sábado, 26 de abril de 2014

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe", Entrevista a Abílio Bragança Neto, STPtv

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe". Entrevista a Abílio Bragança Neto no canal STPtv, disponível em http://www.youtube.com/user/Canalstptv. Uma conversa cordial numa tarde bem passada sobre temas que me são muito queridos: o turismo; o ambiente; a educação ambiental; as pessoas; o desenvolvimento  E ainda o Manual de Educação Ambiental em preparação MARAPA e ASPEA, um projecto financiado pelo GEF sob coordenação do PAPAFPA
Visualizar em Entrevista à STPtv

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O sorriso que revela a vontade de eclipsar

Quanto mais o tempo passa maior força ganham as memórias. O sol, sobretudo na hora do nascer e do ocaso; as cores, a densidade do verde, a imensidão do azul, o contraste das tonalidades que reforçam a dimensão das paisagens; os cheiros, a intensidade do odor da terra húmida mesclada com o da fruta madura e o das flores a desabrochar. E as pessoas, sempre próximas, sorridentes, simples, receptivas, disponíveis, sem exigências ou cobranças, tão perto da imagem da felicidade livre e desapegada. Sempre sonhei com este cenário composto por diferentes elementos que se conjugam numa harmonia equilibrada a tocar a perfeição.

Nas alturas mais desgastantes e sempre que sinto necessidade de me eclipsar e me tornar invisível - o que, reconheço, acontece de vez em quando, nem que seja por um milésimo de segundo - revisito os momentos que ficaram registados no back up da minha memória virtual e recupero a sucessão dos episódios mais felizes, ou dos que não sendo completamente felizes se revelaram divertidos e me fazem sorrir. E, sem ter consciência da figura que faço nestas ocasiões, com alguma frequência sou despertada por uma interpelação surpreendida, habitualmente em tom de desagrado, que me obriga a perceber que afinal não me tornei invisível... Alguém que naquela altura está perto de mim, observa a minha estratégia de fuga e simplesmente não compreende o meu comportamento e demonstra-o como se isso alterasse o que sinto e o que mais me apetece fazer. Percebo que durante a fracção de segundos em que me refugiei nas lembranças recuperadas pelas fotografias virtuais da minha memória, mantive no rosto uma expressão difícil de explicar, muito mais difícil quando o sorriso espelhado passa a breves e esporádicos risos, mesmo não chegando à gargalhada. Além deste sorriso projectado para o vazio da realidade presente e que quase todos qualificam como "estranho" e "vago"... o olhar distancia-se como se o meu inconsciente quisesse viajar e a velocidade da luz fosse o melhor meio de transporte. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

O bem-estar é essencial nas viagens e na vida...

Apesar de que, em cada viagem às ilhas, conseguia reconhecer as sensações que sentia e a paz que a envolvia após o regresso, depois de respirar bem fundo de olhos fechados para melhor reter aquele ar denso, pesado, aromatizado pelos mais diversos odores, cada estadia resumia-se numa experiência diferente de todas as anteriores. Em cada viagem criavam-se situações únicas e irrepetíveis vividas com intensidade. Talvez por isso fosse sempre tão bom regressar. Cada um dos minutos ali passados representava a esperança de viver momentos felizes sem que contudo houvesse a expectativa de recuperar ou reviver os anteriores. Os contextos eram diferentes e, em grande medida, as pessoas que marcavam cada estadia também, pelo que nada era susceptível de repetição. Apesar de tudo, a consciência da impossibilidade de reviver in loco o passado era reconfortante e muito tranquilizadora. E assim ia acontecendo, os momentos felizes sucediam-se, revestindo formas diferenciadas, sem se repetirem. Aquele era definitivamente o seu lugar, onde se sentia confortável e acreditava pertencer ou imaginava que poderia ali teria pertencido um dia. E, efectivamente, pertencera. Tudo lhe era familiar, tudo a fazia sentir bem, e o bem-estar é essencial tanto nas viagens como na vida...

