terça-feira, 30 de novembro de 2004

Janus, Anuário de Relações Exteriores

Recomendável ver o JANUS, Anuário de Relações Exteriores on line

Explicações sobre os objectivos da conquista - recurso a analogias

Conversava com um amigo de sempre, num dos dias de angústia emocional e cepticismo afectivo-relacional, um dos poucos homens sobre os quais posso dizer que na sua presença me sinto assexuada, já que não nos despertamos o mínimo interesse sexual, nem sequer emotivo. Confiamos totalmente um no outro, falamos acerca de tudo sem problemas de nos sentirmos avaliados ou de sermos criticados. Somos confidentes e conselheiros.
- Afinal diz-me, o que quer um homem que se esforça, de forma quase sobrehumana, para conquistar uma mulher, largando-a de seguida? Não a quer verdadeiramente ou desinteressou-se simplesmente? Ou...? - perguntei-lhe
- Há de tudo, minha linda. Um homem é um caçador nato. Pensa que desde sempre, e nos mais diversos contextos, o homem sente necessidade de capturar presas e, quanto mais dificeis mais apetecíveis...
- Uma presa? Dizes que um homem olha para mim como se fosse uma peça de caça? Só isso??? - indaguei incrédula, desiludida e profundamente desagradada com a analogia
-
Não te choques nem fiques triste. Se perceberes como os homens sentem, talvez seja tudo menos difícil. Tenta ouvir-me com calma. O objectivo de um homem quando vai à caça não é normalmente encher o frigorífico para se alimentar durante o ano. O gozo está na dificuldade em identificar a presa, no esforço e na luta, na estratégia e na perspicácia. Uma vez conseguida e capturada, o interesse esmorece e a preocupação é encontrar outra, definir nova estratégia, conseguir nova captura. O animal caçado serve-lhe sobretudo como troféu, para mostrar aos outros a beleza do exemplar, comprovando as suas capacidades de caçador e essas percebem-se pelo número de animais caçados. Já pensaste o trabalho que dá, depois da caçada, arranjar os animais e cozinhá-los?
- Mas isso é tão básico, primário, primitivo. E os sentimentos verdadeiros onde ficam?
- Olha, és tu que gostas de ir à pesca com amigos, não és? Pois bem, qual é o prazer da pesca? Não o teu, que nem cana tens, mas dos teus amigos que pescam?
- A possibilidade de estarem ao ar livre, junto ao mar, a contemplar, a conversar...
- Contemplar o mar, colocar a minhoca, lançar a cana e aguardar. O prazer está na expectativa que se cria durante a espera, até se saber se o peixe morde. Quando morde, queres saber se vem peixe ou algas, se for peixe, se é grande ou pequeno, bom para comer ou para devolver ao mar... Mas quando morde e o retiras, o interesse passou porque a tarefa foi concluída. Voltas a colocar nova minhoca, a lançar a cana e a aguardar. Para quê? Para pescares mais um, e outro e ainda outro.
-
Mas essa é uma imagem terrível. Sinto-me comparada a uma galinhola ou a um sargo. Na melhor das hipóteses a uma perdiz ou a um linguado, mas na maioria das vezes a uma tainha, pequena e sem graça, que foi atrás do isco e ficou presa no anzol...
- É isso mesmo, vês como percebeste? É preciso aprenderes que podes ser tu a ludibriar o pescador ou o caçador. Passas à frente deles sem seres apanhada ou ficares presa no anzol porque sabes distinguir.
- Mas isso não é amor, não há sentimento nem afecto, nem paixão...
- Pois não. Na conquista não há sentimento, só emoção. Os afectos podem surgir depois, desde que haja vontade, dedicação e esforço mútuo com entrega. Mas não te confundas, quando um homem sentir amor por ti, tu vais perceber que, com ele, não é mais uma conquista e que tu não és, para ele, mais um troféu de caça ou de pesca porque representas mais do que um simples exemplar.

