terça-feira, 17 de maio de 2005

Nada do que foi volta II

Talvez algumas coisas tivessem mesmo de ficar assim, sem retorno e sem regresso. Talvez fosse mesmo a lei da vida, ou como é que se chama às partidas pregadas pelo destino e feitas em desencontros. Por fim, naquele dia percebera que quando os sentimentos são unilineares perdem qualquer sentido e resultam em doença. E as doenças, a maioria pelo menos, cura-se. Não, Vera não se queria sentir doente de amor, essa é uma maleita que já não se usa. Amou-o, ama-o ainda e sente que talvez o venha sempre a amar, porque este é um sentimento que não se procura mas que, quanto se sente, não se confunde. Abel era o homem da vida de Vera, se é que isso existe. Podia nunca mais voltar a tê-lo, a sentir-se envolvida pelo abraço forte e pelos beijos ternos, pelo olhar carinhoso e pelos ralhetes preocupados, pelo cheiro intenso e reconfortante.
Mas uma coisa é certa, esta é a lembrança mais terna e mais saborosa que Vera tem dos homens. Abel é uma recordação que sabe a fruta de verão, carnuda e colorida, doce e sumarenta, refrescante e deliciosa num dia de calor. Talvez ele nem nela pense, mas os primeiros pensamentos de Vera são para ele e, muitas vezes, antes de adormecer, é o seu terno olhar que ela vê.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...