Na viagem de regresso a Lisboa, 04/04/2014

domingo, 20 de abril de 2014

Ilhas que inebriam

São Tomé e o Príncipe são ilhas perigosas por terem mistério. São terras encantadas que cegam e inebriam, desenhadas pelo contraste das cores, adocicadas pela intensidade dos cheiros e moldadas pelos afectos, pelas emoções e sensações que as vivências nos permitem experienciar, recriar e reinventar. Tudo se vive intensamente por aqui e, apesar do leve-leve que paira no ar e que todos parecem respirar e transpirar, o que vai dentro de cada um só o próprio pode dizer. Toda a situação vivida se transforma rápida e abruptamente num turbilhão acelerado e descompassado desembocando em caminhos tão diversos que podem traduzir estradas direitas, trilhos em espiral ou picadas repletas de obstáculos. É a vida de quem visita as ilhas... Chegando aqui, os mais contidos transformam-se, os introvertidos e tímidos extravasam emoções e os mais extrovertidos ganham mais e mais vida. Todos - ou quase todos - passam a viver com outro ritmo mais enquadrado, mais sentido, mais simples. Mais dia menos dia, o leve-leve acaba por se  instalar e invade-nos mobilizando-nos e dando lugar à descontração e à alegria. Tudo o que não é essencial passa a ser automaticamente relativizado e desvalorizado. O essencial ganha terreno e o centro do nosso olhar são as pessoas, os espaços, a natureza. Invariavelmente sentimos-nos mais introspectivos e contemplativos. Os dias assumem o ritmo dos encontros e os horários são orientados pelo tempo de vida que ganhámos a conversar, a rir, a conviver, a experienciar, a ser...

São Tomé, 2 de Abril de 2014

Conversas cruzadas... ligadas???

Caminhar na rua e ouvir conversas alheias é uma actividade que distrai. Bem sei que pouco, ou mesmo nada, tenho a ver com a vida dos outros mas, em boa verdade, se os visados quisessem manter segredo não falavam de forma a que as outras pessoas, como é o meu caso, ouvissem. Enquanto caminhava apressada pela rua por estar atrasada para uma reunião acabei por pensar no quanto é estranho o mundo social dos afectos. Por mais que se confie em alguém para um desabafo há sempre forma de outros saberem os meandros da vida. Todos acabam por comentar os desassossegos de uns e de outros com um tom crítico como se estivessem imunes a situações semelhantes. Nunca se está verdadeiramente resguardado - pensei - a não ser que nos fechemos numa concha e não partilhemos com ninguém o que sentimos em determinado momento. Mas o mais engraçado é que, por vezes, é possível ligar conversas e cruzá-las. No meu caminho encontrei um primeiro grupo sentado numa esplanada que conversava sobre a vida de um qualquer rapaz ausente da mesa:
- Ele era mesmo muito inseguro na relação, desconfiava de tudo e muitas vezes sem motivo - dizia um dos três com ar entendido.
Continuei a descer a rua e chegando ao Marquês de Pombal passei por uma paragem de autocarro onde estavam duas raparigas também em íntima conversa:
- Não estás bem a ver as cenas que ele me fazia. Ciumento até mais não. Despachei-o.
Dei comigo a pensar: mas será coincidência temática ou o grupo sentado na esplanada e estas duas raparigas da paragem de autocarro falam da mesma pessoa? Jamais conseguirei descortinar o fundo das duas histórias e muito menos se têm ligação mas depois de ter escutado não pude deixar de as relacionar. As inseguranças fazem parte da vida afectiva e só não as sentem quem não se sente verdadeiramente ligado.


sábado, 19 de abril de 2014

Protegida...



Há muito que não sentia a segurança de dormir debaixo de uma rede mosquiteira como se estivesse protegida de tudo e de mais alguma coisa. Ali, rodeada pela rede branca bem esticada, reina o bem-estar, uma tranquilidade infinita, a paz procurada há muito. Sem esforço o sono chega para acalmar o cansaço e as emoções do dia.

