terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Coração apaziguado ou... a arte de fazer as pazes com o coração

Ao fim de muitos anos o meu coração apaziguou-se, talvez tenha feito as pazes com a Terra... Em boa verdade, não foi com a Terra porque nunca esteve zangado com ela. Nem com a Terra nem com as gentes e por isso senti sempre vontade de regressar. Apaziguou-se com ele próprio, e depois comigo, tranquilizou os ímpetos, amainou as vontades mais escondidas por trás de uma aparente felicidade. Durante anos não fora um coração feliz; foi ansioso por qualquer coisa que procurou infinitamente sem encontrar e que julgava que ali poderia estar. Foram buscas sem fim, encontros de equívocos que resultaram em (des)enganos incompletos, tristes, sem sentido.
Por fim, depois de tanto tempo, olhar para o presente sem regressar inevitavelmente ao passado era uma vitória pessoal. A certeza da vontade era que nada mais do que foi deveria regressar. Cada experiência era isso mesmo: uma vivência única e irrepetível, e o que lá vai já foi. Não queria que o passado fosse apagado. Cada minuto antes vivido faz parte de mim e conduziu-me ao que hoje sou. Mas a vontade de reviver o que se esgotou há muito desvaneceu-se, desapareceu envolta em névoa. De repente tive a sensação de que todos os encontros e momentos vividos, felizes ou não, merecem apenas ser lembrados como se de um conto se tratasse. Ao revisitar alguns locais apeteceu-me apenas rever essas lembranças começando o descritivo da memória com a frase: "Há muito muito tempo passei uma longa temporada aqui...".

Agora, mais do que nunca, sinto o coração apaziguado, tranquilo, descontraído e o que me dá essa certeza é que posso vir e partir para de novo regressar sem correr o risco de viajar aos pedaços. A cada vez que retornar e voltar a sair faço-o inteira sem deixar parte do meu coração por ali perdido...

São Tomé, 10/09/2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 2

Passava das 5h da manhã quando embarcámos; descolámos depois das 5h30. Ao entrar o avião pareceu-me ter acabado de entrar num engarrafamento em hora de ponta. O voo devia estar praticamente cheio e a desorganização dos passageiros era enorme: pessoas em pé, com resistência em se sentar, malas, sacos, pacotes que saíam para fora do porta-bagagem. A hora era tardia, o cansaço começava a fazer-se sentir e eu não me sinto confortável com ajuntamentos. Por milésimos de segundo a vontade que tive foi desatar a correr dali para fora. Contrariando os meus ímpetos furiosos limitei-me a respirar fundo na expectativa de encontrar um espacinho livre de gente onde me pudesse esticar por umas horas de olhos fechados. Alegrei-me ao vislumbrar três filas centrais abandonadas por todos os que tinham entrado antes de mim. Ninguém parecia querer aqueles lugares e num rasgo de sorte a hospedeira que por ali circulava sorriu perante o meu ar ansioso ao perguntar se podia ocupar uma das filas. Passei a viagem esticada nos três bancos com os correspondentes cobertores por cima do corpo e as três almofadas a embalarem o meu imaginário, envolvendo o descanso merecido. Eu dormi, tinha mesmo de ser assim, perdi o pequeno-almoço, antecipado para as seis e qualquer coisa em resultado dos atrasos, e o almoço que, pela mesma ordem de razões, também passou para as 10h da manhã. A esta hora, semi-acordada, a procurar recuperar o estado de consciência mas sem imaginar a forma como o estômago receberia os alimentos cozinhados oferecidos no catering do avião, procurei perceber como é que os outros assumiam a viagem. Foi terrível, quase catastrófico para o meu estômago, ver alguns - muitos - beber vinho tinto às 10h10 sem terem nada no bucho e como se não houvesse amanhã, repetindo sempre que possível. Foi igualmente estranho ver quase todos comerem ravioli com queijo e cogumelos tão cedo. Fui incapaz de tal façanha e fiquei-me por um sumo de maçã e pão com manteiga.
Enquanto estabelecia conjecturas acerca dos hábitos alimentares dos viajantes de aviões com atraso, percebi que o tempo até passou depressa dentro do grande pássaro de asas longas. Sobrevoávamos a ilha de São Tomé e em breve aterraríamos no Aeroporto Internacional. Antes disso entregaram-nos uns questionários de avaliação do serviço e do voo. A tripulação não teve certamente culpa mas há coisas fantásticas nestas avaliações, das quais também sou normalmente adepta. Pedem-nos para avaliarmos o sistema de audio e video mas o avião não dispunha dessas funcionalidades... nem uma TV com filmes ou documentários, nem música clássica, africana, pop ou pimba. Foi um voo sem animação, pelo que não havia como avaliar. Também não havia campo para comentários, reclamações ou sugestões e por isso quem o quis fazer teve obrigatoriamente de rabiscar o formulário sem garantia de alguém ler estas anotações. 




