segunda-feira, 27 de março de 2006

Guiné Bissau: Terceira Parte

E o Norte esperava-me pelo que me pus a caminho. A estrada é maioritariamente de terra batida, "picada", estreita e acidentada, dando uma ideia muito próxima de se estar numa montanha russa.
A paisagem é bonita mas revela dureza, evidenciada pelo solo ressequido e pela vegetação intercalada, nem sempre densa. Diria mesmo muito pouco densa. As árvores com que me fui cruzando eram imensas, de tronco larguíssimo e comprido mas com pouca folhagem, encontrando-se muitos embondeiros, ali chamados de "cabaceiras", e muitos "poilão" (a ocá santomeense).
O que vi, e que mais me deslumbrou durante a viagem até ao Canchungo, foram os pássaros, que sobrevoavam o ar, mesmo à frente do carro. Nós quase chocávamos com eles que de forma espedita provocavam o condutor, pondo à prova a sua falta de paciência para com algumas coisas simples, respondendo ao esvoaçar com aceleradelas repentinas e sem razão de ser que, se não estivesse atenta, quase me projectavam para o vidro. Os pássaros eram de todas as cores e feitios. Simplesmente magníficos, deslumbrantes, elegantes, encantadores.
Gostei também de me cruzar com um grupo de macacos que atravessava de forma trapalhona a estrada precisamente no local e no momento em que eu passava. Um, o último do grupo, parou especado a olhar para o carro e eu tentei segui-lo até onde o meu campo de visão permitia. Foi uma coincidência engraçada e que interpretei como um bom sinal. Mas afinal não seria completamente...
As aldeias à beira da estrada iam-me parecendo pequenas, degradadas e muito espaçadas. A minha impressão inicial foi a de uma região particularmente desertificada, muito mais do que a imagem que eu retivera há dez anos atrás. Talvez por ter visitado outras regiões, não sei bem.
A viagem continuou, passando por Bula e Có, até chegarmos à entrada do Canchungo, cidade que eu esperava que fosse bonita, tanto pelas fotografias que já tinha visto, como pelas poucas palavras que o condutor pronunciara a respeito: "Canchungo é muito bonita. Cidade bonita do tempo dos portugueses". Mas para mim, o Canchungo revelou-se uma cidade castanha, cor de terra, árida e de cheiros intensos mas não perfumados, onde as pessoas me fixavam. Afinal eu era mesmo a única branca por ali e se a curiosidade fazia com que olhassem com atenção, registando a minha fisionomia, o meu aspecto por certo não terá sido do agrado da maioria já que os olhares eram sérios e as minhas tentativas de sorrir estiveram longe de ser correspondidas.
(continua)

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...