São Tomé, 29/03/2014

A alegria do regresso

Uma e outra vez, a chegada às ilhas é marcada por infinitas expectativas e descompasso no coração. Aqui há calor. Não apenas térmico, afinal estamos na latitude zero e o Equador faz-se notar, mas sobretudo o calor humano das pessoas simples, quentes, de sorrisos afáveis e disponíveis, de olhares directos e francos. Pessoas que me fazem sentir bem, como se estivesse em casa, pelo envolvimento de proximidade com o que me parece ser a essência da vida. Foi sempre esta a sensação e hoje percebo que, apesar de a sentir no mais íntimo de mim mesma, nem sempre a consegui traduzir por palavras de forma clara.
A viagem foi dura, difícil, com prolongadas e cansativas esperas. Pensando bem as últimas viagens têm mesmo sido assim como se houvesse alguma coisa que me estivesse a pôr à prova e uma voz sussurrasse baixinho ao meu ouvido - "vamos a ver até onde resistes". Eu, que sou torcida, vou resistindo porque sei que vale a pena. Passadas as turbulências, as filas e os momentos em que fomos deixados em modo de pausa sem descanso, a chegada à cidade foi semelhante a tantas outras: a tranquilidade interior regressou e desceu sobre mim transmitindo-me paz. Nâo sei exactamente o que é que os meus companheiros de viagem sentiram ao chegar, não aprofundámos o tema. Mas para mim, a sensação repete-se. Uma enorme vontade de fechar os olhos e calmamente respirar fundo para me ir apercebendo de todas as sensações: a humidade e o calor; os cheiros; o movimento da cidade que, depois de despertar, ganha forma; as cores; os sons... E, de repente, é como se tivesse feito um "shut down" do modo anterior, passando a uma fase muito mais sensorial que vai permanecer junto de mim por mais uns dias, tantos quantos os da estadia com desconto de mais ou menos um mês após o regresso. Nas ilhas tudo parece mais fácil, tudo, ou quase, se articula com ligeireza.
O primeiro dia vai passando e é bom rever caras conhecidas, olhares surpresos com sorrisos abertos acompanhados de abraços sentidos. A alegria do reencontro manifesta-se na expressão facial, no olhar e nos movimentos corporais. Aqui as pessoas riem na totalidade. É bom perceber que se lembram de nós e que se sentem felizes por nos rever, passe o tempo que passar...

Após a chegada a São Tomé, final do 1º dia. 28 Março 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O que dizem os teus olhos...

Há pouca coisa tão fascinante quanto olhar nos olhos de alguém. Para lá da cor, que pode ser mais ou menos bonita, do formato e do brilho, todos os olhos têm expressão: falam; riem; choram. Os olhos transmitem sensações, emoções, sentimentos e dizem-nos o que vai na alma de alguém, são pouco enganadores, basta querermos compreender o que significa a expressão de cada olhar. Há olhares tristes, perdidos, sentidos, ressentidos. Olhares magoados, afogados, desesperados. Olhares cansados, conformados. Olhares zangados, amuados, destroçados. Olhares ternos, delicados, quentes, envolventes, insistentes. Olhares confiáveis, calorosos, acolhedores. Olhares tranquilos, felizes, apaziguados, esperançados. Olhos que riem e que choram, que gritam e lamuriam. Olhos que pedem e suplicam. Olhos profundos, atentos, confiantes e que inspiram. Olhos ausentes, distraídos, desconfiados, duvidosos. Todos os olhos transmitem vida porque estão carregados de emoção. Todos os olhos reflectem o que se sente através da expressão do olhar. 

São Tomé e Príncipe, antes do regresso. Abril 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nada se repete. Tudo se revive...