À nossa chegada, o céu estava nublado, escuro, cinzento, pesado, intercalado com uns tímidos raios de sol fazendo emergir uma luminosidade que indiciava calor húmido. Fez-me lembrar outras chegadas, outras experiências, outras vivências... 
Nova fila nos aguardava na pista do aeroporto, desta feita para a monitorização do ébola. Parecia uma cena de filme. Técnicos e enfermeiros artilhados de máscara e luvas mas suficientemente descobertos na pele para poderem ser contaminados no caso de contacto com doentes infectados. A tez era séria porque o assunto requeria cuidados e atenção. Iam apontando um termómetro electrónico ao olho direito de cada passageiro que entregava uma ficha devidamente preenchida com dados sobre a origem e os contactos anteriores. Para não variar, seguiu-se a fila novamente formada para o controle dos vistos de entrada e, por fim, num edifício interiormente remodelado, chegámos à sala de recolha de bagagens. Ao fim de tantos anos - 15, 16? - a confusão persiste. O que melhorou foi o ar condicionado, a iluminação e o aspecto mais clean. De resto, tudo continua invariavelmente na mesma. Para nós, a desorganização que se vive na sala multiplicou-se à conta dos caixotes e dos rolos, sem carrinhos disponíveis e enorme dificuldade em chegar à frente. Aguarda-se a colocação da bagagem fora do formato, o que significa esperar de novo pelo fim... O maior problema surge, conforme esperado, no controle das bagagens. Desta vez, as malas nem sequer foram abertas mas os caixotes recolheram atenção e como o conteúdo eram manuais escolares em grande quantidade para entregar nas escolas, foi entendido que teriam de ter uma guia de exportação. Como fazer para que os técnicos da Alfândega entendessem que se tratava de uma acção de cooperação? Não havia nada a fazer, não entenderam e confiscaram, supostamente para verificação, caixotes e rolos de cartazes, no caso referentes ao tema da biodiversidade. Complicações africanas... resta-nos a resignação... até porque se segue um dia marcado por um atraso de horas...

05/09/2014

A caminho de São Tomé... ou talvez não... parte 1

Uma vez mais, a aventura começou. A caminho de São Tomé mas sem ter sequer saído do aeroporto. A chegada foi antes das 22h e a fila para o check in era de tal forma grande que dava várias voltas apertadas; o balcão nem se via. Tantas e tantas vezes fiz esta viagem e ainda não tinha tido esta dupla experiência: a de viajar pela STP Airways; e a de ter uma longuíssima noite de espera. Há atrasos e atrasos e este bateu o record de todas as possibilidades. Na fila a espera para chegar à frente e despachar as malas durou mais de 2 horas e a noite parecia ser ainda uma criança porque o que estava para vir nem se tinha anunciado. O aeroporto estava quente, abafado, cheio de gente que circulava para a frente e para trás sem destino ou objectivo, falando ora com um ora com outro, na maioria eram conversas de ocasião com um sorriso aberto espelhado na face. As nossas caras espelhavam apenas surpresa e perplexidade. Procurámos estar a horas para nos reunirmos e tratarmos de despachar a bagagem pessoal e as caixas com o material para a formação e a distribuição. De facto não contámos com aquele cenário e nem sequer pensámos ser possível. Esperar era a palavra de ordem e não valia a pena o desassossego que nos invadia o corpo, a alma e o coração. Em pé passámos as duas longas horas até chegarmos ao balcão, depois disso foram muitas mais. A sensação que ficou da espera foi asfixiante e atrofiante, piorando ao escutar o aviso feito pela hospedeira: a partir daquele momento ainda deveríamos contar com um atraso de mais de cinco horas. Resignei-me com enorme desconforto. Nada podia fazer... Saímos dali e montámos arraiais junto ao guiché 101 da Alfândega. Nós, os caixotes, as malas pequenas que nos acompanhavam para a cabina e os rolos com os cartazes temáticos. Enquanto um colega tentava resolver as questões burocráticas com a papelada eu e a outra colega adoptámos os tapetes de dois guichés fechados para descansar as pernas e assentar ideias.
A espera estava por ali para me fazer companhia durante aquela noite em que o descanso parecia ter-se ausentado sabe-se lá para onde. Dei comigo a pensar que com a TAP nunca passei semelhante tormenta e que apesar das queixas que se podem fazer à companhia, para mim continua a ser uma referência. Não fora o ébola e a alteração na rota da TAP com escalas no Gana tanto na ida como no regresso e tudo seria como dantes...
Subimos em busca do suposto snack que nos seria entregue no piso da restauração mas como sempre todos os serviços estavam entretanto encerrados. Contentei-me com um pacote de batatas fritas, um pacote de maltesers e uma água que comprei na máquina enquanto os meus dois colegas descansavam os olhos dormitando tranquilamente numa cadeira desconfortável da sala de embarque...

05/09/2014

em paz...

"Não são apenas os loucos que procuram as cavernas e os lugares tranquilos, mas também aqueles que por terem a alma em paz acabam por desprezar os assuntos dos homens.
Quando o espírito, oprimido pelas inquietações exteriores, aspira ao repouso do corpo, evade-se para os lugares tranquilos; e aí, desperto logo cedo, faz em si mesmo o percurso do país da verdade (...)"

