terça-feira, 8 de abril de 2014

Abre os olhos porque alguém te pode estar a observar... ;-)

Observar os outros é uma actividade absolutamente inspiradora sobretudo quando o alvo do nosso olhar atento não se apercebe que, pelos motivos mais diversos, passou a ser do nosso interesse estimulando-nos a criatividade. Aos meus olhos quase não há limites para a observação e para a criatividade - e a excepção é a privacidade alheia.

Há tempos fui buscar alguém ao representante oficial de uma marca de automóveis e enquanto aguardava pela sua chegada deparei-me com um cenário magnífico para observação. Magnífico não por ser bonito mas, em boa verdade, por ser hilariante. O representante automóvel era alemão, supostamente marcado pelo rigor, exigência e trabalho árduo. Estacionei o carro pensando caminhar à beira-rio e tirar fotografias a gaivotas e patos marinhos que por ali abundam mas a maré estava vaza e o enquadramento ribeirinho não era famoso. Antes pelo contrário, até era desolador e mal cheirento porque o lodo emergiu com a falta de água e o único motivo interessante eram as gaivotas e andorinhas marinhas a bicar o lodo em busca de moluscos. Então centrei-me no cenário à minha frente: a zona da lavagem automóvel. Aparentemente não seria nada de mais mas avisto dois homens, um português e outro de leste, que limpam à vez o tablier de uma van. Ambos de luvas, conversam e riem muito mais do que limpam e, talvez por isso, tenham de entrar e sair da carrinha à vez. Há comportamentos absolutamente misteriosos e daí serem tão interessantes. Mas muito mais aliciante é um africano, certamente proveniente da Guiné-Bissau, não apenas pela fisionomia mas também por se chamar Baldé. O Baldé passou a ser meu por alguns momentos porque captou toda a minha atenção e é absolutamente fascinante. O homem só limpa filtros de ar condicionado e a forma como o faz é surpreendente. Passo a explicar: não há jacto de ar nem pano, apenas o filtro e um sapato, pelo que ele bate com as placas no longuíssimo pé calçado com uns ténis pretos. À medida que bate com a placa no pé olha à sua volta pelo canto do olho como se houvesse muito mais para observar mas não se apercebe sequer de que eu estou ali e a observá-lo. Depois estica-se e dá uns dez passos com uma das placas que havia encostado à parede. O ar que aparenta é um misto de cansaço com dedicação. Ele sabe o que faz e demonstra preocupação com a eficácia do resultado. Como é zeloso nem vale a pena atribuirem-lhe outras incumbências de forma a que a sua prestimosa atenção não seja desviada. De repente percebo que, enquanto escrevo, o meu Baldé desapareceu do meu campo de visão mas uma certeza eu tenho: ele volta já que deixou aguns filtros encostados à parede sem os ter limpo com as acertivas batidelas no pé. E eu... bem eu fiz um intervalo para fotografar gaivotas a bicar o lodo porque acredito que quando o encantamento da paisagem abrandar ele estará de volta para concluir a tarefa que assumiu na perfeição...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...