Desde a primeira viagem até hoje posso até enumerar o que mudou nas ilhas. E não foi pouco... Lembro-me, como se fosse hoje, de estar sentada no Passante a escrever, tal como em tantos outros momentos. Dessa vez, e na falta de um caderno ou de um bloco - ainda não tinha assumido conscientemente a necessidade de escrevinhar sobre quase tudo - registava num guardanapo de papel as minhas primeiras impressões. Rapidamente adquiri o gosto de observar e anotar como se precisasse de registar para jamais esquecer. No rádio atrás de mim soava uma música ritmada e de batida intensa, de letra envolvente, quente, até explícita no significado. Já não a consigo identificar mas recordo a sensualidade dos sons e das palavras que apelavam aos sentidos. Num primeiro final de tarde a sonoridade enquadrada pela tranquilidade do mar à minha frente fez-me pensar que aquela ilha poderia vir a ser um local especial para mim. Não me enganei... passou a ser o meu lugar, o meu refúgio, o meu espaço onde me sinto verdadeiramente eu. Como sempre faço comecei a observar as pessoas que iam aparecendo e que, em média, ficavam por períodos de meias horas. Nos dias seguintes fui vendo as mesmas caras regressar uma e outra vez em diferentes alturas do dia e sempre que também por lá permanecia. Coincidência - pensei eu - de novo os mesmos. Mas na vida não há coincidências. Aquelas caras que fui reconhecendo transformaram-se em pessoas que marcaram as minhas primeiras viagens ao arquipélago mas que, de uma forma geral, o destino acabou por afastar. Foram pessoas importantes, que hoje recordo com um sorriso, porque cada uma à sua maneira me ajudou a viver momentos felizes. Cada uma contribuiu para a pessoa que hoje sou. A algumas perdi o rasto, de outras vou sabendo de quando em vez e de outras fiquei amiga para a vida. Hoje, ao regressar, depois de tantas voltas, e passando pelos mesmos locais, relembro os melhores momentos que por ali vivi, faço por embaciar os menos felizes porque entendo que na vida devemos guardar o melhor e, de novo, acomodo-me confortavelmente para escrever mais páginas sobre experiências e vivências em São Tomé e Príncipe onde nada se repete mas tudo se revive.


Depois de um almoço ligeiro no Passante, ao chegar ao Ilhéu. Abril 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

No Príncipe...

No Príncipe a vida muda e transforma-nos. A primeira imagem é a do deslumbramento. Tudo é denso e intenso: a paisagem florestal; as praias de baías recortadas; a pequenez da cidade acolhendo-nos com um sorriso de boas vindas; os olhares curiosos das pessoas; e o reconforto  da disponibilidade. Mas também, e sobretudo, as experiência e as vivências que são apenas possíveis num lugar que está longe de tudo e de todos, rodeado por mar. Ali sentimos a noção do isolamento que nos protege do ritmo desenfreado e alucinante de todos os dias mas que nos coloca frente a frente com uma aventura de risco controlado. No Príncipe tudo é possível. Uma ilha tão magnificente quanto distante, tão pequena quanto inacessível, tão contrastante... obrigando-nos a olhar em volta, uma e outra vez, e ver o que está para lá das evidências mesmo antes de pensar. Ali é difícil avaliar porque os sentidos estão despertos para a vida e emocionam-se com tudo, por tudo. Viver em tempo útil não é compatível com estar "fechado para balanço". O Príncipe é um pequeno doce que será gourmet. É a fantasia dos sonhadores, a realização dos apaixonados, o deslumbramento dos sentidos, o encantamento da alma. Se São Tomé é a "ilha enfeitiçada" porque nos prende e não nos deixa partir completamente, o Príncipe é a "ilha encantada" que nos deslumbra, enternece e convida a regressar. Para mim, a combinação das duas resulta na união perfeita...

Na partida do Príncipe, Abril 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Há pessoas...