Hipócrates in "Do Riso e da Loucura"

sábado, 27 de dezembro de 2014

Noite de Consoada

Consoada familiar e tranquila. Regresso a casa com a habitual passagem pelas ruas da Baixa para ver as iluminações e escolher a mais bonita rua de Lisboa. Um ritual que me acompanha desde que me lembro de ser gente. As ruas estão aparentemente desertas e as iluminações tentam dar cor e vida à cidade que parece deserta. Só parece porque os "sem abrigo" continuam por ali. Ao sair da casa que foi da avó e hoje é da tia onde sempre se passou a noite de 24, o coração aperta ao ver que as carrinhas da Comunidade Vida e Paz também circulam por ali, estando uma parada na Praça da Figueira e outra no Rossio. E isto tem dois significados: um desolador e outro espantoso. O primeiro diz-me que, de facto, a cidade continua a ter pessoas que vivem na rua - cada vez mais - e que não são apenas adictos ou desestruturados. São pessoas que perderam muito, quase tudo. Quase porque continuam com vontade de viver mesmo sem ter a possibilidade de apreciar o brilho das luzes, as cores ou o movimento das ruas. Pessoas que um dia foram como eu e que hoje não têm Natal, que tudo o que desejam é ter um sítio quentinho para dormir e que por isso se deitam em cima das grelhas de respiração do Metro. E ali estão uns quantos deitados no cartão que colocaram na grelha e outros que se aproximam de quem lhes pode dar o conforto de uma palavra, um copo de leite quente ou uma sandes. Aperta o coração. O significado espantoso é que, para que a carrinha circule e possa confortar na mínima proporção os que não têm qualquer conforto, há equipas de 4 a 5 pessoas que deixam de ter consoada, saem do conforto das casas da família e afastam-se das lareiras para passarem uma noite de reencontros gratificantes com quem nada tem, nada espera e agradece tudo. Acabámos por parar na Praça da Figueira e entregámos o que horas antes planeámos em excesso: um bolo rei, uma caixa de broas e outra de sonhos de leite. Não foi uma acção extraordinária de abnegação porque nada do que demos nos fazia falta e representou apenas numa migalha do que poderíamos ter feito naquela noite. Mas ajudou-me a perceber que gostava de regressar às equipas de distribuição de alimentos e conforto das quais fiz parte há tantos anos... 91...? 92...? Pensar que tantas e tantas vezes temos em excesso e que poderíamos partilhar... Pensar que com um sorriso e uma palavra podemos melhorar a noite desassossegada de quem dorme na rua... Dá vontade de regressar àquelas equipas... 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Isto é tudo uma grande aldrabice!!!

Dia 9 de Junho, data inesquecível. Há dias em que me apetece dizer: isto é tudo um GRANDE aldrabice! E hoje é o dia...!!!! E mais inesquecível quando a aldrabice se faz mesmo na nossa cara, às claras e sem que possamos fazer alguma coisa para a transformar em algo sério. Pois não pude... foi mesmo ali à minha frente e estando eu plenamente consciente de que estava a ser enganada e que a aldrabice estava legitimada por quem a fez... that's the way it is... that's life in Portugal... Oh cegada....

sábado, 26 de abril de 2014

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe", Entrevista a Abílio Bragança Neto, STPtv

"Potencial Turístico de São Tomé e Príncipe". Entrevista a Abílio Bragança Neto no canal STPtv, disponível em http://www.youtube.com/user/Canalstptv. Uma conversa cordial numa tarde bem passada sobre temas que me são muito queridos: o turismo; o ambiente; a educação ambiental; as pessoas; o desenvolvimento  E ainda o Manual de Educação Ambiental em preparação MARAPA e ASPEA, um projecto financiado pelo GEF sob coordenação do PAPAFPA
Visualizar em Entrevista à STPtv

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O sorriso que revela a vontade de eclipsar

Quanto mais o tempo passa maior força ganham as memórias. O sol, sobretudo na hora do nascer e do ocaso; as cores, a densidade do verde, a imensidão do azul, o contraste das tonalidades que reforçam a dimensão das paisagens; os cheiros, a intensidade do odor da terra húmida mesclada com o da fruta madura e o das flores a desabrochar. E as pessoas, sempre próximas, sorridentes, simples, receptivas, disponíveis, sem exigências ou cobranças, tão perto da imagem da felicidade livre e desapegada. Sempre sonhei com este cenário composto por diferentes elementos que se conjugam numa harmonia equilibrada a tocar a perfeição.

Nas alturas mais desgastantes e sempre que sinto necessidade de me eclipsar e me tornar invisível - o que, reconheço, acontece de vez em quando, nem que seja por um milésimo de segundo - revisito os momentos que ficaram registados no back up da minha memória virtual e recupero a sucessão dos episódios mais felizes, ou dos que não sendo completamente felizes se revelaram divertidos e me fazem sorrir. E, sem ter consciência da figura que faço nestas ocasiões, com alguma frequência sou despertada por uma interpelação surpreendida, habitualmente em tom de desagrado, que me obriga a perceber que afinal não me tornei invisível... Alguém que naquela altura está perto de mim, observa a minha estratégia de fuga e simplesmente não compreende o meu comportamento e demonstra-o como se isso alterasse o que sinto e o que mais me apetece fazer. Percebo que durante a fracção de segundos em que me refugiei nas lembranças recuperadas pelas fotografias virtuais da minha memória, mantive no rosto uma expressão difícil de explicar, muito mais difícil quando o sorriso espelhado passa a breves e esporádicos risos, mesmo não chegando à gargalhada. Além deste sorriso projectado para o vazio da realidade presente e que quase todos qualificam como "estranho" e "vago"... o olhar distancia-se como se o meu inconsciente quisesse viajar e a velocidade da luz fosse o melhor meio de transporte. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

O bem-estar é essencial nas viagens e na vida...