Incompreensão

Desde que me lembro de existir como mulher que a psicologia masculina me confunde. Até hoje ainda não consegui entender alguns comportamentos no que respeita ao interesse que eles nutrem pelas mulheres. Fixam-se, interessam-se, embasbacam, derretem-se e, se se sentirem certos do sucesso da conquista, declaram-se com palavras únicas e promessas correspondentes. Podem ser deliciosamente encantadores, e no geral são-no sempre que querem e a isso se predispõem. Mas, logo em seguida, esmorecem, esfriam, enregelam, desinteressam-se e desaparecem como se nada fosse. E se aquelas que foram alvo de intensa dedicação reclamam a atenção a que foram habituadas, eles sacodem e fogem, demonstrando sentir-se fartos de tamanha e excessiva envolvência.
Serão eles inconstantes, inconsistentes, fúteis pela superficialidade relacional e afectiva, egoístas? E o que procuram afinal?

domingo, 28 de novembro de 2004

Palavras simples ao Homem que...

quiser conquistar o coração de uma mulher...
Considerações a propósito das imparáveis tentativas de um amigo em encontrar relação afectiva estável, sincera e satisfatória.

1. Não confundas as mulheres e as relações. Uma coisa é a sedução para uma noite ardente e inesquecível, vulgo "engate"; outra coisa é a conquista para algum tempo sem comprometimentos, vulgo "relação a prazo e com fim anunciado" ou "caso"; outra ainda é o enamoramento. Tens de saber distinguir as protagonistas das três situações sob pena de, confundindo-as, as ofenderes e azedares os humores, perdendo oportunidades.
2. O enamoramento requer tempo, preserverança e dedicação, pelo que, quando acontece, raramente resulta em equívoco ou relação-engano, ao contrário do que sucede com as outras situações.
3. Não corras atrás de 30 mulheres, nem tentes seduzir várias como garantia de maior sucesso, pensando que umas não saberão das outras. Não menosprezes os canais de informação femininos e muito menos a intuição. Se aquela em quem despertas interesse, e em relação à qual sentes desejo, souber ou desconfiar, perderá a confiança que depositou ou quis depositar em ti.
4. A perda de confiança de uma mulher num homem requer por parte deste o dobro do esforço na reconquista, o que não é compensatório. O tempo dispendido com desculpas e justificações pode ser utilizado afectivamente de forma mais produtiva e rentável.
5. Evita magoar os sentimentos da mulher por quem sentes afeição. Se isso acontecer e ela também tiver sentimentos em relação a ti, sentir-se-á confusa, terá dúvidas infinitas e o medo de se envolver contigo será maior do que o desejo que lhe despertas. Poder-te-á perdoar um dia mas terás de lhe provar que ela é a verdadeira, o que requer, no geral, grande complexidade. Não deixes dúvidas dos sentimentos que tens à mulher que amas.
6. Tenta ter um comportamento recto, transparente, sê verdadeiro e honesto.
7. Não forces, logo de início, o envolvimento sexual se tiveres interesse sincero numa mulher porque para ela é fundamental outros sentimentos tais como a amizade, a confiança, a cumplicidade, a intimidade. Só na sequência surge o desejo e o sexo.
8. Faz rir a mulher que desejas, cria empatia e fomenta um ambiente ligeiro, faz com que ela deseje a tua companhia e sinta a tua falta nas mais diversas situações.
9. Nunca dês a entender a uma mulher que na tua vida existem outras mulheres e que divides os sentimentos que tens por ela com outras. A mulher que quiseres e desejares deve sentir que para ti é a única.
10. Uma mulher não é um recurso na ausência de outras possibilidades melhores. Ela é a tua escolha e deve sentir-se como tal.

Homens e mulheres...

Gosto de discutir sentimentos com os homens porque normalmente aprendo sempre qualquer coisa. Não me considero sexista nem feminista. Longe disso! Mas é verdade que os homens têm com alguma frequência concepções particulares acerca do mundo dos afectos.
No outro dia, conversava com um ex-amigo/re-amigo/só amigo (?!) - passo a explicar: foi meu amigo em tempos, mais do que amigo, pretenso companheiro, mas deixou de o ser por ironia do destino e das suas próprias acções, pouco razoáveis e de grande complexidade. Mas desde há um tempo que andamos a ver se ficamos amigos de novo, não pretensos companheiros, só amigos. Mas nem sempre a amizade entre homens e mulheres é fácil e o entendimento dos afectos e das relações é bem diferente entre nós.
Bem, falávamos de afectos e de relações - para ele, um homem e uma mulher que são amigos representam uma realidade complexa que ultrapassa com facilidade essa fronteira, transformando-os em amantes. Para mim, a amizade entre homens e mulheres é não só possível como normal e muitíssimo vantajosa para ambos, desde que não haja outras implicações. Para ele, quase tudo se resume a sensualidade, sexualidade e proximidade táctil. Para mim, estas relações resultam da possibilidade de partilhar confidências.

