certo, em sintonia, de forma compassada. Pois um deles teimava em marchar com o pé esquerdo quando toda a formatura marchava com o pé direito. Quando o chamaram à atenção e o corrigiram, ele respondeu um pouco indignado – mas eu estou a marchar com o passo certo, eles é que estão a marchar ao contrário. Entendes o que quero dizer? A culpa é tua que te dás dessa forma, sempre a pensares que as pessoas estão disponíveis para ti e que o mundo gira à tua volta. Tens de ser mais contida...
- Simmmmm... já percebi... para ti também eu sou o soldado que está errado no passo e todos os outros estão certinhos, mesmo que marchem mal. O que queres que te diga?
- Que tens de repensar a tua forma de ser, como te dás, como conheces
toda a gente, porque estás sempre a desatinar com toda a gente. Não vês que não estás a agir bem? Dás muita confiança...
- Ahhhh... já percebi... mas qual é o mal de gostar de conhecer, de falar, de trocar ideias com as pessoas? Não achas que é mais errado estar sempre a dizer mal de toda a gente, a arranjar intriga, a comentar, a contar histórias? Vês-me a fazer isso? Mas as pessoas que fazem isso, tu gostas delas, não é? E se disserem mal de mim...
- Não tens razão. Tu sabes o que penso. Depois ficas assim, triste... mas quem é diferente és tu, não entendes? Se alguém tem de mudar, és tu!
E Blu abraçava-a, tentando reduzir a infelicidade que ela sentia, mas certo que ela estava errada. Desejava-a, queria-a mais do que devia ou podia, mas preferiria que ela fosse um pouco mais discreta na forma de ser, de se dar aos outros e de despertar as atenções das mulheres, mas sobretudo dos outros homens. Queria-a para si e irritava-se que despertasse desejo noutros homens, sendo o centro das atenções, fossem eles o seu amigo Smile, que continuava a achar-lhe graça e se pudesse aproveitaria uma vez mais... não fossem os ciúmes de Sad Face, nunca se teria afastado dela. Ou fossem outros quaisquer que a olhavam com olhar guloso, cumprimentavam efusivamente, fazendo-a sorrir. Não gostava disso e ela parecia não entender ou não querer fazer caso. Às vezes parecia-lhe que ela fazia de propósito e ficava tão irritado que se decidia a desfazer-se em atenções com as outras, aquelas de quem ela não gostava, e ignorava-a para que ela aprendesse. Ela não aprendia, retomava os excessos por incompreensão e desilusão, o que o irritava mais ainda e a relação deles era movida pelo efeito de bola de neve, agravando situações de insustentabilidade.
Não gostava que a comentassem porque quando o faziam à sua frente, ele não podia deixar de lhes dar razão e isso custava-lhe. Não a conseguia defender, ao contrário, reforçava que Shine tinha atitudes desadequadas para a idade, a posição e o meio, algumas desconfortáveis para ele próprio e com as quais não sabia lidar. E também já não tinha idade para aprender a lidar com elas.
Homem que é homem gosta de uma mulher tranquila, quieta, calma e discreta, bonita qb, mas não excessivamente dada aos outros. E Shine não tinha feitio para ser de ninguém. Era de si própria e não era fácil domá-la. Porque haveria de ser assim?

III. O soldado que marchava com o passo certo – Ainda Shine

Shine foi um alvo demasiado fácil para a intriga porque agia sem medir o quanto estava a ser avaliada. Nunca se preocupou com isso. O importante era estar bem, pensava ela, desde que não prejudicasse ninguém. E por isso ia falando com todos com uma enorme facilidade. Foi sempre assim desde que pôs os pés pela primeira vez naquela ilha. Ela gostava de conhecer pessoas, saber o que estavam a fazer por lá, conversar alegremente e aprender com as experiências alheias. Não pensava em envolver-se de imediato com os homens que conhecia, e fazia-lhe alguma confusão que fosse a primeira coisa em que todos pensavam quando a conheciam. Isso podia vir a acontecer mas não de forma imediata ou como uma acção reflexa. Não equacionou sequer como possível a hipótese das mulheres se sentirem confrontadas e incomodadas com a sua presença.