Há pessoas que transmitem bondade através do olhar, da expressão do rosto, do sorriso e de um gesto que, por mais insignificante que possa parecer, ganha valor pela simplicidade da demonstração tocando-nos o coração. Há pessoas apaixonadas pela vida, que a absorvem como se houvesse o risco de se esgotar a curto prazo. Há pessoas que transmitem consistência e segurança quando circulam pela nossa proximidade porque tudo o que fazem, seja o que for, transborda de solidez, certeza e determinação. Há pessoas que aparentam passar pela vida de forma ligeira por não se fixarem no que têm pela frente e que apenas transmitem fluidez. Há pessoas que olham para os outros de forma displicente e desvalorizada por os considerarem seres menores e insignificantes. Há pessoas que não sentem, não se emocionam e não vibram porque a vida pouco lhes diz. Há pessoas formatadas a um modelo e, por mais que se esforcem, o resultado não ultrapassa a mediocridade... Pessoas que servem de exemplo e que inspiram diferentes sentimentos. Pessoas que me inspiram... Pessoas...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

domingo, 13 de abril de 2014

Conversas tardias misturadas com sorrisos e muito riso


Conversas tardias em noite apaziguada. E ali estávamos, cinco dos muitos mais que já fomos. Os contextos da vida não permitiram reunir os restantes e as razões foram diversas. O tema que centrou mais a nossa atenção foi o de sempre, o preferido de todos os presentes: as viagens e pelo meio as aventuras, as experiências, as vivências e as lembranças. O riso dominou a noite, o que foi reconfortante quando o desassossego do regresso é tantas vezes marcado pelas reticências de um texto não escrito. E ali ficámos durante muitos e muitos minutos que se completaram em horas adocicadas por fotografias divertidas que relatavam momentos de ansiedade e, em alguns casos, de angústia mas que à distância se revelaram infinitamente divertidos. Bons momentos estes!

Viver é bom... eu gosto - parte 2

Viver é um desafio permanente e usufruir plenamente da vida implica sabedoria, coragem, determinação e alegria. Sabedoria para fazer as escolhas certas nos momentos em que decidir é crucial. Coragem para assumir riscos. Determinação para não vacilar perante os obstáculos. Alegria para relativizar as injustiças e as dificuldades com a capacidade de sorrir sempre. Viver é uma tarefa difícil e desafiante mas muito saborosa.

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sábado, 12 de abril de 2014

Escrevinhar...

Desde que, com alguma consciência, me lembro de mim mesma há um caderno e uma caneta que me acompanham para todo o lado. Um caderno que pode ter a forma de bloco, agenda ou folhas soltas e desordenadas - um espaço vazio que aguarda pelo traço por vezes irregular da minha mão, onde posso registar com total liberdade o que vejo, o que penso, o que sinto ou o que simplesmente me apetece dizer ao Mundo em determinado momento. Um espaço em branco que me serve de companhia e me permite voar para outros contextos, outros mundos e assumir outras personagens que tranquilamente misturam ficção com realidade. A caneta não é importante - desde que escreva pouco me importa a cor.
Escrevo muito. Há muito. E desenho rabiscos nos intervalos para me apaziguar. Muito do que escrevo não divulgo porque há uma esfera de intimidade privada que jamais é relatada por não ter qualquer interesse para quem lê e não viveu as situações, não partilhou os momentos, simplesmente não esteve lá. Muito do que escrevo em determinado momento, ao ser lido e relido soa a mensagem desconexa, logo não pode sair da folha rabiscada e tantas vezes reescrita.
São muitos os cadernos e bloquinhos que guardo religiosamente como se fossem um apêndice de mim mesma. E se calhar são porque, em parte, evidenciam o que me vai na alma, as ideias que surgem, as que fogem a correr e as que vão permanecendo. Por cá andam protegidos e resguardados dos olhares alheios que certamente não compreenderiam muito do que ficou registado. Só eu sei o significado de cada texto identificado com uma data e um local e de cada caderno que acumula palavras e desenhos. Mas nesta altura até eu fico perplexa: escrevo num bloco e num caderno em simultâneo, o que, tenho de admitir, traduz algum caos na organização da minha escrita...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