E até pode ser bom

E até pode ser bom não estarmos apaixonados, não sentirmos a ansiedade que antecipa um encontro a dois, não nos angustiarmos com os atrasos que têm quase sempre justificações difíceis.
Pode ser bom não nos colocarmos sempre em segundo lugar com valorizações insensatas do objecto dos nossos mais profundos sentimentos que, quase sempre, são descabidas porque não correspondidas.
É seguramente bom termos tempo para gostar de nós, para nos olharmos ao espelho e sentirmos que o reflexo da nossa imagem é muito mais bonito do que algum dia imaginámos, que a nossa própria companhia é agradável e que não se está nada mal sózinho. Não para sempre, mas de vez em quando. É bom saborearmo-nos, ouvirmos a nossa consciência, deliciarmo-nos com uma receita que fizemos só para nós, gozarmos o silêncio, o espaço e o tempo. Porque acima de tudo, nós valemos a pena!

Para alegrar um dia chuvoso e triste



Posted by Hello

Chuva

Hoje chove e faz frio. Os Deuses estão tristes e choram muito, sem parar. As lágrimas são frias, geladas, indiciadoras de um desconforto sem fim. Apetece-me acender a lareira e ficar enroscada num sofá a ouvir a lenha a crepitar. Mas não me precavi e não comprei lenha... Resta-me ver a chuva cair e imaginar as razões de tamanha tristeza celestial. Valerá a pena tanta lágrima?

sábado, 27 de novembro de 2004

A Lua

Ainda me espanto comigo mesma. Eu, uma fiel admiradora do céu, de dia e de noite, do feitio das nuvens e das tonalidades do nascer e do pôr do sol, das estrelas e constelações, mas sobretudo da lua, nas diferentes fases, tomei consciência que não o observo como ele merece há muito muito tempo. E percebi isso ontem, na aula de hidroginástica, quando no final da aula a professora recomendou que não fossemos dormir sem contemplar a lua porque estava no seu auge, redonda, cheia, gorda e linda de morrer. À noite, quando levei o cão para o último passeio do dia, olhei para o céu e vi apenas a sua luminosidade porque a humidade era tão intensa que não permitia distinguir as suas formas. Em vez da lua como companheira para uma conversa introspectiva tive apenas um céu cheio de um iluminado nevoeiro.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Definição

Estavam a conversar, à medida que ela bebericava chá verde e ele bebia um whisky bem servido, num ambiente cordial e tranquilo. Tentavam falar seriamente acerca de afectos, apesar de ser um tema de abordagem difícil para os dois, pelo que a brincadeira acabava por surgir de forma espontânea para amenizar os desencontros verbais.
Há uns anos o destino fez com que se cruzassem algures nesse mundo, acabando os afectos por se revelar, através de aproximações sucessivas chegando ao envolvimento que ambos desejaram. Amaram-se de forma desigual e entregaram-se rápida e fugidiamente. As diferenças, os desencontros e o desentendimento surgiram, perpetuando-se por uma eternidade marcada pela mágoa e pela incompreensão.
Um dia cruzaram-se de novo e reaproximaram-se. Falavam horas, sempre que se encontravam, sobre tudo e sobre nada. Parecia haver intimidade entre os dois mas na verdade não se conheciam, nos desejos e aspirações, nos receios, nos estilos de vida, nos projectos...
E apesar dos momentos passados a dois, hoje eram simplesmente dois desconhecidos. Procuravam definir, um ao outro, as pessoas que mais os marcaram e com quem tinham partilhado a vida, pensando assim ficar-se a conhecer um pouco melhor. Ela falou pouco porque os homens da sua vida eram poucos e ele, com curiosidade de ouvir o que ela pensava a seu respeito, perguntou-lhe:
- E a mim, numa expressão, como me defines?
- Tu... tu és um sonhador...

Dias de sol

Os dias de sol são magníficos bálsamos para a alma e o coração, sobretudo depois de se ter feito exercício físico durante toda a manhã. O privilégio foi para a hidroginástica em detrimento dos alongamentos, afinal as duas aulas de ontem deixaram-me o corpo partido, e a ginástica dentro de água aquecida é absolutamente relaxante.
Estes dias criam em mim uma certa nostalgia africana, desta vez por razões absolutamente "inócuas" - as caminhadas pela floresta, as idas à praia para descansar e observar peixes e as "minhas" preferidas tartarugas... Bem, o site das Caminhadas e Descoberta em STP está a ser reactivado e em breve serão ali publicados artigos sobre ambiente, espécies e outras curiosidades...