Ela tinha uma mente aberta e receptiva às diferenças. Mas ficava possessa quando os homens se insinuavam de forma gratuita, lhe lançavam o isco a ver se ela o apanhava. Era tudo tão evidente que a enervavam só com as conversas da treta, os ditos e os contos, que no início a deixavam boquiaberta pelo non sense, mas que com a continuidade a cansavam. Além do mais conscientemente, ela não tinha a noção da atracção que lhes provocava, não só fisicamente mas também pela maneira de ser tão diferente. Só o veio a perceber muito mais tarde e nem vontade teve de retirar algum proveito desse encantamento. Mas muito mais possessa ficava quando as mulheres, por despeito, inveja e irritação, a comentavam, criando e difundindo intrigas à sua volta, inventando situações.
- Flexibilidade mas não tanto, pensava ela, afinal que mal fiz eu a esta gente, que se faz tão amiga e de repente muda do dia para a noite, deixando até de me falar?
E sofria com isso porque começavam a tornar-se profundamente desconfortáveis os sorrisos e os olhares maliciosos, revelando conversas infinitas e imparáveis, sem ser à sua frente e sem que tivesse a possibilidade de se defender. Mas ela acabava por saber – soube sempre o que se disse sobre ela e com que intensidade porque, sendo uma das pessoas mais populares da ilha, havia sempre uma “alma caridosa” que lhe contava, como se fosse amiga, passando-se de seguida para o outro lado e relatando às línguas viperinas a estupefacção patente nos olhos verdes abertos que se enchiam de lágrimas. As reacções de Shine eram uma delícia para as conversas de café que ocupavam uma parte do dia da elite estrangeira da terra de todos os encantos. E passava-se, é certo, mas como poderia não se sentir humilhada, desesperada, sózinha num contexto social tão negro? Lá vinha mais uma sessão de desatinos e de mau comportamento que tanto irritavam Blu.
Shine estava ali para conhecer, aprender e ter uma experiência de vida única. Será que ninguém entendia isso? O envolvimento com Smile acabou por ser precisamente isso: o que nunca se deve fazer com um homem, sobretudo quando ele é giro, divertido, interessante e objecto dos interesses femininos da terra. Há que dizer que na terra os homens interessantes escasseavam e os giros eram quase exemplares em vias de extinção, por isso os interesses recaíam sempre nos mesmos. Depois veio Blu, que não sendo giro, esbelto ou que se pudesse considerar um gajo bom, era muito divertido, atencioso, terno e encerrava qualquer coisa de misterioso e de muito envolvente. Quando as comparações entre Smile e Blu surgiram, feitas por línguas malévolas, Shine entrou quase em delírio.
- Mas será que uma pessoa tem sempre de viver marcada por uma história ou uma relação? dizia em tom angustiado, sempre que, nas discussões com Blu, lhe era referida a suposta paixão recalcada, sobre a qual toda a ilha falava. É verdade que Smile é um gajo muito porreiro e eu gosto dele, é divertido e alinha sempre em borgas, é uma boa companhia mas isso não faz dele o homem dos meus sonhos. Afinal estou contigo porquê? Achas que não gosto de ti? Também tu acreditas nisso?
E a discussão ia num crescendo de emoções que se transformavam rapidamente, deixando-a possessa e com vontade de desatinar com aquelas menininhas que não desistiam de lhe tornar a vida num inferno. Shine gostava de Blu, e estava disposta a mudar muita coisa na vida dela por ele. Talvez ele tivesse mais dificuldades em transformar a sua vida por ela e refugiava-se em acusações seguidas de desencontros, como forma de justificar as suas próprias angústias.
Blu era um homem naturalmente terno e carinhoso, amigo e presente, preocupado com ela e interessado no seguimento do seu trabalho, que passava por fases boas e más, em função da disponibilidade emocional e psicológica de Shine. E isso sabia-lhe muito bem, apesar dela ter consciência que aquela seria mais uma relação temporária e que as coisas iriam ficar por ali. Mas enquanto durasse ela queria viver feliz com ele.
