sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Mais um romance em África

Mais uma vez os envolvimentos rápidos e fugidios, as paixões desiguais, os sentidos à flor da pele e as emoções a despertar. Mais uma história de encantar que vai terminar em desencanto pela inconsequência dos actos, inconstância das vontades e inconsistência do argumento.
Mais incertezas e dúvidas, medos e inseguranças que se confundem com a vontade de não falhar uma vez mais e de perder. Medo de ouvir e de falar. Estou exausta de tentar, cansada de amar sem partilhar, de dar sem ter entrega. Valerá a pena?
Sinto, uma vez mais, as contradições infinitas do romance em África, numa terra de ninguém, que não é minha hoje, nem será nunca. Tal como os amores que aqui vivo, numa tentativa imparável de me acertar.
Dezembro 2001

Protecções

Um dia, na praia dos Tamarinos, praia levemente tropical, fazendo lembrar ambientes desertos, onde se pode andar nu sem nos darmos conta de estarmos a ser observados, e apesar de obviamente estarmos, dei comigo a pensar. As roupas não são mais do que protecções convencionais, que nos tornam menos vulneráveis e expostos e mais seguros. As variações das roupas que usamos, a forma como combinamos as peças, as cores, os tecidos e os padrões levam-nos a criar nos outros sensações e emoções, mantendo-nos protegidos dos impulsos alheios. E eu que gosto de fazer nudismo, apenas em praias desertas e sem assistência, cheguei naquele dia a uma conclusão - as roupas são absolutamente magníficas, porque sendo escudos protectores, funcionam ao mesmo tempo como instrumentos de sedução infalíveis. Sem qualquer peça de vestuário, algumas pessoas não seriam nada, porque quando as vemos nuas, perdem qualquer graça que lhes poderiamos ter encontrado quando as vimos compostas e arranjadas.

Moça dos olhos tristes

- Moça dos olhos tristes e profundos, encantaste-me e seduziste-me só com o teu olhar. Um olhar: contido, terno e doce, a oferecer-me infinitos mundos que eu quero descobrir; reservado e indiciador de sofrimentos, que nunca conseguiste ultrapassar e sobre os quais tens tanto receio em falar; tão sedutor que consigo ver a amante fogoza que és por trás da tua timidez.
- Porque me chamas moça, quando tenho nome? Diz o meu nome ou nem o sabes sequer? Tens medo de te enganar...?
- Que mágoas passadas, presentes e futuras esconde esse tom indefinido. Que mistérios têm a revelar o verde distante, o cinzento tristonho e o meigo acastanhado? Porque mudam de cor os teus olhos que me seduzem por serem tão diferentes mas tão belos? Porque és tão insegura de ti, se és tão doce e tens uns olhos para os quais tenho até medo de olhar, porque me posso afundar neles e não voltar a aprender a nadar?
- Porque... olha, por não me tratares pelo nome e me continuares a chamar moça, como a uma outra qualquer que passou pela tua vida antes de mim ou que venha a seguir. Porque são tantas que não sabes o nome de nenhuma, mas isso também nem é importante. Não é mais possível acreditar no que me dizes. Porque também eu tenho medo de me perder, nas tuas palavras doces e no teu toque macio, nos teus braços fortes quando me abraças e na tua envolvência, e não me conseguir encontrar. Porque não posso e porque não quero. Porque o sofrimento que vem será com certeza maior do que o imenso prazer que me dás.
- Mas o que é mais importante? Ser fiel ou ser leal? Já pensaste que fiéis são os cães? Os homens são leais. A si, a sentimentos, a valores e aos outros. A vida é uma aprendizagem feita de momentos e a inteligência está em vivê-los bem, na busca da felicidade.
-
Sim, eu tenho um cão e gosto de pensar que um homem tem mais qualidades do que o meu cão, que é, como dizes, apenas fiel. O homem com quem eu quero estar tem de ser leal e fiel. Aos sentimentos que tem por mim".
- "Não olhes para mim com esses olhos...

- Porquê? O que têm os meus olhos?
- Tu sabes... não lhes resito.

E assim ficaram, olhos nos olhos, dentro da água morna dos trópicos, e com a intensidade do pôr do sol ao longe, no horizonte, pensando ele no que fazer para continuar a seduzi-la e ela na tristeza que se avizinhava após a deliciosa sedução.

