quarta-feira, 23 de março de 2005

Ainda me surpreendo

De vez em quando, e sobretudo quando estou mais cansada, ainda sou capaz de me surpreender com as atitudes e reacções de algumas pessoas. Só posso estar mais velha porque a minha paciência e tolerância para com as alterações repentinas de humores, de vontades e de agires está particularmente mais reduzida e apresenta mesmo fortes limitações. Não que eu queira entender tudo – já quis, é verdade, mas hoje sei que não o conseguiria, por isso espero apenas compreender o possível e aceitar com alguma tranquilidade o que me escapa aos sentidos. Mas continuo a ficar tremendamente estarrecida perante pessoas que, num momento de tristeza, ameaçam afogar-se ou ter uma outra atitude radical e, no quarto de hora seguinte, rejuvenescem e revitalizam com aquilo que não denominam indícios ou sinais mas sim certezas. É espantoso... mas muito pouco dignificante. E as minhas dúvidas, mais do que existenciais, têm apenas uma razão: onde fica o orgulho de algumas pessoas? Será que o têm? Ou acomodam-se a qualquer tipo de situação com medo, não de não serem amadas mas sim, de ficarem sozinhas? Não será mais a vergonha social de reconhecer ter sido trocada, abandonada e rejeitada? Pois é, neste caso estou confusa...
Ontem jantei com uma amiga, a tal que chorou, gritou e desesperou afirmando que a vida perdera o sentido, após o namorado, noivo, amante ou o que mais seja, lhe ter escrito um mail resolvendo a situação à distância de uns bons milhares de quilómetros. Pois é, ele voltou de uma África minha conhecida e pela qual nutro infinito afecto, traduzido em marcas de crescimento pessoal, evidenciadas por muitos bons momentos ali vividos e outros de uma dureza irrelatável. Ele voltou e conversaram, contou-lhe aquilo que ela nega ter conhecimento por nunca ter recebido tal mensagem, rejeitando a ideia, mesmo depois dele ter explicado o sucedido. Pior, ele reforçou o ponto final numa bela história de amor, que será eterno mas inviável, impossível por ela não o merecer. Afinal, ele é igual a todos os outros, ela não o merece e ele não quer continuar. Ela terá chorado lágrimas infinitas, mas que ontem estavam secas, o que foi motivo de satisfação para mim, que fui rindo, dizendo-lhe que já percebera – afinal ela estava a ver se me punha maluca...
Bem, até aqui nada de novo. Há milhentas histórias com estes contornos. O que me confundiu é a capacidade dela em se recusar a aceitar que nem sempre as histórias de amor têm um final cor de rosa de “foram felizes para sempre”, que os príncipes não fazem parte desta época e que não andam sequer de cavalo branco e de espada porque também não há dragões. No fundo, é a dependência por medo de ficar sozinha, porque o que ela sente por ele não é amor mas sim uma doença de tudo aceitar, esquecendo o orgulho, a determinação, a vontade própria que ele deveria valorizar antes de mais.
E olhando para eles com uma distância crescente dou comigo a pensar que tenho sorte de não ser assim, porque é muito importante sabermos estar sozinhos, desfrutarmos da nossa própria companhia, sabermos ocupar o tempo com actividades que nos dêem prazer e na companhia de pessoas que nos façam sentir bem, que gostem de nós e que sejam realmente importantes. É bom gostar, mas é fundamental que os sentimentos sejam recíprocos e retribuídos. E só assim saberemos amar e seremos amados. Porque o amor requer respeito, atenção, cuidado, admiração, ternura e tantas, tantas, tantas outras coisas. Se isto não existir, não vale a pena lutar por um sentimento que alguém não tem por nós. E ela deveria perceber isso, e aceitar...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...