Apesar de que, em cada viagem às ilhas, conseguia reconhecer as sensações que sentia e a paz que a envolvia após o regresso, depois de respirar bem fundo de olhos fechados para melhor reter aquele ar denso, pesado, aromatizado pelos mais diversos odores, cada estadia resumia-se numa experiência diferente de todas as anteriores. Em cada viagem criavam-se situações únicas e irrepetíveis vividas com intensidade. Talvez por isso fosse sempre tão bom regressar. Cada um dos minutos ali passados representava a esperança de viver momentos felizes sem que contudo houvesse a expectativa de recuperar ou reviver os anteriores. Os contextos eram diferentes e, em grande medida, as pessoas que marcavam cada estadia também, pelo que nada era susceptível de repetição. Apesar de tudo, a consciência da impossibilidade de reviver in loco o passado era reconfortante e muito tranquilizadora. E assim ia acontecendo, os momentos felizes sucediam-se, revestindo formas diferenciadas, sem se repetirem. Aquele era definitivamente o seu lugar, onde se sentia confortável e acreditava pertencer ou imaginava que poderia ali teria pertencido um dia. E, efectivamente, pertencera. Tudo lhe era familiar, tudo a fazia sentir bem, e o bem-estar é essencial tanto nas viagens como na vida...

Na viagem de regresso a Lisboa, 04/04/2014

domingo, 20 de abril de 2014

Ilhas que inebriam

São Tomé e o Príncipe são ilhas perigosas por terem mistério. São terras encantadas que cegam e inebriam, desenhadas pelo contraste das cores, adocicadas pela intensidade dos cheiros e moldadas pelos afectos, pelas emoções e sensações que as vivências nos permitem experienciar, recriar e reinventar. Tudo se vive intensamente por aqui e, apesar do leve-leve que paira no ar e que todos parecem respirar e transpirar, o que vai dentro de cada um só o próprio pode dizer. Toda a situação vivida se transforma rápida e abruptamente num turbilhão acelerado e descompassado desembocando em caminhos tão diversos que podem traduzir estradas direitas, trilhos em espiral ou picadas repletas de obstáculos. É a vida de quem visita as ilhas... Chegando aqui, os mais contidos transformam-se, os introvertidos e tímidos extravasam emoções e os mais extrovertidos ganham mais e mais vida. Todos - ou quase todos - passam a viver com outro ritmo mais enquadrado, mais sentido, mais simples. Mais dia menos dia, o leve-leve acaba por se  instalar e invade-nos mobilizando-nos e dando lugar à descontração e à alegria. Tudo o que não é essencial passa a ser automaticamente relativizado e desvalorizado. O essencial ganha terreno e o centro do nosso olhar são as pessoas, os espaços, a natureza. Invariavelmente sentimos-nos mais introspectivos e contemplativos. Os dias assumem o ritmo dos encontros e os horários são orientados pelo tempo de vida que ganhámos a conversar, a rir, a conviver, a experienciar, a ser...

São Tomé, 2 de Abril de 2014

Conversas cruzadas... ligadas???

Caminhar na rua e ouvir conversas alheias é uma actividade que distrai. Bem sei que pouco, ou mesmo nada, tenho a ver com a vida dos outros mas, em boa verdade, se os visados quisessem manter segredo não falavam de forma a que as outras pessoas, como é o meu caso, ouvissem. Enquanto caminhava apressada pela rua por estar atrasada para uma reunião acabei por pensar no quanto é estranho o mundo social dos afectos. Por mais que se confie em alguém para um desabafo há sempre forma de outros saberem os meandros da vida. Todos acabam por comentar os desassossegos de uns e de outros com um tom crítico como se estivessem imunes a situações semelhantes. Nunca se está verdadeiramente resguardado - pensei - a não ser que nos fechemos numa concha e não partilhemos com ninguém o que sentimos em determinado momento. Mas o mais engraçado é que, por vezes, é possível ligar conversas e cruzá-las. No meu caminho encontrei um primeiro grupo sentado numa esplanada que conversava sobre a vida de um qualquer rapaz ausente da mesa:
- Ele era mesmo muito inseguro na relação, desconfiava de tudo e muitas vezes sem motivo - dizia um dos três com ar entendido.
Continuei a descer a rua e chegando ao Marquês de Pombal passei por uma paragem de autocarro onde estavam duas raparigas também em íntima conversa:
- Não estás bem a ver as cenas que ele me fazia. Ciumento até mais não. Despachei-o.
Dei comigo a pensar: mas será coincidência temática ou o grupo sentado na esplanada e estas duas raparigas da paragem de autocarro falam da mesma pessoa? Jamais conseguirei descortinar o fundo das duas histórias e muito menos se têm ligação mas depois de ter escutado não pude deixar de as relacionar. As inseguranças fazem parte da vida afectiva e só não as sentem quem não se sente verdadeiramente ligado.


sábado, 19 de abril de 2014

Protegida...



Há muito que não sentia a segurança de dormir debaixo de uma rede mosquiteira como se estivesse protegida de tudo e de mais alguma coisa. Ali, rodeada pela rede branca bem esticada, reina o bem-estar, uma tranquilidade infinita, a paz procurada há muito. Sem esforço o sono chega para acalmar o cansaço e as emoções do dia.