Agosto 2004

She, cantaria Elvis Costello

She may be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
Maybe my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things Within the measure of a day
She may be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a Heaven or a Hell
She may be the mirror of my dreams
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem Inside her shell....
She, who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She maybe the love that cannot hope to last
May come to me from shadows in the past
That I remember 'till the day I die
She maybe the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I care for through the rough and ready years Me,
I'll take the laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is She



quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Sentimentos

Sentimentos ligeiros que se avolumam e que ganham consistência, solidificando-se. Sentimentos bons, ternos, escaldantes. Ligações que fluem e que se aprofundam. Vontade de querer, de ter, de pertencer, de ser. Medo de te perder. Angústia da incerteza.
Sentimentos difusos, numa teia confusa e de difícil leitura. Ligações complexas e impenetráveis.
Gostar infinitamente, amar com infinitas certezas. Uma busca de certezas no meio de dúvidas permanentes e constantes. Sentimentos entrelaçados numa rede indecifrável...
Março 2003

Amei

Amei a terra e as pessoas, mas sobretudo amei-te a ti, como nunca tinha amado.
Hoje não te podendo continuar a amar, contento-me a amar as tuas ternas recordações. Doces de desejo e de vontade. Do companheiro que quiseste e soubeste ser, do amante incansável e insaciável, do amigo em quem quis confiar os meus segredos e uma grande parte de mim.

E lembro-me do resto, o menos bom. O desacerto e o afastamento. Sem razão, pelo menos para mim, que nunca percebi o porquê.
Junho 2003

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Como?

Lembrando-me de ti, pergunto-te - Como poderia esquecer e perdoar?

