quinta-feira, 12 de maio de 2005

Mudanças

Ao contrário da maioria, Z. gostava de ilhas. Transmitiam-lhe paz e tranquilidade, talvez por darem aos continentais como ele a sensação de que, sendo a vida tão contingencial e efémera, devia ser bem aproveitada. Todas as horas, os minutos, os segundos. Não valia a pena lutar contra o tempo, até porque ali era vivido de forma bem diferente. Nem brigar com as pessoas, afinal numa ilha todos eram necessários e importantes. Também nas ilhas havia um sentido de protecção mais evidente, pelo natural limite do espaço e do mar, infinito e inconstante, tudo rodear. As ilhas fascinavam-no e seduziam-no e era nelas que ele se deixava envolver, lenta e ternamente pelo mundo dos afectos. “Um dia”, pensou, “hei-de mudar-me para uma onde sinta que é a minha casa. Mas tem de ter calor, e muitas árvores e flores, e praias, e fruta abundante, e locais para passear, conhecendo pouco a pouco o desconhecido, e gente bonita, simpática e sorridente”. E foi assim que partiu para África, em busca do que não encontrara antes. E foi em São Tomé que se encontrou, que a viu e a conheceu. Foi ali que se envolveu e se perdeu de amores. E a partir daquela época nada mais ficou igual. Nem ele, nem ela.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...