São Tomé, 29/03/2014

A alegria do regresso

Uma e outra vez, a chegada às ilhas é marcada por infinitas expectativas e descompasso no coração. Aqui há calor. Não apenas térmico, afinal estamos na latitude zero e o Equador faz-se notar, mas sobretudo o calor humano das pessoas simples, quentes, de sorrisos afáveis e disponíveis, de olhares directos e francos. Pessoas que me fazem sentir bem, como se estivesse em casa, pelo envolvimento de proximidade com o que me parece ser a essência da vida. Foi sempre esta a sensação e hoje percebo que, apesar de a sentir no mais íntimo de mim mesma, nem sempre a consegui traduzir por palavras de forma clara.
A viagem foi dura, difícil, com prolongadas e cansativas esperas. Pensando bem as últimas viagens têm mesmo sido assim como se houvesse alguma coisa que me estivesse a pôr à prova e uma voz sussurrasse baixinho ao meu ouvido - "vamos a ver até onde resistes". Eu, que sou torcida, vou resistindo porque sei que vale a pena. Passadas as turbulências, as filas e os momentos em que fomos deixados em modo de pausa sem descanso, a chegada à cidade foi semelhante a tantas outras: a tranquilidade interior regressou e desceu sobre mim transmitindo-me paz. Nâo sei exactamente o que é que os meus companheiros de viagem sentiram ao chegar, não aprofundámos o tema. Mas para mim, a sensação repete-se. Uma enorme vontade de fechar os olhos e calmamente respirar fundo para me ir apercebendo de todas as sensações: a humidade e o calor; os cheiros; o movimento da cidade que, depois de despertar, ganha forma; as cores; os sons... E, de repente, é como se tivesse feito um "shut down" do modo anterior, passando a uma fase muito mais sensorial que vai permanecer junto de mim por mais uns dias, tantos quantos os da estadia com desconto de mais ou menos um mês após o regresso. Nas ilhas tudo parece mais fácil, tudo, ou quase, se articula com ligeireza.
O primeiro dia vai passando e é bom rever caras conhecidas, olhares surpresos com sorrisos abertos acompanhados de abraços sentidos. A alegria do reencontro manifesta-se na expressão facial, no olhar e nos movimentos corporais. Aqui as pessoas riem na totalidade. É bom perceber que se lembram de nós e que se sentem felizes por nos rever, passe o tempo que passar...

Após a chegada a São Tomé, final do 1º dia. 28 Março 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O que dizem os teus olhos...

Há pouca coisa tão fascinante quanto olhar nos olhos de alguém. Para lá da cor, que pode ser mais ou menos bonita, do formato e do brilho, todos os olhos têm expressão: falam; riem; choram. Os olhos transmitem sensações, emoções, sentimentos e dizem-nos o que vai na alma de alguém, são pouco enganadores, basta querermos compreender o que significa a expressão de cada olhar. Há olhares tristes, perdidos, sentidos, ressentidos. Olhares magoados, afogados, desesperados. Olhares cansados, conformados. Olhares zangados, amuados, destroçados. Olhares ternos, delicados, quentes, envolventes, insistentes. Olhares confiáveis, calorosos, acolhedores. Olhares tranquilos, felizes, apaziguados, esperançados. Olhos que riem e que choram, que gritam e lamuriam. Olhos que pedem e suplicam. Olhos profundos, atentos, confiantes e que inspiram. Olhos ausentes, distraídos, desconfiados, duvidosos. Todos os olhos transmitem vida porque estão carregados de emoção. Todos os olhos reflectem o que se sente através da expressão do olhar. 

São Tomé e Príncipe, antes do regresso. Abril 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nada se repete. Tudo se revive...

Desde a primeira viagem até hoje posso até enumerar o que mudou nas ilhas. E não foi pouco... Lembro-me, como se fosse hoje, de estar sentada no Passante a escrever, tal como em tantos outros momentos. Dessa vez, e na falta de um caderno ou de um bloco - ainda não tinha assumido conscientemente a necessidade de escrevinhar sobre quase tudo - registava num guardanapo de papel as minhas primeiras impressões. Rapidamente adquiri o gosto de observar e anotar como se precisasse de registar para jamais esquecer. No rádio atrás de mim soava uma música ritmada e de batida intensa, de letra envolvente, quente, até explícita no significado. Já não a consigo identificar mas recordo a sensualidade dos sons e das palavras que apelavam aos sentidos. Num primeiro final de tarde a sonoridade enquadrada pela tranquilidade do mar à minha frente fez-me pensar que aquela ilha poderia vir a ser um local especial para mim. Não me enganei... passou a ser o meu lugar, o meu refúgio, o meu espaço onde me sinto verdadeiramente eu. Como sempre faço comecei a observar as pessoas que iam aparecendo e que, em média, ficavam por períodos de meias horas. Nos dias seguintes fui vendo as mesmas caras regressar uma e outra vez em diferentes alturas do dia e sempre que também por lá permanecia. Coincidência - pensei eu - de novo os mesmos. Mas na vida não há coincidências. Aquelas caras que fui reconhecendo transformaram-se em pessoas que marcaram as minhas primeiras viagens ao arquipélago mas que, de uma forma geral, o destino acabou por afastar. Foram pessoas importantes, que hoje recordo com um sorriso, porque cada uma à sua maneira me ajudou a viver momentos felizes. Cada uma contribuiu para a pessoa que hoje sou. A algumas perdi o rasto, de outras vou sabendo de quando em vez e de outras fiquei amiga para a vida. Hoje, ao regressar, depois de tantas voltas, e passando pelos mesmos locais, relembro os melhores momentos que por ali vivi, faço por embaciar os menos felizes porque entendo que na vida devemos guardar o melhor e, de novo, acomodo-me confortavelmente para escrever mais páginas sobre experiências e vivências em São Tomé e Príncipe onde nada se repete mas tudo se revive.


