segunda-feira, 31 de outubro de 2005

A saga da inspecção

O meu carro é velhinho mas tem-se portado tão bem comigo que lhe tenho uma fidelidade quase incondicional. Digo quase porque em parte se deve à impossibilidade de ser de outra forma. Mas agora o meu “bogas”, como lhe chamo com carinho e afeição, está renovado e afinadíssimo e só de pensar, que um dia acabarei por ter de me render às evidências e trocá-lo (ou comprar outro), angustia-me. Tudo isto por causa da bendita inspecção que é, para mim, um bicho de 7 cabeças e um drama existencial com o qual me confronto de ano a ano, sempre em Outubro.

Na semana passada lá comecei eu a organizar os meus dias tendo em conta que teria de levar o “bogas” ao “doutor” para que depois pudesse fazer o exame e passar nas duríssimas provas. E assim foi, na 6ª feira, bem cedo e pela manhã lá fui à oficina fazer a revisão dos 180.000 ao “bogas” e confrontei-me, uma vez mais, com aquelas pequenas complicações que para mim se revelam de grandes dimensões e consequências: pastilhas e discos de travões; correia da distribuição; não sei o quê o alternador – será também uma corrente...?!; fole da transmissão; óleo e filtros, de óleo e ar; outras nóias que tais, que para uma mulher prática se podem tornar num quebra cabeças.

Bom, o resultado de não ter “nada de especial”, conforme o mecânico, muito jovem e muito simpático, me transmitiu, fazendo-me olhar para tudo o que era peça como se eu pudesse compreender o funcionamento pelo menos de uma delas..., bem... o resultado foi 472 euros e uns cêntimos. Coisa pouca já que não tinha nada de especial e estava bom de motor... Fui ainda esclarecida que precisava de lhe mudar os “cascos”, comprando “sapatos” novos porque os que tinha já estavam muito desgastados. Claro que esta já eu esperava, não só porque há muito que não comprava novos como também por o sentir mais rebelde na estrada.

Saí da Precision e lá fui até à garagem Rio de Janeiro na infinita esperança de poder remediar o problema de uma forma qualquer, sabe-se lá qual, mas eles até podiam ter alguma ideia interessante. E gastar mais uma dinheirada em pneus não vinha nada a calhar. Depois de olharem para os pneus com um ar entendido perante quem não pesca nada, o diagnóstico foi o mais animador possível – se fosse fazer a inspecção com aqueles pneus, não havia possibilidade de passar, nem em 5%. Fiquei muito feliz... e lá me conformei a comprar 4 pneus, o que resultou em mais 190 euros.

Sexta feira foi um dia para esquecer, daqueles que felizmente só temos um de quando em vez, em que as minhas dores de cabeça aumentaram de tal forma que tinha a desagradável sensação dos olhos estarem prestes a saltar... Fui dormir e no sábado de manhã levantei-me bem cedo e fui ao centro de inspecções, pensando que num quarto de hora me despachava... pois é, mas enganei-me! Saí de lá eram 11h45 porque tinha 40 carros, contados um a um, à frente do “bogas”. Foi uma manhã magnífica!!! Bem, ele passou no exame – e não podia ser de outra forma, depois do dinheiro que gastei com ele na renovação – mas vim de lá doente, com dores de cabeça e de garganta e com uma sensação quase de alucinação provocada por produtos tóxicos.

Os centros de inspecção são terríveis focos poluentes, tóxicos e de envenenamento. Para quem é alérgico, deviam ser proibidos e os que lá trabalham deveriam ter condições especiais e regalias extra. A culpa não é dos centros mas de todos os que levam à inspecção carros que não pegam e que quando se decidem a pegar deixam uma nuvem de fumo preto, e de cheiro nauseabundo, num perímetro de 10 metros, revelando falta de respeito e de cidadania. E eu que o diga que aqui estou resumida, e sem vontade, ao pc e a um apetecível sofá da sala, sem poder sair de casa e pronta para ouvir a minha irmã mais velha a ralhar, logo que chegue aqui e olhe para mim, por eu não me ter vacinado. Oh... xê!

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...