Shine chamava-lhe Blu porque quando ela estava triste ele tocava-lhe na ponta do nariz, acarinhava-a e dizia-lhe, a pedir um sorriso, faz um blu para mim. E Blu ficou. Apesar das imensas qualidades que ela conseguia perceber, Blu era como a maioria dos homens – mulherengo, infiel, sedutor a tempo inteiro e em exclusividade. Não que isso alterasse em nada os sentimentos dele. Era com ela que ele queria estar e partilhar o espaço da sua casa, o tempo livre e todo o outro, dividir a sua cama e os afectos, as preocupações, as angústias e as alegrias, mas as outras mulheres atraiam-no, sobretudo quando percebia que lhes despertava atenção e interesse. Não lhe interessava se eram atenções reais ou marcadas pela falsidade e
ela não suportava a ideia de se sentir posta em causa, nem que fosse por um segundo, por aquele bando de abutres, “jagudis” imparáveis que atacavam mal a viam com alguém.
Naquela terra de ninguém, as conquistas dela funcionavam como isco para as outras. Um homem podia viver por lá há muito sem despertar qualquer interesse, mas se a viam com ele, passava a ser o objecto de desejo predilecto de todas. Shine não chegou a perceber se o faziam só para a chatear ou qual era a razão pela qual os homens que a atraíam passavam de desinteressantes a irresistíveis.

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

II. O soldado que marchava com o passo certo – Shine, Blu e Smile

Os dias marcados pelos desatinos de Shine sucediam-se, cada vez com maior frequência, e apesar das tentativas imparáveis de se acertar com Blu. Ela estava verdadeiramente apaixonada por ele, mas o “bom malandro” que vivia dentro dele estava também, de dia para dia, mais activo, e isso confundia-a. Afinal, se a queria tanto quanto dizia, porquê estas atitudes e reacções?
O trabalho que tinha que fazer por lá era “por conta própria”, não dependia de superiores e não tinha horários a cumprir. Ia fazendo, ao ritmo dela e dava-se ao luxo de estar semanas sem trabalhar porque tinha a habilidade suficiente de compensar nas semanas seguintes. Isso dava-lhe a possibilidade de gerir o tempo – passava dias na praia ou a desenvolver actividades de lazer que incluía no seu trabalho. Tudo naquela estadia tinha potencial para correr bem.
Antes de Blu, Shine apaixonara-se por Smile, o protótipo do sedutor por conta própria e por prazer. Smile era o que uma mulher pode considerar de “gajo bom” – giro, simpático, bem parecido e malandrão, óptimo conversador e disponível para excessos e momentos bem passados. Foi o que aconteceu, entre Shine e Smile – uns momentos bem passados que ela procurou prolongar mas que não tinham conteúdo para serem continuados.
Apesar de ser um “gajo bom”, não tinha grande reputação por lá – metia-se com tudo o que era mulher e não era preciso ser grande espingarda. Mas quando Shine o conheceu, após uma série de coincidências – faziam parte do mesmo grupo de discussão na net e encontraram-se, sem imaginarem quem eram, mal ela chegou ao país – a atracção foi instantânea.
Ela estava mais do que precisada de uma emoção forte e arrebatadora e ele já via as mulheres locais com uma conjugação impossível - louras, giras, divertidas e inteligentes, independentemente dos traços fisionómicos, tal era a aridez do mundo feminino. Smile pareceu-lhe caído do céu, sempre divertido e com vontade de uma boa risada. Uma garrafa de vinho ou uma cerveja, intercalada com mais qualquer coisa, faziam maravilhas para uma noite de conversa, que terminava sempre na praia, num banho longo a ver o nascer do sol. Shine era para Smile uma presença agradável e sobretudo uma cara nova, com interesses diferentes do da maioria das garotas que ali iam parar. Estavam um com o outro na maior das sintonias, desde que não houvesse compromissos.