Depois de um almoço ligeiro no Passante, ao chegar ao Ilhéu. Abril 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

No Príncipe...

No Príncipe a vida muda e transforma-nos. A primeira imagem é a do deslumbramento. Tudo é denso e intenso: a paisagem florestal; as praias de baías recortadas; a pequenez da cidade acolhendo-nos com um sorriso de boas vindas; os olhares curiosos das pessoas; e o reconforto  da disponibilidade. Mas também, e sobretudo, as experiência e as vivências que são apenas possíveis num lugar que está longe de tudo e de todos, rodeado por mar. Ali sentimos a noção do isolamento que nos protege do ritmo desenfreado e alucinante de todos os dias mas que nos coloca frente a frente com uma aventura de risco controlado. No Príncipe tudo é possível. Uma ilha tão magnificente quanto distante, tão pequena quanto inacessível, tão contrastante... obrigando-nos a olhar em volta, uma e outra vez, e ver o que está para lá das evidências mesmo antes de pensar. Ali é difícil avaliar porque os sentidos estão despertos para a vida e emocionam-se com tudo, por tudo. Viver em tempo útil não é compatível com estar "fechado para balanço". O Príncipe é um pequeno doce que será gourmet. É a fantasia dos sonhadores, a realização dos apaixonados, o deslumbramento dos sentidos, o encantamento da alma. Se São Tomé é a "ilha enfeitiçada" porque nos prende e não nos deixa partir completamente, o Príncipe é a "ilha encantada" que nos deslumbra, enternece e convida a regressar. Para mim, a combinação das duas resulta na união perfeita...

Na partida do Príncipe, Abril 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Há pessoas...

Há pessoas que transmitem bondade através do olhar, da expressão do rosto, do sorriso e de um gesto que, por mais insignificante que possa parecer, ganha valor pela simplicidade da demonstração tocando-nos o coração. Há pessoas apaixonadas pela vida, que a absorvem como se houvesse o risco de se esgotar a curto prazo. Há pessoas que transmitem consistência e segurança quando circulam pela nossa proximidade porque tudo o que fazem, seja o que for, transborda de solidez, certeza e determinação. Há pessoas que aparentam passar pela vida de forma ligeira por não se fixarem no que têm pela frente e que apenas transmitem fluidez. Há pessoas que olham para os outros de forma displicente e desvalorizada por os considerarem seres menores e insignificantes. Há pessoas que não sentem, não se emocionam e não vibram porque a vida pouco lhes diz. Há pessoas formatadas a um modelo e, por mais que se esforcem, o resultado não ultrapassa a mediocridade... Pessoas que servem de exemplo e que inspiram diferentes sentimentos. Pessoas que me inspiram... Pessoas...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

domingo, 13 de abril de 2014

Conversas tardias misturadas com sorrisos e muito riso


Conversas tardias em noite apaziguada. E ali estávamos, cinco dos muitos mais que já fomos. Os contextos da vida não permitiram reunir os restantes e as razões foram diversas. O tema que centrou mais a nossa atenção foi o de sempre, o preferido de todos os presentes: as viagens e pelo meio as aventuras, as experiências, as vivências e as lembranças. O riso dominou a noite, o que foi reconfortante quando o desassossego do regresso é tantas vezes marcado pelas reticências de um texto não escrito. E ali ficámos durante muitos e muitos minutos que se completaram em horas adocicadas por fotografias divertidas que relatavam momentos de ansiedade e, em alguns casos, de angústia mas que à distância se revelaram infinitamente divertidos. Bons momentos estes!

Viver é bom... eu gosto - parte 2

Viver é um desafio permanente e usufruir plenamente da vida implica sabedoria, coragem, determinação e alegria. Sabedoria para fazer as escolhas certas nos momentos em que decidir é crucial. Coragem para assumir riscos. Determinação para não vacilar perante os obstáculos. Alegria para relativizar as injustiças e as dificuldades com a capacidade de sorrir sempre. Viver é uma tarefa difícil e desafiante mas muito saborosa.

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sábado, 12 de abril de 2014

Escrevinhar...