Rosa Louca

A diversidade florística do arquipélago de São Tomé e Príncipe sempre me fascinou. Encontrei plantas com dimensões e formas como nunca tinha visto antes, flores exóticas de uma beleza infinita, que conferem à paisagem particularidades únicas, permitindo desfrutar de uma visão multicolorida. Pela beleza exótica, as flores de São Tomé são verdadeiros “cartões de visita” para o turista estrangeiro.
Dadas as características climatéricas e geográficas, a flora santomense é abundante e rica em biodiversidade, tendo as flores formas diferenciadas, cores apelativas e nomes que traduzem a sua especificidade: rosas de porcelana, vermelha e rosa; bordão macaco; bicos de papagaio, macho e fêmea; hibiscus; begónias; orquídeas,... Algumas foram-se tornando conhecidas, por existirem noutras regiões, porque chegavam à Europa pelas mais variadas formas, mas sobretudo por terem adquirido, com o tempo, estatuto de símbolo nacional.
Após várias viagens ao arquipélago, fui-me familiarizando com as mais conhecidas e, sempre que me foi possível, comprei ramos para alegrar a casa onde vivi em São Tomé, para oferecer aos amigos ou para trazer para a minha família. Flores de uma beleza impossível de descrever e que iam deslumbrando todos os que as tinham a possibilidade de as ver.
Mas a verdade é que, enquanto socióloga, sempre me preocupei mais com as questões sociais e humanas em África e, devo confessar que, os meus conhecimentos sobre a flora sempre foram muito limitados. Gosto de flores - de as ver, de as ter e de as receber, aliás como qualquer outra mulher, porque são um sinal de dedicação, de sensibilidade e de fragilidade. Mas os nomes científicos, as particularidades de cada uma, o significado das cores, as doenças que podem ter, a melhor altura para serem plantadas ou a época de florescerem... são noções que nunca fizeram parte das minhas preocupações mais imediatas.
A minha curiosidade aumentou quando, numa das inúmeras noites de longa e deliciosa conversa, na envolvência do calor santomense, e enquanto cumpríamos o ritual do chá de menta, um amigo me perguntou se já tinha visto as “rosas loucas”, tornadas famosas no “Equador” pelo Miguel Sousa Tavares (2003, Lisboa, Oficina do Livro). A minha perplexidade foi total. Tantas e tantas vezes já tinha estado em São Tomé e nunca tinha ouvido falar em tal planta.
Na altura, o meu amigo, que estava a ler o livro, falou-me com algum pormenor sobre essas plantas tão diferentes, espicaçando a minha infinita curiosidade, e sabendo que o fazia. Como ele, de quando em vez falava, meio em tom de brincadeira sobre alguns efeitos ambientais e climatéricos nos estados de alma humanos, honestamente duvidei e ri, aliás como quase sempre fazia.
Aparentemente não levei a história muito a sério. Mas, tenho de confessar que fui ler o livro a correr e lá estavam elas descritas, mais do que uma vez, de forma aliciante e sedutora, apelando, com sucesso, para os sentidos do leitor - flores diferentes, que mudam de cor ao longo do dia e, que emanam um cheiro intenso.
Aquando do lançamento, o “Equador” passou a ser um ponto de referência, nas conversas de todos os que estavam em São Tomé ou que por lá tinham passado, pela cativante e leve forma de escrita, pelo enredo, pela envolvência que o romance permite ao leitor, pela actualidade das situações descritas, apesar da época histórica ser já distante. Mas também porque foram poucos os que disseram, na altura, conhecer a famosa “rosa louca” e, na verdade, todos ficaram com curiosidade de a ver e de confirmar o seu carácter inconstante porque mutante.
As “rosas loucas” não são conhecidas por esta denominação. O nome científico é Hibiscus Mutabilis, podendo também ser referidas por Dixie Rosemallow, Cotton Rose ou Confederate Rose. É uma flor originária do sul da China, que pertence à família das Malvaceæ, ao género dos Hibiscus e à espécie Mutabilis (esta saiu-me bem... mas é um dado conhecido).
É uma planta arbustiva, de natureza perene, que pode adquirir dimensões de uma pequena árvore (até 2,5 metros). As flores têm entre 10 e 15 cm de diâmetro, e têm a particularidade das pétalas mudarem três vezes de coloração ao longo do dia – nascem brancas ou rosa claro, passam a rosa aberto à tarde, tornando-se à noite vermelhas escuras ou de cor púrpura. A característica mais notável e particular é o facto das três cores poderem aparecer em simultâneo, e do ciclo das flores da mesma ramificação poder ser diferenciado.
Estas são plantas procuradas internacionalmente por requererem poucos cuidados, adaptando-se à maioria dos solos e das condições climatéricas, o que lhes confere uma característica de “tolerância”.
Apesar de não serem as flores mais conhecidas de São Tomé, e de até poderem ser encontradas noutros locais, a descrição das “rosas loucas” apela para o imaginário construído e para a sedução dos sentidos, tão bem traduzida pelo “Equador”. São diferentes das outras flores e distinguem-se pela característica da mutabilidade da coloração das pétalas, o que transmite uma imagem de invulgaridade. São flores de uma beleza única. A mudança de cor, num curto período de tempo, é um fenómeno absolutamente fabuloso para os sentidos do observador e para quem tem a possibilidade de registar fotograficamente as diferenças e a evolução do fenómeno.
Apesar de ser um processo natural neste tipo de flores, a qualificação que lhe foi atribuída remete para a loucura, relacionando a mudança de cor com a fragilidade e a sensibilidade extremas face a factores contextuais, tais como a luminosidade, a humidade ou a temperatura. Por analogia ao feitio de algumas pessoas que varia, marcado pela incerteza e pela instabilidade, também a alteração na coloração das “rosas loucas” confere um traço de mutação permanente ao seu aspecto.

Partes

Desta vez, és tu quem parte e partindo levas um pouco de mim. Sem te dares conta, sem perceberes e sem quereres.
Partes porque queres e precisas. Deixas-me, querendo-te e desejando-te. Criaste o desejo em mim, sem o esgotares. Sinto que me queres e que desejas sem quereres.
ST Dezembro 2003

Tu

Sinto-te perdido em mim,
esgotado, ausente.
Entregue sem quereres,
consciente de não poderes.
Queres-me e quero-te,
desejamo-nos longa e ternamente,
sem sabermos como ou explicar o porquê.
Não podes e não devo,
mas,
vamo-nos perdendo, encontrando e recriando
momentos partilhados.
Queres-me e negas-me,
negando a ti próprio os sentimentos fortes e inabaláveis.
Recusas a entrega já feita,
foges e evitas-me, resolvendo com a incerteza e a dúvida o mais certo do teu sentir.
E reduzes o risco. Não de te dares a alguém.
Mas de te entregares a mim, sentindo-me entregue também.
Como tantas e tantas vezes aconteceu...
E tu ficas em mim, para sempre. O que não sei se é bom...
ST, Outubro 2003