A retoma


E, pouco a pouco, a vida retoma a normalidade, ou o que é suposto ser. Não sei bem o que deve ser o padrão da normalidade e também não estou com pressa de o reencontrar. Há tempo, parece-me. E devagar, devagarinho, vou seguindo o meu caminho contra muitos olhares que não compreendem estes meus estados de alma, nem os meus gostos, nem as minhas vontades. Sempre que de lá regresso o desencontro de ideias e de vontades é o mesmo. Na verdade há quem nunca tenha entendido o porquê. E provavelmente há quem jamais aceitará. Eu sei...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cenários

Cenários, cenários e mais cenários... criam-se cenários por tudo e por nada. Tudo seria mais fácil, mais simples até, se cada um não criasse um cenário diferente. Um cenário não passa disso mesmo, uma representação que, em boa verdade, não retrata a realidade, apenas a recria. Por isso é um cenário!

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Deixa-me contar-te um segredo

E no meio da conversa acabou por me confidenciar:
- Deixa-me contar-te um segredo: aqui a vida passa por nós sem pedir licença. Resta-nos cumprimentá-la e, por vezes, agarrá-la com um abraço.
- O que sinto quando aqui chego é uma transformação interior que apenas se percebe pelo sorriso permanente - respondi - aqui sinto-me feliz, compensada e descansada. Tem sido sempre assim, dia após dia, semana após semana, mês após mês... ano após ano... apesar de, por vezes, continuar a ter sensação de que continuo ligada a experiências passadas - reforcei - é até estranho...
- Fixares-te em vivências que um dia tiveste é um erro, tanto aqui como noutro lugar. Tens de viver em função do que serás e não deteres-te no que foste - respondeu num tom sábio e um pouco paternalista.
- Mas não acreditas que o que somos é o reflexo do passado, das experiências, dos momentos felizes e também de tudo que nos derrotou. Eu acredito nisso... E daí talvez nem sempre seja fácil regressar onde se foi feliz. O espaço fica marcado por lembranças... como se quem connosco partilhou momentos nunca tivesse partido completamente - repliquei.
Ele calou-se e, fixando o olhar num ponto que eu não consegui identificar, respondeu-me de forma directa e simples:
- Já pensaste que a melhor forma de regressares a um qualquer local que te marcou sem te prenderes excessivamente nas imagens que criaste ou nos momentos que viveste, tenham sido felizes ou não, é seguires o olhar dos outros e tentares perceber o que pensam e o que sentem. A vida continua para além de nós mesmos e do que registámos em determinado momento. Tenta ver através dos olhos dos outros. Os teus vão certamente enganar-te porque te levarão de novo ao passado.

São Tomé e Príncipe, Março 2014

O Mistério das Ilhas


Para mim, as ilhas combinam mistério com encanto. Gosto de ilhas - já o disse vezes sem conta. Sinto-me confortável quando as visito e enquanto por lá permaneço, fazem-me bem porque me transmitem tranquilidade o que faz com que me sinta em paz comigo mesma e com os outros. Depois do regresso, e por uns tempos, continuo a sentir a leve sensação de estar a flutuar, o que é indescritível porque magnífico. Mas há ilhas e ilhas e estas, que permanecem no meu coração, têm feitiço. São ilhas encantadas que, pelo deslumbramento, mudaram a minha vida para sempre obrigando-me a regressar uma e outra vez. São tantas as vezes que regresso que sinto que nem sequer cheguei a partir. A partida nunca é definitiva nem se faz completamente. Há algo que fica, que permanece e não me deixa seguir viagem para tudo o que se segue. Há sempre uma parte de mim que resiste e ao partir fica uma inevitável incompletude. São ilhas que tocam, prendem, agarram, abraçam... São ilhas quentes e envolventes. São ilhas ternas, humanas... São terras de sonhos onde acreditamos que tudo - ou quase - é possível. São ilhas que me fazem feliz...

