segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Na corda bamba

Tantas e tantas vezes sentiu-se baloiçar na corda bamba, como se não houvesse chão por baixo e a sabedoria estivesse no equilíbrio dos movimentos. Até aqui, teve sempre coragem e força para chegar ao fim da corda, a um qualquer porto seguro. Hoje já não sentia a mesma energia e vontade de vencer. Na verdade, tudo parecia tão pouco compensador que já não sabia se valeria a pena ir um pouco mais além, esforçar-se um pouco mais, só um bocadinho assim. Sentia-se esgotado, trôpego, sem forças, cambaleante, para além do desassossego lhe apoquentar os dias. Haveria certamente outros lugares melhores, mais tranquilos, mais estáveis, mais seguros, mais...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Visões entre Lisboa e Cascais...

Depois do carro ter avariado, sei lá eu o que é que tem, dei-lhe tréguas até ir para a oficina. Não me apetece gastar mais dinheiro com ele, nunca um carro com tão pouco tempo me deu tantos problemas. Azar, dirão alguns. Pois não sei. Em maré de azar é no que mais tenho andado. Ou isto dá uma volta ou não sei. Já não sei nem quero saber. E essa é a pior parte, não querer saber. Não me interessa, já nem me interessa.
São quase 20h30 e à minha frente, no comboio para Cascais, vai uma figura que tem a imagem de Jesus Cristo. Se andasse por estes lados, até poderia ser Ele. Tenho vindo focalizada nele, siderada ao ponto dele se ter também fixado em mim, o que não é uma situação confortável. Mas o pior é que não consigo desviar os olhos. É mesmo parecido com a imagem que tenho Dele. A questão é que ele me faz lembrar Jesus Cristo mas já eu não me pareço em nada com a Maria Madalena.
A esta hora, os meus companheiros de carruagem têm um ar triste, circunspecto, metido com eles próprios. Mais do que introvertidos parecem desiludidos. Porque será...?! Não olham para ninguém: uns seguem de olhos fechados como se o Mundo fosse de tal forma feio e desconfortável que mais vale não o ver; outros viajam com os olhos abertos mas sem nada ver, com o olhar fixado no vazio. Da minha parte, partilho o sentimento de desconforto mas sou incapaz de não os observar e escrevo no meu caderninho. Entretenho-me por tudo e por nada a observar um e a ouvir outro. Tudo serve para o meu espírito vaguear por outras vidas e a caneta corre pela folha desenfreadamente sem parar. Um dia escrevo um livro de histórias ou contos, ou quem sabe um romance... Com o que já vi e vivi bem que podia escrever uma colecção inteira...
O Jesus Cristo da minha carruagem parece o único a quem a vida corre sem sentir o prejuízo ou o desconforto de viajar a esta hora num comboio desconfortável cheio de grafittis como se fosse a parede de um barracão velho e devoluto. Chegou um amigo gordo, enorme, daqueles que só temos ideia de existirem nos filmes, com ar tão Heavy Metal quanto tranquilo. A festa foi imediata depois da pergunta - "Como estás?" - e da resposta - "Tá-se bem...". Conversaram toda a viagem, riram animados mas sem inquietarem os outros que permaneceram sem sequer darem conta de que, para eles, a vida parece correr sobre carris.
E agora é a minha vez de me surpreender: o meu companheiro de viagem levantou-se e vai sair na mesma estação que eu. É meu conterrâneo, portanto, e eu nunca antes tinha dado conta de que ele existia por estes lados. É a minha vez de ir jantar...

E se a vida fosse só lazer...

A vida quotidiana devia ter mais momentos de lazer ou até quem sabe ser apenas lazer. Tudo seria mais fácil, simpático, escorreito, animado, recreativo... O problema seria um só: deixaríamos de valorizar os tempos e os espaços dedicados ao lazer para passarmos a entendê-los como a quotidianeidade. E aí...? Ah pois é, aí passaríamos a entender esses momentos como rotineiros, obrigatórios e comuns, em vez de serem definidos como excepcionais porque marcados pela diferenciação Passariam a ser tempos e espaços de diversão obrigatória, de aprendizagem lúdica e de festa contínua. E nada na vida é permanente, tudo é efémero, transitório, passageiro... até, e sobretudo, a parte animada da vida recriada e reconstruída. Tudo o mais se faz, se passa sem nos darmos conta. Uma enorme frustração...

domingo, 16 de setembro de 2012

Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento...