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Pintura de Eduardo Malé



Posted by Hello

O melhor

O que será melhor:
1. contar o que fizemos, o que sentimos, como somos, o que queremos?
ou
2. ocultarmo-nos por detrás de uma auréola opaca mas luminosa que evidencia apenas o que de melhor temos?
Seguramente a primeira opção é a mais honesta mas a que mais problemas nos cria. A segunda a mais inócua mas a menos verdadeira. A dificuldade implícita à escolha estratégica persiste...

Afirmação

Porque serão as crises familiares momentos privilegiados de afirmação pessoal?

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

"Cores de um Sentimento"

Pintura de Eduardo Malé (pintor santomense), STP



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Supra Desilusão

É quando sinto que já não me podes fazer mal porque já o fizeste todo,
nada mais espero de ti porque a ansiedade diária passou.
É quando o cansaço é tão intenso que quem corta a conversa,
se despede e se ausenta, sou eu.
É quando olho para ti com a distância
que permite valorizar os teus defeitos e minimizar as tuas qualidades
e, olhando para mim mesma,
questiono-me o que terei eu andado a tomar para um dia te ter achado graça,
ficando de ti tão dependente.
É a consciência do não retorno, pela impossibilidade e pela falta de vontade,
apesar do sentimento que se guarda nos cantinhos de nós mesmos.
E é isso que sinto, a incapacidade de voltar atrás.
Porque não acredito mais no que dizes, no que fazes,
não sei se algum dia quiseste e nem sei porque é que eu própria quis.
E contudo, amo-te...

Desilusão

Uma, apenas mais uma. Que importância tem uma no meio de outras tantas? De todas as outras anteriores, maiores, mais profundas, mais importantes? Desta sairei bem, certamente, porque não me vou sequer deixar abater pela mágoa.

SE...

Durante o dia, a mesma ideia passava-lhe pela cabeça várias vezes:
"E se tivesse aceite os convites promissores que ele me fizera tantas e tantas vezes? Como seria? Onde estaria eu agora? E a fazer o quê? Seria eu mais feliz do que estou hoje? Teria ele tido coragem e vontade de mudar algumas coisas por mim? Poderia ele ter transformado a vida conturbada e cheia de mistérios que tem? Por mim? Só por mim?"
E as respostas vinham natural e sucessivamente, seguidas umas às outras:
"Não, não mudaria nada por ti. Não, não abdicaria dos esquemas e das redes relacionais que gosta de manter, porque fazem parte dele. Não, não te faria feliz, porque não pode e não quer. Não, não tem coragem nem vontade. Não, não és importante para ele, não o suficiente, e apesar de ele dizer que sim. Sempre o vai fazer e dizer para te tentar convencer, mesmo sem querer. Ele é assim e quem assim é, não muda. Onde estarias, como e a fazer o quê? Não questiones, se já sabes as respostas. Conclusão, fizeste o melhor por ti quando escolheste, quando optaste, quando decidiste que a única resposta possível era: NÃO!"

domingo, 21 de novembro de 2004

O Diário de Bridget Jones voltou

Não é por ser minha homónima, por representar a minha geração com uma correspondência e precisão indescritíveis ou por traduzir com humor e criatividade as maleitas sociais e relacionais da transição do século: a solidão relacional; os afectos não correspondidos; os sonhos desfeitos; as desilusões femininas provocadas pelos "bons malandros" deste mundo e vividas (sentidas) de forma hiperbolizada pelas moças solteiras e boas raparigas.
Mas o filme, apesar de não ser fiel ao livro na totalidade dos acontecimentos, é delirante e bem disposto. Faz do Mark Dirce um "príncipe" só possível em sonhos e da Bridget a típica trintona solteira em busca do afecto verdadeiro. Por estarmos nas proximidades do Natal, essa época mais do que magnífica para os sonhos e as ilusões, vale a pena ir ver porque o sorriso no final é garantido...

