domingo, 22 de maio de 2005

Nada do que foi volta - VI

- “Responde-me uma pergunta Abel. Já sentiste alguma vez que, quando se quer muito uma coisa, por se querer tanto e durante demasiado tempo, de repente chegamos à conclusão que a deixámos de querer?”

Abel ficou calado com a perplexidade de quem não entendeu a questão que Vera lhe colocara. Por vezes, ela parecia ter uma complexidade interior tão grande que se tornava incompreensível. Mas afinal, o que queria ela? Vera era mesmo uma complicadinha, nunca percebia o que era mais do que óbvio. E sem dizer nada pensava:

- “Durante uma infinidade de tempo gostou de mim e sofreu porque eu não lhe dava toda a atenção que ela achava que merecia. Conhecemo-nos numa altura em que eu queria aproveitar o tempo de liberdade, sem prisões e sem obrigações. Ninguém me pode condenar por isso. Eu estava ali, naquela África onde tudo é permitido a um estrangeiro, para viver e me divertir. Mulheres não me faltaram e ela não podia ser a única. Eu não lhe podia dar isso e ela sabia-o desde o início. Eu gostava dela e de estar com ela mas não de forma permanente. Não podia ser e eu não estava disponível para isso. Mas agora que a minha vida mudou, o que se passa com ela para não querer? Há realmente mulheres estranhas, enquanto estão em África desfazem-se em paixões e afectos, só querem amor e carinho, mas quando de lá saem passam-se, mudam, ficam frias e distanciadas, parece até que enregelam...”

Vera apaixonara-se por Abel, depois de muitas insistências, dele se fazer presente e de a apoiar em tudo o que ela precisava. Tornou-se o braço direito daquela mulher que não passava despercebida no raio dos poucos quilómetros quadrados onde, por motivos diferentes, tinham escolhido viver. Apoiava-a discretamente, era o seu escudeiro, o seu polícia e o seu bombeiro. Estava ali para o que desse e viesse. Não havia dúvidas que, durante os meses em que a conquista decorreu, aquela Vera era uma terra desconhecida, falada como sendo inóspita, pelo feitio reactivo em relação a brincadeiras que algumas pessoas tinham e que não lhe agradavam, mas para ele tornara-se uma delícia muito apetitosa, uma descoberta diária que se ia revelando cada vez mais interessante, uma companheira. Além do mais, para Abel este era um trunfo que não queria perder. Dos amigos, nenhum acreditava que ele a conquistasse, mas ele confiava nas suas capacidades porque conseguia tudo o que queria.

Abel só não contou que, durante o tempo em que estiveram juntos, mas também quando a vida os afastou, e ele aproveitou para se ir orientando, Vera foi sabendo de tudo o que se passava à volta dele e sofria à distância. Aquela África era sua, era assim que a via, e as mentiras de Abel, as suas intrusões, os devaneios e desassossegos em que passou a viver, desiludiram-na. Em momento algum, ela quis acreditar que Abel era tão linear no que aos afectos respeitava porque queria sentir-se diferente aos olhos dele. Se o desamor de Abel a desgostou, o tempo ajudou-a a conhecê-lo e a perceber que a frase, que alguém lhe repetia sucessivamente “Tu mereces melhor!”, era a única verdade que existia naquela relação.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...