domingo, 16 de outubro de 2005

As flores da Celeste

Celeste tem um jardim que tem vindo a cuidar desde que se lembra de existir, plantando as flores de que mais gosta e algumas árvores, limpando as ervas daninhas que só perturbam o crescimento das outras, as folhas velhas e varrendo os lixos que vão ficando no solo. Ali vivem pássaros, numa coexistência pacífica com as plantas, que esvoaçam e cantam alegrando as suas manhãs e o final do dia.

Celeste aprendeu a gostar do seu jardim e a cuidá-lo com o pai, a quem chamava carinhosamente de Girassol, por ser o símbolo da dignidade e do respeito, flor grande, colorida, alegre e luminosa que era para ela uma referência, pelo que abundava no jardim, inspirando-lhe os melhores dos sentimentos e estados de alma.

Cada planta tinha, para ela, um significado e tratava-as como amigas para a vida, confiando-lhes os seus maiores segredos, desejos e anseios mas também as suspeitas, as angústias e os receios. Era na sua companhia que ria com gosto, reflectia e chorava, nos momentos em que a desilusão superava o sonho e se sentia perdida, sem rumo e sem amparo, procurando abrigar-se debaixo de uma Acácia, desde que branca ou rosada, para dela receber a constância, ou quando em sonhos o seu “príncipe” surgia, procurava inspiração junto da acácia amarela, não revelando pormenores do seu amor secreto.

Houve tempos em que a sua dedicação ao Narciso ultrapassou os limites, flor vaidosa e egoísta que se amava a si própria não se preocupando sequer em reconhecer o amor que ela lhe tinha porque nem dele dava conta, tal era a sua altivez e importância. Magoada e triste, Celeste retirou o Narciso do jardim e colocou um conjunto de outras flores para que não sentisse falta do aspecto superior do ingrato Narciso: os Amores Perfeitos, pelas recordações; a Begónia, pela cordialidade; a Margarida, pela inocência; a Violeta, pela lealdade; a Orquídea, pela perfeição; o Miosótis, pelo amor sincero. Noutro canto do jardim, plantou Camélias de cores diferentes: vermelha, pelo reconhecimento; branca, pela beleza perfeita; rosada, pela grandeza de alma; e Dálias, pela delicadeza. Não podia deixar de plantar rosas, com muitos espinhos e que lhe davam muito trabalho a tratar, ameaçando a todo o momento picá-la se a atenção não fosse a devida: a branca, para o silêncio; a rosa, pela amizade; a vermelha apaixonada; e amarela para os momentos de suspeita, quando a traição imperava.

À volta do jardim, Celeste colocou bambu, por representar a força e a protecção que ela tanto precisava para que o seu jardim fosse o mais bonito da rua e as suas plantas as mais felizes. Porque se elas estivessem felizes, Celeste também estaria...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...