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

A hora da refeição em STP

Uma das excelentes recordações que tenho de São Tomé são as refeições, aquelas em que usufrui da companhia de pessoas especiais e que propiciaram conversas longuíssimas, com temas aprazíveis, num tom misturado de ternura, confidência e conselho. Foram horas deliciosas que não se repetirão jamais, por mais que se tente e que se queira. O contexto definia o tema e as conversas tidas, e retidas na minha memória para que não fujam, foi aquele e não outro, naquele espaço, naquelas casas e naquela época. Foi uma das fases mais magníficas, deliciosas e envolventes que já vivi. Os qualificativos nunca serão suficientes para definir e caracterizar aqueles dias e aquelas noites, onde não houve tabus nem constrangimentos para se falar de tudo e de mais alguma coisa.
Inconscientemente aguardava pela hora das refeições e hoje sei que eram as minhas preferidas, porque eram os momentos exploratórios de cada um de nós, em que nos íamos dando a conhecer, em que trocávamos confidências e elogios, em que nos irritávamos e chamávamos a atenção um ao outro, procurando-nos melhorar mutuamente.
Depois havia as comidinhas que preparávamos ou que nos deixavam preparadas, estas mais ao almoço e as outras ao jantar. Mas essas merecem destaque num post único. Falarei dos pratos que experimentei mais tarde, e só de pensar neles fico com água na boca...

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Os Afectos e Eu

"Afinal havia Outra, e Eu sem nada saber sorria". As histórias repetem-se, umas atrás das outras, com uma cadência ritmíca e um sentido kármico. Por mais que tente alterar o rumo dos acontecimentos, o ritmo e a ideologia reinante reforçam o mau karma da minha existência. O destino marca a hora e não há como evitar.
Acredito sempre, quase sempre, nos afectos, nas palavras e nos gestos que me parecem sinceros e genuínos. Mas quase nunca o são. E a tristeza decorrente da incerteza, da incompreensão, da frustração, do desencontro, da desilusão e da mágoa, regressa até mim para me fazer companhia por mais uma temporada. Também longa, longuíssima, como quase sempre. E eu estou sempre pronta a recebâ-la e a aceitá-la, porque já faz parte de mim.
Normalmente, aquilo que mais desejamos é o que mais dificuldade temos em conseguir. E a minha vida tem sido sempre marcada pela fatalidade da ausência, da frustração do desencontro, da paixão criada e alimentada sem continuidade, pela busca permanente e incessante de um afecto correspondido, que não seja a curto prazo, não tenha prazo de validade nem fim anunciado.
Tenho de admitir que, nesse ponto, serei feliz. Afinal, a filosofia da felicidade, segundo dizem, reside na busca, naquele "não sei quê" que nos faz continuar a tentar, a procurar, a desejar e por fim a sonhar. E o que mais tenho feito, desde que me lembro de existir, é procurar, sonhar, idealizar, desejar. Nem por isso tenho sido feliz nas escolhas que tenho feito. Talvez "mea culpa", ou talvez quem me tem escolhido me tenha interpretado mal. Talvez as duas coisas.
Se desejamos ardentemente ser felizes nos afectos e nos amores, com satisfação plena e contínua, num dar e receber, que gostaríamos de acreditar que fosse eterno, de forma a ser possível construir um projecto comum com "esse alguém" especial, que para nós seria único no mundo, porque o sentimento também era recíproco.
Mas temos de lutar muito, muito mesmo, de forma permanente para que o afecto não se vá, o fogo do sentir não se esmoreça e a compreensão, em relação ao inexplicável e incompreensível, possa vencer.
Porquê? Porque há sempre "Outra(s)" no caminho. Ou sou eu que apareço no caminho delas, sem saber ou sem acreditar, porque também me fazem crer que os caminhos e as vidas não se cruzam porque já nem existem mais. E afinal, existem... No caso, se tenho tentado ser resistente e vencer obstáculos intransponíveis, hoje sinto-me cansada... Tão cansada que nada mais faz sentido. Pelo menos, para já.
Um dia voltarei a sonhar, a idealizar, a desejar e a lutar. Não por um alguém mas por um afecto, por um sentimento, uma ligação, um projecto de vida.
Em S. Tomé, Janeiro 2004