E depois de um sonho rápido mas intenso acordei. Não, não estava lá de novo e lamentei-me por isso. Mas enquanto dormitei passei pelas ilhas só para dizer - "Olá, continuo por aqui nem que seja em pensamento"... 
No sonho estávamos todos por lá. E quando digo todos, são todos mesmo. Todos os que fui conhecendo ao longo de mais de 15 anos de permanências e visitas às ilhas. A passagem foi um pouco confusa, tenho de admitir, porque estranhamente todas as pessoas se conheciam e interagiam sem problemas, até as que não é suposto virem a conhecer-se ou conseguir trocar duas palavras que seja. 
Não sei se sonhei com o paraíso mas fiquei muito mais bem disposta quando acordei... e, na verdade, gostei de rever tanta gente no curto espaço de tempo de 20 minutos...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Powerpoints do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", São Tomé, Agosto de 2012


Estão disponíveis para consulta e download os slides das apresentações em formato PDF referentes às comunicações do Seminário Internacional "Alterações Climáticas e suas repercussões sócio-ambientais", realizado em São Tomé no passado mês de Agosto.
Recomendamos a todos que, em caso de pretenderem utilizar alguma informação que agora disponibilizamos, deverão contactar os respectivos autores cujos emails estão identificados nas apresentações, procedendo à respectiva referenciação.

Poderão assim consultar as apresentações (formato PDF) do Seminário em:

Em breve disponibilizaremos os textos das Sessões de Abertura e de Encerramento e apenas mais tarde os textos das comunicações.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Conversa encantada

Há tempos, alguém me perguntava dando a entender profundo conhecimento sobre a causa dos afectos, apesar de se calhar perceber muito menos deles do que eu:
- Apaixonaste-te?
- Não, claro que não - respondi - não, acho que não, por quem? Nem tempo houve para isso...
- Mas encantaste-te...
- Sim, sabes que gosto de me deixar encantar. E sabes que facilmente me encanto com tudo, por tudo... não com todos nem por todos...
- E não tens medo de confundir o que sentes?
- Não, porque teria? São sentimentos claramente diferentes, apesar de igualmente inspiradores...
- E igualmente perigosos...?
- Não diria tal, desta vez não me parece que tenha corrido o risco de me confundir. E depois, tudo é tão claro, tão honesto, tão sincero. As pessoas que são encantadoras têm um não sei o quê de diferente e por isso é um encanto podermos partilhar tempos e espaços sem o medo, ou a ansiedade, de vermos o nosso eu mais profundo remexido... Até porque as pessoas verdadeiramente encantadoras procuram não nos desencantar.
- Será...?
- Sim, é um prazer estar com pessoas encantadoras porque elas nos transmitem a mesma sensação, que somos, para elas, pessoas igualmente encantadoras. Na sua companhia, o tempo voa, não se retém... 

A angústia do (re)início

É nas épocas de (re)início que compreendo os actores de teatro. Segundo eles, o início de uma peça é sempre angustiante, um pouco stressante até, como se fosse a primeira vez. Eu sinto precisamente isso... :-) Depois tudo flui e a normalidade parece regressar com o apaziguamento dos sentidos. Mas até lá, as horas que antecedem o retorno são pouco confortáveis...

sábado, 8 de setembro de 2012

A visão das emoções

Sim, era possível alguém encantar-se por outro alguém com rapidez ultra-sónica. Não sei se esses sentimentos seriam paixão, diria que não, que não passariam de um deslumbramento estimulado por uma solidão anterior acoplada por uns rasgos de atenção, nem sempre regulares e contínuos, e sobretudo alimentados pelo aliciamento do "descompromisso" que apenas os locais de passagem permitem a quem, mesmo que involuntária ou inconscientemente se deixa levar por eles. São Tomé e Príncipe tinha e continua a ter essa factor quase místico que permite às pessoas sentirem de forma diferente tudo o que é normal em vivências efémeras e tão fugazes que se ocorressem noutro contexto jamais seriam marcadas pela diferenciação. 
Hoje tenho esta visão mais do que clara como se fosse a evidência das evidências e é bom viajar para as ilhas com a plena consciência do efeito que provocam. É como se, ao olhar para os outros, conseguisse rever situações que eu própria vivi e  que não me dão a capacidades visionárias mas que talvez me permitam ser um pouco mais cautelosa. Nem todos realizam esta ideia apenas porque não se deram ao trabalho de observar e analisar o que se passa. E regressam sempre - uns mais cedo, outros mais tarde porque ainda por lá permanecem uma temporada - com a sensação de que aquela foi a experiência das suas vidas, que os sentimentos que julgam ter sentido são os mais sinceros e profundos e que conseguirão perpetuar o que não passou de um simples contacto. E não podem nascer sentimentos verdadeiros? Podem mas o que tenho visto, ao longo do tempo, não é a sinceridade emocional...  
É talvez esse o maior deslumbramento das ilhas: estimulam a capacidade de sonhar, acreditar e tentar realizar. E enquanto se sonha... vive-se...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A inversão do "déjà vu"

