terça-feira, 15 de novembro de 2005

Declarações anónimas e outras mensagens

É fantástico como, de quando em vez, e de forma muito espaçada no tempo, recebo na minha caixa de correio uma imensa quantidade de mensagens apaixonadas e românticas, algumas até me poderiam levar ao delírio, se eu fosse uma moça sonhadora e desprovida de qualquer indício de racionalidade. Mas enfim... não é esse o caso! Primeiro dá-me vontade de rir, o que faço porque algumas mensagens são mesmo muito divertidas, mas depois começo a ficar um bocadinho irritada porque começo a perceber que a ideia destas pessoas, cheias de criatividade e tempo livre, é darem continuidade à brincadeira. Convenhamos que, para nos divertirmos todos com isto, uma mensagem já seria o suficiente mas há quem não pense assim e envie 4 a 5 por dia.

Como faz parte destas “animações”, as mensagens são anónimas, o que é sempre uma grande vantagem para quem não tem rigorosamente nada para fazer e decide chatear a cabeça a alguém entupindo as caixas de correio e dificultando a recepção e o envio de mails verdadeiramente importantes. Mas muito melhor do que só o texto, que poderia até ser tocante mas que soa a gozo, são quase sempre acompanhadas de música a condizer e de umas imagens que não lembram a um Santo, simplesmente porque já não se usam.

Isto aconteceu-me quando estava em São Tomé. Recebi para aí duas ou três mensagens “de grande sensibilidade”, mostrei-as aos amigos e rimos bastante procurando identificar a identidade do autor, havendo mesmo alguns “indivíduos suspeitos”. Ainda tentei responder para o endereço do remetente mas foi-me devolvido com a mensagem de se tratar de um e-mail inexistente, tipo fantasma, criado com um objectivo específico e eliminado de imediato.

Na altura, e antes de apagar a mensagem, acabei por mostrá-la ao principal “suspeito”, considerado por todos como tal por andar a “rondar a minha porta” tentando aproximações sucessivas que, ao que parecia, só eu não percebia. Enfim, com o tempo, acabei mesmo por perceber. Ao ver a mensagem, a expressão foi de surpresa e incredulidade perante a minha desconfiança. Não, ele nunca enviaria aquele mail. A coisa passou mas, ao fim de algum tempo, voltei a receber um ou outro mail da mesma natureza e, sem os abrir sequer, apaguei-os. E de novo a calma na minha caixa de correio passou a reinar.

Eis senão quando, e esperemos que por pura coincidência e engano da minha racionalidade, por vezes dada à criatividade relacional no que respeita ao que considero serem indícios possíveis e explicativos de alguns “fenómenos”, recomecei a receber mails de “conteúdo interessante”, até hoje no mesmo registo dos anteriores: anónimos, com música, imagens elucidativas e conteúdos a apelar ao romantismo. E hoje, reitero a ideia que espero que por pura coincidência. Só que, o último que recebi vinha assinado precisamente com o nome da pessoa de quem suspeitei há dois anos atrás... O engraçado é que hoje não acredito que tenha sido ele a enviar aquele mail com um poema do Pablo Neruda, assim como sei que não foi ele que enviou os mais recentes.

A principal constatação é que estes mails me são enviados com um carácter espaçado, ocorrendo temporariamente. Porquê? Não sei se quero saber e também não sei se me interessa identificar o(s)/a(s) autores(as) ou se é preferível continuar a pensar que se trata de uma simples coincidência.

A conclusão a que a minha racionalidade permite mesmo chegar é que há gente que não tem nada para fazer e, nestas circunstâncias, poderia dedicar-se a alguma causa útil para a Humanidade. Porque não pensam em se dedicar ao voluntariado e a ocupar o tempo com actividades de verdadeira beneficência? Mesmo as pessoas mais desocupadas têm capacidades para se dedicar a alguma actividade compensadora, deixando de ter a sensação, por certo desagradável, de serem inúteis, fúteis e desvirtuadas!

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...