domingo, 14 de novembro de 2004

Liberalização dos afectos

Há uns dias fui ao Nicola do Rossio petiscar um croissant com queijo e um sumo de laranja natural, enquanto aguardava a minha vez para ser atendida na Loja do Cidadão, e dediquei-me a uma das tarefas preferidas, ouvir a conversa da mesa ao lado. Já sei que não é bonito mas é deliciosamente sedutor partilharmos a vida dos outros e compreendermos as diferentes formas de vida, de ser e de pensar. Além do mais, as três protagonistas não demonstraram qualquer preocupação pelo facto de poderem ser escutadas e eu procurei ser discreta.
Qualquer uma não tinha mais de 25 anos, vestiam-se informalmente, misturando cores e padrões, de calças justas, que lhes marcavam as formas, nem por isso ficando bem, e "suficientemente" pintadas de cara e de cabelo para chamarem a atenção dos mais distraídos.
- O teu namorado é urbano-paranóico. Ontem ligou-me a perguntar por ti - afirmou a mais comunicativa para a mais bonita.
- Namorado? Não, já não é - respondeu a segunda.
- Acabaste? Quando? - perguntou a primeira a arder de uma curiosidade sorridente não disfarçada.
- Logo a seguir a ter-te ligado. Apanhei-o e ouvi tudo. Não podia continuar assim, expliquei-lhe como as coisas são comigo. Até vou viajar contigo, disse-lhe, e jantar, e sair, e de vez em quando até pode rolar mais alguma coisa. Mas sem compromissos e obrigações. Este controle todo não dá. Estou com quem quero e saio com quem quero. E até lhe disse, és queridinho mas contigo nada de compromissos. Era um esquema muito paranóico, quase obsessivo. Queria estar sempre comigo e a toda a hora. Não dava. Ele não é o único na terra, tás a ver?
- Fizeste bem, isso já nem se usa - respondeu a primeira deliciada com a decisão da amiga.
A terceira continuou a sorrir, sem abrir a boca para opiniar o que quer que fosse durante toda a conversa. Dito isto, levantaram-se, pagaram ao balcão e sairam, continuando a falar alto, gesticulando e rindo.

E eu fiquei a pensar cá para comigo - a juventude feminina virou liberal, estou a ficar velha. Onde paira o mito do "foram felizes para sempre" e o sonho de estar com alguém de quem se gosta e que só gosta de nós, terá sido trocado pela liberalização dos afectos? E os afectos existirão verdadeiramente ou as pessoas querem estar juntas só para não estarem sózinhas? É um bom tema a explorar com os meus alunos numa próxima aula de Sociologia quando lhes falar nas infinitas questões da vida quotidiana.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Confissões de um Pescador...

- "Bem... Nem imaginas o resto da pescaria. Pesquei mais um peixe aranha. Depois mais um Sargo enorme, para aí umas 3 vezes maior do que o 1º que tu viste. Um espectáculo de peixe... E depois... Bem nem imaginas o que me aconteceu... Pesquei um corvo marinho... Daqueles pretos sabes...? Trazia no anzol um peixe pequeno. O corvo comeu-o e ficou preso no anzol... Era ver eu a puxar o carreto da cana a apontar para o ar e o corvo a voar na minha direcção. Nunca me tinha acontecido pescar um pássaro..."
- "Como assim??? Pescaste um corvo marinho??? Safa... isso é que é diversidade... mas espero que não o tenhas levado e depenado... porque isso não se come..."
- "Eheheheh... Bom... Espero que tenhas percebido que esta do corvo era mentira... afinal todo o pescador é um pouquinho mentiroso..."
Moral da história: Mas serei eu completamente loura???? Ou só burra mesmo? Crédula? Ou tansa? Bem... a ti até perdoo...

Lazer e espectáculos em Londres

E nem só de chás, scones, almoços e jantares vive Londres, cidade multicultural por excelência onde a diversidade de origens é uma realidade. Não se anda uma rua que não se vejam africanos, chineses e outros asiáticos, árabes, ocidentais de todo o lado do mundo. Ouve-se falar línguas estranhas, sendo de destacar o inglês (claro), o francês e o espanhol.
Mas por falar em cultura, o verdadeiro espectáculo é a diversidade de oferta de serviços culturais - teatros, concertos, óperas, musicais, estreia de filmes com actores como Pierce Brosnan, a fazer as delícias de todos.
A não perder, os ballets da Royal Opera House (eu assisti a Sylvia, lindo lindo de fazer sonhar sem parar) e os musicais em cartaz - são tantos que a dificuldade é escolher (eu assisti a Les Misérables). E ficamos com pena de não podermos assistir a todos porque os olhos ficam regalados, os ouvidos consolados e é uma benção para a alma e para o coração.

