segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Reflexões... "no meu sítio"

E, sem me dar conta, ali fui parar uma vez mais. Foi naquele dia porque tudo se proporcionou. Mas poderia ter sido em qualquer altura porque, de quando em vez, lá me calha um dia assim: soturno; enfarruscado; nublado.

O céu estava azul, o sol brilhava e fazia calor. Mas o espírito não acompanhava a tonalidade e a intensidade das cores. Depois de uma reunião, entre afazeres chatos e desgastantes, e antes de outra reunião, sobrou-me tempo. Não o suficiente para ir a casa, ver o mail ou simplesmente lanchar. Foi apenas um tempinho. Pensei em circular sem destino e, quando dei por mim, estava a dirigir-me para um sítio quase secreto, o local onde, em tempos, passei bons momentos, cheios de felicidade e de esperança, pincelados de ternura e marcados por cumplicidades, na companhia de Alguém que na época era o “Namorado Para A Vida” e que hoje é um “Amigo Para Sempre”. Aquele que ainda hoje me conhece como ninguém e com quem, sempre que há oportunidade, converso conto histórias e partilho confidências. E o mais fantástico é que é recíproco. Algo difícil de encontrar pela raridade do sentimento que ficou, apesar de tudo. Foi na fase “ante-África”...

E sempre que me sinto assim, e tenho possibilidade, regresso ao “meu sítio” quase secreto para contemplar o rio denso e tranquilo que me acalma, e a outra margem que, parecendo tão distante, está ali tão perto mesmo em frente dos meus olhos. Agora vê-se a ponte nova, que já não o é assim tanto, mas que continuará a ser por causa da outra. E os carros a passar rapidamente emitindo sons impossíveis de ignorar. E os pescadores que, apesar das infinitas placas onde se lê em letras garrafais “PROIBIDO PESCAR”, ali permanecem, tal como já faziam há 10... 12 anos (...?!). De um lado e do outro estão pelo menos, e sem exagero, 12 pescadores, marcando o espaço com as canas e os baldes como se aquele fosse território seu. Nunca percebi se o peixe aqui apanhado vale o esforço porque, nestas bandas, a água parece pouco inspiradora: opaca; barrenta; escura; com pneus e artefactos afins. Mas eles não desistem e resistem. Talvez por este ser o pretexto para estarem ali e se sentirem em Paz. Tal como eu, apesar de não ter cana ou balde e nem saber pescar. Se eles marcam o espaço como território, também eu ali, com o carro no mesmo lugar dos tempos idos, o sinto como meu por reencontrar a tranquilidade e a paz de espírito. Reconheço cada centímetro das plataformas e passadeiras à beira-rio, onde os gestos se faziam ternos, as palavras meigas e doces e os olhares eternos, ao se fixarem no rio em contemplação silenciosa mas partilhada. O tempo parava e hoje relembro-o porque ficou suspenso entre o céu e o rio. No “meu sítio” fui feliz e, só por isso, sou uma mulher de sorte!!!

 

Reflexões escritas em final de tarde – 9 de Maio de 2006

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...