terça-feira, 6 de março de 2007

Surpresa

E depois, olhando de repente, percebeu que há horas que ele estava sentado na mesa à sua frente a olhar para ela, observando com curiosidade acrescida todos os seus gestos. Era uma cara desconhecida que certamente acabara de chegar porque se assim não fosse ele já teria dado pela sua presença. Aquela mulher com ares de menina tinha um olhar enigmático, um pouco distante, um pouco ausente, muito incisivo e profundamente perturbador. Há muito que uma mulher não o perturbava tanto e se havia mulheres por ali. Havia-as de todas as qualidades e feitios e não era difícil encontrar uma companhia feminina para um passeio, um almoço ou partilhar um bom momento. A prova era o pouco tempo em que estava sozinho. Também ele gostava de sentir a presença feminina mas sentia o cansaço dos olhares lânguidos e das palavras sempre doces como que a fazer promessas sucessivas. Mas aquela não estava ali para perder tempo e nem aparentava ter tempo para devaneios. Entrou, olhou a sala de relance e cumprimentou os presentes com um sorriso aberto. Sentou-se numa mesa sozinha, que não dava margem a partilhas ou intrusões, tirou um pequeno caderno de argolas que mais parecia um bloco de notas de viagem, ajeitou uma caneta na mão e começou a escrever, vá-se lá saber o quê. E assim esteve durante grande parte do almoço, saboreando os paladares calma e tranquilamente como se o tempo tivesse parado e a vida tivesse ficado suspensa na degustação daquele momento. Depois escrevia e as palavras passavam da caneta para o papel com determinação. Ele saiu da mesa onde almoçara, afastou-se da habitual e numerosa companhia feminina e sentou-se na mesa em frente daquela mulher de quem nada sabia e ficou a observá-la através dos seus olhos escuros sem que ela se apercebesse de que um dia despertara infinitos interesses num homem. Mas, de repente pousou a caneta, levantou a cabeça e, ao olhar para a frente enquanto respirava fundo, os olhares cruzaram-se e fixaram-se um no outro. Os dois sentiram uma estranha sensação. Apesar de se estarem a ver pela primeira vez, sentiam que se estavam a reencontrar depois de um longo afastamento e perceberam que o futuro acabara de chegar...

Inspirado e escrito em Bissau, Fevereiro de 2007

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...