Desde que, com alguma consciência, me lembro de mim mesma há um caderno e uma caneta que me acompanham para todo o lado. Um caderno que pode ter a forma de bloco, agenda ou folhas soltas e desordenadas - um espaço vazio que aguarda pelo traço por vezes irregular da minha mão, onde posso registar com total liberdade o que vejo, o que penso, o que sinto ou o que simplesmente me apetece dizer ao Mundo em determinado momento. Um espaço em branco que me serve de companhia e me permite voar para outros contextos, outros mundos e assumir outras personagens que tranquilamente misturam ficção com realidade. A caneta não é importante - desde que escreva pouco me importa a cor.
Escrevo muito. Há muito. E desenho rabiscos nos intervalos para me apaziguar. Muito do que escrevo não divulgo porque há uma esfera de intimidade privada que jamais é relatada por não ter qualquer interesse para quem lê e não viveu as situações, não partilhou os momentos, simplesmente não esteve lá. Muito do que escrevo em determinado momento, ao ser lido e relido soa a mensagem desconexa, logo não pode sair da folha rabiscada e tantas vezes reescrita.
São muitos os cadernos e bloquinhos que guardo religiosamente como se fossem um apêndice de mim mesma. E se calhar são porque, em parte, evidenciam o que me vai na alma, as ideias que surgem, as que fogem a correr e as que vão permanecendo. Por cá andam protegidos e resguardados dos olhares alheios que certamente não compreenderiam muito do que ficou registado. Só eu sei o significado de cada texto identificado com uma data e um local e de cada caderno que acumula palavras e desenhos. Mas nesta altura até eu fico perplexa: escrevo num bloco e num caderno em simultâneo, o que, tenho de admitir, traduz algum caos na organização da minha escrita...

São Tomé e Príncipe, Abril 2014

A retoma


E, pouco a pouco, a vida retoma a normalidade, ou o que é suposto ser. Não sei bem o que deve ser o padrão da normalidade e também não estou com pressa de o reencontrar. Há tempo, parece-me. E devagar, devagarinho, vou seguindo o meu caminho contra muitos olhares que não compreendem estes meus estados de alma, nem os meus gostos, nem as minhas vontades. Sempre que de lá regresso o desencontro de ideias e de vontades é o mesmo. Na verdade há quem nunca tenha entendido o porquê. E provavelmente há quem jamais aceitará. Eu sei...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cenários

Cenários, cenários e mais cenários... criam-se cenários por tudo e por nada. Tudo seria mais fácil, mais simples até, se cada um não criasse um cenário diferente. Um cenário não passa disso mesmo, uma representação que, em boa verdade, não retrata a realidade, apenas a recria. Por isso é um cenário!

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Deixa-me contar-te um segredo

E no meio da conversa acabou por me confidenciar:
- Deixa-me contar-te um segredo: aqui a vida passa por nós sem pedir licença. Resta-nos cumprimentá-la e, por vezes, agarrá-la com um abraço.
- O que sinto quando aqui chego é uma transformação interior que apenas se percebe pelo sorriso permanente - respondi - aqui sinto-me feliz, compensada e descansada. Tem sido sempre assim, dia após dia, semana após semana, mês após mês... ano após ano... apesar de, por vezes, continuar a ter sensação de que continuo ligada a experiências passadas - reforcei - é até estranho...
- Fixares-te em vivências que um dia tiveste é um erro, tanto aqui como noutro lugar. Tens de viver em função do que serás e não deteres-te no que foste - respondeu num tom sábio e um pouco paternalista.
- Mas não acreditas que o que somos é o reflexo do passado, das experiências, dos momentos felizes e também de tudo que nos derrotou. Eu acredito nisso... E daí talvez nem sempre seja fácil regressar onde se foi feliz. O espaço fica marcado por lembranças... como se quem connosco partilhou momentos nunca tivesse partido completamente - repliquei.
Ele calou-se e, fixando o olhar num ponto que eu não consegui identificar, respondeu-me de forma directa e simples:
- Já pensaste que a melhor forma de regressares a um qualquer local que te marcou sem te prenderes excessivamente nas imagens que criaste ou nos momentos que viveste, tenham sido felizes ou não, é seguires o olhar dos outros e tentares perceber o que pensam e o que sentem. A vida continua para além de nós mesmos e do que registámos em determinado momento. Tenta ver através dos olhos dos outros. Os teus vão certamente enganar-te porque te levarão de novo ao passado.

São Tomé e Príncipe, Março 2014

O Mistério das Ilhas


Para mim, as ilhas combinam mistério com encanto. Gosto de ilhas - já o disse vezes sem conta. Sinto-me confortável quando as visito e enquanto por lá permaneço, fazem-me bem porque me transmitem tranquilidade o que faz com que me sinta em paz comigo mesma e com os outros. Depois do regresso, e por uns tempos, continuo a sentir a leve sensação de estar a flutuar, o que é indescritível porque magnífico. Mas há ilhas e ilhas e estas, que permanecem no meu coração, têm feitiço. São ilhas encantadas que, pelo deslumbramento, mudaram a minha vida para sempre obrigando-me a regressar uma e outra vez. São tantas as vezes que regresso que sinto que nem sequer cheguei a partir. A partida nunca é definitiva nem se faz completamente. Há algo que fica, que permanece e não me deixa seguir viagem para tudo o que se segue. Há sempre uma parte de mim que resiste e ao partir fica uma inevitável incompletude. São ilhas que tocam, prendem, agarram, abraçam... São ilhas quentes e envolventes. São ilhas ternas, humanas... São terras de sonhos onde acreditamos que tudo - ou quase - é possível. São ilhas que me fazem feliz...

