terça-feira, 19 de abril de 2005

O mistério do futuro

Num dia de desespero Alice decidiu-se a ir consultar pessoa conhecedora das artes de prever o futuro. A vida corria-lhe mal e ela queria, a todo o custo, alterar o ciclo negativo em que vivia. Nem ela própria sabia se acreditava no estranho mundo das adivinhas, mas uma coisa era certa: não perdia nada. Ia com espírito aberto, pensando que tudo o que poderia ouvir naquela tarde solarenga não podia ser pior do que o sufoco de desesperança em que vivia nos últimos anos. E lá foi.
Ao chegar foi recebida por um olhar perscrutador do outro lado que foi substituído por um sorriso que tentou demonstrar acolhimento. Sentiu-se de imediato avaliada mas pensou “nestes milésimos de segundos, ninguém pode ler os meus pensamentos, o meu passado e o que virá a seguir”. Foi conduzida para uma sala que lhe pareceu pequena, desprovida de móveis, com excepção de uma mesa e duas cadeiras. A mesa estava coberta por um pano verde e no topo tinha um baralho de cartas de tarot e um outro “normal de jogar”, umas folhas lisas, uma caneta, uma vela apagada que nunca foi acesa, e uma taça com água e umas plantas que lhe pareceram nenúfares.
A sessão começou com uma reza de olhos fechados, numa tentativa da “mestre” receber as energias de Alice, que se sentia com um misto de apreensão e de vontade de rir, sabe-se lá se pelo nervosismo ou pela estranheza do ambiente. Decorreram longos minutos de silêncio, em que as cartas foram distribuídas com cuidado e misturadas com saber, viradas e analisadas. A consulta começou com uma leitura geral para os tempos mais próximos. Alice encontrava-se a viver um ciclo que só se alteraria após 4 anos, pelo que não valia a pena contrariar a lógica dos acontecimentos. Afinal o karma sempre existia... Daqui foram às particularidades e aos diferentes sectores da vida – o trabalho, o dinheiro, os amores, a saúde.
Foi vista uma viagem de trabalho para terras distantes e muitas mudanças no trabalho que resultariam em sucesso e em dinheiro, mas não de forma imediata, nada de grave na saúde e novo amor, pessoa que não conhecia à data da consulta, que surgiria sem que ela o quisesse ou desejasse. Mas mais uma vez, este homem desconhecido, um pouco mais velho mas não muito, seria kármico, pelo que não valeria a pena negá-lo. E no que respeita a este assunto, Alice sorriu com cepticismo.
Depois, e a pedido de Alice, regressaram ao passado e a “mestre” acertou nos pormenores, o que lhe causou desconforto. E assim se despediram, com muitos conselhos e recomendações. Afinal, Alice era intuitiva e concentrava as energias em si, as boas mas também as mais negativas que a conduziriam a estados menos felizes de quando em vez. Desceu o elevador a rir sozinha e a pensar “E se eu me dedicasse à adivinhação?”.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...