A sensação de "déjà vu" nem sempre é boa, muitas vezes dá a ideia de haver uma certa inversão na vida. Em São Tomé, a percepção de ter presenciado anteriormente algumas situações é muito reconfortante fazendo-me sentir segura e confortável, como se tivesse uma extra-capacidade para antever os resultados, quase com um sentido previsionista. Mas ao regressar percebo que a vida por cá permanece quase igual, o que não é assim lá muito reconfortante. Para além da crise, sobre a qual já não se aguenta mais ouvir falar porque a vida do comum dos mortais foi profundamente afectada sem evidentes benefícios efectivos ou materializáveis. As análises económicas continuam a ser devastadoras, terrificantes e apenas aceitáveis para quem vive em permanente delírio não tomando conta da realidade, nem querendo tomar... E ao regressar percebo que a sensação de "déjà vu" me acompanha ou persegue... mas no pior sentido do termo. Como se a nossa vida fosse realmente cíclica e eu estivesse a viver de novo situações anteriormente conhecidas pouco confortáveis e marcadas pela incerteza. Bem sei que devemos aceitar o que não depende de nós mas... a bem dizer da verdade... esta vida não é fácil e há que encontrar alternativas, reinventá-las, recriá-las... E isso também não é fácil... pelo menos por aqui...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Percepções

Praia Piscina
Aqueles são lugares de encontro, de reunião e de partilha. Tudo faz sentido quando se está por lá, ou parece fazer, apesar de sabermos que até os melhores momentos se esvaem por serem fugazes, fluídos, voláteis... Mas, enquanto se vivem é como se fossem eternos porque a intensidade que lhes atribuímos é muito compensadora.

domingo, 2 de setembro de 2012

Prolongamentos da existência

Praia das Conchas, São Tomé
Pensando bem, a tendência foi sempre de adocicar os momentos vividos, mesmo os menos doces. Até os que não foram vividos ficando suspensos em possibilidades inviáveis foram aligeirados pelos recantos da memória para que não fossem ensombrados por vontades incumpridas. As vivências passaram assim a ser prolongadas por lembranças e olhares revisitados vezes sem conta, como se a cada regresso tudo se pudesse viver de novo. Não que quisesse recuperar na íntegra o passado - alguns momentos poderiam mesmo ter sido evitados - mas a minha memória tem essa insondável capacidade de seleccionar apenas o melhor. Hoje, mais do que nunca, os sorrisos aparecem ao recuperar momentos perdidos no tempo e nas vidas que entretanto se fizeram presentes. Tudo muda porque a vida é transitória mas nós temos a capacidade de prolongar o que de melhor tivemos e assim vamos recuperando um pouco de outros eus que fazem parte do que somos hoje...

sábado, 1 de setembro de 2012

Gosto de ilhas

O que sempre me encantou nas ilhas, e em particular naquelas, foi a sensação de que ali a evasão não só é possível como se transforma em realidade. É possível ser diferente, criar situações, encarnar personagens, viver sonhos. Basta querer. As ilhas influenciam de tal forma a nossa interioridade que é fácil acreditar que a transitoriedade é a constância, que o efémero é perene, que a ilusão é a verdade. Se conseguirmos aceitar esta mistura que muitas vezes se molda numa indefinição difusa, então as ilhas são o melhor lugar para se visitar e até viver. Eu gosto de ilhas. Transmitem-me tudo isto e, ainda mais importante, paz!

No regresso

Sempre que regressava do que gostava de chamar o "paraíso na terra" ou o "local onde todos os sonhos são possíveis" sentia uma angústia, um vazio, uma ausência vá-se lá saber de quê, mas que parecia marcar os minutos, os dias, as semanas... No regresso tudo parecia inexoravelmente desconfortável, desconcertante, desinteressante...

Conversas antigas mas oportunas no presente...

Um dia, lá pelas ilhas, alguém que fazia parte das minhas relações de proximidade disse-me:
- Pense que aqui todos estamos de passagem. Num dia conhecemos uma pessoa e a sensação que temos é que sempre fez parte da nossa vida e por pouco que a conheçamos passamos a olhá-la como um dos nossos. Aqui rapidamente se ganha confiança e proximidade, as paixões são fáceis porque tudo parece fazer sentido. Tem cuidado com quem conheces, a quem te entregas... 
- Mas porquê? Não entendo, tudo parece simples, verdadeiro...
- Nem tudo o que parece é, a ilusão marca os nossos dias porque é apenas isso que queremos: a evasão; o deslumbramento; os encantamentos; as promessas. Tem cuidado com o que aqui desejas porque de tanto desejares acabas por realizar. Tudo, até o mais improvável, o que sempre julgaste impossível, por cá, pode acontecer. E depois de acontecer deixas de desejar. O desejo é perigoso e deves sempre tentar antever se te vais dar bem ou mal com essa realização.
- Mas isso é um risco não calculado...
- Então estuda bem as pessoas antes de as desejares, avalia-as, percebe-as...

E... a partir desta conversa, que foi bem mais prolongada e personalizada, passei a andar com um bloco e uma caneta...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...