domingo, 17 de abril de 2011

Uma questão de cidadania, ou de falta dela...

Passear na rua um cão à trela é uma tarefa que, nos dias que correm, se tem tornado num suplício. O meu cão é grande, pesa mais de 35 Kg, está bem alimentado, tem força e um infinito instinto de defesa, apesar de ser fácil de cativar, bastando duas palavras e uma festa para que ele se contorça de felicidade, demonstrando afeição. No reino dos humanos, faz amigos com facilidade, sendo mais duvidoso o relacionamento na classe dos canídeos. Gosta de qualquer cadela, desde que seja grande, não necessariamente do mesmo tamanho que ele tem mas de grande porte, e de cães que gostem de brincar sem exteriorizar animosidade, ou seja sem mostrar os dentes, eriçar o pelo ou rosnar. Diria até que o meu cão tem um certo génio, mas é, no geral, simpático e bom rapaz gostando muito de conviver. Não gosta de cães pequenos, independentemente do género e da raça, nem gere de forma tranquila os latidos estridentes característicos das raças de menor porte, sobretudo se estiverem soltos e lhe fizerem alguma investida em direcção à patas. Há quem não goste de festas no nariz, de beijos no cucuruto da cabeça ou de beliscadelas nos braços. O meu cão não gosta de investidas nas próprias patas e está no direito dele.

Moro num sítio quase ideal. Quase porque, além de um bom par de vizinhos intratáveis que arrastam as cadeiras em chão de pedra, a qualquer hora do dia ou da noite, sem se preocuparem com outros seres que até vivem ao lado, fazendo do esquema forma de vida mas considerando que tudo é possível até mesmo acumular lixo na garagem como se de carro se tratasse, têm duas semi-cadelas, tipo amostra mini de cão que, apesar de tudo, não investem no meu quando o vêem, o que traduz alguma consciência do risco. Mas são insuportáveis pelo som da voz atrás da porta quando nos sentem. Apesar da extrema parecença da voz entre a dona e as cadelas, que é fácil de controlar com um pequeno tambor que emite sons electrónicos e que herdei do meu sobrinho visto que ele já tem outros interesses. Parece um prédio de loucos, é verdade. Mas o suplício ultrapassa estes episódios que até parecem hilariantes. Por cá, qualquer um que se preze julga ter o direito, seja com semi-cães, seja com quase-leões, de andar com as simpatias soltas, o que permite um relacionamento algo tempestuoso com os que andam à trela. É sempre uma animação e não há dia em que, mesmo não procurando, não haja alguma situação menos amistosa, não só entre cães mas sobretudo entre donos.

Ontem foi um dia fantástico pelo qual há muito aguardava. Um casal que aqui não reside tem por hábito vir à praceta passear dois cães soltos, grosso modo com o tamanho do meu. Ontem ela veio sozinha com um dos cães, preto, daqueles que são uma doçura que arreganha a beiça e mostra os dentes ao mesmo tempo que rosna com o rabo enrolado para cima. Daquelas imagens que qualquer pessoa deseja ter antes de dormir. Lá lhe disse, do outro lado do passeio que era melhor prender o cão, apesar de, enquanto eu via os dentes arreganhados na minha direcção a menos de um metro de distância, ela me dizia com ar bem alternativo que “o meu cão não faz mal, o meu é muito zen”. O cão é zen...?! E ela é tresloucada e não tem noção do perigo. Só pode! O melhor foi que na véspera, 6ª feira, enquanto eu estive em Évora, por cá ela deu show e eu fiquei com pena de não ter assistido. Pois ela não mora aqui, mas como teima em passear o cão, que é seguramente uma simpatia apesar da maioria não perceber quanto, cruzou-se com o carteiro que fazia a entrega diária e atirou-se literalmente a ele. Quando um bocado chateado e receoso da dentição do cão, o pobre homem a interpelou para que o prendesse, a louca respondeu-lhe: “não me acha fofinha? Eu sou tão doce, acha que um cão meu iria ser agressivo? Ele é como eu, doce...”. Portanto, neste caso, não percebendo qual o interesse que isso possa ter, depreendo que ela é fofa e doce e que o cão, apesar de mostrar os dentes raivosos e de rosnar, até é muito zen... E depois não me digam que não é preciso ter uma paciência infinita para tudo isto...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...