Encontros em África

A África dos encontros e dos desencontros; das semelhanças e das diferenças; das buscas que nunca se chegam a encontrar e dos desencontros que nunca se chegam a cruzar; do que encontramos sem termos procurado e do que procuramos sem nunca chegarmos a encontrar.
Em Maputo 1999, retomado em ST 2003

MEDO

de avançar e de parar; de partir e de ficar.
Sentimentos e sensações que se opõem, contradizendo-nos. O que dizemos, o que fazemos, o que queremos e o que não podemos.
É do clima, pensamos, ou será de nós mesmos, não admitimos. Porque não podemos e não queremos.
A dúvida e a incerteza traduzem a contradição do que somos. E de como vivemos. Do que fomos e de como seremos, num futuro tão incerto.
Maputo, Janeiro de 1999

Chove

Chove como nunca até aqui. Tenho a sensação que a terra está triste com a minha partida, teimando em não me deixar sair do mesmo sítio. E eu adapto-me ao tempo: vou-me deixando ficar, sem oferecer resistência. Porque também eu não quero partir de um local tão diferente, onde me sinto tão bem...
ST, 25/09/2000

Intimidades

Marcaste-me por uma presença inconstante, mas deliciosamente presente.
Pelo gosto partilhado de estarmos juntos, ternamente aquecidos por um olhar apenas, por um toque de pele e pela fricção dos sentidos.
Marcámo-nos e distinguimo-nos, pela diferença da presença, pela companhia terna, doce, reconfortante e inexplicavelmente calmante.
Foi tudo e nada mais será.
Fomos tudo num breve momento de eternidade.
De tudo tivemos porque tudo merecemos... e porque tudo procurámos.
O prazer reencontrado e partilhado, a angústia da despedida e da perda, da ausência necessária e obrigatoriamente vivida porque forçada.
Contra o desejo. Contra a vontade.
Quis-te e quero-te ainda. Sempre te quererei, sabendo que não posso querer-te. Nem que fosse apenas por mais um milésimo de segundo. Só para aspirar de novo o teu perfume, sentir a maciez aveludada da tua pele e o teu sabor, ao mesmo tempo, doce e picante.
Nunca mais...
ST, 16/05/2003

Licor de Jaca

- Lembras-te do magnífico licor de jaca? - perguntavas-me com um sorriso matreiro.
- Hmmm... só de pensar... - e as lembranças de mais uma noite inesquecível inundavam-me o pensamento.
- Aquele que, inexplicavelmente, tinha poderes amnsésicos... fazia com que acordássemos na manhã seguinte com a sensação de nos ter acontecido algo de muito maravilhoso, apesar de não sabermos dizer exactamente o que foi... - rematavas com uma risada aberta
E como eu me lembro ainda. Aquela varanda tranquila e absolutamente inspiradora sobre a baía de Angolares e a floresta do Obô, permitindo que os sentimentos mais puros e verdadeiros fossem exteriorizados e consentidos.
Porque as emoções essas ficam eternizadas na memória de quem as viveu, num mundo onde tudo de bom foi possível. O impossível seria viver com mais intensidade e entrega.
Lisboa, Agosto 2004

terça-feira, 24 de agosto de 2004

África

África:
dos encontros, dos desencontros e dos reencontros;
dos sentidos e das emoções;
das paixões e das contradições.
África:
dos amantes ardentes e dos amores fugazes;
dos sonhos vágos e por realizar;
da esperança tornada impossibilidade.
África:
do desejo recriado;
da vontade alimentada;
das recordações revividas... dia após dia.
(A Ti) ST, Janeiro 2004

Manual de sobrevivência em meios socialmente hostis

Presenciando cenas pela manhã bem cedo recordo uma pessoa que conheci em São Tomé e Príncipe há uma eternidade e de quem perdi o rasto há ...