Restaurantes em Londres

Em Londres come-se caro porque também tudo é caro. Mas vale a pena jantar num bom restaurante, de preferência com uma boa companhia.
Numa noite especial em Londres não deixem de visitar alguns restaurantes:
- Criterion (ver), Piccadilly Circus, fantástica decoração, serviço irrepreensível, pratos deliciosamente apresentados, doces fantásticos
- Al Duca (ver), 4-5 Duke Of York St., Tf: 0207839 3090 - um restaurante italiano magnífico, recomendadíssimo
- Fung Shing, 15 Lisle St., Tf: 020 7437 1539 - o melhor chinês a que já fui, imperdível


Do café "Laville" em Little Venice (Egware St), a vista é magnificamente tranquila. Vale a pena beber um café a 3 libras...

Posted by Hello

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Casas de Chá

Em Londres fui a várias casas de chá. De todas recomendo duas, absolutamente fantásticas, com um serviço irrepreensível, qualidade dos chás, dos scones e da pastelaria.
1. The Wolseley - 160 Piccadilly, London W1J 9EB, Tf: 02074996996 (vejam o menu)
2. Richoux - 86 Brompton Road, London, SW3 1EA, Tf: 02075848300

De volta

Estou de volta, depois de uns dias passados em Londres. Uma breve troca do sul pelo norte, do calor pelo frio, do sol pelo nevoeiro.
O nível de vida subiu muito desde a minha última incursão a solo britânico - por um café paga-se, nos locais mais apetecíveis, 3 libras. Foi uma noa altura para reduzir o meu vício de café porque, além de caro, era queimado e aguado.
Os parques continuam magníficos, as tonalidades contrastavam, apelando aos sentidos para a imagem de um Outono tão diferente do que se vive em Lisboa. Os esquilos multiplicaram-se e perderam a pouca vergonha que, há uns anos atrás, tinham dos humanos. Agora os parques são marcados por uma saudável convivência entre pássaros tipo pardal, corvo e uns azuis e brancos, grandes, que não sei o nome, patos, gansos e cisnes, esquilos e seres humanos. Como seres aparentemente tão diferentes se podem dar tão bem num convivência pacífica!

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Pausa

Por uns dias... Descanso, Reflexão, Mudança de Ares...

Fase "Moçambique"

A fase "Moçambique" que marcou a minha vida fica em stand by, para já com algumas fotos publicadas. Sobre a experiência de vida que resultou de breves estadias, muito emocionais, escreverei mais tarde. Ainda é cedo. Talvez não seja ainda cedo porque já passou muito tempo. Mas tudo tem um começo e, desta vez, comecei por partilhar imagens legendadas. O mais ficará para depois. Talvez um dia...

Moçambique do céu

Sobrevoando Moçambique na chegada a Maputo. Um mundo novo se avizinha, marcado pelo desconhecido, pela surpresa e pela esperança seguida de frustração. Tudo é possível no sul do Mundo, ali até o Equador está distante...



Posted by Hello

O rio Limpopo

Num "cruzeiro" de fim de dia os cheiros são intensos, a luz cria contrastes evidenciando a cor do rio e as formas emergentes transformando-se.
Tudo parece calmo apesar de esconder uma ebulição de emoções em efercescência, que aproximam a atracção e a paixão, confundindo-as e confundindo-nos...



Posted by Hello

A margem de "cá"

A margem de "cá" do Limpopo permite-nos contactar com a densidade de um rio que atravessa diferentes paragens, sendo navegado por tantos botes e canoas.
Tudo é igualmente denso por ali, dando-nos a ideia de uma falsa sintonia, transitória e momentânea, pelas emoções fortemente sentidas e exteriorizadas, que de tão fortes e intensas se transformam rapidamente, tornando-se efémeras...
O final de dia tem uma tonalidade mágica, ou somos nós que o queremos entender assim, permitindo-nos recriar sensações e acreditar em ternas emoções que nunca o hão-de ser...


Posted by Hello

Criança, Maputo

Criança de colo (de costas???) nas costas da mãe.
A magnífica arte de transportar os filhos com conforto.
Maputo 1998



Posted by Hello

Rio Limpopo em Zongoene

A magnífica margem de "lá" do rio Limpopo, quase no local onde desagua no mar.
O rio que anima Zongoene e lhe dá vida.
A passagem para a praia, essa de mar, com águas turbulentas mas fantásticas.
A revitalização e a esperança na diferença como uma possibilidade.



Posted by Hello

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...