quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

A personalidade e o Forte Velho

- Gosta de escrever? - perguntou-lhe aquele homem com ar sério, olhar fixo e expressão fria.
- Sim - respondeu ela com o entusiasmo habitual e o sorriso tímido sempre presente quando lhe era proposto um novo desafio.
E assim começou um diálogo de desencontros de objectivos e de entendimentos. Marta aceitou o convite do "homem com ar sério" para um novo trabalho, que iria exigir algum esforço dela mas, por ter esperança de ser bem sucedida, entendeu a proposta como uma oportunidade. Ele tinha por principal finalidade resolver as mágoas de um amigo, a quem ela não tinha dado 1 segundo de atenção afectiva, e nem sequer lhe passou pela cabeça que algum dia viesse a publicar qualquer trabalho dela, por mais qualidade que tivesse. Isto não passava de um jogo para que ela aprendesse a valorizar o que eles entendiam que realmente era importante.
A proposta era interessante - escrever um livro baseado em histórias de vida de africanos em Portugal, por categorias, o exilado, o político, o estudante, o empresário, e por aí fora. Ele ofereceu-lhe um livro, que ela mais tarde devolveu, que serviria de modelo e que a editora que ele representava havia publicado em França, histórias de vida de portugueses emigrados. Marta conhecia bem África e contactos de africanos em Portugal, que tinham vindo por 1 mês, 1 ano ou 1 vida, não lhe faltavam. Sentia-se à vontade e apesar de ser trabalhoso, era mais do que aliciante. Associado ao projecto-livro, estaria a criação de um centro de investigação que ele também pretendia dinamizar e, como ela tinha experiência suficiente nas funções mas estava à procura de emprego, seria ouro sobre azul.
Acertaram pormenores e no final da reunião, ele convidou-a para um café. Ela achou estranho mas não ousou duvidar do "homem com ar sério" que lhe tinha sido apresentado como o ex-assessor de um político importante, ex-jornalista de um semanário famoso e suposto historiador com curriculum na área editorial.
O café não poderia ter corrido pior. A ingenuidade de Marta não a fez acreditar na má fé do homem e ele deixou de imediato transparecer o que lhe ia na alma. Não a poderia ter tratado pior, com insinuações desgastantemente ordinárias, com abordagens fúteis e directas, com avanços que as pessoas menos instruídas não ousariam ter com qualquer mulher. Marta não acreditaria na conversa se não estivesse a ouvi-la e só pensava "tirem-me daqui...", mas não havia ninguém a quem o pudesse pedir naquela altura.
Finalmente foi para casa a pensar nas motivações daquele homem, que sem a conhecer, após a oferta de trabalho, a tinha tentado seduzir sem subtilezas, tratando-a mal. Por certo estava a confundi-la. Foi a situação de assédio mais directo que teve, em trinta e tal anos de vida. Inacreditável, inqualificável, inconcebível.
Ele deu-se mal porque ela não cedeu um milímetro e ganhou-lhe tamanha aversão que, no dia seguinte, lhe foi devolver o livro, sem o ver, deixando o envelope no porteiro do prédio onde a editora funcionava. Acabou por cortar de vez com qualquer tipo de contacto, mesmo o cordial com o amigo do "homem com ar sério", após ter compreendido a arquitectura montada.
E durante quase um ano não ouviu mais falar de tal peça. Mas hoje, a frase por ele utilizada "podemos ir ao Forte Velho", bar de fama duvidosa, ali para os lados de S. João, repetiu-se uma vez mais na cabeça dela, sobretudo porque na sequência vieram outras menos agradáveis e mais directas à mensagem que ele procurou transmitir, a comparação entre Marta e uma moça com modos de vida nocturnos.
Mas ela não gostou da comparação, o que só a valorizou perante tamanha perversão. Afinal, por quem a tomava ele, quando nem a conhecia? A verdade é que o amigo do "homem com ar sério" tinha tido um interesse por Marta, que nunca o valorizou, apaixonando-se por um outro. Ele nunca lhe perdoou a falta de interesse e fez tudo por se vingar com esta e outras brincadeiras de mau gosto, prejudicando-a e fazendo-a sentir-se mal.
Marta nunca mais quis ouvir falar deles, até ao dia em que nas notícias ouviu que o "homem com ar sério" era um dos elegíveis de uma lista que se candidatava às eleições. "Vai virar figura pública e vou ter de o ver algumas vezes a entrar pela minha casa dentro" pensou com ar entediado. "Falta ver se será figura pública no país ou de um outro reino, o do Forte Velho".

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...