Mas na vida de Smile havia uma Sad Face, sem que Shine tivesse percebido. E os problemas começaram a aparecer porque Shine intrometeu-se, sem querer ou imaginar, entre Smile e Sad Face e, além da relação que foi emergindo aos olhos de todos, Shine deixou-se apaixonar. Como o meio facilitava a intriga, todos souberam, comentaram e aumentaram aquele sentimento que estava contextualizado no tempo e no espaço. Entre essa altura e o dia em que Shine conheceu Blu passou um ano e até se ter apaixonado, e envolvido afectivamente com ele, muito mais tempo. Quando regressou, os sentimentos que nutrira por Smile já não existiam sequer. Ela passou a falar nele como um gajo porreiro, porque o era de facto. Continuava divertido mas nada mais do que isso. Já nem graça lhe achava.
Estava então disponível para novos afectos e emoções, não contando que, durante o tempo que se afastara daquela gente, a intriga continuara num crescendo alucinante e imparável. Conheceu Blu e até hoje, depois de muito pensar, não consegue dizer se a aproximação que ele fez foi combinada com Smile e Sad Face, como forma de a manter à distância suficiente, sem causar transtornos perante os ciúmes intensificados, mas infundados, da garota. Sad Face era insegura e Smile não lhe dava razões para ser de outra forma.
Quando a ideia lhe passava pela mente, ficava arrepiada de tanta irritação. Não querendo acreditar, pensava – Xô pensamentos negativos, tenho de me sentar ao sol a fazer Ioga para receber energias positivas. E lá ia para a pequena varanda do apartamento, umas vezes com uma vela acesa junto a si e outras concentrando-se na energia do sol, cruzava as pernas e tentava meditar, emitindo o som Ommmm.
Claro que essa prática não ajudou a refazer a imagem que todos tinham dela, mas ela não parecia particularmente preocupada com isso. Afinal, não devia nada a ninguém e não estava a prejudicar nenhum deles. Estava a fazer a vidinha dela, calma e tranquilamente, a encontrar-se e a tentar perceber ao certo o que queria. Ninguém tinha nada que ver com a vida dela e não havia demonstrações de amizade, sobretudo nas mulheres. Invejosas, pensava.
Além dos desatinos, dos excessos que cometia quando estava triste, também fazia Ioga na varanda, e até os jardineiros comentavam que a Dra. tinha uma religião esquisita, qual seria? Ela ria-se quando lhe vinham contar... afinal não era ela senhora de fazer mesmo o que lhe apetecia? Até o Ioga seria um excesso? Ou um sinal de se ser uma pessoa desestruturada, como lhe diziam, quando percebiam que não era casada, não tivera filhos, porque a vida assim não o quis, e fazia o que lhe apetecia mas não tinha namorados. Relações só lhe conheciam a de Smile, porque Blu ainda não fazia parte dos sonhos dela. Apareceu mais tarde, e foi um problema num dia só...
As mulheres odiavam-na, com uma ou outra excepção, porque ela tinha uma forma de estar singular, marcando pela diferença.
Os homens achavam-lhe graça, brincavam com ela, por tudo e por nada, tentavam meter-se, a ver se dava, e a resposta era conhecida e desencadeadora de risos, de sorrisos ou de olhares reprovadores em função das caras – Xê... Oh... tem juízo, tu não prestas! Arranjaram-lhe alcunhas e até lhe chamavam frígida, o que a enervava e desencadeava desatinos... porque ela dizia não gostar de dançar e não querer ter relações de uma noite, como todas as outras, ora com um ora com outro. Gostar... ela gostava mas não era com toda a gente, quem escolhia era ela. Na verdade, ela sabia muito melhor o que queria do que as outras e isso era visto como um problema.
Shine era das pessoas mais populares, conhecia toda a gente, o que não era tarefa difícil – as pessoas não eram muitas e ela era simpática, sorridente quando estava bem disposta, disponível com todos, desde que não a pisassem e não lhe fizessem mal. E mesmo nestes casos, dava, quase sempre, o benefício da dúvida, o que a fazia sofrer porque na sequência, quem não lhe queria bem, pisava de novo. Era uma referência, pediam-lhe informações e sugestões, chegavam lá dizendo que eram amigos dela e, de quando em vez, confrontavam-se com a própria, dizendo-lhe que eram seus amigos, mas quando se davam conta de quem ela era... constrangiam-se. Ela sorria, ria-se e começava logo a tratá-los por tu.

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...