quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

D. Berta: até uma dia...

A D. Berta foi uma das primeiras pessoas que conheci na Guiné-Bissau e que fui revisitando sempre que regressei àquele país. Estávamos algures em Março de 1996, ou Abril, e eu andava por lá a fazer a pesquisa  para a dissertação de Mestrado. Nessa altura passei horas a falar com ela, aliás como toda a gente que passava por Bissau, ou que lá vivia, e a comer a gelados que ela me oferecia no meio dos meus receios de principiante em terras de África. As recomendações tinham sido mais do que muitas - cuidados a ter com o que comia e bebia, sendo impensável socorrer-me de gelo, gelados, sumos de fruta e tanto mais por causa das águas e de tudo o que se poderia seguir. Mas comi gelados deliciosos, magníficos, caseiros e muito confiáveis, já que não me aconteceu nada a não ser usufruir de bons momentos e regressar a Lisboa muito mais rica pelas experiências que por lá tive :-) No calor do final dos quentes anos 90 em Bissau, aqueles gelados tiveram o sabor da vida...
A D. Berta - avó Berta, como muitos lhe chamavam - era uma senhora encantadora, deliciosa, uma cabo-verdiana como tantas outras a viver em Bissau há muitos anos. A Pensão Central era o ponto de passagem e de encontro. Por lá almocei e jantei vezes sem conta, ouvi histórias que jamais se repetem ou relatam, vi pessoas que nunca imaginei sequer poder avistar, usufrui da companhia de amigos e conhecidos que por lá viviam, sentei-me na varanda a receber a brisa possível e a observar a vida que corria sem parar lá em baixo com sons, cores e movimento únicos. Ali bebi coca-cola debaixo de chapéus de sol encarnados e marcados com a marca da bebida, e senti-me reconfortada antes das viagens loucas para o sul e para o norte, ou depois delas.
A D. Berta deixou este Mundo e partiu para outras paragens com a certeza de que viveu intensamente e de forma sábia, alimentando amizades e tendo uma infinita receptividade para com todos os que com ela se cruzassem. Foi um bonito exemplo de vida e certamente que, onde quer que esteja nesta altura, está feliz por ter cumprido a sua missão. Ela ficou no coração de todos pela bondade, compreensão, amizade, tolerância. E tanto mais... E um dia, certamente, voltaremos a reencontrar-nos...


A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...