São Tomé e Príncipe, Março 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Descompasso


Uma e outra vez, o regresso é estranhamente marcado pelo descompasso, pelo desritmo e requer uma rápida descomplicação. Parece um paradoxo que a vida retome à velocidade da luz sem dar tempo para incorporar as mudanças. Acordo aos pulos e aos trambolhões como se tivesse um comboio atrás de mim a empurrar-me para a frente, obrigando-me a saltar para o lado, fugindo e evitando o atropelo. E o que aligeira a sensação é ainda usufruir do leve leve que teimo em tornar permanente com o retorno no pensamento...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

Abre os olhos porque alguém te pode estar a observar... ;-)

Observar os outros é uma actividade absolutamente inspiradora sobretudo quando o alvo do nosso olhar atento não se apercebe que, pelos motivos mais diversos, passou a ser do nosso interesse estimulando-nos a criatividade. Aos meus olhos quase não há limites para a observação e para a criatividade - e a excepção é a privacidade alheia.

Há tempos fui buscar alguém ao representante oficial de uma marca de automóveis e enquanto aguardava pela sua chegada deparei-me com um cenário magnífico para observação. Magnífico não por ser bonito mas, em boa verdade, por ser hilariante. O representante automóvel era alemão, supostamente marcado pelo rigor, exigência e trabalho árduo. Estacionei o carro pensando caminhar à beira-rio e tirar fotografias a gaivotas e patos marinhos que por ali abundam mas a maré estava vaza e o enquadramento ribeirinho não era famoso. Antes pelo contrário, até era desolador e mal cheirento porque o lodo emergiu com a falta de água e o único motivo interessante eram as gaivotas e andorinhas marinhas a bicar o lodo em busca de moluscos. Então centrei-me no cenário à minha frente: a zona da lavagem automóvel. Aparentemente não seria nada de mais mas avisto dois homens, um português e outro de leste, que limpam à vez o tablier de uma van. Ambos de luvas, conversam e riem muito mais do que limpam e, talvez por isso, tenham de entrar e sair da carrinha à vez. Há comportamentos absolutamente misteriosos e daí serem tão interessantes. Mas muito mais aliciante é um africano, certamente proveniente da Guiné-Bissau, não apenas pela fisionomia mas também por se chamar Baldé. O Baldé passou a ser meu por alguns momentos porque captou toda a minha atenção e é absolutamente fascinante. O homem só limpa filtros de ar condicionado e a forma como o faz é surpreendente. Passo a explicar: não há jacto de ar nem pano, apenas o filtro e um sapato, pelo que ele bate com as placas no longuíssimo pé calçado com uns ténis pretos. À medida que bate com a placa no pé olha à sua volta pelo canto do olho como se houvesse muito mais para observar mas não se apercebe sequer de que eu estou ali e a observá-lo. Depois estica-se e dá uns dez passos com uma das placas que havia encostado à parede. O ar que aparenta é um misto de cansaço com dedicação. Ele sabe o que faz e demonstra preocupação com a eficácia do resultado. Como é zeloso nem vale a pena atribuirem-lhe outras incumbências de forma a que a sua prestimosa atenção não seja desviada. De repente percebo que, enquanto escrevo, o meu Baldé desapareceu do meu campo de visão mas uma certeza eu tenho: ele volta já que deixou aguns filtros encostados à parede sem os ter limpo com as acertivas batidelas no pé. E eu... bem eu fiz um intervalo para fotografar gaivotas a bicar o lodo porque acredito que quando o encantamento da paisagem abrandar ele estará de volta para concluir a tarefa que assumiu na perfeição...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Just live....

A dada altura, a minha consciência crítica disse-me: 
- "Viver a vida" é fazer coisas que nos tornam felizes e a felicidade transforma-nos em pessoas melhores. Por isso não desistas de um sonho se acreditas que ao realizá-lo vais ser feliz.
E ao regressar dei comigo a pensar que, por vezes e em boa verdade, as consciências críticas são de uma sabedoria extrema...

No rescaldo de São Tomé e Príncipe, Abril 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Viver é bom, eu gosto... parte 1

Viver é bom, eu gosto. Mas apesar de gostar tenho de reconhecer que, de tempos a tempos - com muito maior frequência do que gostaria ou desejaria - a minha estrela da vida tem-me posto à prova. Ainda não percebi porquê, ou para quê. Acredito, ou tenho acreditado, que seja uma forma de crescer e me tornar numa pessoa melhor. Mas ainda não percebi bem se esta é a verdade, ou a principal razão, porque há tanta gente que passa por tanto e nem por isso aprende ou se torna melhor. Seja como for, ou tiver de ser, ainda acredito que cada tropeção me faz aprender qualquer coisa. Já dei os meus, é verdade. Diria até que alguns foram excessivos ou evitáveis e talvez por isso hoje seja como sou. Os anos têm passado de forma rápida, parece-me que nem sei por alguns passarem mas na verdade, ao olhar para trás, percebo que me fui modificando e cada ano tem resultado num processo de aprendizagem. Ou melhor, de tropeções com algumas queda. Mas tenho a consciência que me tenho conseguido levantar mesmo que, por vezes, esse exercício tenha requerido algum esforço.

A internacionalização de Lisboa. Paradiplomacia de uma cidade

Motivo de ORGULHO!!! Um projecto que deu um infinito prazer multiplicado por muito trabalho, stress qb e um verdadeiro espírito de colabora...