São Tomé e Príncipe, Março 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Descompasso


Uma e outra vez, o regresso é estranhamente marcado pelo descompasso, pelo desritmo e requer uma rápida descomplicação. Parece um paradoxo que a vida retome à velocidade da luz sem dar tempo para incorporar as mudanças. Acordo aos pulos e aos trambolhões como se tivesse um comboio atrás de mim a empurrar-me para a frente, obrigando-me a saltar para o lado, fugindo e evitando o atropelo. E o que aligeira a sensação é ainda usufruir do leve leve que teimo em tornar permanente com o retorno no pensamento...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

Abre os olhos porque alguém te pode estar a observar... ;-)

Observar os outros é uma actividade absolutamente inspiradora sobretudo quando o alvo do nosso olhar atento não se apercebe que, pelos motivos mais diversos, passou a ser do nosso interesse estimulando-nos a criatividade. Aos meus olhos quase não há limites para a observação e para a criatividade - e a excepção é a privacidade alheia.

Há tempos fui buscar alguém ao representante oficial de uma marca de automóveis e enquanto aguardava pela sua chegada deparei-me com um cenário magnífico para observação. Magnífico não por ser bonito mas, em boa verdade, por ser hilariante. O representante automóvel era alemão, supostamente marcado pelo rigor, exigência e trabalho árduo. Estacionei o carro pensando caminhar à beira-rio e tirar fotografias a gaivotas e patos marinhos que por ali abundam mas a maré estava vaza e o enquadramento ribeirinho não era famoso. Antes pelo contrário, até era desolador e mal cheirento porque o lodo emergiu com a falta de água e o único motivo interessante eram as gaivotas e andorinhas marinhas a bicar o lodo em busca de moluscos. Então centrei-me no cenário à minha frente: a zona da lavagem automóvel. Aparentemente não seria nada de mais mas avisto dois homens, um português e outro de leste, que limpam à vez o tablier de uma van. Ambos de luvas, conversam e riem muito mais do que limpam e, talvez por isso, tenham de entrar e sair da carrinha à vez. Há comportamentos absolutamente misteriosos e daí serem tão interessantes. Mas muito mais aliciante é um africano, certamente proveniente da Guiné-Bissau, não apenas pela fisionomia mas também por se chamar Baldé. O Baldé passou a ser meu por alguns momentos porque captou toda a minha atenção e é absolutamente fascinante. O homem só limpa filtros de ar condicionado e a forma como o faz é surpreendente. Passo a explicar: não há jacto de ar nem pano, apenas o filtro e um sapato, pelo que ele bate com as placas no longuíssimo pé calçado com uns ténis pretos. À medida que bate com a placa no pé olha à sua volta pelo canto do olho como se houvesse muito mais para observar mas não se apercebe sequer de que eu estou ali e a observá-lo. Depois estica-se e dá uns dez passos com uma das placas que havia encostado à parede. O ar que aparenta é um misto de cansaço com dedicação. Ele sabe o que faz e demonstra preocupação com a eficácia do resultado. Como é zeloso nem vale a pena atribuirem-lhe outras incumbências de forma a que a sua prestimosa atenção não seja desviada. De repente percebo que, enquanto escrevo, o meu Baldé desapareceu do meu campo de visão mas uma certeza eu tenho: ele volta já que deixou aguns filtros encostados à parede sem os ter limpo com as acertivas batidelas no pé. E eu... bem eu fiz um intervalo para fotografar gaivotas a bicar o lodo porque acredito que quando o encantamento da paisagem abrandar ele estará de volta para concluir a tarefa que assumiu na perfeição...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Just live....

A dada altura, a minha consciência crítica disse-me: 
- "Viver a vida" é fazer coisas que nos tornam felizes e a felicidade transforma-nos em pessoas melhores. Por isso não desistas de um sonho se acreditas que ao realizá-lo vais ser feliz.
E ao regressar dei comigo a pensar que, por vezes e em boa verdade, as consciências críticas são de uma sabedoria extrema...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

Kuma di curpo... curpo sta bem

Ontem foi o dia em que conversei calmamente com um amigo que partiu porque teve de se ausentar deste mundo por ter sido chamado para outras...